sexta-feira, 20 de março de 2009

O Cais Bar


Válber Benevides, detalhe do painel do Cais Bar





Em tempo e espaço marcados: um boteco mais luminoso que as chispas ao limiar da caverna de Platão


Difícil explicar as conjunções necessárias e suficientes para um grande boteco. O maior deles em Fortaleza foi o Cais Bar. Por quase tudo: a localização, tão próxima da rebentação, que, em noites de maré braba, algumas finas gotas de água salgada transpunham o calçadão e tingiam as mesas mais expostas de uma fina pátina de maresia.

Era um espaço compacto. Uma varanda com meia dúzia de mesas por debaixo, antecipada por um vão, onde se postavam outra dúzia de mesas. O vão repartia-se em duas alas por uma passarela. que se erguia até a varanda. Era por onde de se entrava. Naturalmente, as mesas mais disputadas eram estas ao ar livre. Elas ficavam ao menos metro e meio acima do leito da rua por conta do desnível da varanda para a calçada. A alameda à esquerda da passarela era esguia e a da direita, sob a uma castanholeira, mais ampla. Eram divididas por balaústres de madeira.

Transpondo-se a varanda, entrava-se para o balcão e o interior do bar, quase sempre numa semi-penumbra, as paredes coalhadas de velhos instrumentos de sopro e cordas, estantes onde se entrevia uma vasta coleção de vinis - pois boa música de fundo, incapaz de perturbar a conversa dos frequentadores, era uma das marcas registradas do boteco e a glória de Berriuaite, o DJ de plantão. Depois acresceu-se um mezanino, lá por cima, que só era ocupado quando o térreo não comportava mais ninguém. Se alguém subisse direto para o mezanino sabia-se que se tratava de um turista, de alguém que não conhecia nada dos códigos do boteco. Mais ou menos como na Inglaterra só os turistas sobem para o primeiro andar dos ônibus quando há assentos no térreo.

Na parede da esquerda, havia o famoso painel de Válber Benevides, onde se via grandes nomes da MPB tomando umas e outras no próprio Cais Bar. Verdade que num Cais Bar estilizado, ideal, sob uma noite de um fantástico azul, a meia-lua acesa por uma lâmpada de neón. Mas esse duplo do Cais Bar no painel tinha outro nome: Bar Luís Assumpção. Quando faltava assunto, o painel sempre fornecia matéria para prosa, porque as relações de proximidade e a pose de cada um das charges eram em si um bocado divertidas. Lembro, por exemplo, que Egberto Gismonti era pouco mais que uma sombra esquivando-se ao fundo e tinha ares de um chefe beduíno.

Mas era raro faltar assunto no Cais.

Era aquele tipo de boteco que se ia de olhos fechados, e quase sempre havia alguma alça de conversa à espera. Para abrir os olhos da gente, porque gente interessante é o que não rareava. Começava ao final da tarde e não tinha hora para fechar. A cozinha não era nada sofisticada, mas os tira-gostos excepcionais - em especial, os bolinhos de peixe. E havia também aqueles garotos que vendiam amendoim em fornos improvisados em latas, que portavam com uma alça de arame, as brasas bruxuleando por dentro. Os ofereciam, desde a rua, pelas tábuas da balaustrada. Os amendoins eram acondicionados em pequenos cones de papel. Domingos Caetano costumava pôr um desses canudos vazios no indicador e dobrar a extremidade mais fina em forma de gancho. Quando um desavisado lhe perguntava:
-O que é isso, Domingos?
-É meu extirpador de hemorróidas. Preciso patenteá-lo - dizia compenetrado.

O Cais funcionou de 1985 a 2003. E conheceu todas as glórias e debacles da moderna Praia de Iracema. Era bem mais solar que o velho Estoril, de quem herdou muitas das cabeças privilegiadas que trocaram o velho cassino dos americanos por um endereço menos decadente e regado à boa música. Era frequentado por universitários, jornalistas, músicos, artistas, professores e, claro, por belas mulheres. Jamais um bar concentrou em seu espaço compacto tantas mulheres bonitas por centímetro cúbico em Fortaleza no espaço de uma geração. Depois, já ao final, havia quase que só putas e ouvia-se muitos idiomas. E, então, talvez se falasse até mais italiano que português por lá.

Uma situação que apenas refratou a da Praia de Iracema no atacado. E perdura até hoje.

As melhores coisas acontecem em tempos e espaços marcados. Para começar. Para acabar. Foi assim com o Cais. É claro que em sua fase áurea, jamais pensávamos que ele fosse acabar, porque jamais imaginávamos que nossa juventude também o fosse. Quando Manuel Bandeira evoca o seu quarto suspenso no ar, em "Última Canção do Beco" [Mas meu quarto vai ficar,/ Não como forma imperfeita/ Neste mundo de aparências:/ Vai ficar na eternidade,/ Com seus livros, com seus quadros,/ Intacto, suspenso no ar!] penso que se pode chegar a uma equação adequada para se evocar o Cais Bar desde essa distância de um tempo longo que passou depressa.

