terça-feira, 17 de março de 2009

Excesso de caldo e de galinha


[s/i/c]



Inconfidência


Tenho um amigo, ex-militante da Libelu, que é tão desconfiado que pensa que a sombra dele montou um blogue só para falar mal dele.



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E nem precisava tanto!


[s/i/c]




Digressão II


A precisão da arte náutica contra a imprecisão de viver:

"Navegar é preciso, viver não é preciso" é das frases a gerar mais mal-entendidos no Brasil.

O sentido original da frase não é o heroísmo de implicar que navegar é mais prioritário que viver, mas, como nos ensinam no secundário os professores de português: navegar, como arte náutica, detém uma precisão, que pode ser medida por instrumentos: astrolábios, lunetas, bússolas, etc. É, portanto, mais próxima da precisão de uma ciência, tem uma lógica. Variando determinados graus no curso, você chega a uma latitude x, etc. Ao contrário disso tudo, viver é, convenhamos, bastante incerto, impreciso. Ou na boa definição de Guimarães Rosa, 'muito perigoso'. Não tem astrolábio que lhe garanta ou não que ela esteja na sua, por exemplo.

Assim um torcedor do Ceará jamais poderá usar a expressão nesse sentido original. Tipo: "Ganhar do Ferroviário é preciso, viver não é preciso". As duas tarefas aí são igualmente sem precisão. Especialmente a primeira.

Domingo passado, o glorioso Tricolor da Barra enfiou 4x1 no Vovô.




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Digredir é preciso, mas antes delicioso


[s/i/c]




Digressão




Não é de todo má idéia a reforma ortográfica. Ela tenta suavizar um pouco as diferenças de grafia entre os países lusófonos. Talvez o modo como o acordo foi feito é o que mais incomoda.

O certo é que pequenas e deliciosas nuances lexicais nunca desaparecerão. De momento, a Gota D'Água, de Chico Buarque encontra-se em turnê por Portugal. E o jornal O Público dá a manchete:

"Musical Gota D'Água de Chico Buarque em digressão por Portugal".



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Reinventando o ferro de passar à brasa


[s/i/c]



Como Luva



Um pensamento que cai como luva para certos comunicólogos, marqueteiros, gestores culturais, artistas mutimídia, assessores de imprensa, e alguns semioticistas:

"E há aqueles cujas ideias já foram percebidas por todos os outros. E há muito. Estes outros, sem embargo, estão empenhados em suas ocupações, tentando dar formas às ideias que realmente perfumam os dias. Aqueles medíocres, no entanto, quanto têm uma ideia, espalham-na aos quatro ventos, como se tivessem descoberto a pólvora, reinventado os pontos cardeais".

[Baltasar Gracián]



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Forçar no espectador uma autoralidade a todo custo


Jan Veermer, Vista de Delft, 1661




A Ditatadura da Participação


Um dos problemas das novas teorias da arte é querer por força transformar o espectador em autor. O ponto aqui é muito simples. Há espetáculos em que não se tem a menor vontade de ser co-autor. Quando vou ao teatro ver uma peça de Shakespeare, por exemplo, me basta - e me basta muito - ser espectador. Do mesmo modo quando vejo um quadro de Veermer. Quando escuto em casa, nos fones de ouvido, a Missa em Si Menor de Bach, não sinto a menor vontade de modificar nada. De fazer nada. A não ser escutar. E não me sinto diminuído por isso. A beleza que sai dessa manifestação me alimenta. Da mesma forma, quando vou a um estádio, sinto-me plenamente realizado em assistir uma partida de futebol: por que deveria estar em campo, correndo atrás de uma bola e distribuindo botinadas? Espero não ser obrigado a isso, um dia (especialmente se o Ferroviário prosseguir ganhando do Ceará por 4x1).

Se todos fossem agentes não haveria espetáculo. Ou obra de arte. Mas uma barbárie inominável, uma ausência total de ordem. Uma espécie de anomia completa. E é necessária uma certa ordem para criar as coisas, para apresentá-las, para assisti-las. A noção de forma se baseia nisso. Daqui a muito pouco tempo, a posição mais subversiva será a do espectador. E por quê? Porque o espectador será aquele único, aquela exceção que incomoda e subverte. Simplesemente porque ele será o mais capaz de observar uma totalidade em que todos, a exceção dele, são agentes e, portanto e por imersão, muito mais acríticos de seus atos: não há outros, todos são artistas. Ora, não existe arte sem diferenças de percepção. O gozo que a arte propicia nem sempre é diretamente proporcional a capacidade de se "participar" (ao menos diretamente) de sua criação, execução, veiculação ou performance.

