quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Moisés, Moisés


Tim Mara, The Stage and Television Today, 1975




O sotaque do Senhor


Sob certa ótica, a televisão não deixa de ser um prodígio cultural. Pequeno milagre. São Paulo. Começo da década de noventa. Interior de um apartamento escassamente mobiliado. Bairro de Santa Cecília. Insônia. Um homem jovem assiste televisão para matar o tempo. O melhor que consegue é um filme bíblico dublado, na Rede Record:

Moisés, Moisés, diz a Faraó que farei cair tão espesso breu sobre a terra do Egito...”

Diz Jeová a Moisés... com um carregado sotaque nordestino.


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Lagartos, cobras & nenhuma psicanálise


Bill Watterson, c. 1997




Dos Nomes Feios - Ou não xingueis o próximo em baixa voz


Sim, durmi bem.

Hoje, amanheci com imensa vontade de dizer palavrões.



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Se a ênclise anda fora de moda, que dirá da mesóclise


[s/i/c]




Vou te ferrar, Gavião


Outro dia, proseando com amigos.

Alguém sugeriu que “Morena Clara” é um mau nome para uma loja de estilo ou grife de moda. Por supostamente ser racista.

Rá. É nada.

“É nada” era uma das senhas mais cultivadas por toda um círculo de amigos na década de 80. Havia os que diziam sua cota de “é nada” com certo acento odara-mascavo, como o Mimi Rocha. Sempre com alguma relutância, feito o Demétrius Câmara (uma hesitação que traía uma borra de dúvida, imaculada credulidade). O “é nada” do Moacir Chaves, o Manim, ejetava-se por um escracho quase sexual. Com erguer de sobrancelhas à Jack Nicholson e arregalada pausa de olhos escancarados, o do Rossé Sabadia. Ou então, com certa inflexão interiorana, aspereza falsa, longa e malina ênfase na vogal da primeira sílaba do "nada", o do Domingos Caetano.

O mais indizível "é nada" saía com um tiple ruidoso e pleno de graça dos lábios tenros de certa garota de cabelo à la page, que era, a despeito de "és" e de "nadas", a própria graça encarnada entre o verbo e o nome. Ai, ai... E tinha eu pouco mais que catorze anos de idade. Cirandas. Ah, como era grande aquela roda. Ah, como eram verdes aqueles vales, mesmo no estio. Ou naquela necessidade de aproximar Fortaleza e o fim-do-mundo.

"Ah!", essa interjeição tão prezada em letras de Dolores Duran! (Vocês estão vendo só, do jeito que eu fiquei - pausa à crooner - e que tudo ficou?).

Mas deixemos de tão relevantes considerações. Voltemos a nomes, escolhas. Há aqui mesmo em Fortaleza, prodígios do gênero. Uma coluna de culinária em um dos diários locais, por exemplo, se chama “Cozinharte”. E há uma loja de artigos moldados em ferro – luminárias, adereços, jarros suspensos, escadas em espiral, bancos para jardim – ali pras bandas de Salinas, que se chama: Ferrarte.

O slogan dessa última loja poderia ser, no mínimo: "porque eu quero Ferrarte". Pense. Se a ênclise anda fora de moda, que dirá da mesóclise.

Mesóclise hoje em dia: nem à trois.


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Se você pretende


[s/i/c]



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Aquela canção do Roberto

Nessas férias, entre outros, li Roberto Carlos em Detalhes, a biografia censurada de Roberto Carlos. Quer dizer, a biografia de Roberto Carlos censurada por Roberto Carlos. Sou um fã de carteirinha de Roberto Carlos. Quer dizer, de certo Roberto Carlos. O da entrefase 1965 (“Quero que vá tudo pro inferno”) a 1975 (“É Preciso Saber Viver”). Pode-se pegar no escuro qualquer disco dessa época, e ele terá em seus sulcos no mínimo três ou quatro canções absolutamente imprescindíveis. E que foram trilhas sonoras de uma toda vida brasileira e sob o sol. (De minha infância mais tenra: o que foi luxo! ). No serviço de auto-falantes, no rádio, nos discos, nas tertúlias, nos embalos de sábados e sextas. E até na igreja do domingo.
Mas também passei em revista um livro que já era para ter dado atenção há tempos: o Verdade Tropical, de Caetano Veloso.
O livro de Caetano é de uma verve muito própria. Pode-se discordar de carradas de coisas em Caetano. Uma caçamba delas, como sempre. Mas que crônica de época é Verdade Tropical! E como Veloso escreve bem! E não só letras de música feito “Cajuína”, “Trem das Cores”, “O Ciúme”. Como memorialismo de si inscrito num tempo há extremado acerto no livro de Veloso. É um livro muito preciso. E cívico.
De Roberto Carlos Braga, um aspecto que o autor de sua biografia não autorizada não atentou: ele é o poeta do "você". Ninguém tem mais canções com “você” no título do que Roberto. Ou quando não está no título, o “você” assoma no entrecho da letra. Ou no refrão. Mas sempre em destaque. Mesmo se no condicional. Bom, mas fico por aqui. Ouvindo as canções que você fez pra mim. Antes que você pretenda saber quem eu sou. Pois você não sabe. E pensa que a vida é feita de ilusão. Mas é preciso saber viver.
Me são caros. Ambos. Espero poder voltar a esses assuntos.

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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Parataxe é mais que plano-sequência


Murillo, c. 1670




Treze “e's” reforçam agilidade e diligência em Rebeca

Nesta passagem do Gênesis [24, 16b-20], dá-se o instante em que o servo de Abraão acha a mulher que saíra na incumbência de escolher. Ou seja, a esposa para Isaac, filho de Seu Senhor, que deveria ser escolhida na terra de Naor. Ele roga ao Senhor que aquela que descer à fonte com seu cântaro e se predispuser a lhe dar de beber seja a escolhida. E logo a seguir vem Rebecca, prima de Isaac, a quem, após o servo achar “mui formosa à vista”, lhe dá de beber e à sua cáfila:
e desceu à fonte, e encheu o seu cântaro e subiu. Então o servo correu-lhe ao encontro, e disse: Peço-te, deixa-me beber um pouco de água do teu cântaro. E ela disse: Bebe, meu senhor. E apressou-se e abaixou o seu cântaro sobre a sua mão e deu-lhe de beber. E, acabando ela de lhe dar de beber, disse: tirarei também água para os teus camelos, até que acabem de beber. E apressou-se, e despejou o seu cântaro no bebedouro, e correu outra vez ao poço para tirar água, e tirou para todos os seus camelos.
O princípio da Parataxe é mais efetivo que o do plano sequência no cinema. Lima explicativos sintáticos (ou seja, planos de transição). Os e's tem a função de expressar a prontidão incansável da faina de Rebeca. Afinal, apenas um camelo bebe a bagatela de 25 galões de água. E estamos diante de dez camelos. Quantas mulheres de classe-média no Brasil já fizeram um serviço braçal equivalente: dar de beber a dez camelos? E, entenda-se, Rebeca, aqui, não é classe-média, é praticamente uma princesa. É a filha de um patriarca que irá casar-se com o filho de um outro patriarca e dar nascimento ao povo eleito. Não menos. E o que dizer dessa linguagem bastante concisa – inclusive psicologicamente – tal como nos aponta Auerbach em sua clássica análise sobre a evolução da representação realista no Ocidente [Mimesis]?