O mais certo é dizer que o Cais Bar acabou, porque nós acabamos com ele. O envelhecemos, o degradamos. Permitimos que a Praia de Iracema envelhecesse de um modo ruim. Virasse o que virou. Nos tornamos sérios demais. Cheios de teorias excessivamente arraigadas, normas e códigos. Viramos desembargadores, juízes, burocratas de alto escalão, executivos, advogados, procuradores, pro-reitores, chefes de departamento, editores, donos de agência de publicidade, políticos. Ou seja, toda sorte de gente que está se lixando para ser feliz ou ocupar-se com a felicidade dos outros.

E talvez a maior virtude do Cais Bar era justo ser um tanto alérgico a esses tipos.




[20.03.09]

Nota - para uma apreciação do velho Estoril, clique AQUI.
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quinta-feira, 19 de março de 2009

A ilustração de uma frase


Capa do álbum Stan Getz - The Best of Two Worlds (1976)



Sob forma de farsa

A capa do disco The Best of Two Worlds de Stan Getz, 1976, faz lembrar a célebre frase de Marx: "a história se repete sob forma de farsa". Talvez por contrastar tão asperamente com a sobriedade do Getz/Gilberto de doze anos antes, e que ainda herda algo da clássica elegância dos anos 50.

A década de 70 é mesmo um desastre em termos de moda. E todos parecem um pouco assetentados na foto. Especialmente Stan Getz, com a camisa de mangas curtas reforçando-lhe a pose canastrona. Mas a década de 70 também está no bolso esquerdo da calça de veludo curdoroy de João Gilberto e até no tailleur um tanto chinfrim de Miúcha. A tudo isso some-se o "padrão" de enquadramento da época, que deixa de fora o braço direito de Miúcha e parte da paleta do violão de João, no lado oposto. Isso para não falar do estranho "plano americano" um tanto estendido que corta-lhes as pernas. O fato de estarem assilhuetados, recortados contra um fundo neutro, repassa a idéia de que a figura de João foi como que colada às de Getz e Miúcha. Só a concepção de direção de arte prevalente nos 70 poderia conceber coisas assim.

O curioso é que em 1964, quando Getz e João eram, de fato, jovens, vestiam-se como senhores: terno, gravata. Aqui, a gravadora tentou repassar a imagem de "jovens", quando eles já estavam na meia-idade. E o resultado é esse desastre.

Musicalmente, no entanto e como não poderia deixar de ser, o resultado é bem melhor que a indumentária e pose geral que vestem a capa.


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quarta-feira, 18 de março de 2009

As onze titulares


Tão bom quanto Clube da Esquina Nº1 ou o "disco do
Tênis" de Lô Borges é este Nelson Angelo e Joyce [1972]



Time de Pérolas do Brasil definidas em meia-palavra ou pouco mais



i. Manhã de Carnaval [Luís Bonfá-Antônio Maria]
Impossível haver algo mais belo e brasileiro simultaneamente.

ii. Inútil Paisagem [Antônio Carlos Jobim-Aloysio de Oliveira]
Subestima-se Aloysio de Oliveira como letrista.

iii. Carinhoso [Pixinguinha-João de Barro]
Pequena aula de choro concentrada em canção.

iv. Último Desejo [Noel Rosa]
Arte de guiar música e letra com a mestria dos grandes.

v. Catavento [Milton Nascimento]
Dá vontade de sair voando.

vi. Disparada [Theo de Barros-Geraldo Vandré]
De uma altivez a toda prova na majestosa interpretação do Quarteto Novo.

vii. Insensatez [Antônio Carlos Jobim-Vinícius de Moraes]
É engraçado como todos os “ahs!” parecem homenagear Dolores Duran.

viii. Beatriz [Edu Lobo-Chico Buarque]
Para se tirar os pés do chão num encômio à perícia melódica de Edu Lobo.

ix. Um Girassol da Cor de Seu Cabelo [Lô Borges-Márcio Borges]
De como se pode variar ainda melhor uma velha progressão em lá menor, acompanhando-a de uma letra de fazer pedra verter lágrimas.

x. Sinal Fechado [Paulinho da Viola]
Para os dias de se esconder a lágrima no aquário.

xi. Comunhão [Nelson Angelo-Joyce]
Em louvor à pujança musical de Nelson Angelo.




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Dois Motetos do Exílio Paulista


[s/i/c]






Um pouco mais de miolo




Rua Raul Pompéia. Pompéia. Zona Oeste. São Paulo. Terceiro andar.

