domingo, 1 de fevereiro de 2009

Favor, não andar sobre seus passos


Estêvão Sales, 2008




Não utilizeis as calçadas, porque elas são do Reino... de quem mesmo?


“Fortaleza é uma cidade que comemora mais de 280 anos e, se tiver 100, tem muito”.

[Nirez]




Este, digamos, insólito aviso, encontra-se no Centro de Fortaleza. Cruzamento das ruas Floriano Peixoto e Dr. João Moreira, ali nas imediações do antigo Mercado. E talvez repasse, um pouco, por contraposição radical, todo o senso de hospitalidade que é devotado pelo povo cearense, não ao turista ou ao forasteiro, mas a si próprio. Afinal, como rezam os Evangelhos, ninguém é profeta em sua própria terra. Ou, adaptando a assertiva: ninguém pode andar tranquilamente pelas calçadas da própria aldeia.

Em verdade, no benefício da dúvida, suspeita-se que o aviso haja sido escrito para os diversos caminhões e automóveis que insistem em circular numa área tão exígua, estacionando sobre as calçadas.

Mas, convenhamos, isto não está nada claro no anúncio.



* * *

Inocente de ampliar as florestas do céu: Baquero


Dorothea Lange, 1936




Canción para David Moreno


Alegre como perro de pobre,
Evangelina comía ciruelas;
comía ciruelas,
ciruelas.

Arrojaba los cuescos a lo alto
y ninguno volvía a la tierra.
Luego en los jardines de allá arriba
aparecían brillantes cestos de ciruelas,
verdes ramazones de ciruelas,
y después rojos puntos de ciruelas.

Inocente de ampliar las forestas del cielo,
Evangelina comía ciruelas y ciruelas;
arrojaba los cuescos a lo alto,
ninguno regresaba a la tierra,
pero ella no veía sus milagros.

Y corría por los valles del Mississippi,
alegre como perro de pobre,
mientras comía ciruelas
y ciruelas.

[1959]

Gastón Baquero



Canção para David Moreno



Feliz como cachorro de pobre,
Evangelina comia ameixas;
comia ameixas;
ameixas.

Arrojava as cascas ao alto
e nenhuma volvia à terra.
Logo nos jardins de mais acima
apareciam brilhantes cestos de ameixas,
verdes ramagens de ameixas,
e depois pontos tintos de ameixas.

Inocente de ampliar as florestas do céu,
Evangelina comia ameixas e ameixas;
arrojava as cascas ao alto,
nenhuma volvia à terra,
mas ela não via seus milagres.

E corria pelos vales do Mississippi,
feliz como cachorro de pobre,
enquanto comia ameixas
e ameixas.

[1959]





Nota – a poesia do cubano Gastón Baquero me foi apresentada pelo amigo e editor Francisco dos Santos. Pela Lumme Editor, Santos, em breve, editará uma coletânea de Baquero com tradução coletiva que envolve nomes como os de Wilson Bueno, Ronald Polito, Josely Vianna Baptista, Claudio Daniel, Rodrigo Garcia Lopes, Eduardo Jorge Oliveira, além de uma pequena contribuição nossa.

* * *

O tempo prega, desprega entre nós: Davie


[s/i/c]


Time passing, beloved


Time passing, and the memories of love

Coming back to me, carissima, no more mockingly

Than ever before; time passing, unslackening,

Unhastening, steadily; and no more

Bitterly, beloved, the memories of love

Coming into the shore.


How will it end? Time passing and our passages of love

As ever, beloved, blind

As ever before; time binding, unbinding

About us; and yet to remember

Never less chastening, nor the flame of love

Less like an amber.


What will become of us? Time

Passing, beloved, and we in a sealed

Assurance unassailed

By memory. How can it end,

This siege of a shore that no misgivings have steeled,

No doubts defend?


Donald Davie



O tempo passa, querida


O tempo passa, e as lembranças do amor

Tornando a mim, carissima, não menos derrisoriamente

que de uso, o tempo passa, insatisfatoriamente,

sem pressa, estável; e não mais

acres, querida, as lembranças do amor

Tornando ao cais.


Como terá fim? O tempo passa e nossas passagens de amor

como sempre, querida, cegas

mais que nunca; o tempo prega, desprega

entre nós; e ainda para o que não defasa

em falsa castidade, a chama do amor acesa

ainda feito brasa.