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A lembrança dos feitos humanos


Capa da edição das Histórias, de 1972, Penguin Books



Heródoto, o elegista

Como não se atribui a Heródoto -- o digressivo amante da anedota e do gossip, o etnógrafo, o explorador de culturas remotas, o peregrino do mundo antigo, narrador cheio de verve e bom-humor, o homem que bem sabia o quanto os bastidores de alcova incidem sobre a grande política – também a dimensão do elegista?

Dimensão, de resto tão bem expressa no prólogo de sua obra: “esperança de assim preservar da decadência a lembrança dos feitos humanos”.



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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Em sombras compondo chamas: Ponge


[s/i/c]



resenha
Rosa, véu e uma partida de coisas

Francis Ponge – o objeto em jogo, de Leda Tenório da Motta, Iluminuras-Fapesp, 111 ps.
5 ensaios breves sobre a obra de Francis Ponge junto com 7 traduções de poemas

A primeira ocasião em que Borges foi posto em inglês, o editor da revista, manifestamente desavisado, apôs o conto – tratava-se de um conto – na seção de ensaios. Lábeis as fronteiras entre gêneros literários. Francis Ponge (1899-1988), que lia o Dicionário Littré como se fosse uma coleção de novelas, passeava, divertindo-se, por essa labilidade.

Em aprioridade para Ponge, nada de muita música e esse horror de ser classificado como poeta. “A verdadeira poesia não tem nada a ver com o que se encontra hoje nas coleções poéticas”, resmunga ele.

E o que Ponge diz da Filosofia? “Diria que a filosofia me parece vir da literatura, como um de seus gêneros... E que em matéria de gêneros, prefiro outros. Menos voluminosos. Menos tominosos. Pior do que isso, eles não tem nunca novas verdades sobre o seu homem, embora tenham revirado o tema de ponta a cabeça”.

Seus “poemas” apresentam-se como prosa, o mais das vezes (“proemas”). E ele próprio se reivindica, não sem certa insolência, artiste en prose. Ainda que nessa prose (ou seria melhor dizer nessa pose), na diagonal e com desvio, alexandrinos clássicos se encontrem, em disfarce, camuflados em meio a prosa corrente pela maestria de Ponge, assim como nos sambaquis grandes bancos de conchas, búzios e cascos de ostras são trincados e aboleados pela ação dos ventos e o fluxo das marés até formarem um bloco aparentemente uniforme.

Valéry assegurava que a perfeição e a simetria do búzio não será atingida nunca pela mais precisa mão humana. Ponge compra um briga com isso. E, no entanto, ele não quer fazer melhor. Ele quer dizer o objeto. Só que ao dizer o búzio, a concha, o camarão, a fatia de carne, o pinho, molda coisas de um artificiosismo preciosista e humorado. Será mesmo possível “dizer o” ou tão-só “dizer do”? Ou o possível não é senão uma paráfrase que passa a anos luz de distância do objeto dito?

Nos cinco ensaios presentes em Francis Ponge – o objeto em jogo, Leda Tenório da Motta nos ficciona 'proêmios' à obra deste autor que é já hoje um clássico da poesia francesa. Prefácios às conchas, aos pinhos, à laranja, à chuva, ao musgo, ao camarão, ao seixo, à samambaia, a toda uma partida de coisas. A uma gana de expressão. Voragem pelo dizer. E prefácios, em si, de uma expressão que não sonega um refinado humor: “não há cubos nem em Ponge nem no cubismo”; “o rosa em questão é de uma tonalidade que lhe sugere, num primeiro momento, ‘marotice’, porque lembra a perna das mulheres árabes que se velam... mas deixam a ver o tornozelo. Rosa maroto, pois”.

Pode-se pressentir que o partido das coisas é também o da dificuldade ou o da impossibilidade de traduzi-las; que Ponge entusiasmou-se mais com Braque que com os surrealistas; que o descritivismo pongiano é o “desafio de um amante posto à prova”; que idéias são epifenômenos e causam fastio; que a tradição não deve passar por cima dos objetos; que Ponge se expande por silepses de desconcertante duplo pertencimento; que, como em Borges, há a felicidade de uma biblioteca legada pelo pai; que há um automatismo, aliás, análogo ao dos filmes de Bresson – que nada tem de surreal; que há algo de proverbial e arcaizante em Ponge – e justo por ele conhecer e reciclar magistralmente a tradição das letras francesas (em especial, o classicismo do sec. XVII).

Em Francis Ponge – o objeto em jogo, como no famoso verso de Camões, “transforma-se o amador na coisa amada”. Ou seja, Leda expressa Ponge num português proverbial e, algo, arcaizado. Analogia e afinidade eletiva. Muito mais invenção que paráfrase. Mimo e sabor que há em termos e expressões como “airoso”; “que tais”, “descontentada”; “perolante”; “a horas tantas”; “céleres”; “deriva” (usados como substantivos).

Há teses e teses. E até se pode discordar de algumas. Por exemplo, a de que existe “uma extraordinária ausência de história” nos textos de Ponge. Em parte. Sob certo prisma. Em ironia. Mas a discutir. Pois mais avante, via de regra e por um formidável jogo de denegações, a própria Leda, nos informa que “tudo isso [ no caso, ‘a língua provençal dos trovadores da Aquitânia de Carlos Magno, do príncipe de Nerval’] está na história da Montpellier da infância do Ponge Occitão. No Languedoc francês – aliás evocado no poema ‘Le Platane’ (‘O Plátano’)”.

Mas qual a fronteira entre ficção e crítica? E o que quer fazer Leda senão investir contra qualquer esquematismo conceitual mais rígido nos alertar para esse impasse? O mundo não é muito mais que um léxico. Ah, essa imprescindível serventia dos dicionários!

Machado de Assis nos diz no Quincas Borba que “quem conhece o solo e o subsolo da vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, são ricos de idéias e de sentimentos, quando nós também o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as coisas compõem um dos mais interessantes fenômenos da terra”.

Francis Ponge não concordaria exatamente com estas palavras que, de certa forma, tão bem descrevem sua tarefa. Tarefa, de resto, siléptica, descritiva, semelhante a de João Cabral – que, aliás, lhe dedicou um poema. Mas qualquer tipo de leitura se faz densa exatamente por meios defeituosos e contradições tão aparentes (como o rosa maroto no tornozelo das mulheres árabes) quanto veladas (como o restante de seus corpos). E é por isso que os ensaios presentes nesse pequeno volume de crítica, também poderiam, por sua graça airosa, marota – e sem nenhum demérito de sua inata qualidade acadêmica figurar, mesmo aos olhos de um leitor medianamente familiarizado com as traquinagens do autor de O Partido das Coisas, em uma seção de contos.






