
[s/i/c]
Inconfidência
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Le Cirque de L'Argent
O pouco destaque dado aos preços dos ingressos ao Cirque du Soleil em sua apresentação em Fortaleza, junho próximo, em nossos dois digníssimos diários.
E aí eu penso em quanto deveria ser a entrada do circozinho poeira, na periferia profunda de Fortaleza, onde, só alguns meses atrás, um trapezista quebrou o pescoço por conta de um mastro mal fincado. Bom, pelo menos quem ganha o salário mínimo no Brasil pode pagar a entrada do Circo do Sol e passar o resto do mês a viver de brisa. O consolo é que, como provam nossas usinas eólicas, Fortaleza é uma das cidades mais bafejadas pela brisa abaixo do Equador, onde o pecado só existe para quem vive de salário mínimo debaixo do sol, na Terra do Sol. E aí se pode pensar no cardápio: omelete de brisa, filé de brisa com trufas, galinha de brisa ao molho pardo, mussarela de búfala e brisa, carne de-(circo)-do sol e brisa, Cabernet-Sauvignon brisé.
Praticando esses preços, os artistas do renomado circo quebequense podem parafrasear Lennon com uma ligeira acomodação local: “vocês nos assentos mais baratos apenas batam palmas; já vocês nos Tapis Rouge, basta sacudir as chaves das Hilux”.
E azeite, Senhora Avó.
Alguma visão muito pessoal de cinema e cinefilia
O cinema é apenas um meio. E um meio perigoso, porque induz muita dispersão no espectador. E, logo, ao contrário da música ou do ponto-de-vista de MacLuhan, um meio pobre. Paupérrimo: justamente pela sua profusão de meios, de recursos. Meu interesse passa sempre pela construção de um filme que consiga concentrar o máximo de sinestesia sobre o assunto tratado empregando um mínimo de meios. E os ritmos, muitas vezes ditados mais pelos sons que pelas imagens, cumprem um papel graduador e decisivo nisso. Penso num filme não como informação ou aplicação de uma teoria prévia. Embora também creia que um filme deva ser previsto o máximo possível. Isso torna o improviso muito mais pleno de valor. E as inevitáveis modificações e adaptações de última hora, plenas de poesia e charme. A poesia e o charme quase nunca se encontram em filmes de vanguarda, porque estes são excessivamente decalcados de uma lógica de causa/efeito. Até o espontaneísmo um tanto ingênuo e dadá de certos filmes vanguardeiros também advém disso, porque querem deliberadamente chocar. Há em minha concepção de uma eleição declarada pela paisagem, um extremado apego pelo espaço. Quer dizer, pela paisagem e pelos gestos – o vento nos galhos de uma árvore é um gesto, assim como gotas de chuva caindo sobre uma calha de zinco. Muito mais do que por palavras ou depoimentos, sinto grande fascínio pela paisagem e pelos gestos. Gosto quando percebo certo teor documentarista num filme de ficção (feature). Filmes fabulados geralmente não são fabulosos. Estranho a ideia que uma cidade, em um filme, seja feita de várias cidades, como no Blindness de Meireles – cujo ponto de partida é uma má fábula de Saramago. Me passa uma impressão de aguda inverdade. A duração da imagem, dos planos, é algo análogo a extensão de um verso. É de cada um. O fato de um filme ser ou não montado em plano-sequência nada me diz de sua real coerência ou beleza. Gosto do uso de cartelas, letterings e, de fato, poucos efeitos há de mais brilho do que um off bem aplicado. Ás vezes planos excessivamente longos sem razão de ser e um inamovível apego ao corte seco assomam tremendamente chatos. Meu faro passa também por uma espécie de devoção pelo local, porque se trata de um espaço que acaba se assemelhando a gente, se acomodando à gente, de uma forma muito profunda e misteriosa. Especialmente quando seu material gira em torno de ou evoca espaços antigos, que estão impregnados de uma ritualidade social quase impressentida. Então esse presente contínuo do indicativo na imagem contada por ciclos fica ainda mais exaltada. Me agrada a ideia de uma espécie de presente simultâneo na imagem. Um presente contínuo que busco