O que será de nós? O tempo

passa, querida, e nós num selado

argumento insitiado

pela memória. Como se prende,

Esse cerco de uma margem que receio algum tornou emperrado

E nenhuma dúvida defende?




Nota - 'carissima' [v.2 1ªe], segue não acentudado em português, porque originalmente uma menção ao termo em italiano no original de Davie.



Para cada Gide, dez Baudrillards


Susan Sontag em 1966 - [s/i/c]



Contra a Cordialidade


Para a cordialidade do resenhismo acrítico – que, com honrosas exceções, grassa como praga nos suplementos de cultura e segundos-cadernos – algo no limiar destas palavras:


“Há homens que trabalham oito horas por dia e fazem o grande esforço de ler à noite para se instruírem. Não podem dedicar-se à verificação nas grandes bibliotecas. Acreditam na palavra do livro. Não se tem o direito de lhes dar de comer falsidade.”
[Simone Weil, trad. de Maria Leonor Ribeiro]

“O número de pessoas que deram aos intelectuais sua boa reputação de criadores de caso e de vozes da consciência sempre foi reduzido. Os intelectuais que assumem posições com responsabilidade e se põem em ação em favor daquilo que acreditam (em oposição a pôr sua assinatura em abaixo-assinados) são muito menos comuns que os intelectuais que assumem posições públicas em estado de consciente má-fé ou de ignorância descarada acerca do que estão defendendo: para cada André Gide, George Orwell, Norberto Bobbio, Andrei Sakharov ou Adam Michnik, há dez Romain Rolland, Iliá Erenburg, Jean Baudrillard ou Peter Handke, etc., etc. Mas poderia ser de outro modo?
[Susan Sontag, trad. de Rubens Figueiredo]


A fome de verdade de Weil. A declinação de nomes com todas as letras e pingos nos is, de Sontag. Ambas ensinam-nos a não nos nutrir de qualquer respeito à cordialidade buarqueana das trocas de favores. Ou à certa obliqüidade, que sequer sabe extrair desse expediente algum bom-humor, mas está mais ocupada em fortificar as trincheiras de Narcisópolis. E por meio de um apreço devotado não à arte, mas ao poder e a estratégia de alastrar um bocadinho de espaço na mídia.

sábado, 31 de janeiro de 2009

O alcance cosmopolita e ventriloquias


[s/i/c]




Essa idéia forte: verter


Se de fato houvesse algo de específico em literatura em termos de gênero, seria, a rigor, um problema para uma tradutora traduzir um poeta. Ou para um tradutor traduzir uma romancista. No entanto, esse problema, como bem sabemos, não há. E não só para gêneros, como também para etnias ou mesmo culturas mais deliciosamente regionalizadas e específicas. Um negro pode traduzir um branco. Ou um japonês, um mestiço. Um homossexual, um heterossexual. O mais recente tradutor de Dostoiévski para o português é um paraibano. No reino da tradução é onde se percebe ainda melhor o alcance cosmopolita da literatura.

Pois há uma forte idéia que preside a tarefa de traduzir: a da empatia. A de dar voz ao outro. Uma espécie de ventroloquia com régua, compasso. Porque o títere já emite uma voz mais ampla que a do ventríloco. Uma voz cheia de ressonâncias.

E um coração.



Pedofilia em código



[s/i/c]



Semiótica da Pedofilia


Ainda em 2008, o FBI divulgou um pormenorizado estudo sobre pedofilia. Um dos aspectos mais grotescos do estudo, trata da revelação de certa simbologia usada em código pelos pedófilos, em prosaicas jóias e adornos de uso cotidiano, para se reconhecerem entre si.

Em geral, essas jóias – anéis, pingentes, brincos, moedas – tentam repassar a idéia de um um signo menor inscrito em um maior. Por exemplo, todos os símbolos expostos nas ilustrações acima, repassam essa idéia: um triângulo contido em outro, um coração dentro de outro mais amplo, etc. São exemplos recorrentes dessa simbologia.

Obviamente, isso não significa que todos os que portam jóias desse tipo são automaticamente pedófilos. Mas não deixa de ser um sinal de alerta. Ou um indício.

Para maiores esclarecimentos sobre o uso da simbologia pedófila [em inglês]:

[https://secure.wikileaks.org/leak/FBI-pedophile-symbols.pdf]

De outro modo, desde que esses símbolos se publicizam não se sabe bem até que ponto isso não acaba estimulando os próprios pedófilos a renovarem seus códigos.