Nota - há uma tradução de um poema de Francis Ponge Aqui.

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A história precedida


[s/i/c]



Outra noite para Rubem Braga


Há esse avião voando numa noite etérea. Voando em placidez, acima de colchões de nuvens sob um luar de filme. Ainda um turbo-hélice. Provavelmente com o logo da Pan-Air na fuselagem. O percurso é de São Paulo para o Rio. E, em uma das vigias, o rosto de um jornalista extático diante da paisagem de uma noite de sonho, acima das nuvens. Cofiando bigodes em perfeita satisfação. Metido consigo mesmo e com a beleza do mundo.

Uma vez em terra firme, ele desembarca. A noite é chuvosa e lamacenta. Inteiro o inverso da outra noite: superior, luminosa – só alcançável, agora, pela alça da memória. De volta para casa, o jornalista de bigodes e basto cabelo apartado ao meio, diz ao taxista do contraste entre as noites. Entre aquelas duas noites sobre um mesmo mundo. Sobre a mesma cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Uma branca, límpida, ao luar, lá acima. Outra escura e enlameada nas ruas debaixo. E o rumor dos pneus do carro resvalando sobre o asfalto úmido.

O taxista, acompanhando a verve do jornalista. Se põem a sonhar com essa outra noite. Devaneio. Será que existiria mesmo uma outra noite assim? E, ao final, da corrida agradece-lhe, por essa perspectiva – que nem remotamente lhe ocorrera existir, quando só se pensa no aluguel, na caderneta da mercearia, na vida que se tem de ganhar. E agradece-lhe com ênfase. Meio como se o outro a houvesse presenteado. Meio como se o outro lhe houvesse ganho o dia através da descrição daquela outra noite, acima.

Assim é o enredo de uma crônica de Rubem Braga. Me lembro exatamente a primeira ocasião em que a li. Foi em 1975, e eu cursava a sexta série no Colégio General Osório, em Fortaleza. Ela estava em meu livro de Português. Portanto, há milhares de quilômetros e muitos anos de distância daquele registro. Daquela dupla noite sob um mesmo, agudo, olhar.

Passados vinte e seis anos, eu mesmo vivi essa crônica em uma visita ao Rio. Em coincidência, provindo de São Paulo, numa noite límpida, de quase lua plena, acima das nuvens. E lá abaixo – tão logo a aeronave transpôs a barreira de nuvens, e a baía surgiu com a cidade à margem e as montanhas ao fundo – uma segunda noite: lamacenta, aguada e respingando. Uma noite de catorze graus, das mais frias do ano, no Rio. Uma em que todas as minas do Leblon foram aos bares envoltas em pulôveres de gola roulé.

Dando tratos a bola, também pensei em outras colheitas. Como por exemplo, a demasiada necessidade de meus pares poetas de hoje em assuntar somente o desagradável, o sórdido, a escatologia. Será que só isso para falar? Será que neste mundo lamacento e cinza não sobrou sequer uma réstia daquela outra noite, luminosa, acima?

E, uma vez em terra firme, calado, dentro do táxi que me levava para Copacabana, os vidros cerrados sob água, pneus serrilhando o saibro úmido no asfalto, agradeci uma vez mais a Rubem Braga. Por propor-me uma utopia e uma viagem. Com vinte seis anos de antecedência.


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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Deixavam um pouco de suas mãos


George Bellows, Tennis Tournament, 1920



crônica
Chat


Não faz tanto tempo, mas a idéia de conversar na intenet ainda me parecia repelente. Já é árduo bastante conversar pessoalmente. Esticar ao telefone, só por boa conversa ou causa. Cada vez mais raras quando se passa dos quarenta. Mas possível traçar o itinerário que foi bater naquele chat.

Contou o interesse de muitos anos pelo tênis. O talento de Kuerten cimentando tudo. De início, me aborreceu que, noves fora, se conversasse tanto sobre o que não era tênis. E apenas uns poucos avos de toda a fração arengada fossem para os torneios em andamento no verão norte-americano. Gastava-se uma energia enorme só para fazer contato. E outras coisas foram se desvelando. Mas o chat quando muito ainda era sinônimo de chato.

Só aos poucos o caldo foi consistindo. Quando possível perceber que algumas pessoas não passavam. Deixavam um pouco de suas mãos naquelas palavras toscamente largadas sobre a tela luminosa. Largavam um pouco da suave entropia de suas próprias vidas. Do que nelas havia de sujo e luz. De abjeto. De santo.

Ao terceiro dia, completamente rendido aos encantos da conversa eletrônica, me peguei perguntando pelo tempo em Moscou e pela exata localização de um pequena cidade no Minnesotta.

Tive de explicar o significado do termo cabala para uma adolescente australiana. E enviar reportagem geral sobre clubes do futebol brasileiro para um apostador da Romênia.
E assim, comecei.

E vieram os primeiros a me reconhecer. Heidi, a dona de casa holandesa, foi a pioneira. Dave, o aposentado inglês, me disse que havia um cavalo, campeoníssimo do turfe na Inglaterra nos idos de 50, que se chamava Filho da Puta – assim mesmo, em português. E que ele próprio possuía uma foto de Filho da Puta na parede da sala de sua casa, em Bournemouth. Troquei imeios com Gabriela, a fã argentina de Guga que mora em Mendoza e estuda Direito. Lynn, a neozelandesa, possui um tipo de humor frenético e adolescente. E uma jovem dama de Changai me lançou um catálogo de perguntas sobre o Brasil. Lhe surpreendeu e agradou que já houvesse lido Li Bai, Du Fu e Wang Wei, os poetas chineses da dinastia T’Ang. Perto de dormir, certa feita, Lola, de Amsterdam, me cantou na íntegra a bela balada ‘Road Trippin’, dos Red Hot Chili Peppers. Pude ouvir sua voz. A inflexão dela ninando nos meus ouvidos aquela quieta pré-madrugada paulistana.

Havia uma hora que os adolescentes australianos, europeus e americanos se apropriavam da conversa. E era preciso ser hábil para não ferir suscetibilidades. Volta e meia, do modo mais inesperado, sob o pseudônimo de Bueno, um bósnio rasgava o chat ao meio com roldão de tornado e frases de exaltação aos adversários de Kuerten e de agressão contra este. Um polonês lançou mensagens racistas contra jogadores de futebol negros. A sordidez da vida também está presente nos chats.

Mas o melhor é seguir distinguindo as vozes. Quarta-feira e já estava completamente fisgado. Guillermo, o portenho, provocava, dizendo que o que ele podia pegar de bom do Brasil eram dois itens: o sabor da goiabada e el gran Senna. E lhe indaguei:
--E Kuerten?
--Sí, por supuesto. – respondeu.