No Dia de Finados de 2001, fui dormir de madrugada. O sono foi intenso, mas curto. Acordei pouco antes da manhã. Sábado. Talvez com um fiapo do que andara lendo. Tratavam-se dos Comentários de São João da Cruz à Noite Obscura da Alma. Pela janela entreaberta, filtrava-se a frialdade. E uma perna de bairro mais desolado e belo fazia-se ao claro-escuro. Escrevi um poema e tomei um pouco de leite. Enviei o poema, por imeio, para alguns amigos.

E fiquei meio lendo, meio cochilando até depois do meio-dia.

Então desci ao pequeno café do supermercado 24 horas. O dia estava encoberto e ameno. Pedi um café com leite e um pão com manteiga. A balconista era certamente novata. Havia algo de estranhamente desajustado em seus gestos. Em menos de meia-hora, tomei meu café e li um pouco mais de São João da Cruz. E notei que o pão viera sem o miolo. Um desses garotos descabelados e rotos me pediu algo em voz baixa. Minha resposta, em voz baixa, o dissuadiu de insistir por algo.

Quando paguei o café, disse à balconista novata:

–Achei interessante que o pão tenha vindo sem o miolo. Às vezes, eu até gosto assim. Mas, talvez, nem todos os clientes vão achar simpático.

Ela me interrompeu com um sorriso constrangido, onde havia um mau dente bem incisivo:

–É que o pão tava quentinho, eu pensei que...

Ao sair do supermercado, com o feriado estendido desacelerando as horas, me ocorreu ir até um café, e passar o resto da tarde lendo por lá. E tomar alguma cerveja para abrir o apetite. O Dia Santo, da véspera, despovoara um tanto as ruas. Estava agradável caminhar. Notei cordões bem finos enroscados, como delicados cipós, ao longo dos fios de telefone, e que isso me agradava. Passei por um homem, com sacolas de supermercado. E ele lambia uma espécie de selo. E sobressaltou-se quando notou que era notado. Uma jovem moça, bela como um anjo, passeava seu advento. Sem timidez. Nem expansão. Mas um certo, espontâneo, aloofness. Uma mulher loura, madura e branca, excessivamente contida, em formas densas, sob um jeans, prendeu meu olhar por um lapso, próximo a um ponto de ônibus. E lembrei de um poema. De Pessoa: “Dá a surpresa de ser/ É alta, de um louro escuro/ Faz bem só pensar em ver/ Seu corpo meio maduro”. Chegando ao outro café, dei com todas as mesas à calçada, vazias. Dispostas de certo jeito que gosto. Mas um impulso me disse para não sentar ali.

Segui até o fim do quarteirão. E desatei um passeio pelas ruas em volta. E de novo me veio a visão e o sabor daquele casca de pão, a manteiga liqüefeita, por cima, como se da terra. E de novo me veio o sorriso da balconista. Seu mau dente. E minha fria formalidade.

Pensei em direitos do consumidor. Está na moda. Como o feminismo. O politicamente correto. Uma certa compulsiva ênfase para se falar em discriminação. Meio à americana. A bobagem de todos se mostrarem infinitamente complacentes com os aidéticos ou os homossexuais à frente das câmeras e de microfones abertos. E em meio a toda essa massa sem fermento, os tais direitos do consumidor. Mas que argumentos de pão mais sem miolo! O que, no fim de tudo são os direitos do consumidor?

Por exemplo, o que são os direitos do consumidor diante do que se deve a ao próximo? Não são nada. Quando muito, a ratificação mais extrema da insanidade. E ainda mais diante daquele constrangimento da balconista. De seu mau dente. De seu primeiro dia de trabalho. De seu acanhado, belo sotaque nordestino. De sua perene divindade. De ela apontar que, de fato, Deus é brasileiro – porque falta tanto para tantos. Do fato de estar ali desde manhã, e de ter tomado um ônibus para estar ali, desde antes de manhã, enquanto se pode escrever poemas, passar imeios para amigos em cidades distintas, perambular pela cidade, lembra-se de um poema de Pessoa, ler São João da Cruz – e entender tão pouco. Do fato de ela mal saber ler, enquanto se pode fazer pós-graduações insípidas, tão sem sentido, tão inúteis diante do essencial, do fato matinal que é um café com leite com pão e manteiga.

Mesmo sem miolo. E pus os óculos escuros, para disfarçar que uma certa tristeza corresponde a água salgada nos olhos.

E voltei para casa. Feliz, por lesado em meus direitos de consumidor. Talvez com um pouco mais de miolo.



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Rua Guiará



As aves do céu que não

semeiam nem colhem

cantam e cantam numa

rua paulistana ao

araxá do dia.