Contrariar a ditadura de uma arte impositivamente "interativa" deveria ser a bandeira de muitos artistas hoje em dia. Eles estariam na contramão de um discurso hegemônico que quer forçar a todos a participação.

Tenho certeza de que não saberia representar o Rei Lear. Ou tocar um cello numa suíte de Bach. Ou executar uma pincelada que acrescentasse o que quer que fosse a uma tela de Veermer. Ou somar um frame a um filme de Bresson. Ou ter um cinquenta avos da perícia de Ronaldinho Gaúcho com a bola nos pés. Ou acrescer meio verso a Os Lusíadas.

Há gente que se educou melhor ou teve e tem mais talento do que eu para fazer isso. Que dedicou sua vida a isso. Por que não posso desfrutar de minha condição de espectador. Ou fruir essas manifestações sem ter que "participar" delas como um agente expresso? Ao sair de um concerto onde ouvi Bach, saio com a sensação de que me humanizei mais, de que minha percepção dos sons foi alterada, que me foram ofertados novos prismas de beleza, novas possibilidades de ouvir o mundo lá fora. Não me sinto de nenhum modo passivo ou diminuído por espectar. Por que deveria? Espectar também é agir, envolver-se, humanizar-se. Somar nuances.

Em todos esses casos, creio, saio muito mais espiritualmente gratificado, do que supõe a fiolosofia vã de quem quer que eu esfregue meu rosto num pedaço de carne cru pendurado num gancho à parede de uma galeria de arte.





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Uma vingança geracional?


[s/i/c]



Para lá de Comuns



Falar em "essência" de um povo, como nos fascículos de O Povo, lembrei-me não de uma essência, mas de um fato concreto. Circunstância, portanto. Essa mania que o cearense tem de pôr nomes, digamos, pouco convencionais nos filhos. Algo como Evander Jonson, Maílton, Rívia, Lucimara, Caludiane, etc. Algo parecido com o nome do medievalista francês Etienne Gilson. Só que tomando ambos os nomes - o sobrenome Gilson, inclusive - como prenomes: Etienne Gilson Nogueira da Silva, por exemplo. O garoto cearense atacado covardemente por um bando de deliquentes em Bristol, na Inglaterra, semana passada, chamava-se Shane Oliveira.

Mas tudo isso é só uma impressão. Não é uma essência. Vejam a dupla cearense que atualmente lidera o Campenato Brasileiro de Rally Cross Country. Desmente a teoria. Seus nomes são para lá de comuns: Riamburgo Ximenes e Stranger Eller.

Verdade que Ximenes, sobrenome muito comum na Galícia e no norte de Portugal (Jiménez, no resto da Espanha) soa um pouco estranho. Mas, de resto, está tudo em casa.


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segunda-feira, 16 de março de 2009

Fetiches conceituais X ARTE


Djanira, estudo para o cartaz da peça Orfeu da Conceição, 1954



Sirventês e
Double-Bind


Sem subestimar a importância do discurso sobre arte, é preciso não perder de vista que o maior discurso de uma obra de arte é ela própria. Não há um estudo crítico de Bach que valha dois compassos de uma cantata de Bach.

É claro que é importante que se fale de arte. Especialmente de forma propedêutica, didática. Mas quando a fala, o argumento sobre a arte ganha mais relevância que a própria arte, algo fede feio no reino. Algo análogo ao que se dá nos cursos de Letras, onde em vez de se lerem poetas ou contistas, lêem-se quase que exclusivamente teorias críticas. É mais fácil um aluno sair de uma pós-graduação em Letras sabendo o que Derrida quis dizer com “double-bind” do que a par do que é um “sirventês”.

“Diálogos possíveis”, “matrizes simbólicas”, “coletivos de arte”, “circuito independente”, “processos excludentes e legitimadores”, “ações interdisciplinares”, “gestão cultural”, “meios propositores de reflexão”, “direcionamento do rumo da produção”, “formas de organização sem ordem hierárquica e participativa de seus membros”, “estratégias que driblem interesses espúrios à experiência inventiva da arte”, "economia das trocas simbólicas", “sistemas de mediações no campo do conhecimento estético”, “retroalimentação segundo as suas próprias práticas”.