Uma parte de minha própria rotina começou a passar por ali. E era importante recolher as impressões mais recentes. Havia o jovem americano que recém se profissionalizara e, cheio de receios, seguia para seu primeiro torneio, em Los Angeles. Inseguro e a quem ninguém rendeu muita atenção. E não há nada a indicar que ele não venha a se tornar um novo Agassi.

Havia a cautela dos orientais. E uma enorme suplementaridade de fusos horários. Os europeus gastavam muito tempo com protocolos e cumprimentos: saudações, adeuses. Os americanos – do sul ou do norte, latinos ou saxônicos – iam mais direto ao ponto.

Maravilhado, via o mundo desfiar-se por uma pequena janela dentro da já pequena tela de cristal líquido de meu notebook. E até esquecia de abrir a janela de verdade e espiar o mundo lá fora. Com olhos de terceiro andar. Ou ouvir o vento de agosto trepidando nos caixilhos. Plugava-me ao chat logo após escovar os dentes. Tomava café chatiando. Batendo um papo eletrônico. O chat era o meu próprio e intransferível aleph. Aprendi mais alguns segundos de tênis. Alguns segundos de mundo. Recebi cartas, postais, fotos. Fiz amigos, desafetos. Fiz até amores.

Tudo virtual.

Eta vida besta.


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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Barcos, piladeiras, carrosséis, acrobatas

[s/i/c]



crônica


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Uma prenda amazônica

Há uma palmeira amazônica que se chama meriti. É o mesmo buriti, de tão famoso doce, no Nordeste. Mas, e nem é do doce que pretendo falar. Mas de brinquedos. Brinquedos artesanais. Verdadeiras fantasias feitas com a levíssima madeira desse meriti, como chamam os amazônicos. Pequenas cobras articuladas, barcos, piladeiras, carrosséis, acrobatas. Formas assimétricas, nada industriais. E, por isso mesmo, dessimetricamente medidas e quase perfeitas.
A consistência da madeira do meriti é tão leve que semelha isopor. E qualquer vento brando pode deslocar as peças que se põem à prateleira.
Sobre a minha própria mesa de trabalho, tenho um pequeno barco de meiriti. E ele é uma perfeição. A chaminé e o tirante sobre a coberta são nitidamente em escala maior que o resto da peça. Assim como leme e área do casco são nitidamente menores. Desproporcionais, como assim os concebeu a mão única e o olhar que o fez. Sob a coberta há uma zona rotunda e fechada à popa. Segue-se, então uma delicada amurada que vai até o início do anguloso “v” que enforma a proa. O casco está repintado de um azul esverdeado. Há um friso marrom escuro, em alto relevo. Acima do friso, as laterais se cobrem de um denso verde. A rotunda da popa, graciosamente alta, é de um branco lavado, assim como o “v” da proa. A coberta, à exceção da chaminé e do tirante, é de um vermelho sangüíneo. Um cromatismo de perfeições. E naturalmente ninguém deu lições da versatilidade das cores a quem o fez.
A este tipo de barco amazônico chamam de popopô. Clara onomatopéia que reproduz tão concisamente os trancos do sacolejante motor diesel que o propulsiona em meio a rios e igarapés.
Ganhei meu popopô de uma grande amiga. Uma colega tão talentosa quanto temperamental. Dotada daquele humor hiperbólico, tão comum nas gentes do Norte. E, ainda por cima, misture-se isso tudo com sangue judeu. E até me lembro de andarmos meio estremecidos quando ela, voltando de uma viagem a Belém, me trouxe o cobiçado barquinho que eu lhe havia encomendado. Por conta desse mal-estar passei algum tempo sem aparecer em casa dessa amiga. E, bem depois, soube que, nesse ínterim, o barco foi cobiçado por toda uma claque de paulistas loucos para se apossarem de minha prenda. Mas ela, não obstante a cisma, fez questão de reservá-lo para mim.
Lembro que em Camocim, onde nasci, havia um senso constante de travessia. A travessia para o lado de lá da barra do Rio Coreaú – antigo Rio da Cruz ou Camucim, por onde Vieira desambarcou no rumo das missões jesuíticas da Ibiapaba, quatro séculos se vão. A travessia para margem leste, oposto à da cidade. E àquela região de alvas dunas e denso manguezal se chamava genericamente: o Outro Lado. Como fosse o outro lado do mundo ou do universo. E eu bem sabia que era. Quem habitava o Outro Lado, à época, eram matutos que viviam isolados e vez por outra vinham para “a rua” comerciar ou visitar compadres:
– Aquele mercado de Camocim é o lugar mais bonito do mundo – me confidenciou um deles, em deslumbramento sincero. Concordei com ele com um aceno de cabeça. Isso foi anos depois, quando, infelizmente, eu já era bem menos um camocinense, e fui por lá atrás de escrever uma espécie de reportagem [que depois virou documentário]. E, vejam, já nem achava o mercado o lugar mais fascinante da terra. E até muita televisão já tinha chegado – e com força – no Outro Lado.
O popopô de Camocim – não o chamávamos assim – era o “barco da prefeitura”. E todo um escambo se dava por meio dele. Sisal, galinhas, sal, surrões de feijão, arroz, farinha d'água; batata-doce, milho, melancias. Até porcos e cabritos. E cumpria lá suas vezes de ferryboat. Hoje há pelo menos duas balsas que transportam jipes de tração e até veículos mais pesados.
Mas antes de tudo isso, havia só um certo pescador. Seu nome era Piluca. Traços índios, pele encrostada pelo sol, magro e de porte elegante. O chapéu de palha puída sempre preso ao queixo por um cordame de tucum. Bastante velho. Parecia sair de uma tela de Raimundo Cela. Morava numa pequena casa de fachada azul e ibérica, na cidade – e não na colônia, à Praia das Pedrinhas. Era ele quem fazia as vezes do barco da prefeitura, quando barco da prefeitura ainda não havia.
Saía de madrugada, dia após dia. Fazendo-se ao mar dos ancoradouros junto aos pequenos cais, abertos em vãos, na balaustrada sobre o paredão que guarnecia a cidade das fortes marés de foz de rio. Os trapiches, molhes, a madrugada relentosa e fria. Um senso de dever.
Lembro que meu pai e meu avô tinham uma tácita reverência por esse homem. Uma reverência insinuada, discreta. Dessas que se podem medir por pequenas inflexões de uma voz que não modula fácil. Coisas dos cristãos-novos e açorianos de Camocim.
Seu Piluca morreu mais ou menos aos oitenta e cinco anos. Encontraram seu corpo junto à canoa, num lamaçal de mangue, no Outro Lado. O lado para o qual levou incontáveis gentes, bichos e coisas, ao longo de tantos anos. Como um Caronte. Seu corpo meio atolado na lama, na argila da qual se fez o próprio homem após um sopro. E foi lá, nessa lama, que o acharam, preliminarmente sepultado após uma última travessia.
Por essa época já havia o barco da prefeitura. Mas aquele homem nunca se aposentou. Nunca conheceu descanso. A madrugada sempre o viu partir, à mesma hora, mesmo sem relógio, a fazer a travessia. O senso de missão de homens assim assusta. Pode preencher o vão de uma vida.
Nisso foi o que pensei, quando minha amiga pronunciou pela primeira vez a palavra popopô. Em seu Piluca; no Barco da Prefeitura; na madrugada; nas praias limosas; no manguezal; nos sambaquis; nas alvas dunas; nos seixos do leito do rio sob a límpida água de depois, depois das chuvas, em junho; nos matutos do Outro Lado. E, embora ela viesse da Amazônia, eu do Nordeste, e nos encontrássemos pós-graduando em São Paulo, eu tinha a secreta dimensão do que significava aquela palavra tão logo a ouvi. E desejei a palavra para mim, concretamente, na forma de uma miniatura de barco.
Hoje, ainda está o popopô à bancada de trabalho. Se prossegue sua travessia, agradeço à generosidade de minha amiga. De verdade, nunca fomos mais tão próximos. A vida tem interesses vários. E São Paulo, não se duvide, é uma grande cidade de muitos rostos. E, claro, somos ambos inquietos o suficiente para buscar coisas diversas. Mas um fundo respeito calou em ambas as margens. Algo que pode, a qualquer momento, ser transposto por um brioso popopô. E o bem conformado, pequeno barco, à mesa de trabalho, parece indicar que as amizades, mesmo nos momentos atribulados, devem resguardar um tanto da levíssima textura do meriti.
Nota – crônica originalmente publicada em O Povo (2001) e na extinta revista eletrônica Nariz de Cera (2005)
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sábado, 7 de fevereiro de 2009