E à dobra da manhã

girando nos gonzos um

suave azul-sem-sol

sobre a fachada dos

pequenos sobrados,

às primeiras árvores

que são verdes, ao

primeiro homem que

assustado, desce a

ladeira em mangas de

camisa, ao primeiro fur-

gão onde se pode ler

‘reportagem’ em letras

verdes sobre um fundo

branco, às últimas luzes

das garagens alter-

nando amarelos e vermelhos,

ainda vivas, às luzes ao

longe, devoradas pelo serrar-

se do dia, à única lâmpada

acesa por trás de um

basculante à frente de

diferentes frascos à distância

de uma quadra, no terceiro e

último andar de um prédio

de uma noite, de um dobre

de finados, e à distância de

muitos e no último andar

da distância, a Serra da

Cantareira, impassível

no mais encantado

suave, sereno, suspenso

como o canto das aves

do céu que não semeiam

nem colhem, mas

colam as franjas do dia.





Nota: "Um Pouco Mais de Miolo" foi originalmente publicada na revista de crônicas Nariz de Cera. "Rua Guiará" saiu originalmente na revista de poesia Inimigo Rumor.



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terça-feira, 17 de março de 2009

Excesso de caldo e de galinha


[s/i/c]



Inconfidência


Tenho um amigo, ex-militante da Libelu, que é tão desconfiado que pensa que a sombra dele montou um blogue só para falar mal dele.



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E nem precisava tanto!


[s/i/c]




Digressão II


A precisão da arte náutica contra a imprecisão de viver:

"Navegar é preciso, viver não é preciso" é das frases a gerar mais mal-entendidos no Brasil.

O sentido original da frase não é o heroísmo de implicar que navegar é mais prioritário que viver, mas, como nos ensinam no secundário os professores de português: navegar, como arte náutica, detém uma precisão, que pode ser medida por instrumentos: astrolábios, lunetas, bússolas, etc. É, portanto, mais próxima da precisão de uma ciência, tem uma lógica. Variando determinados graus no curso, você chega a uma latitude x, etc. Ao contrário disso tudo, viver é, convenhamos, bastante incerto, impreciso. Ou na boa definição de Guimarães Rosa, 'muito perigoso'. Não tem astrolábio que lhe garanta ou não que ela esteja na sua, por exemplo.

Assim um torcedor do Ceará jamais poderá usar a expressão nesse sentido original. Tipo: "Ganhar do Ferroviário é preciso, viver não é preciso". As duas tarefas aí são igualmente sem precisão. Especialmente a primeira.

Domingo passado, o glorioso Tricolor da Barra enfiou 4x1 no Vovô.




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Digredir é preciso, mas antes delicioso


[s/i/c]




Digressão




Não é de todo má idéia a reforma ortográfica. Ela tenta suavizar um pouco as diferenças de grafia entre os países lusófonos. Talvez o modo como o acordo foi feito é o que mais incomoda.

O certo é que pequenas e deliciosas nuances lexicais nunca desaparecerão. De momento, a Gota D'Água, de Chico Buarque encontra-se em turnê por Portugal. E o jornal O Público dá a manchete:

"Musical Gota D'Água de Chico Buarque em digressão por Portugal".



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Reinventando o ferro de passar à brasa


[s/i/c]



Como Luva



Um pensamento que cai como luva para certos comunicólogos, marqueteiros, gestores culturais, artistas mutimídia, assessores de imprensa, e alguns semioticistas:

"E há aqueles cujas ideias já foram percebidas por todos os outros. E há muito. Estes outros, sem embargo, estão empenhados em suas ocupações, tentando dar formas às ideias que realmente perfumam os dias. Aqueles medíocres, no entanto, quanto têm uma ideia, espalham-na aos quatro ventos, como se tivessem descoberto a pólvora, reinventado os pontos cardeais".

[Baltasar Gracián]



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Forçar no espectador uma autoralidade a todo custo


Jan Veermer, Vista de Delft, 1661




A Ditatadura da Participação


Um dos problemas das novas teorias da arte é querer por força transformar o espectador em autor. O ponto aqui é muito simples. Há espetáculos em que não se tem a menor vontade de ser co-autor. Quando vou ao teatro ver uma peça de Shakespeare, por exemplo, me basta - e me basta muito - ser espectador. Do mesmo modo quando vejo um quadro de Veermer. Quando escuto em casa, nos fones de ouvido, a Missa em Si Menor de Bach, não sinto a menor vontade de modificar nada. De fazer nada. A não ser escutar. E não me sinto diminuído por isso. A beleza que sai dessa manifestação me alimenta. Da mesma forma, quando vou a um estádio, sinto-me plenamente realizado em assistir uma partida de futebol: por que deveria estar em campo, correndo atrás de uma bola e distribuindo botinadas? Espero não ser obrigado a isso, um dia (especialmente se o Ferroviário prosseguir ganhando do Ceará por 4x1).

