quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Re-Polêmica: A desastrada Bienal de Artes de São Paulo


Oscar Niemeyer, Pavilhão da Bienal, 1953



Pichação, Grafitagem, Heroinização e Equívocos

De tudo se pode acusar a Bienal deste ano. Menos de não ser polêmica. E polêmica de um jeito mau. Há, de resto, muita coisa a ser lamentada. E muito se lamentou em páginas e páginas de segundos cadernos e suplementos de cultura, blogues e listas de discussão por este país afora: critérios, curadoria, efetiva participação, legitimidade, etc. O certo é que, ao que tudo indica, nunca houve uma Bienal Internacional de Artes de São Paulo tão pobre e mal curada quanto a deste ano. Isto é quase unanimidade. Mas não parece de todo burro, no entanto.

O maior índice desse estado de coisas é que um simples incidente ganhou proporções excepcionais. O próprio centro da conversa. Uma contumaz pichadora de rua, junto com todo um grupo, desandou a pichar as paredes sinuosas do belo Pavilhão de Exposições, no Parque do Ibirapuera [o famoso Ibira, para os paulistanos]. Ao que parece, parte do grupo conseguiu evadir-se a tempo. Mas a garota foi presa pela segurança do evento. E entregue à Polícia.

Em artigo recente, para a Folha de São Paulo, versando sobre o caso, há uma análise que assoma equívoca e defectiva em vários trechos. O artigo foi escrito por Paulo Herkenhoff, curador de reconhecida competência, crítico de arte, nome de relevância no cenário artístico brasileiro e de bons serviços prestados. Mas o problema com o artigo de Herkenhoff, entre alguns acertos, é o de tentar heroinizar a pichadora. Ele chega ao ponto de dizer que ela:

Não danificou nenhuma obra de arte. Por acaso, Oscar Niemeyer veio a público protestar contra a grafitagem como um "ataque" danoso ao pavilhão do qual é autor, como sempre fez quando degradam um projeto de sua autoria?

Ou ainda:

Mesmo que seja uma mulher, baixinha, gordinha que não conseguiu escapar da ineficiente vigilância da instituição como os outros 30 galalaus. Sua prisão serviu para salvar a honra dos vigilantes e o contrato da empresa com a Bienal... Parabéns a Carolina por não ter pensado na delação premiada para se safar da encrenca, mesmo depois de 52 dias sem um habeas corpus.[Grifos nossos]

Há duas questões, aqui: 1. não sei se seria necessário um pronunciamento do decano de nossa arquitetura, centenário, vivendo quase em reclusão, para percebermos que a moça, a despeito de sua origem social humilde (e das injustiças sociais praticadas contra os pobres neste país), não agiu bem. Aliás, não vinha agindo bem. Pois muitos são pobres e não saem pichando a casa dos outros, os logradouros públicos ou pavilhões de exposições de eventos – como ela declara fazer quase compulsiva ou profissionalmente. 2. que o grupo que estava com ela tenha se evadido é pena. Pois deveriam também haver sido presos. Pode-se lamentar, de fato – aliás, junto com Herkenhoff – a incompetência da empresa de segurança contratada pela organização da Bienal. Mas, não se lamenta de forma alguma – bem ao contrário de Herkenhoff – a prisão da pichadora. Chega de achar coitados nesse bando de desocupados que vivem de consumir drogas e pichar até a alma de nossas cidades.

Mas Herkenhoff segue adiante:

A Bienal quer que o Brasil sinta saudades da ditadura? A mesma Bienal que entrega a grafiteira à polícia foi a que proscreveu Cildo Meireles em 2006 por ter protestado contra a reeleição de Edemar Cid Ferreira para seu conselho. O paradoxo é que Edemar não providenciou a prisão da garota que beijou com batom uma tela de Andy Warhol na Bienal de 1996, fato muito mais grave do que grafitar paredes nuas. [Grifos nossos]

De cara, vejam como a pichadora – uma reincidente, pois que auto-confessou a imprensa, após se haver convertido na celebridade da vez na Bienal, já haver pichado dezenas de prédios São Paulo afora – é convertido em “a grafiteira”. Elevada, assim, a uma condição, mais digna, de artista: faz grafitos, não pichações. Mas, não. Não creio que seja tanto um paradoxo quanto uma falha, uma falta de critério isonômico no caso Wahrol.

