terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Velhas marchinhas para novos ouvidos e um nome infeliz


André Derain, c.1925



No Largo do Mincharia: para crianças, baixaria alguma


O Pré-Carnaval infantil no Largo do Mincharia, Praia de Iracema, neste 2009, é uma boa idéia com um nome infeliz.

A idéia é boa, porque concentra uma banda tocando ao vivo velhas e novas marchinhas de Carnaval. [e há algo mais doce, terno, evocatico e de partir o coração do que aquelas velhas marchinhas de Carnaval, quando, depois de tantos carnavais dançando ao som delas, se pára para botar atenção nas letras? Jardineiras tristes; lindas (e sádicas) pastoras; saudades que pedem por tréguas e bandeiras brancas; pequeninos grãos de areia que sonham com estrelas, nem que sejam do mar; arlequins chorando por colombinas em meio a mais de mil palhaços no salão, etc.] Além da banda ao vivo, haverá no Largo do Mincharia um concurso de fantasias. São senhas que, de algum modo, apontam aos pequenos que o Carnaval já foi algo mais refinado – e nem por isso menos divertido e saudável – do que os atuais melas-melas, axés, abadás e ensurdecedores trios.

O nome do evento, no entanto, parece referendar o apreço que nós brasileiros temos por locar, no plano da farsa, nossas vidas: Baixaria. Como um evento para crianças pode levar um nome assim? Aqui há, no mínimo, mau gosto. E espera-se que levemos nossas crianças para uma... baixaria? Quem sabe alguém ache isso espirituoso. [provavelmente um redator publicitário sem filhos]. Eu não acho. Vá lá que ainda fosse “baixinharia”. Mas, convenhamos, baixaria é algo pesado já para qualquer de nós marmanjos nos metermos. Quanto mais para baixinhos.

Em determinados momentos – e quase todos que são pais são suficientemente pais para saber disso – com criança não se brinca.


De Glórias e Aterros


A área verde à esquerda dos prédios constitui o Aterro do Flamengo



A Pós-Moderna Geografia do Crítico de Poesia


Certo “crítico” de poesia brasileira – daquele tipo que encara a idéia de história com alguma vaga derrisão – deveria, no entanto, através da história, conhecer mais por onde pisa. O risco é acabar se molhando inteiro. Em artigo recente ele pontifica, aspas:

Certa leitura da poesia produzida no Brasil tende a uma espécie de padronização crítica “carioca” (sim, assim mesmo, entre aspas, claro), o que tende a uma repetição da geografia dos usos de Machado de Assis, algo entre a Glória e o Aterro, não tão mais longe que isso.

Fecha aspas. Uma repetição da geografia e dos usos de Machado de Assis, algo entre a Glória e o Aterro. Ok. O problema, aqui, é que Machado de Assis morreu em 1908, e o Aterro (diante da Praia do Flamengo – daí o nome de Aterro do Flamengo), foi construído ao longo da década de 50 e inaugurado em 1965: meio século e sete anos após a morte de Machado! Mas, talvez em espírito – quando, quem sabe haja escrito as Memórias Póstumas não de Brás Cubas, mas de si próprio – o Bruxo do Cosme Velho tenha vagado bastante entre a Glória e o Aterro. Já que, ao seu tempo, o Aterro era tão-só parte do imenso e bravio mar azul. E, ao que se sabe, entre os de carne e osso só Cristo conseguiu caminhar sobre as águas. Sem embargo, até onde nos chegam os registros, Machado era um espírito cético e um homem fino demais para arriscar molhar suas polainas nas ondas da Baía de Guanabara durante seus passeios da cidade para a orla.

Sobre o Aterro, aliás, uma de suas grandes entusiastas foi a companheira de Elisabeth Bishop, Lota de Macedo Soares. Há uma referência ao Aterro, ainda em construção, como "o Aterro de Lota" neste poema de Mark Strand, chamado "The Last Bus".




sábado, 17 de janeiro de 2009

Estamos em férias!


[s/i/c]



A V I S O


Depois de um quadrante de intensa postagem, desde novembro passado [em que, entre outras foram acrescidas 58 novas traduções de poemas], Afetivagem entra em parcial recesso: férias de janeiro.

Como sempre, no entanto, os mais de 210 poemas traduzidos (de mais de 110 diferentes poetas em cinco idiomas) seguem a disposição dos leitores, assim como os cerca de 130 textos em prosa versando sobre temas tão diversos quanto o carnaval em Fortaleza, a simbologia do ramo de visco, passando pela análise dos relativismos do politicamente correto e a adaptação para o cinema de obras literárias. Além de crônicas, contos curtos, poemas, ensaios, artigos, análises do que sai na imprensa e nos blogues, etc. Desde o início, entre outras, a intenção de Afetivagem é a de publicar textos que possam ser lidos a qualquer momento. Segue, assim, sendo um arquivo de si.

Aos que costumam passar por aqui nosso perene obrigado. E renovados votos de um Feliz Ano Novo em Nove!




quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Talvez de manhã andando num ar de vidro: Montale


s/i/c




'Forse un mattino andando in un'aria di vetro'

Forse un mattino andando in un'aria di vetro,
arida, rivolgendomi vedró compirsi il miracolo:
il nulla alle mie spalle, il vuoto dietro
di me, con un terrore di ubriaco.

Poi come s'uno schermo, s'accamperanno di gitto
alberi case colli per l'inganno consueto.
Ma sarà troppo tardi; ed io me n'andró zitto
tra gli uomini che non si voltano, col mio segreto.

Eugenio Montale



'Talvez de manhã andando num ar de vidro'

Talvez de manhã andando num ar de vidro,
árido, me virando verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, o vácuo anidro
de mim, com um terror de vinagre.

Depois, como se numa tela, se ajuntarão num jato
árvores, casas, montes, para o engano ledo.
Mas será tarde demais; e eu seguirei em hiato
por entre homens que não se voltam, com meu segredo.