Um Povo Que Tomava Banho de Maconha


[s/i/c]


Um Vapor Tal Qual Igual Não Há Na Grécia Ou Para Lá De Bagdá


Certamente este é um dos primeiros registros da erva de que se tem notícia no Ocidente:


"Os citas rastejam para uma estrutura em tenda, e jogam as sementes de cannabis sobre um borralho de pedras em fogo. Quando as sementes acertam as pedras, produzem fumaça e desprendem um vapor tal que não há igual em nenhuma sauna ou banho público na Grécia. Os citas uivam, mesmerizam-se e extasiam-se com o vapor. Isso equivale a um banho, uma vez que eles não fazem uso de água, de forma alguma, para banhar-se".


[Heródoto, As Histórias, sec. V a.C. – traduzido da versão para o inglês de Robin Waterfield, Oxford, 1998]




sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Ela, sim, é luxo só: Fátima Santos


Fátima Santos em foto de Augusto Cesar Costa, c. 2007




Para quem ela não é nada cenário



Outra noite, passei no Bebedouro para uma conversa, uma cerva e uma sinuca. Quem estava lá era Fátima Santos. Sozinha, no intervalo do set, sentada numa mesa à varanda, ela folheava um grande álbum com dezenas de letras de canções. Até então conhecia Fátima só de vista. De voz, seria melhor dizer.

Na noite quente de dezembro, decidi quebrar o gelo, e me apresentar. E ficamos proseando e bebendo cerveja. Ela fumava cigarros extra-longos com dedos extra-longos e unhas extra-longas repintadas de vermelho. Envergava uma blusa branca de estampas pretas, uma saia jeans e pingentes. Calçava sandálias leves, de couro. Sou um fã de carteirinha de Fátima. E a custo consegui dissimular minha admiração por esta que é uma de nossas melhores cantoras.

Fátima me disse que é de Áries. Mas, tenho para mim, que ela vem mesmo é da constelação de Áries. Ou seja, que é literalmente d’outro planeta. Ela porta uma expressão forte. De gente que bota banca. E que bem tem lá seu direito de botar banca. Acho Fátima o oposto do maneirismo que encontramos entre muito artista com nome por aí. E é um atraso que ela ainda não tenha tido a ocasião de entrar em estúdio e registrar seu timbre raro, de contralto.

Falamos a respeito. E ela me disse de seu apreço pelo trabalho de Fausto Nilo. Falamos de amigos comuns. E lembro-me de haver comentado algo sobre exposição. Sobre a desnudez de quem canta. Claro, nas brigas de saloon a cantora está muito mais exposta que o sujeito ao piano. E fiquei surpreso, de ouvir daquela mulher de traços fortes algo sobre ansiedades, medos, tensões. Mas logo Carlinhos Patriolino reassumiu o violão, e puxou na cravelha a afinação do ré. Hora de cantar. E fiz menção de me retirar.

Porém Fátima insistiu para que eu ficasse. E seguiu cantando, sentada na cadeira, do lado de lá da mesa, com a naturalidade de quem conversa o jogo. E pude presenciar, ao alcance de um toque, toda sua técnica. O modo como ela maneja o microfone, meio como se o microfone fosse um instrumento musical, sempre graduando a distância exata para a emissão de sua voz, acobreada, de contralto. O microfone como calibração de fluxo:

─“Olha, esta mulata quando dança é luxo só...”

Também ouvi outras coisas que ela não cantou nem disse. Mas estavam ali. Anos e anos de noite. Apresentando-se para gente que, em geral, não tem a menor dimensão de sua arte. Para quem ela é tão cenário quanto uma palmeira-anã num vaso, a um canto da varanda. Ou o aprendizado intuitivo que, ao longo de anos, transformou essa menina do subúrbio em nossa grande dama da canção. E que todos esses anos para Fátima não foram mais do que um piscar de olhos. Porque, claro, nela o talento está tão evidente.

Hoje em dia, se tem o costume de pensar arte como uma espécie de terapia ocupacional. Algo ao alcance de todos e para a felicidade geral da nação. E, em geral, se esquece que além de paciência, técnica, e um coração que chega ser quase tão grande quanto o mundo, é preciso talento.