A ambas – tanto a “beijoqueira” de Wahrol quanto a pichadora de ruas e prédios (não esqueçamos ela é reincidente!), assim como de um edifício público, mantido pelo contribuinte – deveriam ser aplicados os rigores da lei. Ponto. E, de resto, porque beijar um quadro de Wharol é mais grave do que pichar um edifício de Niemeyer, que é patrimônio do povo brasileiro? Ambos não configuram atos ilícitos de depredação do patrimônio alheio? Há alguma gradação para isso? Ou será que entra aqui tão-só a lógica do valor material do quadro de Wharol – o que seria suficiente para anular todo o argumento de Herkenhoff? Seria mais grave furtar um bule de café de latão numa casa de favela, no Jardim Ângela, ou um serviço de chá em prata numa mansão do Morumbi? O argumento parece um pouco com isso. O leitor tira suas conclusões.

Por fim, concordo com Herkenhoff ao menos num ponto, que, aqui, entra de hipótese. Não tenho – como ele também não tem – nenhuma dúvida de que se a moça em questão fosse de classe-média, já estaria solta. Ou nem sequer seria presa. É fato. E é uma vergonha. A vergonha está aqui. Quer dizer, o fato de uma menina de classe média não ser presa não constitui um álibi para que uma pobre também não seja. A vergonha brutal e hedionda, aqui, é que a de classe-média não seja.

Pois deveria.



terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Não podes mais revisar: Bishop


[s/i/c]




North Haven



In Memoriam: Robert Lowell

I can make out the rigging of a schooner

a mile off; I can count

the new cones on the spruce. It is so still

the pale bay wears a milky skin; the sky

no clouds except for one long, carded horse's tail.



The islands haven't shifted since last summer,
even if I like to pretend they have
--drifting, in a dreamy sort of way,
a little north, a little south, or sidewise,
and that they're free within the blue frontiers of bay.

This month, our favorite one is full of flowers:
Buttercups, Red Clover, Purple Vetch,
Hackweed still burning, Daisies pied, Eyebright,
the Fragrant Bedstraw's incandescent stars,
and more, returned, to paint the meadows with delight.

The Goldfinches are back, or others like them,
and the White-throated Sparrow's five-note song,
pleading and pleading, brings tears to the eyes.
Nature repeats herself, or almost does:
repeat, repeat, repeat; revise, revise, revise.

Years ago, you told me it was here
(in 1932?) you first "discovered girls"
and learned to sail, and learned to kiss.
You had "such fun," you said, that classic summer.
("Fun"--it always seemed to leave you at a loss...)

You left North Haven, anchored in its rock,
afloat in mystic blue...And now--you've left
for good. You can't derange, or re-arrange,
your poems again. (But the Sparrows can their song.)
The words won't change again. Sad friend, you cannot change.


Elizabeth Bishop



North Haven


In Memoriam: Robert Lowell

Posso distinguir o apito de uma escuna

uma milha ao longe; posso contar
as novas pinhas no espruce. Há tanta calma

que a pálida baía veste uma pele leitosa; o céu

sem nuvens senão por um longo rabo de cavalo em cartolina.


As ilhas não se moveram desde o verão passado,
Mesmo que eu pretenda que sim
—À deriva, de uma forma onírica,
A direita, a esquerda, para os lados,
E que são livres na fronteira azul da baía.

Este mês, nossa favorita está cheia de flores:
Botões d'ouro, trevos, boas-noites,
Orquídeas flamejantes, irisadas margaridas, eufrásias,
As fragrantes estrelas incandescentes das rubis
E mais, de volta, para pintar o prado de delícias.

Os pintassilgos voltaram, ou outros como eles,
E a canção de cinco notas do pardal-de-gola-branca,
Rogando e rogando, rasa os olhos de lágrimas.
A natureza se repete, ou quase:
Repete, repete, repete; revisa, revisa, revisa.