A garantia de posteridade: Niemeyer


[s/i/c] Detalhe do Edifício do Congresso Nacional


variedades
Niemeyer, o obelisco e além

Sobre Niemeyer, um comentário de Creeley quando visitou o Memorial da América Latina, que era mais o menos como: “ele deve gostar de plantas em vasos”. De fato, a impressão de Creeley é muito semelhante à de meu pai, quando, certa tarde levei-o até o Memorial para uma apreciação 'in loco' da arquitetura do mestre carioca: um desamor à primeira vista. Diante dos excessos de concreto, a ausência de plantas. Em especial, de árvores. De árvores frondosas, que se debruçassem sobre os edifícios, ou os precedessem em alameda ou alguma simetria ajardinada. Para armar um pára-sol ou quebrar um pouco com o plano que destaca, em excesso, a sinuosidade dos edifícios; e lançar sombras, outras curvas: prover a umidade do zimbro á noite.

70% da população de Brasília se opôs à construção do recente obelisco proposto por Niemeyer. A demonstração indica alguma maturidade da população. A arquitetura de Niemeyer tem algum mérito. E também problemas. Mas todos esses problema seguem cercados de uma virtude: ela esteve tão acerca do poder, em todas suas nuances, que está protegida para a posteridade.

É essa a sua grande virtude: a proteção para a posteridade. É a posteridade que nela encontrará uma beleza que alguns de nós não enxergamos, por idiossincrasias diversas. Porque para o presente, ela parece estar tão distante da árvore, da paisagem. Ela não conjuga-se com natureza. É claro que há a sensualidade curva das linhas, alguma citação do Aleijadinho, etc. As colunas de seus palácios de Brasília, que Joaquim Cardozo ajudou a calcular, são, hoje, clássicos da arquitetura moderna. Emblemas do Brasil.

Mas, no fim, qualquer edifício ou conjunto de edifícios que, neste país, consegue permanecer mais de cinqüenta anos de pé sem alterações significativas na sua estrutura básica (ou mesmo na paisagem de seu entorno), como a Esplanada dos Ministérios, torna-se mais belo.

O tempo empresta uma dignidade ímpar às construções mais estranhas. Como aquele mausoléu de família erguido quase à entrada de Pacoti, na Serra de Guaramiranga, que, por se estender a ambos os flancos da via, acaba estreitando a estrada. Há qualquer coisa de fantasmático ali. Um dia, Brasília se povoará dessa fantasmagoria. Mas isso é para quando não estivermos mais aqui. Para a geração dos netos de nossos netos.

A beleza que se divisa agora, será bem mais ampla no futuro. A transparente beleza dos palácios brasilienses. Como caixas de cristal vazadas de sol.

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Bíblia e Botânica na Solene Madrugada em Estio


[s/i/c]


crônica

O Enigma de Gofer

Hoje de madrugada, esperando que caísse chuva para ficar ainda mais feliz, relia o Gênesis na King James Version – o monumento maior da prosa em inglês. Num determinado passo, estaquei. Trata-se do momento em que o Senhor repassa a Noé instruções de como construir uma arca:
"Make thee an ark of gopher wood; rooms shalt thou make in the ark, and shalt pitch it within and without with pitch".
[Gênesis, 6, 14]
Na tradução do português João Ferreira de Almeida, do sec. XVIII, a primeira feita a partir dos idiomas originais:
Faze para ti uma arca da madeira de gofer; farás compartimentos na arca e a betumarás por dentro e por fora com betume”.
Fiquei curioso para saber que árvore era essa: “gofer”. Consultei tudo que foi dicionário. A coisa mais próxima a que cheguei foi no Houaiss, que registra:
gofé: n substantivo masculino Rubrica: angiospermas. Regionalismo: São Tomé e Príncipe. m.q. musanga (Musanga cecropioides).

E, por seu turno:

mussanga: n substantivo feminino Rubrica: angiospermas. 1 design. comum às plantas do gên. Musanga, da fam. das cecropiáceas, que reúne duas spp., nativas de regiões tropicais da África e cultivadas como ornamentais 1.1 árvore que atinge mais de 20 m (Musanga cecropioides), da fam. das cecropiáceas, com raízes adventícias e copa larga, madeira leve e resistente, folhas grandes, suborbiculares, com até 15 lobos, flores dióicas e frutos sincárpicos, amarelo-esverdeados, doces, muito procurados pela fauna; gofé (STP), nesanga (ANG), oeduema.