Como se pode pensar que essas expressões vêm de artistas?

Não vêm. Não podem vir. Vêm, do contrário, de burocratas da arte.



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sábado, 14 de março de 2009

Humor, pathos, história e gesto


Um banhista arrisca um salto do alto de uma antiga ponte
da Rede Viação Cearense (RVC) sobre o Rio Quixeramobim




No tempo das cordas

Os antigos contam que em Fortaleza, próximo à Estação Ferroviária João Felipe, em tempos idos, um certo senhor ganhava a vida alugando cordas – isso mesmo cordas!– para passageiros em trânsito que não tinham condições de pagar o pernoite numa pensão. Ele possuía um pequeno galpão, junto à Estação, que era atravessado por cordas de um lado ao outro. O sujeito ia ali, depunha as bagagens num canto, escorava os ante-braços nos cordames sebentos, e acabava adormecendo. Pelo menos evitava-se o sereno da madrugada, pois a partida dos comboios se dava às quatro da manhã. Alugava-se uma corda pelo pernoite ou por hora. Não sei por quantos mil-réis ou tostões. Mas já vi isso em livros. E meu avô, que era chefe do almoxarifado da Estrada de Ferro de Sobral, chegou a comentar a respeito. Acrescendo inclusive que se o “inquilino” extrapolasse a hora, mas fosse muito dorminhoco, não era incomum que o proprietário, safo, desprende-se uma das extremidades do fio onde se equilibravam os régios sonhos do viandante. E lá se ia o sujeito à lona, em meio à galhofa dos incorrigíveis de vigília. Eram outros tempos. Em que talvez se matasse um homem por razões de honra ou vendeta. Mas não para lhe roubar o tênis.
É pena que, se interessando tão pouco por esses aspectos passados, não haja por exemplo, um único grupo de dança na cidade que explore uma situação, a exemplo dessa, para extrair algo que conjugue humor, pathos, história e gesto.



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Com cento e oitenta praças: é amor, é amor, é amor!


[s/i/c]



Nosso Antônio Conselheiro de plantão e uma ilustre plêiade na noite pluvial


Há tempos não encontrava com fauna tão ilustre para uma quinta-feira despretensiosa no velho e bom Arlindo. O bar fervilhava conversa. Uma ilha de convívio humano durante as intermitentes pancadas de água de meio-março. Lá estavam Ethel de Paula, Beatriz Furtado, Ivo Lopes Araújo, Mariana Cartaxo, Felipe Araújo, Alexandre Veras, Igor Câmara, Luiz Carlos Bizerril, Moacir Bedê, Rúbia Mércia, Daniel Lopes e um Márcio Caetano cada vez mais parecido com Antônio Conselheiro. Quer dizer, com aquela foto post-mortem do visionário dos sertões, em que ele assoma de sandálias, os braços rijos, cruzados sobre o peito. Estivesse ele de t-shirt em vez da longa túnica de brim azul, não haveria o que tirar. Nem pôr. Pois as sandálias já lá estão. E sabendo que Márcio, como Fausto Nilo, vem da terra do homi, não sei não... Que conjunção de astros reuniu tanta conversa numa quinta chuvosa é matéria para esotéricos, alquimistas.


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Sai, calango!


[s/i/c]



Sociedade Protetora das Sociedades Protetoras

Embora ache saudável a presença de animais por perto, especialmente de calangos, por quem minha caçula nutre um particular fascínio ["Shai, caango!"], sempre desconfiei de gente que "prefere" animais. Ou que a eles atribuem emoções ou vínculos humanos. Uma suposta filiação, por exemplo. Há infantilismo, aqui. E uma vasta dose de misoginia ou androfobia por igual.


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O start, o mausoléu e a essência de um povo


Arquitetura típica do município de Poranga, oeste do Ceará




Essas e outras


i.
Hoje no O Povo uma jornalista tascou esta:

"O start das obras já foi dado e a inauguração está agendada para julho próximo".