Nota - talvez o poema mais conhecido, traduzido e antologizado de Montale. Há um ensaio de Italo Calvino cujo centro tonal é este poema. Várias versões dele em português foram feitas. Esta mantém toda a estrutura das rimas. Perde-se um pouquinho de sentido em três passos:
i. "anidro", quando na verdade uma tradução mais literal iria por "o vácuo detrás". [que, de resto, é a reiteração da sentença anterior, "o nada às minhas costas"]. Mas "anidro" também repassa uma idéia de ausência. E ausência é uma idéia importante na economia do poema.
ii. "vinagre" [v.4, 1ª est.]. Aqui o sentido original seria "com o terror de embriagado" [de bêbado, de ébrio, etc. Um delírio tremens?]. "Vinagre", aqui usado como adjetivo, repassa um pouco essa passagem do ponto que é peculiar ao estado da embriaguez. Como se passássemos do vinho ao vinagre. Da essência à saturação. Embora, aqui, a imagem seja mais forte.
iii."ledo" [v.2, 2ª est.], quando o sentido literal aqui é "costumeiro", "habitual", "de uso", etc. Ledo, no entanto, quase não é usado na acepção de alegre, hoje em dia, coloquialmente. Senão na expressão "ledo engano"= "doce ilusão", "suave engano". A expressão aponta para um caída de algo extraordinário para algo mais prosaico, costumeiro. Uma frustraçao e queda para o rotineiro, o ordinário, o não excepcional. Daí a escolha de "ledo". //É tão automático que se pense no inverno quando se lê este poema. Ele tem a cara de um dia de blizzard [nevasca] durante um rigoroso inverno, quando tudo parece ser filtrado pela transparência e a frieza do vidro.

Sentir com triste maravilha: Montale


Roberto Borsa, s/d



'Meriggiare pallido e assorto'


Meriggiare pallido e assorto

presso un rovente muro d'orto,

ascoltare tra i pruni e gli sterpi

schiocchi di merli, frusci di serpi.


Nelle crepe dei suolo o su la veccia

spiar le file di rosse formiche

ch'ora si rompono ed ora s'intrecciano

a sommo di minuscole biche.


Osservare tra frondi il palpitare

lontano di scaglie di mare

mentre si levano tremuli scricchi

di cicale dai calvi picchi.


E andando nel sole che abbaglia

sentire con triste meraviglia

com'è tutta la vita e il suo travaglio

in questo seguitare una muraglia

che ha in cima cocci aguzzi di bottiglia.


Eugenio Montale



'Fazendo a sesta pálido e absorto'


Fazendo a sesta pálido e absorto

junto a um abrasante muro de horto

e ouvindo sob espinhos arborescentes

chilreios de melros, roçar de serpentes.


Nas fendas do solo e entre as vícias

espiar, das formigas de fogo, as trilhas

que ora se largando, ora com notícias

entrecruzam-se no cimo de serrilhas.


Observar entre frondes o pulsar

longínquo de calípteros do mar

no que se ergue o silvo tremido

de cigarras sobre um morro erodido.


E andando sob o sol que forquilha,

sentir com triste maravilha

como toda a vida e seu capricho

segue em contínuo de muralha

que traz por cima cacos de vidro.




Ainda em formas curtas


[s/i/c]



Eis a questão



o único problema quando estamos sós

é que não há nó maior do que nós



Para pára-choques de caminhão no estio


[s/i/c]




Dois haikais e dois epigramas disfarçados de haikai



só se pode atar
o antes ao depois, se o fio
do afeto luzir nos dois


chuva de janeiro
caindo avulsa demais
nunca escreverei haikais


a lua-cheia sobre
as dunas flutua:
qual das du(n)as é mais lua?


máscara em tudo que existe
máscara alegre
mas cara triste




quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Five quotations from four writers / Cinco citações de quatro escribas


Lyonel Feininger, 1942



Cinco Citações & Contexto



i. Ismo e Pintura
“The painters have paid too much attention to the ism and not enough to the painting.”
“Os pintores tem dedicado atenção demais ao ismo e de menos à pintura.”
William Carlos Williams
(Ao final da década de 20, muitas vanguardas e ismos depois, Dr. Williams chega à conclusão de que seu pintor predileto é mesmo Brueghel [sec. XVI]).


ii. Sexo é bom
“Sex is too good to share with anyone else.”
“Sexo é bom demais para rachar com outra pessoa”.
Philip Larkin
(Não se sabe ao certo as implicações dessa frase: se é uma ode à masturbação, à abstinência, ao amor platônico ou mesmo à combinação dos três. O que se sabe, seguro, é que no momento em que a expressou, seu autor, um solteirão, mantinha três casos com diferentes mulheres, sendo uma delas sua própria secretária. E que só uns poucos anos depois, quando agonizava no hospital de um câncer no esôfago, as três se revezavam em velados cuidados em torno dele).


iii. Pedagogia
“One should get the children used to injustice early.”
“Cedo se deve acostumar as crianças à injustiça.”
Thomas Mann
(Ao reservar o único figo da sobremesa somente para sua filha predileta, Erika, diante do total desolamento dos quatro outros, durante uma refeição nos tempos minguados da I Guerra Mundial. Isso faz lembrar algo da passagem bíblica do julgamento de Salomão. [a frase segue em inglês, porque retirada de uma biografia sobre os dois filhos mais velhos, Erika e Klaus, do autor d'A Montanha Mágica]).


iv. Dez semanas
“The executive intern never brushed her hair after a shower. She just gave her head two or three shakes and let it fall gloriously where it might and turned, slightly . . . She had ten weeks to live.”
“A cabeleireira nunca lhe fazia uma escova após a lavagem. Aplicava dois ou três puxões e os deixava cair gloriosamente até que eles se reavolumassem, de leve... Ela tinha dez semanas por viver”.
David Foster Wallace
(O final do conto “The Suffering Channel”, em que a protagonista, no ano de 2001, é uma escultural beldade nórdica que trabalha para a revista Style, cujos escritórios situam-se no World Trade Center. A cena transcorre nos subsolos do complexo das torres gêmeas, onde ela costuma ir para malhar e arrumar o cabelo, após sair do escritório da revista, num dos andares de cima”).


v. Solipsismo
“When a solipsist dies, after all, everything goes with him.”
“Quando um solipsista morre, enfim, tudo segue com ele”.
David Foster Wallace
(Comentando a possibilidade eventual e iminente da morte de escritores mais velhos como Updike, Roth e Mailer [sem saber que morreria antes de dois deles, aos 46 anos]).

"Tudo é relativo"? Tem nada a ver com física (e tem mesmo a ver com o quê?)