Terá sido essa árvore, só conhecida onde há língua portuguesa como gofé, no pequeno arquipélago de São Tomé e Príncipe (e em Angola sob o nome de “nesanga”) a que forneceu a resistente madeira para a arca? Será possível que vivendo no país das árvores, que tem árvore até no nome, não haja um só pé de gofé aqui pela Aldeota?
Fosse Câmara Cascudo ainda vivo, tiraria minha dúvida rapidinho. Era só lhe passar um imeio. Mas não. Não é assim. O mestre potiguar morreu há 23 anos. E, se fosse vivo, provavelmente não faria uso das infovias... Embora, com certeza, me confirmaria na lata se gofé é gofer. Por outro hemisfério, a Terra Santa não fica em climas tropicais ou subtropicais. Como São Tomé e Príncipe ou Angola. É um pouco desértica, verdade. Mas às vezes até neva por lá... Será que a "gofé" de São Tomé é a "gofer" das Escrituras? Só vendo para crer...
São cinco para as quatro da madruga. Pensando melhor, ainda bem que a chuva ainda não chegou. Os serviços de meteorologia melhoraram de uns tempos para cá. Mas ainda não são confiáveis. E nada há que garanta que, uma vez começada, a chuva não se estenda por quarenta dias e quarenta noites. Seria o suficiente para cobrir, brincando, duas ou mais torres do Canal Dez. Não há estrelas no céu. Um galo cantou avulso num dos quintais, cada vez mais avulsos, da vizinhança. Os bem-te-vis ameaçam trilos desirmanados.
E ainda estou longe de decifrar em definitivo o enigma de gofer.

[05.02.09]
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Outras travessuras e travessias: Lúcio Ricardo


[s/i/c]



ainda blues
Re-Perfume Azul e Performance Que Promete

Falar em blues, bom saber, pelo Caderno 3 de hoje, que uma das legendas do gênero por aqui, Lúcio Ricardo, da geração da mítica banda Perfume Azul, sobe a serra durante o Carnaval, para o festiva de Guaramiranga.

Lúcio, com seu clássico timbre grave, sua aura de maldito, hippie de época e mochila em prontidão, desfiará seu talento no alto da serra. Com alguma madeixa a menos na cabeça, é verdade – mas com outras travessuras e travessias a mais – o vocalista promete aprontar das suas. Da matéria do Caderno 3, aliás, a generosidade de um comentário do bluesman: “Mas eu me sinto bem, porque passei todos esses anos sem fazer média, sem ser apadrinhado por ninguém, e mesmo assim meu trabalho é elogiado pelas pessoas mais maravilhosas do Ceará. Eu posso reclamar de alguma coisa?”


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Going Down Slow: Duane Allman


[s/i/c]


blues

Disputas, Desafios, Solos e Senhorias da Tristeza


E os apreciadores de rythm'n'blues com tendência mais pop disputam: qual o melhor guitarrista: Hendrix ou Clapton?

É como escolher entre Heródoto ou Tucídides; Platão ou Aristóteles; Santo Agostinho ou Santo Tomás; Dante ou Shakespeare; Michelangelo ou Leonardo; Bresson ou Rohmer; Chuck Jones ou Friz Freleng, Coltrane ou Miles; Lennon ou MacCartney... A parada é dura.

E o mais interessante: há sempre um terceiro excluído que se aproxima, assim como quem não quer nada. Mas, em determinados momentos, quer vingar tudo - no mais nobre sentido do verbo [pensem no George Harrison, que em seus últimos tempos com o grupo e em seus primeiros trabalhos solos era o que estava melhor fazendo as coisas].

Então, quanto a dúvida inicial – Hendrix, Clapton – se põe, penso sempre em Duane Allman. Por várias razões. Por ser de lá. Ou seja, da terra do "choro" deles, das nostalgias azuis. Do Deep South. Por ter aprimorado a técnica do slide como ninguém. E por nos ter legado performances como esta, onde a música flui junto com um bocado de silêncio e vento nas cerdas de algodão sob um sol indiferente:


http://www.youtube.com/watch?v=QkFOBZRAbMU


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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Jornalismo, varizes mentais e folhaderivados


[s/i/c]



falta do que fazer
Fazer vôlei, jogar filme



Hoje, na principal chamada com foto do caderno de variedades da Folha Online:


Ator Tom Cruise diz que gostaria de voltar ao Brasil para fazer um filme e jogar vôlei”.


Certo. E daí?


O que sai postado nesses cadernos de variedades digitais dá varizes no cérebro. Faz lembrar uma frase que é mais ou menos de Frank Zappa: "Hoje, jornalismo cultural é gente que não sabe escrever entrevistando gente que não sabe falar para gente que não sabe ler".



Nota - aliás, não há como encontrar jornal mais kitschemente criativo na escolha de seus cadernos e derivados do que a Folha de São Paulo: Publifolha, Datafolha, Folha Online, Folhashop. Além desse prodígio que se chama Folhateen - e que rendeu um comentário bastante jocoso de Tom Zé, um tempo atrás. Será que vai alguma influência de poesia concreta aí? Daqui uns dias, e eles lançam de brinde um kit de acessórios para enólogos.

E o nomeiam de Sacafolha.


Agora, se o kit for de acessórios eróticos, será o Pubisfolha.


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Cegos demais para sair da paróquia


[s/i/c]



micro-ensaio

Das ameaças gnósticas em arte


Pode-se tomar a música de vanguarda para compreender como o artista contemporâneo voltou-se para um especialismo que encontra apenas num contingente de iniciados o seu público. Ou seja, um público mais amplo é mantido ex-officio de seu trabalho. E é daqui que é possível retirar o quanto um suposto vanguardismo árido tem dominado certas esferas de arte. E que o principal problema desse vanguardismo é o de não manter mais contato com a realidade ao se isolar em códigos que só podem ser compartidos por um grupo extremamente restrito. Não se trata mais de uma arte desumanizada à Ortega y Gasset. Trata-se de uma arte inteiramente desencarnada. E por isolamento.

Tudo que começa a se tornar muito endógeno, conduz a uma espécie de gnosticismo. Algo para iniciados. Não trata a obra com emoliência, generosidade, flexibilidade necessárias para que esta se comprometa, de fato, com uma audiência mais ampla, capaz de nela se reconhecer. E logo, não visa, ao menos em alusão, o todo. E visando apenas o fragmento esotérico, partilhado apenas pelo bando, não mais visa o real.

Eis um grande problema para quem lida com arte, com criação, hoje em dia. Na medida em que se segue encerrado, sectariamente, num grupelho desses, a tendência do artista é a de pensar que todos estão aptos a fruir um discurso que, por suas próprias limitações, não pode transluzir as idiossincrasias de cada um dos componentes do grupo. Mesmo quando somadas. Algo que não faz sentido para além do grupo. Para além de seus códigos. Está aprisionado, sem volta, a esse grupo. E, claro, no fim de tudo, o que se perde é uma das melhores capacidades que um artista ou um grupo de artistas pode ter: empatia.

Empatia é tudo que se abre para além da conversa viciada e sectária que caracteriza um grupo de qualquer modalidade. Em especial, um que se encontra excessivamente sequioso por reconhecimento, ou excessivamente fascinado por sua própria produção de discurso ou alcance de poder. E essa limitação se instala, porque não se percebe que se está trabalhando em uma espécie de cápsula, de mônada teórica, perfeitamente inadequada para traduzir realidade. Porque se está dentro de uma bolha solipsista cuja membrana não trisca em limiar algum da realidade histórica contingente, mutável. É como se os pensamentos estivessem, para sempre, recolhidos ao curral do próprio crânio.