A noite refrescou um tanto. A agradável atmosfera de dezembro parecia girar em espiral sobre a Norvinda Pires. Um meia-lua firmou-se acima de uma cumeeira, do outro lado da rua. Entre uma canção e outra ouvia-se o entrechoque de bolas de sinuca.

E Fátima seguiu cantando.






Nota - esta crônica foi originalmente publicada em Nariz de Cera, 2006. Da época que este texto foi escrito para cá, Fátima, não sei se pela mesma numerologia esotérica que fez com que Jorge Ben incorporasse o "Jor" ao nome, agregou um "h" a seu pré-nome: Fhátima.

Dos aplausos ao solo de trompa e os desideratos do poder


[s/i/c]




Sete Vezes Sete Mais

Era uma vez uma orquestra sinfônica. Toda orquestra, a mais harmônica das associações humanas, se compõe de rígidas hierarquias. Há o pessoal dos bastidores, os copistas, os concertinos, os chefes de naipes, os solistas, o spalla, o maestro. Essas hierarquias vêm de longe. E, se não fosse por elas, como num bem-humorado filme de Fellini, a música que a orquestra produz não se faria.
Mas há que diferençar algo: a paixão que se tem pela arte, da paixão que se tem pelo poder que a arte gera.

Nessa orquestra, havia um trompista. O spalla das trompas. A cada vez que solava, um som favônio arrancava do instrumento. Se o maestro, mais atento, lhe mandava erguer-se para ser aplaudido, em destaque, ao fim da peça; era cumprimentado por dezenas em fila, ao final do programa. Acumulavam-se-lhe tapinhas nas costas, e sentia muitos, exóticos perfumes exalando-se do decote das grã-finas. As palavras eram sempre vindas de lábios em sorrisos derretidos como queijos ou chocolates ao fondue.

Porém, às vezes, tirava sons quase impossíveis de seu tubo de metal. Uma inesperada agilidade, acumulada em incontáveis horas de estudo digitando as chaves, guiavam seus dedos para notas de nuances impressentidas, não escritas na partitura. Quando muito, subentendidas. E, no entanto, acontecia de naquela soirée o maestro estar com pressa. Tinha de sair da sala para a casa da amante. Ou dívidas a negociar sem mais prórroga. E, ao final, esquecia de destacar o trompista. E os cumprimentos, então, se resumiam aos sóbrios apertos de mão de três ou quatro colegas. Os de sempre. Os que, como de uso, não deixavam de ouvir a proeza do trompista.

Mas ele depunha sua trompa no estojo. E saía satisfeito para casa. Do mesmo jeito (ou até mais) do que quando o maestro o destacava.

Vivemos num mundo em que o destaque do maestro vale sete vezes sete mais que a perícia do trompista.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

E condensem-se na vidraça as gotas


Foto: Augusto Cesar Costa [21.01.09]





Bonito de Chuva



Não há povo que mais goste

de chuva que o cearense.



Se o céu se grada, cinza,

um bem-estar se instala.



E condensem-se na vidraça

as gotas, ainda esparsas,



avulsas; brancos de dentes

espalham-se por toda a sala.



A mão estica-se, sem luva,

para mais além da marquise.



E pelas esquinas da cidade diz-se:

Está bonito de chuva.




[29.01.09]



Nota- para uma crônica que trata de modo mais extenso essa relação do cearense com a chuva, aqui: Bonito de Chuva. Ou ainda para um depoimento sobre o mesmo tema: As Chuvas Vieram.


* * *

Necrológio feito de uma única citação


[s/i/c]



Criatividade e Hábito

Creativity is merely a plus name for regular activity. Any activity becomes creative when the doer cares about doing it right, or better.”

John Updike



"Criatividade é só mais um nome para atividade regular. Qualquer atividade torna-se criativa quando há o cuidado de fazê-la bem, ou melhor."



Quatro epigramas pinçados do mesmo poço


[s/i/c]



Algum epigrama antes de vestir o pijama


i.
What is an Epigram? A dwarfish whole;
Its body brevity, and wit its soul.

Samuel Taylor Coleridge

O que é um epigrama? É um todo anão;
Seu corpo é resumo; a graça, o coração.


ii.
Little strokes
Fell great oaks.

Benjamin Franklin

Golpes falhos
Derrubam carvalhos.


iii.
Here lies my wife: here let her lie!
Now she's at rest — and so am I.