Irmãos, starteemos!

ii.
Maracanaú, um distrito industrial ao sul de Fortaleza, com altos índices de violência, irá erguer, com caríssimo projeto assinado por Oscar Niemeyer, o Monumento e Mausoléu da Paz. Quantos não serão assaltados e correrão risco de vida em frente a esse indispensável monumento, cujas obras ainda não tem previsão de start.

iii.
Em consórcio com o governo do estado o Instituto Albanisa Sarasate deu start, semana passada, à publicação de uma série de cadernos, encartados em edições dominicais de O Povo, com extensão multimídia, chamados Autoestima Cearense. Volumes start, 2 e end. E pensar que há dinheiro do contribuinte numa publicação e produção de vídeos que visa ampliar "o debate sobre os elementos caracterizadores da essência do povo cearense". Eu sei de três pelo menos: dormir de rede (ao menos na sesta), chupar cajú (ao menos na safra) e não ler cadernos especiais sobre sua essência (ao menos na sua sanidade mental). [O quarto seria consultar a magnífica obra do potiguar Câmara Cascudo para saber mais sobre seus costumes d'antanho]. Também sei de duas que jamais darão start à leitura desses doutos cadernos: Mariana e Isabela, minhas filhas.


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sexta-feira, 13 de março de 2009

That's what I want


[s/i/c]


Le Cirque de L'Argent


O pouco destaque dado aos preços dos ingressos ao Cirque du Soleil em sua apresentação em Fortaleza, junho próximo, em nossos dois digníssimos diários.


Os ingressos mais caros – que recebem a irônica designação de Tapis Rouge [Tapete Vermelho] – custarão a bagatela de R$ 580,00. Os mais baratos, no poleiro do circo, não sairão por menos de R$ 230,00.

E aí eu penso em quanto deveria ser a entrada do circozinho poeira, na periferia profunda de Fortaleza, onde, só alguns meses atrás, um trapezista quebrou o pescoço por conta de um mastro mal fincado. Bom, pelo menos quem ganha o salário mínimo no Brasil pode pagar a entrada do Circo do Sol e passar o resto do mês a viver de brisa. O consolo é que, como provam nossas usinas eólicas, Fortaleza é uma das cidades mais bafejadas pela brisa abaixo do Equador, onde o pecado só existe para quem vive de salário mínimo debaixo do sol, na Terra do Sol. E aí se pode pensar no cardápio: omelete de brisa, filé de brisa com trufas, galinha de brisa ao molho pardo, mussarela de búfala e brisa, carne de-(circo)-do sol e brisa, Cabernet-Sauvignon brisé.

Praticando esses preços, os artistas do renomado circo quebequense podem parafrasear Lennon com uma ligeira acomodação local: “vocês nos assentos mais baratos apenas batam palmas; já vocês nos Tapis Rouge, basta sacudir as chaves das Hilux”.

E azeite, Senhora Avó.




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Por um presente contínuo saturado de história