Se todos fossem agentes não haveria espetáculo. Ou obra de arte. Mas uma barbárie inominável, uma ausência total de ordem. Uma espécie de anomia completa. E é necessária uma certa ordem para criar as coisas, para apresentá-las, para assisti-las. A noção de forma se baseia nisso. Daqui a muito pouco tempo, a posição mais subversiva será a do espectador. E por quê? Porque o espectador será aquele único, aquela exceção que incomoda e subverte. Simplesemente porque ele será o mais capaz de observar uma totalidade em que todos, a exceção dele, são agentes e, portanto e por imersão, muito mais acríticos de seus atos: não há outros, todos são artistas. Ora, não existe arte sem diferenças de percepção. O gozo que a arte propicia nem sempre é diretamente proporcional a capacidade de se "participar" (ao menos diretamente) de sua criação, execução, veiculação ou performance.

Contrariar a ditadura de uma arte impositivamente "interativa" deveria ser a bandeira de muitos artistas hoje em dia. Eles estariam na contramão de um discurso hegemônico que quer forçar a todos a participação.

Tenho certeza de que não saberia representar o Rei Lear. Ou tocar um cello numa suíte de Bach. Ou executar uma pincelada que acrescentasse o que quer que fosse a uma tela de Veermer. Ou somar um frame a um filme de Bresson. Ou ter um cinquenta avos da perícia de Ronaldinho Gaúcho com a bola nos pés. Ou acrescer meio verso a Os Lusíadas.

Há gente que se educou melhor ou teve e tem mais talento do que eu para fazer isso. Que dedicou sua vida a isso. Por que não posso desfrutar de minha condição de espectador. Ou fruir essas manifestações sem ter que "participar" delas como um agente expresso? Ao sair de um concerto onde ouvi Bach, saio com a sensação de que me humanizei mais, de que minha percepção dos sons foi alterada, que me foram ofertados novos prismas de beleza, novas possibilidades de ouvir o mundo lá fora. Não me sinto de nenhum modo passivo ou diminuído por espectar. Por que deveria? Espectar também é agir, envolver-se, humanizar-se. Somar nuances.

Em todos esses casos, creio, saio muito mais espiritualmente gratificado, do que supõe a fiolosofia vã de quem quer que eu esfregue meu rosto num pedaço de carne cru pendurado num gancho à parede de uma galeria de arte.





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Uma vingança geracional?


[s/i/c]



Para lá de Comuns



Falar em "essência" de um povo, como nos fascículos de O Povo, lembrei-me não de uma essência, mas de um fato concreto. Circunstância, portanto. Essa mania que o cearense tem de pôr nomes, digamos, pouco convencionais nos filhos. Algo como Evander Jonson, Maílton, Rívia, Lucimara, Caludiane, etc. Algo parecido com o nome do medievalista francês Etienne Gilson. Só que tomando ambos os nomes - o sobrenome Gilson, inclusive - como prenomes: Etienne Gilson Nogueira da Silva, por exemplo. O garoto cearense atacado covardemente por um bando de deliquentes em Bristol, na Inglaterra, semana passada, chamava-se Shane Oliveira.

Mas tudo isso é só uma impressão. Não é uma essência. Vejam a dupla cearense que atualmente lidera o Campenato Brasileiro de Rally Cross Country. Desmente a teoria. Seus nomes são para lá de comuns: Riamburgo Ximenes e Stranger Eller.

Verdade que Ximenes, sobrenome muito comum na Galícia e no norte de Portugal (Jiménez, no resto da Espanha) soa um pouco estranho. Mas, de resto, está tudo em casa.


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segunda-feira, 16 de março de 2009

Fetiches conceituais X ARTE


Djanira, estudo para o cartaz da peça Orfeu da Conceição, 1954



Sirventês e
Double-Bind


Sem subestimar a importância do discurso sobre arte, é preciso não perder de vista que o maior discurso de uma obra de arte é ela própria. Não há um estudo crítico de Bach que valha dois compassos de uma cantata de Bach.

É claro que é importante que se fale de arte. Especialmente de forma propedêutica, didática. Mas quando a fala, o argumento sobre a arte ganha mais relevância que a própria arte, algo fede feio no reino. Algo análogo ao que se dá nos cursos de Letras, onde em vez de se lerem poetas ou contistas, lêem-se quase que exclusivamente teorias críticas. É mais fácil um aluno sair de uma pós-graduação em Letras sabendo o que Derrida quis dizer com “double-bind” do que a par do que é um “sirventês”.