John Dryden

Aqui jaz minha mulher: que fique bem!
Descanse em paz – e eu também.


iv.
I am His Highness' dog at Kew;
Please tell me, sir, whose dog are you?

Alexander Pope


Em Kew, sou o cão de Sua Alteza;
E você, é de raça pastora ou pequinesa?





Nota - sem dúvida, o mais sacana dos quatro é o terceiro; o que melhor traduz as relações entre inteligência e poder, o último; o que produz uma teoria geral do epigrama, o primeiro; e o que mais se assemelha a um dito popular, o segundo.


* * *


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Velhas marchinhas para novos ouvidos e um nome infeliz


André Derain, c.1925



No Largo do Mincharia: para crianças, baixaria alguma


O Pré-Carnaval infantil no Largo do Mincharia, Praia de Iracema, neste 2009, é uma boa idéia com um nome infeliz.

A idéia é boa, porque concentra uma banda tocando ao vivo velhas e novas marchinhas de Carnaval. [e há algo mais doce, terno, evocatico e de partir o coração do que aquelas velhas marchinhas de Carnaval, quando, depois de tantos carnavais dançando ao som delas, se pára para botar atenção nas letras? Jardineiras tristes; lindas (e sádicas) pastoras; saudades que pedem por tréguas e bandeiras brancas; pequeninos grãos de areia que sonham com estrelas, nem que sejam do mar; arlequins chorando por colombinas em meio a mais de mil palhaços no salão, etc.] Além da banda ao vivo, haverá no Largo do Mincharia um concurso de fantasias. São senhas que, de algum modo, apontam aos pequenos que o Carnaval já foi algo mais refinado – e nem por isso menos divertido e saudável – do que os atuais melas-melas, axés, abadás e ensurdecedores trios.

O nome do evento, no entanto, parece referendar o apreço que nós brasileiros temos por locar, no plano da farsa, nossas vidas: Baixaria. Como um evento para crianças pode levar um nome assim? Aqui há, no mínimo, mau gosto. E espera-se que levemos nossas crianças para uma... baixaria? Quem sabe alguém ache isso espirituoso. [provavelmente um redator publicitário sem filhos]. Eu não acho. Vá lá que ainda fosse “baixinharia”. Mas, convenhamos, baixaria é algo pesado já para qualquer de nós marmanjos nos metermos. Quanto mais para baixinhos.

Em determinados momentos – e quase todos que são pais são suficientemente pais para saber disso – com criança não se brinca.


De Glórias e Aterros


A área verde à esquerda dos prédios constitui o Aterro do Flamengo



A Pós-Moderna Geografia do Crítico de Poesia


Certo “crítico” de poesia brasileira – daquele tipo que encara a idéia de história com alguma vaga derrisão – deveria, no entanto, através da história, conhecer mais por onde pisa. O risco é acabar se molhando inteiro. Em artigo recente ele pontifica, aspas:

Certa leitura da poesia produzida no Brasil tende a uma espécie de padronização crítica “carioca” (sim, assim mesmo, entre aspas, claro), o que tende a uma repetição da geografia dos usos de Machado de Assis, algo entre a Glória e o Aterro, não tão mais longe que isso.

Fecha aspas. Uma repetição da geografia e dos usos de Machado de Assis, algo entre a Glória e o Aterro. Ok. O problema, aqui, é que Machado de Assis morreu em 1908, e o Aterro (diante da Praia do Flamengo – daí o nome de Aterro do Flamengo), foi construído ao longo da década de 50 e inaugurado em 1965: meio século e sete anos após a morte de Machado! Mas, talvez em espírito – quando, quem sabe haja escrito as Memórias Póstumas não de Brás Cubas, mas de si próprio – o Bruxo do Cosme Velho tenha vagado bastante entre a Glória e o Aterro. Já que, ao seu tempo, o Aterro era tão-só parte do imenso e bravio mar azul. E, ao que se sabe, entre os de carne e osso só Cristo conseguiu caminhar sobre as águas. Sem embargo, até onde nos chegam os registros, Machado era um espírito cético e um homem fino demais para arriscar molhar suas polainas nas ondas da Baía de Guanabara durante seus passeios da cidade para a orla.

Sobre o Aterro, aliás, uma de suas grandes entusiastas foi a companheira de Elisabeth Bishop, Lota de Macedo Soares. Há uma referência ao Aterro, ainda em construção, como "o Aterro de Lota" neste poema de Mark Strand, chamado "The Last Bus".




sábado, 17 de janeiro de 2009

Estamos em férias!