[s/i/c]



De Invariâncias e Paradoxos

Outro dia, lia um artigo sobre literatura e o pós-moderno em que o autor datava a hora e o lugar exatos em que surgiu o pós-modernismo: o momento em que Einstein chegou ao termo da sua equação sobre a relatividade. Isso de "exato" pode soar engraçado aos olhos de um historiador, de alguém como Vico, de um cético ou simplestemente de um certo senso-comum mais intuitivo quanto a generalizações do tipo. Mas tem gente acredita nessas "exatidões" e divisores de água. Que fique claro, por outro lado e aqui, que se passa longe de negar a importância da contribuição de Einstein. A chave é bem outra: a banalização dessa contribuição, a leitura rala que a ela foi dada. De resto, sobre a apropriação indébita da Teoria da Relatividade pela "Teoria dos Relativismos", presente em nossos esquemas mentais, no de boa parte de nossos professores, e nas apologias e loas ao pós-contemporâneo, o esclarecimento de um físico:

O fato é que é quase uma ironia que a teoria tenha sido batizada com este nome. Porque enquanto a validade das leis de Newton depende do estado de movimento do observador com relação aos demais corpos do universo, o que Einstein obteve são leis INVARIANTES, ou seja, independentes do sistema de referência a partir do qual se descreve o movimento. Leis portanto absolutas neste sentido!

Obviamente, a máxima "tudo é relativo" nunca foi pronunciada por Einstein. Nem poderia ter nada a ver com Física, esta engenhoca que aprendeu a falar de aspectos extremamente particulares e obsessivamente definidos - e talvez por isso mesmo insignificantes - do universo.
[Dr. Anton Padrevsky Jr., PhD, University of Southern Guyana and Nothern Roraima]

Notem o paradoxo no fluir do pensamento: a teoria da relatividade é invariante, mais acondicionada, mais à vontade, abrigada e em casa, na abstração, [no solipsismo sem frequentação da realidade física exterior] que a física newtoniana (por origem aberta à concreção do mundo). Outro ponto importante é a ressalva quanto a essa especialização - que, no fim, se torna tão particular e obsessiva, que sacrificamos a ela nossa visão do todo. Ou seja, não conseguimos retornar com a ponta desse especialismo e reeganchá-lo no quotidiano do boteco, da partida de futebol, do episódio de A Feiticeira na TV, da grana que se tem de ganhar, da chuva que cai lá fora, da ruga que se vem desenhando entre as sobrancelhas dela ao longo dos anos, de gente que desistiu de argumentar [mas não de postar], de Pedro Pedreiro esperando o trem, da morte da bezerra, etc.


terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Pranto condensado em densos, doces, cílios: Hadfield


Joe Tilson, 1977




Canis Minor


-A poet? You should write a nice poem about my dog

A poem's no lapdog:

he's dry, bisects the gravel road

like a little headstone.

His tongue erupts from his head

and lithifies. Pumices his butt

and exfoliates my elbow.

I'm reading this book about the cane-fields:

they believed if a slave looked you in the eye

you'd die. He winks at me and blinks

at me, falls back on his haunches

like a telescope, trained

on Procyon and rising Gemini.


Jen Hadfield



Cão Menor


–Uma poeta? Devia escrever um belo poema sobre meu cão

Um poema não é um lapdog:

é seco, bissecta a via de calçamento

como uma pequena lápide.

Sua língua emerge da cabeça

e litifica-se. Pomifica os couros

e esfolia-me o cotovelo.

Ando lendo esse livro sobre canaviais:

Crêem que se um escravo te olhar no olho

Te mata. Ele meneia para mim

e pisca, recai sobre as ancas

como um telescópio, versado

em Prócion e criando Gêmeos.




* * *



Five Thirty Sixish


Day in day out this land is chafed by light

'til five thirty sixish,

it's bald as old sandpaper, showing its hide.


So make the most of loneliness. Hang

your head to one side like a sainted donkey,

tears crystallised on dense sweetheart lashes,


hang your head like a kid in a tree-fort

hearing her weird name called and called

it might be towhee, towhee, across the evening,


hang your head and squinting, sing,

old english ballads about bewildering

betrayals, murder and burgundy,


down in the willow garden.


Jen Hadfield



Cinco e Trinta e Séxima


Dia sim, dia não, esta terra é batida de luz

até cinco e trinta e séxima,

calva como lixa velha, exibindo o capuz.


Então, aproveite bem a solidão. Deite

a cabeça para o lado, como beatífico burro,

pranto condensado em densos, doces cílios,


deite a cabeça como criança numa casa-de-árvore

ao ouvir seu nome fatal ser chamado e chamado

como tentilhão, tentilhão, noite adentro,


solte o pescoço e zarolhando, cante,

velhas baladas inglesas sobre encantes,

traições, assassinos e borgonhas,


pelo jardim dos salgueiros.







Nota – a poeta Jen Hadfield (1978) ganhou anteontem, 11 de janeiro, o prestigioso prêmio T. S. Eliot de poesia, na sua edição de 2009, por seu livro Nigh-No-Place [Rente-a-Nenhures]. O prêmio já foi atribuído a nomes como Seamus Heaney, Ted Hughes, Paul Muldoon e Hugo Williams. Apesar de ser inglesa, de Cheshire, Hadfield morou alguns anos no Canadá e vive atualmente na Ilhas Shetland [arquipélago no extremo norte da Escócia]. Atribui-se a ela grande domínio no emprego de elementos da natureza em sua poesia. Em Nigh-No-Place, segundo volume de poemas de Hadfield, ela esboça uma comparação entre paisagens do Canadá e a inóspita natureza das Ilhas Shetland, cujo desolamento é quase polar. Hadfield é até aqui, entre todos os premiados pelo T.S. Eliot Prize, a mais jovem a recebê-lo. No primeiro poema, segundo verso, ela talvez haja buscado uma analogia entre lapdog [cachorro-de-colo] e o termo da informática laptop [computador-de-colo]. Na tradução, pusemos, um tanto artificialmente, lulu, que aponta, em português, para um cão pequeno, de colo, decorativo, como no contexto do poema.


O universal se escondeu bem aqui na paróquia: Larkin


[s/i/c]



Places, Loved Ones


No, I have never found
The place where I could say
This is my proper ground,
Here I shall stay;
Nor met that special one
Who has an instant claim
On everything I own
Down to my name;

To find such seems to prove
You want no choice in where
To build, or whom to love;
You ask them to bear
You off irrevocably,
So that it's not your fault
Should the town turn dreary,
The girl a dolt.