Sem idéias capazes de enganchar suas premissas num cotidiano mais amplo, povoado também por não-artistas, não se vai longe. E, então, mesmo quando o grupo alardeia um maior teor cosmopolita, seus integrantes já se encontram cegos demais para perceber o quão estão encerrados nas paróquias de seus próprios conceitos e procedimentos, como sementes que permanecerão para sempre encravadas na polpa de frutas que sazonarão antes do desfrute.


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Ao verter a borra de vinho branco no vaso de gerânios: de novo um necrológio de frase só


[s/i/c]


variedades
Na eterna luz à sestra


"Her gesture as she tips the dregs of white wine into a potted geranium seems infinite, like one of Vermeer's moments frozen in an eternal light from the left.

John Updike


"Seu gesto ao verter a borra de vinho branco no vaso de gerânios parece infinito, feito um dos instantes congelados por Veermer na eterna luz à sestra".


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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

São Paulo, gastronomia, romance e apartação social


Taumaturgo Ferreira, São Paulo, 2005


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resenha
Cidade do Sol com Helicópteros

Heliopolis
por James Scudamore
Harvill Secker, 288 ps., £12.99


Parece que recentes evidências desmentem o que escrevi há só dois meses atrás aqui por Afetivagem:

Quando se sabe que o episódio de Canudos foi assunto tanto de A Primeira Veste (1975), do georgiano Guram Dochanashvili; de Veredicto em Canudos, de Sándor Marai; quanto de A Guerra do Fim do Mundo, de Vargas Llosa: alguém lembra de São Paulo haver sido o tema de um único grande romance escrito por um importante prosador contemporâneo estrangeiro? Não se pode dizer que o livro de Llosa excede. [Mas aqui me prendo expressamente ao interesse pelo assunto, ao seu poder de canto e sereia, sedução]. Ou seja, a ironia: Canudos, no tórrido Sertão do Nordeste, um povoado de presumíveis 20.000 habitantes, varrido do mapa há mais de cem anos pela artilharia de uma república recém-proclamada, fascina mais a imaginação de ficcionistas que a grandiosidade épica, cinza e pós-moderna de São Paulo. E o quanto disso não se deve a um livro. E um livro que era "o livro" brasileiro favorito de ninguém menos que Jorge Luis Borges.

Mas quando o desmentido vale a pena, porque a alma passa ao largo do mesquinho, tudo converge.Vamos  a ele.
Foi lançado, neste início de 2009, pelo escritor inglês James Scudamore, [ainda sem tradução para o português] Heliopolis, seu segundo romance. E um romance que, muito ironicamente em relação a nossa afirmativa, toma São Paulo como sua grande personagem. Especialmente com esplêndidas descrições da cidade. E, como não poderia deixar de ser, da partição social que a caracteriza. Estampas em palavra movidas pela desproporção urbana que é São Paulo. Por sua imensa variedade humana e diversidade gastronômica – a referência à gastronomia, aliás, é sempre uma constante do livro. Pelos fascínios, entre outros e enfim, de Sampa ser, talvez, a megalópole contemporânea com a maior frota de helicópteros a cruzar diuturnamente seus horizontes cinzas e encardidos, transportando de um para outro heliporto sua elite podre de rica.
Um dos ricaços do livro chega mesmo a dizer: “it’s not just a question of safety … nobody who’s anybody gets driven to work in the city these days” [“não é só uma questão de segurança... alguém que é alguém não segue para o trabalho de carro no centro hoje em dia”].
A trama do romance, no entanto, é relativamente simples. Um menino da favela Heliópolis, Ludo dos Santos, vê-se adotado, um tanto fortuitamente, por um mega-empresário da área de supermercados. Isso se dá quando a mãe de Ludo, uma quituteira de mão cheia, é recrutada pelo empresário, Zé Fischer Carnicelli – o Zé Generoso – para trabalhar na cozinha de sua fazenda, no interior de São Paulo. Ludo cresce, assim, num ambiente antípoda ao de sua infância na favela.
Quando adulto, é levado de volta à metrópole e lhe é dado um posto de destaque na agência de publicidade que veicula os interesses de seu benfeitor. Carnicelli está interessado sobretudo na perspicácia de Ludo. Na sua potencialidade de vender produtos que possam entrar nas favelas com grande aceitação. Tudo calcado, naturalmente, no próprio conhecimento de causa acumulado por Ludo, quando garoto, nos becos de Heliópolis. A prioridade máxima, aqui e naturalmente, é para o que vende, a despeito de utilidades ou das necessidades mais simples.
Mas as coisas não saem tão simples assim nos planos do mega-empresário para seu quase filho adotivo. Ludo acaba apaixonando-se pela filha do próprio Carnicelli, Melissa, com quem mantém um atribulado romance adúltero onde o risco entra como especiaria prezada. Ludo chega, por exemplo, a modificar os arquivos pessoais, documentos e cartas armazenados na memória do computador do marido de Melissa. A mãe desta, Rebecca, frívola e pragmática, como boa socialite, está mais interessada em tudo que não seja afeto verdadeiro. E, por seu turno, a agência de publicidade em que Ludo trabalha incorpora elementos de um novo-riquismo tipicamente kitsch, como uma bancada de trabalho cujo tampo é, na verdade, a asa de um bombardeiro americano da época da Guerra do Vietnã.
Mas talvez essa asa, além de signo da futilidade do mundo publicitário, também siga como metáfora da própria personalidade auto-destrutiva de Ludo, que segue atormentado pela incapacidade de conciliar a miséria de sua infância e a opulência da endinheirada elite paulistana de seu métier. Além disso, o relacionamento com Melissa, sua irmã de criação, pode ser caracterizado quase como um tabu incestuoso, causando-lhe ao mesmo tempo uma sensação de culpabilidade e uma moção de vingança contra a figura de seu “benfeitor” e de sua classe adotiva. Melissa, de resto, também o atormenta com toda um repertório de condições, caprichos e volubilidades típicos da menina rica que namora o rapaz de extração pobre. Aqui, o paralelo que se pode traçar é com a paradigmática figura de Estella, presente em Grandes Esperanças [Great Expectations], de Dickens.
Mas as semelhanças com Dickens não se esgotam aí. Como em Dickens, a trama é menor que a atmosfera instalada. O enredo, sem embargo, possui em largos traços algo de folhetim. Poderia ser bom argumento para uma novela das oito. No entanto, o livro surpreende em vários aspectos. E, em especial, nas pulsantes descrições da cidade de São Paulo. Por vezes, como espaço semelhante ao visto na Guerra do Vietnã, dependendo da perspectiva de se estar num helicóptero ou no rés-do-chão – fato para qual não se apontou até aqui nas recensões sobre o livro.
Deve-se notar também o quanto, até no próprio título de seu romance, Scudamore está em débito com o cinema brasileiro. Afinal, em sua história recente a favela tem sido uma locação de destaque: Central do Brasil, Notícias de Uma Guerra Particular, Cidade de Deus, Tropa de Elite, entre tantos outros. Muito mais do que a literatura e, nos últimos tempos, até mesmo do que a música popular, é o cinema brasileiro quem tem contribuído decisivamente para a construção de um imaginário de país fora do Brasil. E, claro, filmes ambientados em favela constituem hoje, por si, quase um gênero a parte.
Há também muito a se contestar quanto a plausibilidade histórica do Heliopolis de Skudamore. A favela brasileira, por exemplo é de um dinamismo extravagante. Difícil crer que alguém que só viveu durante a infância na favela, caso de Ludo, possa ainda dominar os códigos de uma comunidade tão dinâmica assim já na idade adulta.
Até a década de 70, as favelas eram controladas por contraventores e nos davam sambistas como Cartola. Hoje, são controladas por traficantes de drogas que se sucedem um ao outro em vertiginosa alternância de mando, por conta da endêmica e concentrada violência. Traficantes que, por vezes, toleram que se implantem ONG's, geralmente geridas com certo grau de ingenuidade e paternalismo por estrangeiros ou gente de classe-média. E na música, quando muito, as favelas atuais nos legam rapers de quinta categoria.
Porém se o Heliopolis de Scudamore está ainda longe de ser um romance definitivo, escrito por um ficcionista estrangeiro, sobre a sombria apartação social brasileira, que encontra em São Paulo sua mais meticulosa tradução, consegue em larga medida ser menos idílico, exótico ou fantasista que obras como o Brazil, de John Updike ou Negão e Doralice do canadense de expressão francesa [na verdade, brasileiro naturalizado canadense] Sérgio Kokis.
E isso não é pouco. Especialmente quando se tem em conta que o romance é narrado na primeira pessoa por um protagonista que sai dos becos de Heliópolis para o sobrevôo cotidiano em que a elite paulista entrevê, com a devida distância, a paisagem social que comanda com a cupidez típica dos feitores.
[02.02.09]
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Fímbrias de cega luz varrendo os aposentos