[s/i/c]



A V I S O


Depois de um quadrante de intensa postagem, desde novembro passado [em que, entre outras foram acrescidas 58 novas traduções de poemas], Afetivagem entra em parcial recesso: férias de janeiro.

Como sempre, no entanto, os mais de 210 poemas traduzidos (de mais de 110 diferentes poetas em cinco idiomas) seguem a disposição dos leitores, assim como os cerca de 130 textos em prosa versando sobre temas tão diversos quanto o carnaval em Fortaleza, a simbologia do ramo de visco, passando pela análise dos relativismos do politicamente correto e a adaptação para o cinema de obras literárias. Além de crônicas, contos curtos, poemas, ensaios, artigos, análises do que sai na imprensa e nos blogues, etc. Desde o início, entre outras, a intenção de Afetivagem é a de publicar textos que possam ser lidos a qualquer momento. Segue, assim, sendo um arquivo de si.

Aos que costumam passar por aqui nosso perene obrigado. E renovados votos de um Feliz Ano Novo em Nove!




quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Talvez de manhã andando num ar de vidro: Montale


s/i/c




'Forse un mattino andando in un'aria di vetro'

Forse un mattino andando in un'aria di vetro,
arida, rivolgendomi vedró compirsi il miracolo:
il nulla alle mie spalle, il vuoto dietro
di me, con un terrore di ubriaco.

Poi come s'uno schermo, s'accamperanno di gitto
alberi case colli per l'inganno consueto.
Ma sarà troppo tardi; ed io me n'andró zitto
tra gli uomini che non si voltano, col mio segreto.

Eugenio Montale



'Talvez de manhã andando num ar de vidro'

Talvez de manhã andando num ar de vidro,
árido, me virando verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, o vácuo anidro
de mim, com um terror de vinagre.

Depois, como se numa tela, se ajuntarão num jato
árvores, casas, montes, para o engano ledo.
Mas será tarde demais; e eu seguirei em hiato
por entre homens que não se voltam, com meu segredo.



Nota - talvez o poema mais conhecido, traduzido e antologizado de Montale. Há um ensaio de Italo Calvino cujo centro tonal é este poema. Várias versões dele em português foram feitas. Esta mantém toda a estrutura das rimas. Perde-se um pouquinho de sentido em três passos:
i. "anidro", quando na verdade uma tradução mais literal iria por "o vácuo detrás". [que, de resto, é a reiteração da sentença anterior, "o nada às minhas costas"]. Mas "anidro" também repassa uma idéia de ausência. E ausência é uma idéia importante na economia do poema.
ii. "vinagre" [v.4, 1ª est.]. Aqui o sentido original seria "com o terror de embriagado" [de bêbado, de ébrio, etc. Um delírio tremens?]. "Vinagre", aqui usado como adjetivo, repassa um pouco essa passagem do ponto que é peculiar ao estado da embriaguez. Como se passássemos do vinho ao vinagre. Da essência à saturação. Embora, aqui, a imagem seja mais forte.
iii."ledo" [v.2, 2ª est.], quando o sentido literal aqui é "costumeiro", "habitual", "de uso", etc. Ledo, no entanto, quase não é usado na acepção de alegre, hoje em dia, coloquialmente. Senão na expressão "ledo engano"= "doce ilusão", "suave engano". A expressão aponta para um caída de algo extraordinário para algo mais prosaico, costumeiro. Uma frustraçao e queda para o rotineiro, o ordinário, o não excepcional. Daí a escolha de "ledo". //É tão automático que se pense no inverno quando se lê este poema. Ele tem a cara de um dia de blizzard [nevasca] durante um rigoroso inverno, quando tudo parece ser filtrado pela transparência e a frieza do vidro.

Sentir com triste maravilha: Montale


Roberto Borsa, s/d



'Meriggiare pallido e assorto'


Meriggiare pallido e assorto

presso un rovente muro d'orto,

ascoltare tra i pruni e gli sterpi

schiocchi di merli, frusci di serpi.


Nelle crepe dei suolo o su la veccia

spiar le file di rosse formiche

ch'ora si rompono ed ora s'intrecciano

a sommo di minuscole biche.


Osservare tra frondi il palpitare

lontano di scaglie di mare

mentre si levano tremuli scricchi

di cicale dai calvi picchi.