Yet, having missed them, you're
Bound, none the less, to act
As if what you settled for
Mashed you, in fact;
And wiser to keep away
From thinking you still might trace
Uncalled-for to this day
Your person, your place.


Philip Larkin



Lugares, Amores


Não, não achei jamais
O lugar de dizer feito lei,
Este enfim me apraz,
É neste que ficarei;
Nem encontrei aquela tenaz
De apelo primeiro
A tudo que gosto mais:
O nome, o roteiro;

Isso talvez vem comprovar
Que não se tem opção
De onde construir, a quem amar;
Deles se busca, então
Uma distância regulamentar,
Assim que falha tua não
será, se a cidade te entediar
E à moça em lassidão.

Mas, ao se sentir lesado,
por ambos, tende-se a atuar
como se o resultado
dessa falta, pudesse achacar
a gente um bocado;
Mas, também, te poupar
De ficar chovendo no molhado,
Sempre atrás de achar
Teu par, teu cercado.








Nota – talvez nenhum poema me haja dado tanto trabalho para traduzir até aqui do que este. Briguei por ele como Jacó brigou com o anjo. Uma noite inteira de golpes e contragolpes. Saí coxo de uma perna. E por uma razão simples: a sofisticação do modo como a fala está estilizada. E, logo, se tem de achar soluções de métrica e rima num espaço muito rarefeito. Notem que a versão em português às vezes derrapa ligeiramente – mas só ligeiramente – do sentido original do poema. E, no entanto, algo muito mais precioso é salvo: o tom. A briga maior foi a batalha por ajustar as palavras ao tom. A primeira coisa que um tradutor deve sentir é o tom geral de um poema. E essa tarefa é tão intuitiva quanto “achar” o tom inicial, predominante, em um poema, que se está escrevendo no seu idioma de origem. [quer dizer, no único que você possui; e que, no caso, é o ponto de chegada da tradução: a última estação da viagem da tradução, cujo ponto de partida é o original]. O tom é de onde se parte para traduzir. Se você é um leitor experiente ou, por alguma razão, com algo a mais (ou a menos), dentro de teu ouvido interno, o da mente, que te sopra o tom dentro do silêncio da leitura, tanto melhor. Porque tradução é uma sorte de ventriloquia. Dar voz a palavra que é muda, sem articulação, para aqueles que não possuem a proficiência de ler o poema no original. É evidente que essa proficiência é bastante matizada. Conheço gente de grande fluência no inglês e, ainda assim, completamente incapaz de entender um poema ou chegar aos domínios do tom. Ou ainda de se lançar ao jogo da tradução com razoável brio ou desembaraço. E, aqui, é evidente que, no início, como em qualquer área, se apanha um bocado até conseguir um certo equilíbrio de feição. Só que, ao contrário de outras áreas, se vai sempre estar mais vulnerável a equívocos. E o resultado final sempre se prestará mais à contestação e ao descrédito. Eis porque traduzir ensina tanto como exercício. Inclusive no plano de uma ética [não gosto dessa palavra, mas não me ocorre outra] individual da escrita ou da vida. Devo ainda acrescentar que, só aos poucos, muito a conta-gotas, fui começando a gostar – e entendendo o porquê do sabor e desse gosto – da poesia de Larkin. Noves fora, me eduquei para apreciar autores bem diferentes. Autores de vanguarda. E consigo apreciá-los até hoje, mas também perceber as concessões que fizeram ao instante para serem “aceitos”. E separar o trigo do joio. E ficar com o suficiente para fazer o pão nosso de cada dia. Em geral, autores norte-americanos, na linha de Olson ou Creeley, e outros no entorno; vinculados ou próximos do que se convencionou chamar de Black Mountain Poets. Contemporâneos dos beats, com algumas preocupações e assuntos comuns aos beats, porém mais obcecados pela questão da forma em poesia – que, no fim, é a grande questão. No entanto, hoje, dimensiono o quanto um autor tão desdenhoso diante de vanguardas, modas e glamour, como Larkin, tanto me diz. Tem um apelo muito próprio. E, mesmo, talvez até maior do que os de vanguarda. E a razão é simples: beleza. A beleza, no fim, é honesta. Mesmo quando dita por um solteirão careca, reacionário, misantropo, racista, um tanto xenófobo, tomando conta de um biblioteca na provinciana e modorrenta e nada atraente cidade de Hull. Ora, a poesia só até determinado ponto - e um ponto muito, muito sem importância - pode ser amarrada ao poeta, enquanto biografia, existência e presença; personalidade ou caráter. Villon, Dante, Pound estavam longe, bem longe de ser flor-de-cheiro no plano pessoal. Mas a poesia deles exala fragrâncias. É muito assim com Larkin. É absolutamente admirável seu senso de honestidade em poesia. Que ele tenha sido um velho tarado ou um inglês que desprezava tudo que não era de seu país - a exceção do jazz estilo New Orleans - são outros quinhentos. Matéria para anedota e biografia. Sua poesia, do contrário, é creme. Em suma, é aquela coisa: qual o sentido de se escrever poesia - um dos exercícios mais livres para imaginação, se se é limitado sectariamente por divisões arbitrárias de escolas, teorias mais (ou menos) em voga, convicções políticas pessoais? De outro modo, é o "reacionário" Larkin o primeiro grande poeta de língua inglesa a escrever coisas como: "They fuck you up, your mum and dad" ["Eles te fodem, teus dignos pais"], [AQUI]. Coisas que fazem - também pelo modo como seguem expressas - a vontade de contestação dos beats parecer brincadeira de criança.


domingo, 11 de janeiro de 2009

'Gazua' e 'Oitenta' em Francês


[s/i/c]



O ego é Menor do que Palavras


Certa feita, conversando com uma amiga, filha de brasileiros nascida em Paris, que passou boa parte de sua infância e adolescência na França, lhe disse que achava estranho que não houvesse “oitenta” [“octante”, os belgas (valões) usam, e os franceses zombam deles também por isso] mas quatre-vingt. Quer dizer, "quatro-vinte", quatro vezes vinte. [Os franceses tem um inato talento para complicar coisas]. Oitenta e sete em francês é algo como "quatro-vinte e sete", em português. E aí, depois de mordiscar o lábio por fração de segundo, ela soergueu a sobrancelha sobre os olhos castanhos-claros e disse em surpresa:

–Ah, é mesmo: quatre-vingt é quatro vezes vinte! Que legal!