Robert Bresson, L'Argent, 1984



Alguma visão muito pessoal de cinema e cinefilia


O cinema é apenas um meio. E um meio perigoso, porque induz muita dispersão no espectador. E, logo, ao contrário da música ou do ponto-de-vista de MacLuhan, um meio pobre. Paupérrimo: justamente pela sua profusão de meios, de recursos. Meu interesse passa sempre pela construção de um filme que consiga concentrar o máximo de sinestesia sobre o assunto tratado empregando um mínimo de meios. E os ritmos, muitas vezes ditados mais pelos sons que pelas imagens, cumprem um papel graduador e decisivo nisso. Penso num filme não como informação ou aplicação de uma teoria prévia. Embora também creia que um filme deva ser previsto o máximo possível. Isso torna o improviso muito mais pleno de valor. E as inevitáveis modificações e adaptações de última hora, plenas de poesia e charme. A poesia e o charme quase nunca se encontram em filmes de vanguarda, porque estes são excessivamente decalcados de uma lógica de causa/efeito. Até o espontaneísmo um tanto ingênuo e dadá de certos filmes vanguardeiros também advém disso, porque querem deliberadamente chocar. Há em minha concepção de uma eleição declarada pela paisagem, um extremado apego pelo espaço. Quer dizer, pela paisagem e pelos gestos – o vento nos galhos de uma árvore é um gesto, assim como gotas de chuva caindo sobre uma calha de zinco. Muito mais do que por palavras ou depoimentos, sinto grande fascínio pela paisagem e pelos gestos. Gosto quando percebo certo teor documentarista num filme de ficção (feature). Filmes fabulados geralmente não são fabulosos. Estranho a ideia que uma cidade, em um filme, seja feita de várias cidades, como no Blindness de Meireles – cujo ponto de partida é uma má fábula de Saramago. Me passa uma impressão de aguda inverdade. A duração da imagem, dos planos, é algo análogo a extensão de um verso. É de cada um. O fato de um filme ser ou não montado em plano-sequência nada me diz de sua real coerência ou beleza. Gosto do uso de cartelas, letterings e, de fato, poucos efeitos há de mais brilho do que um off bem aplicado. Ás vezes planos excessivamente longos sem razão de ser e um inamovível apego ao corte seco assomam tremendamente chatos. Meu faro passa também por uma espécie de devoção pelo local, porque se trata de um espaço que acaba se assemelhando a gente, se acomodando à gente, de uma forma muito profunda e misteriosa. Especialmente quando seu material gira em torno de ou evoca espaços antigos, que estão impregnados de uma ritualidade social quase impressentida. Então esse presente contínuo do indicativo na imagem contada por ciclos fica ainda mais exaltada. Me agrada a ideia de uma espécie de presente simultâneo na imagem. Um presente contínuo que busco traduzir por uma série de ciclos que se abrem e se fecham. Mas como que enganchados uns aos outros. De uma linearidade narrativa, sim. Mas uma que se dá em espiral mais que em progressão direita, reta. Gosto de pensar um filme como capítulos de algo maior que nem mesmo eu sei o que é. Um sentido de serialidade. Que apenas pressinto. A geometria para mim é um elemento importante na composição da imagem. Uma sorte de geometria intuitiva. Algo que começa no enquadramento. Mas em geral, se esse enquadramento já não está de algum modo pressentido na tua cabeça, antes mesmo das gravações se iniciarem, ele irá sempre resultar em algo artificioso e um tanto maneirista, como em certos filmes de Victor Erice. Um filme não é uma tábua de regularidades. Também não me envergonho de gostar de filmes que muitos cinéfilos e historiadores e críticos de cinema passam um tanto batido. Um exemplo disso é o primeiro filme de Eric Rohmer, Le signe du Lion [O Signo de Leão], que, a meu ver, é muito subestimado diante de obras canônicas da Nouvelle Vague, como Acossado ou Jules et Jim. E é ao menos tão bom quanto estes. Aprende-se muito com filmes assim. Há mais presença da cidade de Paris em O Signo de Leão que em Acossado, por exemplo. Isso não quer dizer que o primeiro seja melhor que o segundo. Indica tão-só que seu “grau de documentarismo na ficção” é maior. E isso é um aspecto, a meu ver, essencial nos termos do cinema que desejo ver e fazer. A ideia de um presente contínuo saturado de história é a que me guia quando me lanço a fazer um filme. São elementos fortemente esteados na brandura e especificidade que só o local te proporciona nesses tempos globalizados e arrasados em que vivemos. [Nota: quando falo arrasado, aqui, aponto para raso, nivelador, para o que se encontra em qualquer parte, inclusive na mente das pessoas, pela força do dinheiro]. E, por último, há algo dito por Bresson (ou terá sido Tarkovski) que concentra muita verdade, e é mais ou menos assim: “quando o roteirista e o diretor de um filme não são a mesma pessoa, o impossível chega a um acordo”. Logo, nunca sequer me imaginei dirigindo um filme que não fosse previamente escrito por mim. Até porque nessa escritura procuro traduzir para minha equipe as primeiras imagens, os primeiros dispositivos de enquadrar, as primeiras durações. Creio que gosto de cinema sem ser ortodoxamente cinéfilo. Quer dizer, de certo modo, bem ao contrário de gente por quem tenho grande admiração: Alexandre Veras, Ivo Lopes Araújo, Armando Praça, Danilo Carvalho ou todos esses jovens realizadores cearenses que estão despontando como Salomão Santana, Fred Benevides, Eudes Freitas, Marco Rudolf, Daniel Andrade, Guto Parente, Pedro Diógenes, Rúbia Mércia, Claugeane Costa entre tantos outros e bons. Acho uma perda de tempo ir ao cinema mais do que dois dias na semana. Aliás, de uns tempos pra cá sequer nutro qualquer fetiche pela sala de cinema em si: a magnitude das dimensões da tela, a excelência do som em sistema Dolby; os rituais em si que tanto cercam a cinefilia mais estrita. Prefiro ler um bom livro. Ou parar tudo e escutar boa música. Ou conversar com um amigo – até mais do que com dois ou vários. Ou sair por aí, a pé, pela cidade. Ou viajar. Ou molhar meus pés nas águas do Rio Camocim em junho, quando, após ganhar muita água em suas nascentes, nas encostas da Serra da Ibiapaba, as águas correm menos onduladas, com mais água doce que salgada á altura da foz. Como vai ser neste 2009 de muitas chuvas. Nesse momento, o rio parece invadir o mar. E se pode ver os seixos lá, abaixo, de tão transparente que a água fica. O rio vira um pouco um aquário. Só que muito mais bonito porque não está contido nele a ideia de prisão. Parece emprestar algo dessa fluidez às cordas límpidas e vozes sinceras de uma canção como “Canção Postal”. É se estar apaixonado, ponto. Apaixonado sem causa. Essa transparência é sempre algo que busco – nem sempre com acerto – quando me meto a criar qualquer coisa.