E andando nel sole che abbaglia

sentire con triste meraviglia

com'è tutta la vita e il suo travaglio

in questo seguitare una muraglia

che ha in cima cocci aguzzi di bottiglia.


Eugenio Montale



'Fazendo a sesta pálido e absorto'


Fazendo a sesta pálido e absorto

junto a um abrasante muro de horto

e ouvindo sob espinhos arborescentes

chilreios de melros, roçar de serpentes.


Nas fendas do solo e entre as vícias

espiar, das formigas de fogo, as trilhas

que ora se largando, ora com notícias

entrecruzam-se no cimo de serrilhas.


Observar entre frondes o pulsar

longínquo de calípteros do mar

no que se ergue o silvo tremido

de cigarras sobre um morro erodido.


E andando sob o sol que forquilha,

sentir com triste maravilha

como toda a vida e seu capricho

segue em contínuo de muralha

que traz por cima cacos de vidro.




Ainda em formas curtas


[s/i/c]



Eis a questão



o único problema quando estamos sós

é que não há nó maior do que nós



Para pára-choques de caminhão no estio


[s/i/c]




Dois haikais e dois epigramas disfarçados de haikai



só se pode atar
o antes ao depois, se o fio
do afeto luzir nos dois


chuva de janeiro
caindo avulsa demais
nunca escreverei haikais


a lua-cheia sobre
as dunas flutua:
qual das du(n)as é mais lua?


máscara em tudo que existe
máscara alegre
mas cara triste




quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Five quotations from four writers / Cinco citações de quatro escribas


Lyonel Feininger, 1942



Cinco Citações & Contexto



i. Ismo e Pintura
“The painters have paid too much attention to the ism and not enough to the painting.”
“Os pintores tem dedicado atenção demais ao ismo e de menos à pintura.”
William Carlos Williams
(Ao final da década de 20, muitas vanguardas e ismos depois, Dr. Williams chega à conclusão de que seu pintor predileto é mesmo Brueghel [sec. XVI]).


ii. Sexo é bom
“Sex is too good to share with anyone else.”
“Sexo é bom demais para rachar com outra pessoa”.
Philip Larkin
(Não se sabe ao certo as implicações dessa frase: se é uma ode à masturbação, à abstinência, ao amor platônico ou mesmo à combinação dos três. O que se sabe, seguro, é que no momento em que a expressou, seu autor, um solteirão, mantinha três casos com diferentes mulheres, sendo uma delas sua própria secretária. E que só uns poucos anos depois, quando agonizava no hospital de um câncer no esôfago, as três se revezavam em velados cuidados em torno dele).


iii. Pedagogia
“One should get the children used to injustice early.”
“Cedo se deve acostumar as crianças à injustiça.”
Thomas Mann
(Ao reservar o único figo da sobremesa somente para sua filha predileta, Erika, diante do total desolamento dos quatro outros, durante uma refeição nos tempos minguados da I Guerra Mundial. Isso faz lembrar algo da passagem bíblica do julgamento de Salomão. [a frase segue em inglês, porque retirada de uma biografia sobre os dois filhos mais velhos, Erika e Klaus, do autor d'A Montanha Mágica]).


iv. Dez semanas
“The executive intern never brushed her hair after a shower. She just gave her head two or three shakes and let it fall gloriously where it might and turned, slightly . . . She had ten weeks to live.”
“A cabeleireira nunca lhe fazia uma escova após a lavagem. Aplicava dois ou três puxões e os deixava cair gloriosamente até que eles se reavolumassem, de leve... Ela tinha dez semanas por viver”.
David Foster Wallace
(O final do conto “The Suffering Channel”, em que a protagonista, no ano de 2001, é uma escultural beldade nórdica que trabalha para a revista Style, cujos escritórios situam-se no World Trade Center. A cena transcorre nos subsolos do complexo das torres gêmeas, onde ela costuma ir para malhar e arrumar o cabelo, após sair do escritório da revista, num dos andares de cima”).


v. Solipsismo
“When a solipsist dies, after all, everything goes with him.”
“Quando um solipsista morre, enfim, tudo segue com ele”.
David Foster Wallace
(Comentando a possibilidade eventual e iminente da morte de escritores mais velhos como Updike, Roth e Mailer [sem saber que morreria antes de dois deles, aos 46 anos]).