“Diálogos possíveis”, “matrizes simbólicas”, “coletivos de arte”, “circuito independente”, “processos excludentes e legitimadores”, “ações interdisciplinares”, “gestão cultural”, “meios propositores de reflexão”, “direcionamento do rumo da produção”, “formas de organização sem ordem hierárquica e participativa de seus membros”, “estratégias que driblem interesses espúrios à experiência inventiva da arte”, "economia das trocas simbólicas", “sistemas de mediações no campo do conhecimento estético”, “retroalimentação segundo as suas próprias práticas”.

Como se pode pensar que essas expressões vêm de artistas?

Não vêm. Não podem vir. Vêm, do contrário, de burocratas da arte.



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sábado, 14 de março de 2009

Humor, pathos, história e gesto


Um banhista arrisca um salto do alto de uma antiga ponte
da Rede Viação Cearense (RVC) sobre o Rio Quixeramobim




No tempo das cordas

Os antigos contam que em Fortaleza, próximo à Estação Ferroviária João Felipe, em tempos idos, um certo senhor ganhava a vida alugando cordas – isso mesmo cordas!– para passageiros em trânsito que não tinham condições de pagar o pernoite numa pensão. Ele possuía um pequeno galpão, junto à Estação, que era atravessado por cordas de um lado ao outro. O sujeito ia ali, depunha as bagagens num canto, escorava os ante-braços nos cordames sebentos, e acabava adormecendo. Pelo menos evitava-se o sereno da madrugada, pois a partida dos comboios se dava às quatro da manhã. Alugava-se uma corda pelo pernoite ou por hora. Não sei por quantos mil-réis ou tostões. Mas já vi isso em livros. E meu avô, que era chefe do almoxarifado da Estrada de Ferro de Sobral, chegou a comentar a respeito. Acrescendo inclusive que se o “inquilino” extrapolasse a hora, mas fosse muito dorminhoco, não era incomum que o proprietário, safo, desprende-se uma das extremidades do fio onde se equilibravam os régios sonhos do viandante. E lá se ia o sujeito à lona, em meio à galhofa dos incorrigíveis de vigília. Eram outros tempos. Em que talvez se matasse um homem por razões de honra ou vendeta. Mas não para lhe roubar o tênis.
É pena que, se interessando tão pouco por esses aspectos passados, não haja por exemplo, um único grupo de dança na cidade que explore uma situação, a exemplo dessa, para extrair algo que conjugue humor, pathos, história e gesto.



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Com cento e oitenta praças: é amor, é amor, é amor!


[s/i/c]



Nosso Antônio Conselheiro de plantão e uma ilustre plêiade na noite pluvial


Há tempos não encontrava com fauna tão ilustre para uma quinta-feira despretensiosa no velho e bom Arlindo. O bar fervilhava conversa. Uma ilha de convívio humano durante as intermitentes pancadas de água de meio-março. Lá estavam Ethel de Paula, Beatriz Furtado, Ivo Lopes Araújo, Mariana Cartaxo, Felipe Araújo, Alexandre Veras, Igor Câmara, Luiz Carlos Bizerril, Moacir Bedê, Rúbia Mércia, Daniel Lopes e um Márcio Caetano cada vez mais parecido com Antônio Conselheiro. Quer dizer, com aquela foto post-mortem do visionário dos sertões, em que ele assoma de sandálias, os braços rijos, cruzados sobre o peito. Estivesse ele de t-shirt em vez da longa túnica de brim azul, não haveria o que tirar. Nem pôr. Pois as sandálias já lá estão. E sabendo que Márcio, como Fausto Nilo, vem da terra do homi, não sei não... Que conjunção de astros reuniu tanta conversa numa quinta chuvosa é matéria para esotéricos, alquimistas.


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Sai, calango!


[s/i/c]



Sociedade Protetora das Sociedades Protetoras

Embora ache saudável a presença de animais por perto, especialmente de calangos, por quem minha caçula nutre um particular fascínio ["Shai, caango!"], sempre desconfiei de gente que "prefere" animais. Ou que a eles atribuem emoções ou vínculos humanos. Uma suposta filiação, por exemplo. Há infantilismo, aqui. E uma vasta dose de misoginia ou androfobia por igual.


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O start, o mausoléu e a essência de um povo


Arquitetura típica do município de Poranga, oeste do Ceará




Essas e outras


i.
Hoje no O Povo uma jornalista tascou esta:

"O start das obras já foi dado e a inauguração está agendada para julho próximo".