Um filme, inclusive.


[13.03.09]

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quinta-feira, 12 de março de 2009

Todo mundo é poeta, doido, bêbado e jogador de futebol: exigências e graus


[s/i/c]




Oitentas, oitos e quandos nãos


No Brasil, há um extremo excesso de maus poetas, uma carência extrema de bons prosadores; e um crescente número de bons tradutores.

Por que será?



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E navegou?


A Igrejinha de São Bernardo em Fortaleza



A História do Palpite


Em um de seus livros de memórias, Coração de Menino, Gustavo Barroso nos conta o episódio que segue abaixo. O episódio parece prosaico em si. Mas logo percebemos sua riqueza de implicações. Barroso nos informa de um passeio com o pai nas circunvizinhanças da igrejinha de São Bernardo – que até hoje existe, na esquina das ruas Senador Pompeu e Pedro Pereira. A família Barroso havia morado nos arredores em tempos passados e Felino Barroso, pai de Gustavo, informava ao filho, então uma criança, de velhos vizinhos e antigas casas. Até aí nada de tão excepcional. Pais gostam de reconstituir para filhos um mundo anterior, em que viveram. Isso faz parte do jogo entre gerações. Mas eis que, de repente, no contexto desse jogo, ele menciona algo inusitado:


[...] Reza-se a missa na Igreja de São Bernardo.[...] A igreja não tem torres, fica à esquina da Rua de São Bernardo com a Rua Senador Pompeu, Antiga [Rua] Amélia. Ao sairmos, meu pai demora algum tempo, olhando a esquina fronteira, onde se ergue uma casa baixa, de muitas janelas. Depois diz-me:

--Guarda bem o que vou te contar, porque já existe pouca gente que disto se lembre nesta terra e em breve não haverá mais ninguém. No terreno em que se levanta aquela casa, aí por 1858 ou 1859, o velho Pacheco, que era talvez o homem mais rico da cidade, [..], construiu um navio.

--Um navio?! Indago com espanto. Aqui, tão longe do mar?

--Sim, um navio. Lembro-me como se fosse agora. Morava nesse tempo aqui, na Rua Amélia e, ao passar para a escola, via os carpinteiros trabalhando o cavername do barco debaixo de uma latada de palhas de coqueiros. Todas estas ruas ainda não haviam sido calçadas de modo que, quando a embarcação ficou pronta, estivaram-na com madeira, a fim de arrastá-la sobre rolos para o mar. A escravaria puxava-a com cordas. Seguiu pela rua de São Bernardo até ali ao Garrote [...], e desceu pela Rua de Baixo, [...], atual Sena Madureira. Levou mais de quinze dias para ser posta a flutuar.

--E navegou?

--Muito tempo. Entre Fortaleza, Camocim, Aracati. Iate veleiro e seguro, diziam todos.

--Como se chamava?

--O nome era engraçado: “Palpite”. Uma famosa comissão científica, da qual faziam parte, entre outros, o botânico Limão, o engenheiro Capanema e o poeta Gonçalves Dias, mandada pelo imperador a estudar o problema do Nordeste, fretou o iate para trazer sua papelada, creio que do Camocim para Fortaleza. No caminho, o pobre do “Palpite” foi a pique, dizem que de propósito, para esconder muambas...