Ora, essa amiga é uma mulher de extrema sensibilidade e inteligência. O que ocorre, é que ela, em parte é parisiense, e o ponto, na anedota, é que, às vezes, estamos tão próximos das coisas, que não conseguimos analisá-las, criticá-las [crítica quer dizer quebra: quebrar o todo em pedaços para analisá-lo melhor, por partes. E depois remontá-lo. Mais ou menos como um mecânico sabia desmontar e montar um motor, de olhos fechados, pelo menos antes do advento da tecnologia digital. Naturalmente só conseguimos achar as partes no todo, se temos do todo certo distanciamento e perspectiva. Os mecânicos tinham essa visão de perspectiva até um tempo atrás. Mas não é improvável que daqui uns dias sigamos de um para outro lado do globo impulsionados por motores virtuais].

Quando escrevia o poema da postagem logo abaixo, por exemplo, tive de checar alguns termos. Entre eles, “gazua”, [que, por sinal já foi nome de uma bela revista de poesia editada, aqui em Fortaleza, por Eduardo Jorge Oliveira]. Vejamos como o Houaiss define o termo:

gazua
n. substantivo feminino
Diacronismo: antigo.
1 expedição, cruzada santa ou investida realizada por mouros contra seus inimigos
2 Derivação: por metonímia.
saque e depredações daí resultantes
[nota: grifos nossos]

Ora, reparem como a cultura se imbrica nas palavras: “cruzada santa” realizada pelos mouros.

Cruzada remete para “cruz”, o símbolo da cristandade. Como os mouros poderiam realizar uma...“cruzada”? Mas, no entanto, sequer se criou um termo como “crescentada” para referir o “crescente” [meia-lua que é o símbolo do islã]. Ou seja, eles, os mouros, nos combatiam empreendendo o tipo de guerra que nós empregávamos contra eles em nome de nosso Deus. Sequer nos demos ao trabalho de designar a empresa de guerra deles por um outro nome que não o nosso. Mas, quem sabe, o politicamente correto já esteja tratando disso também.

Ainda que adotássemos a expressão, digamos, “cescentada santa”, haveria vestígios de cristianismo no “santa”. Porque até onde sabemos, não há um patamar de santos na religião islâmica. “Santo” [sanctus] é um conceito cristão que originalmente designa alguém ou algo 'que tem caráter sagrado, augusto, venerando, inviolável, respeitável'.

Ora, tudo que você sabe sobre budismo, por exemplo, que não seja lido em sânscrito ou chinês, está impregnado de cristianismo. Por quê? Por um fato muito simples: teu ego é menor que a cultura em que nasceste. Do que as palavras que usas. É claro que é bastante mais acessível traduzir de qualquer uma das línguas européias ocidentais modernas – exceto talvez do basco e do finlandês – porque elas são muito próximas. Usam o mesmo alfabeto, etc. O que lhes legou essa proximidade foi uma pan-Europa unificada não para consumir, mas em nome de um idéia, de um ideal. A rigor, não existe algo como um “paraíso budista”, porque “paraíso” é uma palavra impregnada de cristianismo. Mesmo “budismo” foi um termo criado por padres jesuítas – os primeiros europeus a se fixarem no Oriente – para designar uma prática religiosa própria de lá. Os budistas devem se auto-denominar por outro nome, com outro sufixo. Certamente não este '-ismo' presente em todas as línguas européias via o latim de origem. Quanto à “paraíso” deve haver, quando muito, no budismo, um conceito aproximado, mas de raiz muito distinta, vaga para nós, com som distinto, distinta grafia, alfabeto, implicações distintas... É como querer que um poeta inglês escreva algo como “Canção do Exílio”. Seria impossível, a terra deles não tem palmeiras, nem sabiás, a cultura deles não sugere o despertar dessa sentimentalidade e dessa sensualidade presentes no poema de Gonçalves Dias.






Nota – 'nirvana', que vem do sânscrito, parece querer implicar originalmente 'explosão; extinção, desaparecimento'; 'paraíso', que vem do latim [via grego 'paradeisos'] quer dizer “jardim próximo á casa”. Não há equivalência. Em termos teológicos, o primeiro é um estado de espírito. O segundo indica uma condição essencial e sempiterna. E, em outro modo, como vocês sabem, ainda mais esdrúxulo que o oitenta, é o noventa em francês: "quatrovintedez". Mas tem gente que gosta de se pronunciar fazendo jus ao provérbio. Na base do oito ou quatrovinte.

Para constar no Lattes


Joe Tilson, 10th Sonnet, 1964





Soneto da Produção Acadêmica


Preciso escrever este soneto de vanguarda,

Em que a ordem das palavras é mais vã,

Que guarda a memória de uma pós-estrada,

Pavimentada por Foucault, Derrida e Roland

Barthes; talvez nele, tempo e movimento

Se organizem como no cinema visto por

Deleuze (montado em dobra, não em fragmento).

Quem sabe a Capes vendo-o como catalisador,

Projetado no papel ou grafitado pela rua,

Considere-o digno de me constar no Lattes;

Ainda que eu, feito o poeta que numa gazua

Perdeu o olho esquerdo para certa seta em Ceuta,

Retirando-a, chore sobôlos rios Tigre e Eufrates,

Para com ela escrever o epitáfio de meu terapeuta.



Desejando a arte de um e do outro a pujança: Shakespeare


[s/i/c]







Sonnet XXIX




When, in disgrace with fortune and men’s eyes,


I all alone beweep my outcast state,


And trouble deaf heaven with my bootless cries,


And look upon myself and curse my fate,


Wishing me like to one more rich in hope,


Featured like him, like him with friends possessed,


Desiring this man’s art and that man’s scope,


With what I most enjoy contented least;


Yet in these thoughts myself almost despising,


Haply I think on thee, and then my state,


(Like to the lark at break of day arising


From sullen earth) sings hymns at heaven’s gate;


For thy sweet love remembered such wealth brings


That then I scorn to change my state with kings.




William Shakespeare






Soneto XXIX




Quando, em desgraça de fortuna e dos humanos olhos,


Em total solidão choro meu proscrito estado,


E importuno o surdo céu com meus inúteis restolhos,


E entrevejo-me a mim e maldigo meu fado,


Querendo-me ver mais rico de esperança,


Realçando-me como ele, como ele de amigos cercado,


Desejando a arte de um e do outro a pujança,


De tudo que mais aprecio desapropriado;


E ainda que nesses pensamentos quase me desprezando,


Ledo eu penso em vós, e então meu estado


(Como a cotovia ao romper da manhã se alçando


Da terra sombria) canta hinos às portas do divino reinado;


Pois vós, suave amor relembrado, tais bonanças trazeis


Que então descarto trocar minha condição pela de reis.