Irmãos, starteemos!

ii.
Maracanaú, um distrito industrial ao sul de Fortaleza, com altos índices de violência, irá erguer, com caríssimo projeto assinado por Oscar Niemeyer, o Monumento e Mausoléu da Paz. Quantos não serão assaltados e correrão risco de vida em frente a esse indispensável monumento, cujas obras ainda não tem previsão de start.

iii.
Em consórcio com o governo do estado o Instituto Albanisa Sarasate deu start, semana passada, à publicação de uma série de cadernos, encartados em edições dominicais de O Povo, com extensão multimídia, chamados Autoestima Cearense. Volumes start, 2 e end. E pensar que há dinheiro do contribuinte numa publicação e produção de vídeos que visa ampliar "o debate sobre os elementos caracterizadores da essência do povo cearense". Eu sei de três pelo menos: dormir de rede (ao menos na sesta), chupar cajú (ao menos na safra) e não ler cadernos especiais sobre sua essência (ao menos na sua sanidade mental). [O quarto seria consultar a magnífica obra do potiguar Câmara Cascudo para saber mais sobre seus costumes d'antanho]. Também sei de duas que jamais darão start à leitura desses doutos cadernos: Mariana e Isabela, minhas filhas.


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sexta-feira, 13 de março de 2009

That's what I want


[s/i/c]


Le Cirque de L'Argent


O pouco destaque dado aos preços dos ingressos ao Cirque du Soleil em sua apresentação em Fortaleza, junho próximo, em nossos dois digníssimos diários.


Os ingressos mais caros – que recebem a irônica designação de Tapis Rouge [Tapete Vermelho] – custarão a bagatela de R$ 580,00. Os mais baratos, no poleiro do circo, não sairão por menos de R$ 230,00.

E aí eu penso em quanto deveria ser a entrada do circozinho poeira, na periferia profunda de Fortaleza, onde, só alguns meses atrás, um trapezista quebrou o pescoço por conta de um mastro mal fincado. Bom, pelo menos quem ganha o salário mínimo no Brasil pode pagar a entrada do Circo do Sol e passar o resto do mês a viver de brisa. O consolo é que, como provam nossas usinas eólicas, Fortaleza é uma das cidades mais bafejadas pela brisa abaixo do Equador, onde o pecado só existe para quem vive de salário mínimo debaixo do sol, na Terra do Sol. E aí se pode pensar no cardápio: omelete de brisa, filé de brisa com trufas, galinha de brisa ao molho pardo, mussarela de búfala e brisa, carne de-(circo)-do sol e brisa, Cabernet-Sauvignon brisé.

Praticando esses preços, os artistas do renomado circo quebequense podem parafrasear Lennon com uma ligeira acomodação local: “vocês nos assentos mais baratos apenas batam palmas; já vocês nos Tapis Rouge, basta sacudir as chaves das Hilux”.

E azeite, Senhora Avó.




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Por um presente contínuo saturado de história