[s/i/c]



crônica

Raios, raios duplos


Desde a infância poucas coisas – aviões à parte – me metem tanto medo quanto raios. Não aqueles relâmpagos distantes a que correspondem, depois de longos segundos, trovões abafados. Esses são aprazíveis, e até ajudam a dormir se já se está no aconchego da cama. Mas aqueles instantâneos, em que luz e som assomam em simultâneo, e partem a noite em duas com grande voragem. Aqueles que caem com aparato e Zeus, no perímetro do quarteirão.

Desconfio que a casa onde moro atualmente está fora da área de proteção dos pára-raios circunvizinhos. No quarteirão, há apenas um prédio de oito andares e fica quase na esquina oposta. Certa vez li que o perímetro de ação dos pára-raios equivale ao dobro de sua altura. Em geral, não gosto de prédios altos. Mas, em noites de trovoadas muito rentes, como e com que fervor desejo que àquele prédio se acresçam pelo menos mais uns dezessete andares. Ou que nossa casa resvale para mais junto como uma criança desprotegida.

Em 1975, em Camocim, no entrecho das férias de julho, presenciei a maior tempestade de que me lembro. Muita fúria no vento. E raios, muitos raios, raios duplos caindo em toda volta. Estávamos em casa de minha avó, que morava numa espécie de chácara. A mesma avó paterna que me iniciou nos mistérios da religião e no horror ao inferno. Ela, apesar de ser uma brava mulher, é a pessoa que mais teme raios que já tive oportunidade de conhecer. Acho que os teme meio com se fossem chispas do inferno.

Diante de seu pavor, meu medo de raios não passa de um receio pueril, sem vigor algum. E naquela noite houve uma tal descarga elétrica que assustaria até John Wayne e toda a tribo dos comanches. Trovões sob trovões. O diabo. Fímbrias de cega luz varrendo os aposentos. Não em larga intermitência, mas caindo como gostas de chuva. Muito rentes uns dos outros. Artilharias da Primeira Guerra.

Alguns quartos da casa – inclusive o que eu ocupava – não eram forrados o que fazia com que a luz coasse com mais intensidade para dentro. E alumiasse até a alma. E fizesse um raio-x dos medos.

Deitados em nossas redes, eu e um primo – ambos em férias escolares.

Meu primo não demonstrava qualquer receio diante da épica tempestade. Uma lástima, já que eu, um ano mais velho, numa época em que isso conta muito, não só não tinha com quem dividir meu pânico, mas ainda devia mostrar-me menos atemorizado do que ele. E ele puxava assunto de sua rede. Falava do futebol que jogaríamos, com a nova bola de salão, quando tornássemos a Fortaleza. Da filha do proprietário do serviço de auto-falantes. De pegar carretilha nas ondas da Praia das Barreiras. Bons temas quando se tem catorze anos. Mas não para aquela noite de incêndio no céu e raios duplos.

A certa altura, uma lamparina passou-se em débil luz pelas frinchas da porta e alguém golpeou-a. Era minha avó. Havia passado de quarto em quarto recrutando todos os netos que se encontravam em férias. Éramos cerca de seis ou sete. Reuniu-nos ao pé de si, em seu quarto. Em trincheira. Nesse comenos, a trovoada chegava a seu auge. E todos nós ali, em torno do terço, debulhando ave-marias.

Então, um clarão mais luz que a do sol varreu o quarto em estrondo, puxando suspiros entre dentes até dos mais comedidos. Mas o tal primo que dividia o quarto comigo não perdeu a vez:

Bom, né, Vó, que a gente fique junto, porque se o próximo cair aqui no quarto, não vai sobrar um pra contar a história. Vai todo mundo junto pro Céu.

A censura só não foi maior do que o riso.

A serventia do humor também traduz-se em coragem, e é prece.

No dia seguinte, constatamos que uma faísca havia ceifado o olho de um dos coqueiros mais altos da chácara.



Nota - crônica originalmente publicada em O Povo [2004] e, posteriormente, na extinta revista eletrônica Nariz de Cera, em 2006.


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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Multiculturalismo: inseguranças & angústias


[s/i/c]



Sobre o outro grande irmão do Norte



O Canadá é multicultural. Isso independe de gostos ou comissões. Há três modos de integrar os imigrantes: i. o 'melting pot' americano; ii. o republicanismo francês; iii. o multiculturalismo canadense. Os dois primeiros assimilam os imigrantes à cultura majoritária. O multiculturalismo faz da diversidade a cultura majoritária.

[Pierre
Foglia, jornalista de La Presse, Montreal]


Comentário: a assertiva de Foglia é na mosca. O problema, contudo, é que dificilmente se encontram pessoas tão inseguras e um tanto angustiadas em relação à sua própria cultura quanto os canadenses. Talvez porque esse propalado "multiculturalismo" seja insuficiente para gerar a necessária confiança nos valores da sociedade em que se está posto - inclusive (e principalmente) no plano cultural. Ou seja, naquele que fornece a grande narrativa que justifica a coesão de um povo em nação.


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