Meu pensamento aprendeu a lúcida arte: Campbell


William Turner, Willows beside a Stream, 1805



Reflection


My thought has learned the lucid art
By which the willows lave their limbs
Whose form upon the water swims
Though in the air they rise apart.
For when with my delight I lie,
By purest reason unreproved,
Psyche usurps the outward eye
To trace her inward sculpture grooved
In one melodious line, whose flow
With eddying circle now invests
The rippled silver of her breasts,
Now shaves a flank of rose-lit snow,
Or rounds a cheek where sunset dies
in the black starlight of her eyes.


Roy Campbell



Reflexão


Meu pensamento aprendeu a lúcida arte
Pela qual os salgueiros seus ramos guardam,
Cujas formas sobre as águas nadam
Embora pelo ar passeiam à parte.
Pois quando em deleite me deito,
Em razão pura, não censurável,
Psiquê usurpa o olho imperfeito
Para traçar sua estátua cinzelável
Em linha melodiosa, cujo fluir
Sob espiralado círculo investe agora
As rugas n'água de prata, sua espora
Que escanhoa um flanco de neve a zunir,
Ou aboleia o rosto onde o sol se tolhe
No lume negro do astro de onde ela olhe.



Sem rima ou ritmo a convesa se dosa: Auden


Giorgio Morandi, 1949



At the Party


Unrhymed, unrhythmical, the chatter goes:
Yet no one hears his own remarks as prose.


Beneath each topic tunelessly discussed
The ground-bass is reciprocal mistrust.


The names in fashion shuttling to and fro
Yield, when deciphered, messages of woe.


You cannot read me like an open book.
I'm more myself than you will ever look.


Will no one listen to my little song?
Perhaps I shan't be with you very long.


A howl for recognition, shrill with fear,
Shakes the jam-packed apartment, but each ear
Is listening to its hearing, so none hear.


W. H. Auden




Na Festa


Sem rima ou ritmo a conversa se dosa:
Mas ninguém escuta sua fala como prosa.


Para cada assunto discutido em desafino
O contrabaixo ressoa uma nota sem tino.


Os nomes em voga num ir e voltar
Rendem, se definidos, cifras de pesar.


Não me podes ler como um livro aberto.
Jamais verás o quão de mim estou perto.


Ninguém vai ouvir o meu fuzuê?
Talvez não me deva demorar com você.


Um clamor por prestígio acende a centelha
No apartamento lotado, mas cada orelha
Escuta só o som que ela própria espelha.

sábado, 10 de janeiro de 2009

A Nobreza do Porte


[s/i/c]



Ornitologia


Venho de uma família de ornitólogos amadores. Até onde onde sei do riscado, a linhagem desce de meu bisavô, ainda nos tempos do Império, que, apesar de republicano e abolicionista, ainda teve escravos domésticos, mas não passarinhos em gaiola. Meu avô, que morava numa chácara, nela não facultava o uso de baladeiras. Gostava de fotografia. De ouvir dobrados. Colecionava selos. Graças à Deus, não teve mais escravos, domésticos ou não. Costumava envergar ternos brancos, chapéu. Cheirava rapé. Foi possivelmente o homem mais alto que vi na infância. E apreciava observar pássaros e ninhos. Tinha binóculo, lupas, amostras de plumas.

Já meus pais são tão zelosos quanto a essa coisa de passarinho por perto que, ainda hoje, diariamente dispõem sobre o piso de ardósia do jardim uma porção de alpiste e outra de farelo moído. E espetam nacos de banana em ganchos sob a goiabeira ou o abacateiro. De manhã cedo, o jardim fervilha de pássaros. Certa ocasião, uma fogo-pagou teve um problema na pata. Trataram-na durante algum tempo com zelos, insopesáveis cuidados. Ganhou brevê de vôo. Foi solta. O ponto é que volta e meia, ela retornava em visita. E entendia querer entrar de novo na gaiola em que restou por convalescença de tão bem tratada que foi. Mas eles trataram de dissuadi-la, com certa suave inospitabilidade. Finalmente, ela chispou. E hoje já deve contar com avultada milhagem pelos céus do planeta.

Aqui por casa aparecem bem-te-vis, sibites, fogo-pagous, bicos-de-lacre, pardais, azulões. Nos últimos tempos, lavandeiras, que trotam pelo chão, mais do que se empoleiram nos galhos. São pássaros de beira-mar. O que acho um tanto insólito, pois estamos há quase dois quilômetros da praia. Isso me faz lembrar de um amigo que diz, vai mudar-se de Fortaleza antes de 2010, porque um profeta, que apareceu no Fantástico, vaticinou que o Brasil do litoral irá cair em plataforma, de setenta quilômetros de fundo, sobre o oceano. Se isso acontecer, de fato, parte do sertão vai virar mar. Será a presença dessas lavandeiras, que costumam mais correr sobre a grama, como correm sobre a areia de praia, um prenúncio dessa catástrofe?

Havia também uma família de gaviões. A única, pelas redondezas. Belos, como só aves-de-rapina podem ser. Aquele olho agudo, de vendeta solene, onde a pupila negra bóia com invulgar brasa sobre piscina verde da esclerótica. As belas garras feitas de esporas flavo-retorcidas. O bico em gancho, precedido por um buco amarelo. A nobreza do porte. E o peculiar modo de deslocar o colo com a altivez de potestade. Pode-se entender porque a falcoaria era uma espécie de esporte nobre na Idade Média. Uma sorte coragem, de destemor devia passar de ave a falcoeiro. De amestrando a amestrador.

Quando estava dando pouco mais que os primeiros passos, minha filha mais nova se detinha, a observar um desses gaviões. Um que, nas manhãs mais limpas, costumava encarapitar-se sobre a antena de tv da casa vizinha. Gostava dessa atalaia. Talvez o diâmetro dos frisos da antena fossem na medida para suas garras. Tornava a ela com freqüência manhãs sem conta. E, ao fim do dia, não era inusual ouvir seus guinchos lá, bem alto, acima dos condomínios recém-erguidos, e aquele vôo de assas articuladas – menos planado e limpo que o dos urubus.