traduzir por uma série de ciclos que se abrem e se fecham. Mas como que enganchados uns aos outros. De uma linearidade narrativa, sim. Mas uma que se dá em espiral mais que em progressão direita, reta. Gosto de pensar um filme como capítulos de algo maior que nem mesmo eu sei o que é. Um sentido de serialidade. Que apenas pressinto. A geometria para mim é um elemento importante na composição da imagem. Uma sorte de geometria intuitiva. Algo que começa no enquadramento. Mas em geral, se esse enquadramento já não está de algum modo pressentido na tua cabeça, antes mesmo das gravações se iniciarem, ele irá sempre resultar em algo artificioso e um tanto maneirista, como em certos filmes de Victor Erice. Um filme não é uma tábua de regularidades. Também não me envergonho de gostar de filmes que muitos cinéfilos e historiadores e críticos de cinema passam um tanto batido. Um exemplo disso é o primeiro filme de Eric Rohmer, Le signe du Lion [O Signo de Leão], que, a meu ver, é muito subestimado diante de obras canônicas da Nouvelle Vague, como Acossado ou Jules et Jim. E é ao menos tão bom quanto estes. Aprende-se muito com filmes assim. Há mais presença da cidade de Paris em O Signo de Leão que em Acossado, por exemplo. Isso não quer dizer que o primeiro seja melhor que o segundo. Indica tão-só que seu “grau de documentarismo na ficção” é maior. E isso é um aspecto, a meu ver, essencial nos termos do cinema que desejo ver e fazer. A ideia de um presente contínuo saturado de história é a que me guia quando me lanço a fazer um filme. São elementos fortemente esteados na brandura e especificidade que só o local te proporciona nesses tempos globalizados e arrasados em que vivemos. [Nota: quando falo arrasado, aqui, aponto para raso, nivelador, para o que se encontra em qualquer parte, inclusive na mente das pessoas, pela força do dinheiro]. E, por último, há algo dito por Bresson (ou terá sido Tarkovski) que concentra muita verdade, e é mais ou menos assim: “quando o roteirista e o diretor de um filme não são a mesma pessoa, o impossível chega a um acordo”. Logo, nunca sequer me imaginei dirigindo um filme que não fosse previamente escrito por mim. Até porque nessa escritura procuro traduzir para minha equipe as primeiras imagens, os primeiros dispositivos de enquadrar, as primeiras durações. Creio que gosto de cinema sem ser ortodoxamente cinéfilo. Quer dizer, de certo modo, bem ao contrário de gente por quem tenho grande admiração: Alexandre Veras, Ivo Lopes Araújo, Armando Praça, Danilo Carvalho ou todos esses jovens realizadores cearenses que estão despontando como Salomão Santana, Fred Benevides, Eudes Freitas, Marco Rudolf, Daniel Andrade, Guto Parente, Pedro Diógenes, Rúbia Mércia, Claugeane Costa entre tantos outros e bons. Acho uma perda de tempo ir ao cinema mais do que dois dias na semana. Aliás, de uns tempos pra cá sequer nutro qualquer fetiche pela sala de cinema em si: a magnitude das dimensões da tela, a excelência do som em sistema Dolby; os rituais em si que tanto cercam a cinefilia mais estrita. Prefiro ler um bom livro. Ou parar tudo e escutar boa música. Ou conversar com um amigo – até mais do que com dois ou vários. Ou sair por aí, a pé, pela cidade. Ou viajar. Ou molhar meus pés nas águas do Rio Camocim em junho, quando, após ganhar muita água em suas nascentes, nas encostas da Serra da Ibiapaba, as águas correm menos onduladas, com mais água doce que salgada á altura da foz. Como vai ser neste 2009 de muitas chuvas. Nesse momento, o rio parece invadir o mar. E se pode ver os seixos lá, abaixo, de tão transparente que a água fica. O rio vira um pouco um aquário. Só que muito mais bonito porque não está contido nele a ideia de prisão. Parece emprestar algo dessa fluidez às cordas límpidas e vozes sinceras de uma canção como “Canção Postal”. É se estar apaixonado, ponto. Apaixonado sem causa. Essa transparência é sempre algo que busco – nem sempre com acerto – quando me meto a criar qualquer coisa.