Robert Bresson, L'Argent, 1984



Alguma visão muito pessoal de cinema e cinefilia


O cinema é apenas um meio. E um meio perigoso, porque induz muita dispersão no espectador. E, logo, ao contrário da música ou do ponto-de-vista de MacLuhan, um meio pobre. Paupérrimo: justamente pela sua profusão de meios, de recursos. Meu interesse passa sempre pela construção de um filme que consiga concentrar o máximo de sinestesia sobre o assunto tratado empregando um mínimo de meios. E os ritmos, muitas vezes ditados mais pelos sons que pelas imagens, cumprem um papel graduador e decisivo nisso. Penso num filme não como informação ou aplicação de uma teoria prévia. Embora também creia que um filme deva ser previsto o máximo possível. Isso torna o improviso muito mais pleno de valor. E as inevitáveis modificações e adaptações de última hora, plenas de poesia e charme. A poesia e o charme quase nunca se encontram em filmes de vanguarda, porque estes são excessivamente decalcados de uma lógica de causa/efeito. Até o espontaneísmo um tanto ingênuo e dadá de certos filmes vanguardeiros também advém disso, porque querem deliberadamente chocar. Há em minha concepção de uma eleição declarada pela paisagem, um extremado apego pelo espaço. Quer dizer, pela paisagem e pelos gestos – o vento nos galhos de uma árvore é um gesto, assim como gotas de chuva caindo sobre uma calha de zinco. Muito mais do que por palavras ou depoimentos, sinto grande fascínio pela paisagem e pelos gestos. Gosto quando percebo certo teor documentarista num filme de ficção (feature). Filmes fabulados geralmente não são fabulosos. Estranho a ideia que uma cidade, em um filme, seja feita de várias cidades, como no Blindness de Meireles – cujo ponto de partida é uma má fábula de Saramago. Me passa uma impressão de aguda inverdade. A duração da imagem, dos planos, é algo análogo a extensão de um verso. É de cada um. O fato de um filme ser ou não montado em plano-sequência nada me diz de sua real coerência ou beleza. Gosto do uso de cartelas, letterings e, de fato, poucos efeitos há de mais brilho do que um off bem aplicado. Ás vezes planos excessivamente longos sem razão de ser e um inamovível apego ao corte seco assomam tremendamente chatos. Meu faro passa também por uma espécie de devoção pelo local, porque se trata de um espaço que acaba se assemelhando a gente, se acomodando à gente, de uma forma muito profunda e misteriosa. Especialmente quando seu material gira em torno de ou evoca espaços antigos, que estão impregnados de uma ritualidade social quase impressentida. Então esse presente contínuo do indicativo na imagem contada por ciclos fica ainda mais exaltada. Me agrada a ideia de uma espécie de presente simultâneo na imagem. Um presente contínuo que busco traduzir por uma série de ciclos que se abrem e se fecham. Mas como que enganchados uns aos outros. De uma linearidade narrativa, sim. Mas uma que se dá em espiral mais que em progressão direita, reta. Gosto de pensar um filme como capítulos de algo maior que nem mesmo eu sei o que é. Um sentido de serialidade. Que apenas pressinto. A geometria para mim é um elemento importante na composição da imagem. Uma sorte de geometria intuitiva. Algo que começa no enquadramento. Mas em geral, se esse enquadramento já não está de algum modo pressentido na tua cabeça, antes mesmo das gravações se iniciarem, ele irá sempre resultar em algo artificioso e um tanto maneirista, como em certos filmes de Victor Erice. Um filme não é uma tábua de regularidades. Também não me envergonho de gostar de filmes que muitos cinéfilos e historiadores e críticos de cinema passam um tanto batido. Um exemplo disso é o primeiro filme de Eric Rohmer, Le signe du Lion [O Signo de Leão], que, a meu ver, é muito subestimado diante de obras canônicas da Nouvelle Vague, como Acossado ou Jules et Jim. E é ao menos tão bom quanto estes. Aprende-se muito com filmes assim. Há mais presença da cidade de Paris em O Signo de Leão que em Acossado, por exemplo. Isso não quer dizer que o primeiro seja melhor que o segundo. Indica tão-só que seu “grau de documentarismo na ficção” é maior. E isso é um aspecto, a meu ver, essencial nos termos do cinema que desejo ver e fazer. A ideia de um presente contínuo saturado de história é a que me guia quando me lanço a fazer um filme. São elementos fortemente esteados na brandura e especificidade que só o local te proporciona nesses tempos globalizados e arrasados em que vivemos. [Nota: quando falo arrasado, aqui, aponto para raso, nivelador, para o que se encontra em qualquer parte, inclusive na mente das pessoas, pela força do dinheiro]. E, por último, há algo dito por Bresson (ou terá sido Tarkovski) que concentra muita verdade, e é mais ou menos assim: “quando o roteirista e o diretor de um filme não são a mesma pessoa, o impossível chega a um acordo”. Logo, nunca sequer me imaginei dirigindo um filme que não fosse previamente escrito por mim. Até porque nessa escritura procuro traduzir para minha equipe as primeiras imagens, os primeiros dispositivos de enquadrar, as primeiras durações. Creio que gosto de cinema sem ser ortodoxamente cinéfilo. Quer dizer, de certo modo, bem ao contrário de gente por quem tenho grande admiração: Alexandre Veras, Ivo Lopes Araújo, Armando Praça, Danilo Carvalho ou todos esses jovens realizadores cearenses que estão despontando como Salomão Santana, Fred Benevides, Eudes Freitas, Marco Rudolf, Daniel Andrade, Guto Parente, Pedro Diógenes, Rúbia Mércia, Claugeane Costa entre tantos outros e bons. Acho uma perda de tempo ir ao cinema mais do que dois dias na semana. Aliás, de uns tempos pra cá sequer nutro qualquer fetiche pela sala de cinema em si: a magnitude das dimensões da tela, a excelência do som em sistema Dolby; os rituais em si que tanto cercam a cinefilia mais estrita. Prefiro ler um bom livro. Ou parar tudo e escutar boa música. Ou conversar com um amigo – até mais do que com dois ou vários. Ou sair por aí, a pé, pela cidade. Ou viajar. Ou molhar meus pés nas águas do Rio Camocim em junho, quando, após ganhar muita água em suas nascentes, nas encostas da Serra da Ibiapaba, as águas correm menos onduladas, com mais água doce que salgada á altura da foz. Como vai ser neste 2009 de muitas chuvas. Nesse momento, o rio parece invadir o mar. E se pode ver os seixos lá, abaixo, de tão transparente que a água fica. O rio vira um pouco um aquário. Só que muito mais bonito porque não está contido nele a ideia de prisão. Parece emprestar algo dessa fluidez às cordas límpidas e vozes sinceras de uma canção como “Canção Postal”. É se estar apaixonado, ponto. Apaixonado sem causa. Essa transparência é sempre algo que busco – nem sempre com acerto – quando me meto a criar qualquer coisa.


Um filme, inclusive.


[13.03.09]

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