Dante Gabriel Rossetti, Beata Beatrix, 1863
William Blake, Beatrice adressing Dante from the car, 1827
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Et Vanitas Vanitatum
A questão é: os perigos do excesso de auto-consciência.
O que é gerado a partir daí? Apenas niilismo? Ou também esperança?
Quando falo, aqui, em esperança, obviamente não me remeto à babaquice de frases feitas ou à sentimentalidade abstrata que o termo evoca. Mas à capacidade de empatizar com outras pessoas: algo cada vez mais raro, neste mundo que nos confina dentro das fronteiras estreitas de nossos próprios crânios. E cola a esses crânios extensões mínimas como aparelhos celulares ou ipods que nos distanciam ainda mais dos que estão à volta. E os colam para que sigamos em comodidade consumindo ainda mais: músicas, imagens, palavras ou até a conversa dos outros. Quer dizer conversando ao telefone móvel estamos consumindo uma oferta que nos é disponibilizada pelas tecnologias digitais analâmbricas.
O certo é que auto-consciência está longe de ser uma panacéia. É apenas um dom que uns têm – e cultivam – mais que outros. Há, por exemplo, pessoas tão pouco conscientes de si, que sequer se dão conta do modo como o espaço de seu próprio corpo afeta o espaço dos que estão á volta.
Ocorre com um conhecido meu, professor universitário, que, se ele segue conversando durante um passeio a pé, sua tendência é a de ou comprimir o interlocutor contra a parede ou jogá-lo à coxia, para além do meio-fio. Então é sempre providencial você armar uma leve cotovelada. Embora a cotovelada só alivie a situação por algum tempo. Ao que parece, ele próprio não se dá conta das escalas ou do espaço que ocupa no mundo. Ou do modo como dirige a palavra ao outro, que invariavelmente implica numa incômoda, desnecessária proximidade corporal. Como se necessariamente algo íntimo ou importante se tornasse mais íntimo ou mais importante por essa régua de espaço físico mal calculado.
É tipo conversar com gente que cospe em você o tempo todo. E não se dá conta disso.
Ora, a medida em poesia é semelhante. É como se você, de modo automático, estivesse movendo-se sempre em harmonia com a escala de seu espaço. Que não é a mesma, digamos, com sua namorada ou em uma conversa formal com o Diretor do Centro de Humanidades.
É claro que é saudável possuir certo grau de auto-consciência.
O problema é que isso está longe de evitar que você dê com os burros n'água ou cometa uma porrada de injustiça nas situações as mais diversas possíveis ao longo de uma vida. E as vidas, mesmo as breves, são feitas de muitos dias e envolvem as situações mais bizarras possíveis e imagináveis entre céu e terra.
Há certos momentos, que você precisa agir como num estalo de dedos, por puro faro e intuição.
E, logo, auto-consciência está longe de ser a panacéia para os teus males. Mas este blogue, apesar de se ter esforçado nos últimos tempos, ainda não é de auto-ajuda, caro leitor.
Et vanitas vanitatum.
The Voice
Woman much missed, how you call to me, call to me,
Saying that now you are not as you were
When you had changed from the one who was all to me,
But as at first, when our day was fair.
Can it be you that I hear? Let me view you then,
Standing as when I drew near to the town
Where you would wait for me: yes, as I knew you then,
Even to the original air-blue gown!
Or is it only the breeze, in its listlessness
Travelling across the wet mead to me here,
You being ever dissolved to wan wistlessness,
Heard no more again far or near?
Thus I; faltering forward,
Leaves around me falling,
Wind oozing thin through the thorn from norward,
And the woman calling.
Thomas Hardy
A Voz
Mulher mais prezada, como me chamas, me chamas
A dizer que agora não és mais o que eras,
Quando deixaste de ser aquela que me era toda a gama,
Como no início, em nossa primavera.
Será que é a ti que escuto? Deixa-me ver-te, então,
Alerta como quando eu me acercava da cidade
Onde esperavas por mim: sim, como eu te sabia então,
Envolta no liso vestido de azul claridade.
Ou será apenas a brisa, passando em surdez
Pela planície úmida até chegar a mim,
Tu para sempre diluída em murcha lividez,
Não mais escutas, sussurro ou clarim?
E, então, eu; avulso adiante,
Folhas sobre mim tombando,
O terral coando-se fino pelo espinheiro oscilante,
E a mulher chamando.

On My First Sonne
Farewell, thou child of my right hand, and joy;
My sinne was too much hope of thee, lov'd boy,
Seven yeeres tho'wert lent to me, and I thee pay,
Exacted by thy fate, on the just day.
O, could I loose all father, now. For why
Will man lament the state he should envie?
To have so soone scap'd worlds, and fleshes rage,
And, if no other miserie, yet age?
Rest in soft peace, and, ask'd, say, here doth lye
Ben Johnson his best piece of poetry.
For whose sake, hence-forth all his vowes be such
As what he loves may never like too much.
Ben Jonson
De Meu Primogênito
Adeus, então, filho de minha destra e ledo afago;
Meu pecado: pôr tanta esperança em ti, querido,
Sete anos me estiveste emprestado, e eu te pago,
Expropriado de teu destino, no dia aferido.