Um filme, inclusive.
[13.03.09]
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A História do Palpite
Em um de seus livros de memórias, Coração de Menino, Gustavo Barroso nos conta o episódio que segue abaixo. O episódio parece prosaico em si. Mas logo percebemos sua riqueza de implicações. Barroso nos informa de um passeio com o pai nas circunvizinhanças da igrejinha de São Bernardo – que até hoje existe, na esquina das ruas Senador Pompeu e Pedro Pereira. A família Barroso havia morado nos arredores em tempos passados e Felino Barroso, pai de Gustavo, informava ao filho, então uma criança, de velhos vizinhos e antigas casas. Até aí nada de tão excepcional. Pais gostam de reconstituir para filhos um mundo anterior, em que viveram. Isso faz parte do jogo entre gerações. Mas eis que, de repente, no contexto desse jogo, ele menciona algo inusitado:
[...] Reza-se a missa na Igreja de São Bernardo.[...] A igreja não tem torres, fica à esquina da Rua de São Bernardo com a Rua Senador Pompeu, Antiga [Rua] Amélia. Ao sairmos, meu pai demora algum tempo, olhando a esquina fronteira, onde se ergue uma casa baixa, de muitas janelas. Depois diz-me:
--Guarda bem o que vou te contar, porque já existe pouca gente que disto se lembre nesta terra e em breve não haverá mais ninguém. No terreno em que se levanta aquela casa, aí por 1858 ou 1859, o velho Pacheco, que era talvez o homem mais rico da cidade, [..], construiu um navio.
--Um navio?! Indago com espanto. Aqui, tão longe do mar?
--Sim, um navio. Lembro-me como se fosse agora. Morava nesse tempo aqui, na Rua Amélia e, ao passar para a escola, via os carpinteiros trabalhando o cavername do barco debaixo de uma latada de palhas de coqueiros. Todas estas ruas ainda não haviam sido calçadas de modo que, quando a embarcação ficou pronta, estivaram-na com madeira, a fim de arrastá-la sobre rolos para o mar. A escravaria puxava-a com cordas. Seguiu pela rua de São Bernardo até ali ao Garrote [...], e desceu pela Rua de Baixo, [...], atual Sena Madureira. Levou mais de quinze dias para ser posta a flutuar.
--E navegou?
--Muito tempo. Entre Fortaleza, Camocim, Aracati. Iate veleiro e seguro, diziam todos.
--Como se chamava?
--O nome era engraçado: “Palpite”. Uma famosa comissão científica, da qual faziam parte, entre outros, o botânico Limão, o engenheiro Capanema e o poeta Gonçalves Dias, mandada pelo imperador a estudar o problema do Nordeste, fretou o iate para trazer sua papelada, creio que do Camocim para Fortaleza. No caminho, o pobre do “Palpite” foi a pique, dizem que de propósito, para esconder muambas...
[BARROSO, p.43, supressões de trechos [...] nossas]
O trecho abre com uma advertência quase de tom bíblico: lembra, porque poucos lembram e em breve ninguém lembrará. Então, O pai conta ao filho do navio, indicando, no mesmo movimento, o local onde a embarcação havia sido feita: um terreno, que, à época, já era ocupado por uma casa. Há em seguida o gesto de assombro da criança. Podemos pressentir seus olhinhos brilhando de interesse. O veleiro estava sendo construído pelo homem mais rico de Fortaleza ao final da década de 1850, o Pacheco. O pai contava mais ou menos a idade do filho, quando passava para a escola e entrevia os carpinteiros a trabalhar na estrutura da embarcação. As ruas tinham areia em seu leito, ainda não eram pavimentadas. Deslocar o iate até o mar foi proeza. Demorou mais de quinze dias, com escala na Lagoa do Garrote (atual Cidade da Criança). E, significativo: a presença da mão-de-obra escrava (“a escravaria puxava-a com cordas”) -- o que aponta ainda uma vez para a desconstrução da idéia de que, por seu contingente reduzido, os escravos no Ceará foram quase que exclusivamente domésticos. Por fim, vêm mais duas informações importantes: a da comissão científica da qual fazia parte o poeta Gonçalves Dias e a referência ao contrabando.