[BARROSO, p.43, supressões de trechos [...] nossas]


O trecho abre com uma advertência quase de tom bíblico: lembra, porque poucos lembram e em breve ninguém lembrará. Então, O pai conta ao filho do navio, indicando, no mesmo movimento, o local onde a embarcação havia sido feita: um terreno, que, à época, já era ocupado por uma casa. Há em seguida o gesto de assombro da criança. Podemos pressentir seus olhinhos brilhando de interesse. O veleiro estava sendo construído pelo homem mais rico de Fortaleza ao final da década de 1850, o Pacheco. O pai contava mais ou menos a idade do filho, quando passava para a escola e entrevia os carpinteiros a trabalhar na estrutura da embarcação. As ruas tinham areia em seu leito, ainda não eram pavimentadas. Deslocar o iate até o mar foi proeza. Demorou mais de quinze dias, com escala na Lagoa do Garrote (atual Cidade da Criança). E, significativo: a presença da mão-de-obra escrava (“a escravaria puxava-a com cordas”) -- o que aponta ainda uma vez para a desconstrução da idéia de que, por seu contingente reduzido, os escravos no Ceará foram quase que exclusivamente domésticos. Por fim, vêm mais duas informações importantes: a da comissão científica da qual fazia parte o poeta Gonçalves Dias e a referência ao contrabando.

Visto com lupa, tudo aqui é anedota inscrita em história social e filtrada pelo espaço urbano. Poder-se-ia escrever uma tese inteira a partir dela. Rastrear o histórico da embarcação, buscar dimensionar a prática da navegação à vela e/ou do contrabando na costa cearense em meados do sec. XIX, conhecer mais sobre o regime de trabalho ou as condições de vida da mão-de-obra escrava e/ou ainda tomá-la como pretexto para investigar mais a fundo os trabalhos dessa comissão científica de que pouca notícia se tem até hoje. E, note-se, em termos de espaço urbano, tudo segue mapeado: da esquina entre ruas Senador Pompeu com Pedro Pereira para a praia. A região aludida fica, hoje, em pleno centro comercial. Mas a pequena Igreja de São Bernardo, com suas paredes pichadas e aspecto cansado, ainda lá está, sitiada por lojas, numa região de comércio varejista e tráfego intenso.


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23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles


Chantal Akerman, Jeanne Dielman, 1975


Rotina sem glamour


Hoje à tarde assisti o Jeanne Dielman, de Chantal Akerman. O ritmo lento de Jeanne Dielman. E que a gente nem sente. E o tanto de previsível que há na tesoura. Aliás a tesoura também aparece como arma letal nas mãos da protagonista do Blindness, de Meirelles – algo menor. Jeanne Dielman parece um filme humano, de largos e bem ritmados tempos mortos. Uma dona-de-casa de Bruxelas, mantendo uma rotina espartanamente regular, se prostitui, no próprio apartamento, para grantir o futuro de seu único filho, que passa o dia na escola. Na única ocasião em que, fortuitamente, atinge o orgasmo, assassina seu "freguês". Mas será que Akerman deixou seu Jeanne Dielman ser “canonizado” pelo feminismo sem apontar para o que nele transcende simplesmente o feminismo (ou mesmo o feminino), embora seja um forte depoimento sobre a condição da mulher, na década de 70 do sec. XX? Não, ela afirmou diversas vezes em entrevistas, que, por um acaso, a protagonista do filme era uma mulher. Mas que bem poderia ser um homem. Afinal, o filme é sobre ser humano. E também sobre o quanto o verdadeiro zelo e cuidado com os outros passa por uma rotina quase sempre não glamurosa. É sempre uma esperança entrever alguém com a integridade de Akerman.




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Víamos que tudo tinha morrido


[s/i/c]



Survival: Infantry


And the world changed.

There had been trees and people,

Sidewalks and roads


There were fish in the sea.


Where did all the rocks come from?

And the smell of explosives

Iron standing in mud

We crawled everywhere on the ground without seeing the earth again


We were ashamed of our half life and our misery; we saw that

everything had died.


And the letters came. People who addressed us thru our lives

They left us gasping. And in tears

In the same mud in the terrible ground


George Oppen



Sobrevivente: Infantaria


E o mundo mudou.