Ah, pudesse, ora, desatar todo o pai. Como pois
Dever-se-ia lamentar o estado em afinidade?
Tão cedo escapado do mundo, e da carne feroz,
E, sem outra mazela, a não ser a da idade?
Descansa em santa paz, e, se indagado, diz
Que contigo jaz o melhor poema que já fiz.
Resta a sina de quem para diante os votos serão tais
Que o que quer que ame, jamais amará demais.
La noche oscura
Canciones del alma que se goza de haber llegado al
alto estado de la perfección, que es la unión con Dios,
por el camino de la negación espiritual.
En una noche oscura,
con ansias en amores inflamada,
(¡oh dichosa ventura!)
salí sin ser notada,
estando ya mi casa sosegada.
A oscuras y segura,
por la secreta escala disfrazada,
(¡oh dichosa ventura!)
a oscuras y en celada,
estando ya mi casa sosegada.
En la noche dichosa,
en secreto, que nadie me veía,
ni yo miraba cosa,
sin otra luz ni guía
sino la que en el corazón ardía.
Aquésta me guïaba
más cierta que la luz del mediodía,
adonde me esperaba
quien yo bien me sabía,
en parte donde nadie parecía.
¡Oh noche que me guiaste!,
¡oh noche amable más que el alborada!,
¡oh noche que juntaste
amado con amada,
amada en el amado transformada!
En mi pecho florido,
que entero para él solo se guardaba,
allí quedó dormido,
y yo le regalaba,
y el ventalle de cedros aire daba.
El aire de la almena,
cuando yo sus cabellos esparcía,
con su mano serena
en mi cuello hería,
y todos mis sentidos suspendía.
Quedéme y olvidéme,
el rostro recliné sobre el amado,
cesó todo, y dejéme,
dejando mi cuidado
entre las azucenas olvidado.
San Juan de la Cruz
A Noite Escura
Canções da alma que se compraz de haver chegado ao
alto estado da perfeição, que é a união com Deus,
pelo caminho da negação espiritual.
Em uma noite escura,
com ânsias em amores inflamada,
(ah, ditosa ventura!)
saí sem ser notada,
estando já minha casa sossegada.
Às escuras e segura,
pela secreta escada disfarçada,
(ah, ditosa ventura!)
às escuras e na calada,
estando já minha casa sossegada.
Na noite ditosa,
num segredo, que ninguém me via
e eu não enxergava coisa,
sem outra luz ou guia,
senão a que no coração ardia.
A luz que me guiava
mais certa que a luz do meio-dia,
aonde me esperava
quem eu bem o sabia,
no ermo onde ninguém aparecia.
Ah, noite que me guiaste!
Ah, noite amável mais que alvorada!
ah, noite que juntaste
amado com amada,
amada no amado transformada!
No meu peito florido,
que inteiro só para ele se guardava,
ali quedou dormido,
e eu lhe regalava,
e aroma de cedros ares dava.
Os ares da ameia,
quando seus cabelos afagava,
com uma mão que semeia
em meu colo uma cava,
e todos meus sentidos superava.
Quedei-me e olvidei-me,
o rosto reclinei sobre o amado,
tudo cessou, e deixei-me,
legando meu cuidado
entre as açucenas exilado.
'O amor de agora é o mesmo amor de outrora'
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
Dante Milano
Nota – este soneto de Dante Milano é a prova mais cabal de que se pode escrever um soneto sem violar a necessidade e o desejo de uma expressão nova. Bebe tão obviamente em Dante, via Camões, e, no entanto, é mais preciso do que a vanguarda praticada sem radicação. Sem o enraizamento no local, de que nos falam autores como Simone Weil. Para mim, tem um significado especial. Na última apresentação de minha banda, em 1997, li este poema num intervalo entre uma e outra música. [A canção que veio a seguir, ainda lembro, era o “Tema de Vila Sésamo”, de Marcos e Paulo Sérgio Valle. De resto, tão bom quanto tudo que a dupla escreveu para a televisão. Quem não é imediatamente transportado para o começo da década de 70 ao ouvir o tema do Esporte Espetacular?] Creio que o poema toca na mesma exasperação de Drummond quando aborda a questão do momento e da essência [“Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno”]. Porém o faz com ainda mais grandeza de forma. Sem dúvida, um dos sonetos do séc. XX para se trazer de cor, no lado esquerdo. Como a estrela do xerife fictício que todos somos. A estrela da manhã. Ou da manha de priorizar o que clama por prioridade.


Quem tem euros [farsa em meio-ato]
Dois caminhoneiros portugueses de meia-idade, acabam de sair à rua de um restaurante, na Varjota, onde haviam jantado:
Caminhoneiro 1
Qual o ponto g da Varjota, meu bom gajo?
Caminhoneiro 2
Ao sul do Papicu. Mas o preço é um ultrajo.
Caminhoneiro 1
Pregunta a rapariga se temos um desconto!
Caminhoneiro 2
Diga lá, moça, quanto? Oitenta e cinco contos?
Caminhoneiro 1
E ora diz-me que fiado só no dia de São Nunca.
Caminhoneiro 2
E inda temos a pagar a diária da espelunca.
Caminhoneiro 1
Claro está, claro está, temos cá um problema.
Caminhomeiro 2
Grave não há de ser: vamos a Praia d'Iracema.