Visto com lupa, tudo aqui é anedota inscrita em história social e filtrada pelo espaço urbano. Poder-se-ia escrever uma tese inteira a partir dela. Rastrear o histórico da embarcação, buscar dimensionar a prática da navegação à vela e/ou do contrabando na costa cearense em meados do sec. XIX, conhecer mais sobre o regime de trabalho ou as condições de vida da mão-de-obra escrava e/ou ainda tomá-la como pretexto para investigar mais a fundo os trabalhos dessa comissão científica de que pouca notícia se tem até hoje. E, note-se, em termos de espaço urbano, tudo segue mapeado: da esquina entre ruas Senador Pompeu com Pedro Pereira para a praia. A região aludida fica, hoje, em pleno centro comercial. Mas a pequena Igreja de São Bernardo, com suas paredes pichadas e aspecto cansado, ainda lá está, sitiada por lojas, numa região de comércio varejista e tráfego intenso.
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Rotina sem glamour
Hoje à tarde assisti o Jeanne Dielman, de Chantal Akerman. O ritmo lento de Jeanne Dielman. E que a gente nem sente. E o tanto de previsível que há na tesoura. Aliás a tesoura também aparece como arma letal nas mãos da protagonista do Blindness, de Meirelles – algo menor. Jeanne Dielman parece um filme humano, de largos e bem ritmados tempos mortos. Uma dona-de-casa de Bruxelas, mantendo uma rotina espartanamente regular, se prostitui, no próprio apartamento, para grantir o futuro de seu único filho, que passa o dia na escola. Na única ocasião em que, fortuitamente, atinge o orgasmo, assassina seu "freguês". Mas será que Akerman deixou seu Jeanne Dielman ser “canonizado” pelo feminismo sem apontar para o que nele transcende simplesmente o feminismo (ou mesmo o feminino), embora seja um forte depoimento sobre a condição da mulher, na década de 70 do sec. XX? Não, ela afirmou diversas vezes em entrevistas, que, por um acaso, a protagonista do filme era uma mulher. Mas que bem poderia ser um homem. Afinal, o filme é sobre ser humano. E também sobre o quanto o verdadeiro zelo e cuidado com os outros passa por uma rotina quase sempre não glamurosa. É sempre uma esperança entrever alguém com a integridade de Akerman.

Survival: Infantry
And the world changed.
There had been trees and people,
Sidewalks and roads
There were fish in the sea.
Where did all the rocks come from?
And the smell of explosives
Iron standing in mud
We crawled everywhere on the ground without seeing the earth again
We were ashamed of our half life and our misery; we saw that
everything had died.
And the letters came. People who addressed us thru our lives
They left us gasping. And in tears
In the same mud in the terrible ground
George Oppen
Sobrevivente: Infantaria
E o mundo mudou.
Houvera árvores e gente,
Calçadas e vias
Havia peixe no mar.
De onde vinham todas as pedras?
E o cheiro de explosivos
Ferro firmando-se na lama
Rastejávamos por toda parte terreno afora sem ver a terra de novo
Envergonhamo-nos de nossa sobrevida e desgraça; víamos que
tudo tinha morrido.
E as cartas chegavam. Gente que nos chamava por nossas vidas
Nos legava suspiros. E às lágrimas
Na mesma lama sobre o terrível chão.