Houvera árvores e gente,

Calçadas e vias


Havia peixe no mar.


De onde vinham todas as pedras?

E o cheiro de explosivos

Ferro firmando-se na lama

Rastejávamos por toda parte terreno afora sem ver a terra de novo


Envergonhamo-nos de nossa sobrevida e desgraça; víamos que

tudo tinha morrido.


E as cartas chegavam. Gente que nos chamava por nossas vidas

Nos legava suspiros. E às lágrimas

Na mesma lama sobre o terrível chão.




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quarta-feira, 11 de março de 2009

Receitas de repetir sem sinestesia e local


Walter de Maria, The Lightening Field, 1977




Cinema Expandido, Fetiche de Vanguarda e Conceitos


Redenção e perdição dos que trabalham com elementos de vanguarda. Falo especificamente de imagens e sons. De imagens e sons produzidos em Fortaleza. Os caras andam sempre hiperbem informados. Se fala por exemplo em “cinema expandido”. Há mérito nisso. Cinema expandido, um conceito mais sistematicamente delineado por Gene Youngblood ainda lá nos distantes anos 70. As premissas experimentais são instigantes, como muito do que busca um caminho á margem do mainstream. Uma salada de vídeo-arte, holografia, efeitos visuais computadorizados, mix de suportes e dispositivos os mais vários, manipulações de imagens e sons onde a música – em resumo, uma espécie de action-music, por analogia a action-painting – detém um papel bastante central. E é muito bom que haja gente empenhada em apropriar-se dessas possibilidades estéticas por aqui. Mas o ponto é também perceber quem desdobrou essas linguagens sob formas e nomes outros, aqui no Brasil. E por vezes até de modo mais efetivo. A música total de Hermeto Pachoal, por exemplo. O problema como sempre é um tanto de fetiche. De deslumbre. O fetiche do novo, dos termos novos, que aportam junto com essas estéticas. Em geral, o perigo é o de tomar essas terminologias esdrúxulas, “fascinantes”, quase sempre como um valor em si. E acabar valorizando-as até mais que os materiais e assuntos tomados para se trabalhar. A ameaça de aborto, ao fim de tudo, é o de elas não constituírem um meio, mas um fim em si mesmas. [Nota: do mesmo modo como muitos deleuzianos se fixam mais na terminologia do que na possível relação de coerência e verdade entre essa re-nomeação e o mundo]. E assim essas terminologias bloqueiam a criação por vedar o relacionamento com contextos e sons locais num grau verdadeiramente profundo, renovador. Essas imagens e sons locais, que, de outra forma, por terem sido excessivamente exploradas por sistemas de produção de signos mais normatizados, se prestam maravilhosamente bem a serem elementos desdobradores de um eventual “cinema expandido”.

E, no entanto, a não ser que aconteça um milagre - e esse milagre passa por uma sensibilidade sagaz o suficiente para incorporar as especificidades locais a esses sistemas vanguardeiros - nosso "cinema expandido" não passará de uma mera cópia do que segue apregoado em livros como os de Youngblood ou em experimentos como os de Walter de Maria, Robert Frank, Carolee Scheneeman, Robert Whitman ou Derek Bailey.




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terça-feira, 10 de março de 2009

A doutrina das semelhanças


[s/i/c]




Não há dúvidas


Ontem ao fim da tarde,

na altura do Beco das Garrafas,

cruzei com um Ferreira Gullar

trajando bermudas, cambitos de fora.


Não há dúvidas:

ele é realmente o Marilyn Manson.



Juca Santabaia




Nota – um dos melhores poemas que recebi do Rio nos últimos tempos.



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Viva mais cinco minutos, ganhe um brinde


[s/i/c]




Se de fato valesse a pena



Minha Tia Mônica adora novelas e programas de auditório. Sua semana, então, está cheia. Mas quando qualquer evento perturba a programação normal da TV, e ela tem de sair do sofá para janela, e contemplar a rua – os cachorros passando na calçada; o vizinho coçando as partes, entre as sebes e samambaias de seu pequeno jardim; o vendedor de doce-americano batendo com o bastão no tabuleiro; o céu carregado de densas nuvens ao fim da tarde –, minha Tia Mônica acha que se a vida de fato valesse a pena, haveria intervalos comerciais de dez em dez minutos. E brindes para quem responder primeiro qual é a capital do Turcomenistão.



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