Bicho atrevido é bem-te-vi. Às vezes, se metiam a atazanar a vida dos grandões. Voavam por cima do cocuruto deles e lascavam bicada. Depois saiam volteando, jingando pelo ar, que não tinha gavião que pegasse. Mais lisos que garrinchas diante de joões. Salutar atrevimento.

Aliás, desconfio que alguém pegou os gaviões. Não vi mais o casal. Ou então, algum desses ambientalistas chatos deve tê-los levado para seu habitat natural, para mangues costeiros ou planícies sertanejas. Certamente, para morrerem por lá, pois já estavam habituados com usos e costumes urbanos. Já eram bichos da cidade.

O certo é que, para meu pesar, os céus acumulam chá de sumiço dos gaviões nestes começos de 2009.

E a rua ficou menos nobre.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Como a grama lenta cresce: Kavanagh


[s/i/c] um taco de hurling [ou um hurley]



Slow as Grass


I’m growing patience as the cut grass grows

Blunt headed, stubborn, in a warm November,

Blunt where cut to last all winter but it grows

On, blunt headed. I am not yet patient as the grass,

Waiting the melt of mist that soaked it flat

Splashed by the feet of cattle into suns,

Hoof high. As the sun climbs the day dries.


Now elephant cloud teams drag behind them grey

Tarpaulin, evening. Riding it come children

Last seen trailing (like dressing gown chords) their dreams.

At dusk I hurl a ball with them, still waiting,

Pretending a day complete which is only ending,

Growing to patience as they will have to grow

Or mimic what seems day’s business, but day

Is never busy, is as slow as grass.


P. J. Kavanagh



Lento quanto grama


Ando cultivando paciência como a grama lenta cresce

Aparada, obstinada, num cálido novembro,

Aparada no talo para atravessar o inverno, mas segue

Adiante, aparada. Ainda não sou tão paciente quanto grama,

A esperar o degelo da geada que molhou-a plana,

Espalhada pelas patas do gado como sóis,

Altos cascos. Enquanto o sol eleva-se, o dia seca.


Ora cachos de nuvens em elefante arrastam encerados

Cinzas, noite. Passeando-a vêm os últimos

Sonhos vistos de relance (como em tiras de roupão) das crianças.

Ao ocaso bato uma bola com elas, ainda aguardando,

Simulando um dia completo que não está de todo findo,

Crescendo em paciência como elas terão de crescer

Ou imitar o que surge no lance dos dias, mas o dia

Nunca está ganho, é tão lento quanto grama.





Nota – hurl (a ball) [4º v., 2ª est.], verbo que, no contexto, indica o hurling, variante do jogo de hóquei, muito popular na Inglaterra, em especial entre descendentes de irlandeses – como no caso de Kavanagh. Hurley é o nome dado aos tacos do jogo, cuja pá é um pouco mais larga que a do hóquei e, portanto, castiga ainda mais a grama sobre a qual o jogo transcorre. [[s/i/c] é a abreviação para "sem indicação de crédito", usada em várias ilustrações blogue afora, das quais foi impossível apurar o autor].



Da série o que é: clássico


[s/i/c]



Clássico e o reino dos blogues claros


Clássicos são livros que se relêem mais do que se lêem. Podem não estar entre as leituras mais agradáveis, de início. Mas só em circunstância. E nem sempre são o melhor entretenimento. Porém só para quem não descobriu suas riquezas. Ou ainda não chegou a elas. E se, às vezes, surgem áridos e de leitura morosa, desconfie que o problema é mais seu do que deles.


De outro modo, há maus livros em que também se tem de seguir relendo parágrafos, tomando notas, consultando léxicos. O ponto é que, no caso dos clássicos, revisões, consultas, o tempo que se gasta ocupado com eles nunca dá margem para arrependimentos futuros. Eles são difíceis mas compensadores. E tão excelentes que conseguem sobreviver até mesmo ao empenho que certos professores de pós-graduação fazem por reduzi-los a mercê de Derrida, Deleuze ou De Certau.


Na definição irônica de Borges, “clássico é aquele livro que uma nação ou um grupo de nações ou o muito tempo decidiu ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado, fatal, profundo como o cosmos, e capaz de interpretações sem término”.


Profundo como o cosmos é um bom modo de defini-los. Assim como essa feição de serem lidos sem fim. Isso também é o que nos assegura esse arremedo de Borges italiano, Calvino, quando diz que “um clássico é um livro que nunca termina de dizer o que tem de dizer”. Estranho pensar que esses livros “que nunca terminam de dizer” sejam justamente aqueles que dizem melhor. Que melhor concluem. Que batem o martelo. E dizem melhor não só o tempo em que foram escritos mas o nosso próprio ou qualquer outro. Também o tempo em que se gasta a lê-los.


Livros que terminam de dizer tem uma maior chance de serem grandes sucessos presentes e futuros esquecimentos. Sabotagens, no fim. Mesmo que se reivindiquem obras-abertas com bateres de bumbo. Mas clássicos são livros que não enrolam o leitor, no sentido de lhe devolver ritmos tão impalpáveis quanto os da vida. E, portanto, concretos, como quando se põe em dúvida entre abrir o pacote de caixa de fósforos pelo lado que mais lhe agrada. Ou seja, aqueles em que elas surgem com as lixas à mostra, no comprido, se você, por sensibilidade gosta mais do desenho, da geometria, da análise, de algo cerebral; ou do contrário, abri-lo na largura, que lhe mostra a cor azul das gavetas, se você tende mais à cor e à emoção. Se por um flanco há nos clássicos um apego aos ritmos da vida e ao sabor das coisas, por outro eles os transcendem. Convertem circunstâncias - às vezes de uma rematada banalidade - em valores eternos. Mais certo é que quase sempre se atém ao senso-comum e não às pirotecnias mentais de iniciados e gnósticos. Dos que se fecham em solipsismos, especialismos reverentes a um sistema anterior. Leituras teóricas de crista de onda. Ou a um desmedida crença no brilho individual: seja de quem os escreve, seja de quem escreve sobre eles.


Pode-se falar em evolução, como transcurso e acúmulo. E é bom saber desse roteiro e desse resíduo. Mas não há progresso em arte, em literatura – na vida também, mas há gente que não intui isto. Que não intui que podemos aprender com qualquer época histórica, porque o que não falta a todas é experiência humana. Um livro publicado em 2009 não é automaticamente melhor do que um publicado em 1922 apenas porque foi publicado “depois” ou está mais rente ao presente. Dificilmente surgirá em 2009 um livro tão inovador e atual quanto o Ulysses de Joyce, que foi publicado oitenta e sete anos atrás. E jamais surgiu, no Ocidente, um livro maior e mais inovador do que a Bíblia ou mesmo do que os poemas Homéricos, que são um tanto anteriores e muito mais importantes que Joyce. Ou das incontáveis páginas escritas - em virtualidade ou não -neste último século, onde tudo foi cinema, onde todos viraram identidades – da Teoria da Relatividade à Teoria Quântica, passando pela ditadura dos relativismos e pelo reino dos blogues claros.


Mas, claro, clássico também se expande para fora do livro. No futebol, um clássico é um embate tão bom, que transcende uma única partida. Que está sempre sendo jogado, pois congrega toda uma antologia de partidas anteriores, lances e gols a cada nova partida. Que, aliás, está sendo jogado mesmo quando não há partida: na memória, intrincando-se pelos meandros dos dias e seus trabalhos. Pelo eloqüente fulgor ou invulgar perícia de certas jogadas. Pelo quotidiano, enfim. A coexistência entre efêmero e eterno está à base do que é clássico.


Enquanto no livro comum o ano passa em Mercúrio, no clássico ele transcorre em Plutão. Com vagar e convites à antologia e à releitura. Mas se a resposta da sabedoria é demandada em urgência, o clássico te dá um raio; o mau livro, uma conexão discada.






Nota - crônica originalmente publicada no jornal O Povo, com pequenas variantes.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Tipologia encaracolada de bibliotecas


[s/i/c]



Digressão Sobre Bibliotecas e Espirais


Há uma grande variedade de bibliotecas. E diferentes maneiras de dispô-las. Cada leitor escolhe a sua. Não se tem a mesma expectativa diante de bibliotecas públicas, privadas ou, digamos, da Biblioteca Nacional. Mesmo que a biblioteca de um amigo ameace virar algo desmedido. A noção de medida importa. Sempre importa. Há um traço moral nisso. Assim como a inclinação que só um amador possui diante de livros é também um traço moral. A marca amorosa do colecionador. Daí a sensação de aconchego que as bibliotecas montadas em casa resguardam. Livros vão bem com luminárias e dias de chuva. Ou rimando com outros objetos. É preciso perder o medo de acumulá-los.

Hoje, a noção de livro vai muito além daquela que só alguns poucos anos atrás tínhamos. Assim, o livro está pairando por aí. Está na rede, nos computadores. Podemos recebê-lo via imeio ou visitá-lo numa miríade de blogues. Até por razões ambientais, a noção de biblioteca virtual é apaixonante. E implica um alto grau de portabilidade e acesso. Mas também de apagamento. A cada nova edição de software, milhões de documentos são perdidos para sempre ao redor do planeta. A cada suporte substituído – vinil, disco flácido, disquete – que é cambiado por outros meios ainda mais compactos, ainda mais digitalizados, quantos Dom Quixotes não vão para o limbo? É certo, ao lado de uma infinidade de porcarias.

E há essas ruínas de bibliotecas passadas que são os sebos. Os sebos estão para as bibliotecas, assim como as colchas de retalhos para a tapeçaria. São inesgotáveis fontes de acesso a um passado quase perdido. E os melhores são deliciosamente caóticos.

Pode-se acumular muitos dissabores com livros e bibliotecas. E, ainda assim, não desistir da presença deles. Sentir-se mais seguro com eles por perto. É fácil, no entanto, perceber que nem sempre o acúmulo de livros segue na mesma proporção de uma voracidade de leitura ou consulta. E conheço todo um repertório de histórias envolvendo acervos e seus donos. Desde gente que doou livros a instituições e depois se arrependeu até bibliômanos que tem um ou outro toque fantástico em relação à biblioteca pessoal.

O caso mais interessante que já ouvi me foi contado por um amigo, leitor voraz de ficção e poesia em idiomas sortidos. No caso dele, a biblioteca era sempre sitiada pela água. Como mudava-se com freqüência de casa e cidade, habitou em lugares os menos recomendados para bibliotecas. Desde um porão no bairro paulistano da Pompéia até uma casa de praia em Florianópolis, passando por um estranho sótão de sacristia em Perdizes, de novo São Paulo. Ou o último andar habitável do Edifício San Pedro, na Praia de Iracema.

Em todos os lugares, invariavelmente, teve problemas com água. Papel e água não sintonizam. E suas perdas não foram pequenas. Mas, ainda hoje, ele mantém sua biblioteca com brio e quase mesmo entusiasmo adolescente de quando a começou.

De resto, toda biblioteca é em espiral. Não vemos isto porque a ótica ilude. E somos míopes em graus diversos. E, então, essa espiralidade das bibliotecas nos escapa como nos escapa o planeta Vênus quando o sol surge. Como a biblioteca, cada som que chega à mente humana, chega em espiral. E tem de atravessar um labirinto. E, a exemplo, dos que lêem mas não aprendem, quem ouve e não sente sofre de labirintite. Ou seja, fica tonto de tanto buscar saídas. Quando a saída é aprender a conviver com a condição de espiral, de labirinto, que é a própria condição borgiana da biblioteca.

Claro, as melhores bibliotecas estão dentro de nós. E também são labirínticas e sem emprego imediato. Nenhuma pronta serventia. Nenhuma operação ou cálculo - que isso não é matéria de livros de verdade. Nenhuma serventia, a não ser a mais radical das serventias: auto-conhecimento. Espiral que não tem fim.

Não creio que todos gostem de livros o suficiente para compor uma biblioteca. Há pessoas que nunca leram e tem mais de biblioteca do que muitos doutores. Estas entenderam a espiral da vida. E da morte. O que está escrito na Bíblia ou na Ilíada, sabem de cor sem precisar ler. para elas o mundo é o livro. E o moinho. Porém, como árvores, estão em extinção, porque no suposto mundo globalizado em que vivemos, é necessário que todos leiam. Ao menos para as estatísticas do Estado. Mesmo aqueles que, com o calcanhar quebrado, sozinhos, sem televisor, sem telefone, sem internet por perto, não tem a menor vocação para sentar-se, calmamente, diante de um livro numa noite de chuva.





Nota – esta crônica foi originalmente publicada no Diário do Nordeste, em 2007.