Anos atrás, tu me disseste que foi aqui
(Em 1932?) que "descobriste as meninas"
E aprendeste a velejar, aprendeste a beijar.
Fora “tão bom”, disseste, aquele clássico verão.
(“Bom” – sempre parecia te deixar no prejuízo...)

Deixaste North Haven, ancorada em suas rochas,
Flutuando em místico azul... e agora te foste
De vez. Não podes embaralhar, ou re-arranjar
Teus poemas de novo. (Mas os pardais podem sua canção.)
As palavras já não mudarão. Doce amigo, já não podes mudar.




Nota – Outra elegia espantosa. Outra espantosa forma de memória urgente e amorosa. Todas as formas da natureza se dobram para os signos mais clássicos da escrita. Como se sabe, versos são flores – é uma das figuras mais clássicas para o verso no Ocidente (daí que uma antologia, uma coleção de versos se chame também “florilégio”). O canto dos pássaros também é outra metáfora clássica para poesia. E, no caso, para uma poesia métrica: as cinco notas do pardal-de-gola-branca. Lowell era conhecido pela obsessão com que revisava seus textos, modificando completamente seus poemas de uma para outra edição (como, no poema a natureza muda de estações e cores). Somente uma poeta como Bishop – uma das mais altas poetas do sec. XX – pode escrever algo assim tão belo. Ou seja, onde tudo que é concreto acha um equivalente abstrato imediato e indescolável. Para maior contexto deste poema, clique AQUI.



Por um poema onde há versos


John Brett, 1871

O funcionário


O tempo não diz tudo.

A História Universal

é apenas um inventário precário,

organizado por um funcionário público.

Pomos nele nossas esperanças,

mas o tempo diz quase nada.

Numa tarde fria de setembro,

sentei para trabalhar e não trabalhei,

mas disso não saberão as gerações futuras.

O tempo precisa de secretários.



Odorico Leal


Nota - com a postagem deste poema, entende-se lembrar de todos os poetas sem-livro, mas que crêem no verso. Em uma poesia feita com versos. Aqueles para quem o verso, como medida, constitui um valor tão precioso que a publicação nos moldes convencionais - com todo seu rito politiqueiro a reboque - estilhaçaria a própria graça da coisa. A vasta maioria dos poetas que publicam pretendem soar obscuros ou herméticos... e acabam não soando (de todo). É impossível ler determinados poemas sem sair deles com aquela sensação de que conseguem ser mais dadaístas que dadá. De que se está mais surdo. De que se ficou mais mudo. Ou cego. E, aqui, o problema é que dadá já vai fazer um século dentro em pouco. Mallarmé já morreu faz muito. Mas o verso, por incrível que pareça, continua vivo da silva. Embora isso não seja do agrado de muitos poetas que não o manejam com razoável perícia. O seja, não juntam o bolso às calças. A forma ao assunto. O eixo às latitudes. E parece razoável que até para se cultivar o hermético, o obscuro, o que tende à parataxe ou sínquise é preciso possuir todos esses valores (hermetismo, obscuridade, serialidade e inconclusão) desde dentro. Mais ou menos como um escritor feito Age de Carvalho o faz. E, no entanto, ouve-se rumor de vozes se atritando por trás da escritura de Carvalho. Recentemente, num artigo [para o JB] de interessante teor, Felipe Fortuna, versou sobre a tal "crise do verso". Em resumo, Fortuna diz algo simples e preciso: a "crise do verso" só existe para quem nunca, de fato, o escreveu. O verso está aí, mais vivo e janota que nunca. Quem não sabe lançar mão dele, briga com ele. Passa longe de ser o caso do poema acima. Poucos poetas que publicam hoje, aqui pelo Brasil, conseguem construir um verso como "sentei para trabalhar e não trabalhei". E, no entanto, é tão simples. [Não está, por exemplo subdividido em gratuidade, tipo: “sentei/ para trabalhar e/ não trabalhei”, que é mais ou menos como um suposto vanguardista brasileiro o fracionaria hoje]. E, logo, passa tão ao largo de qualquer crise de verso. Ou “versitite”. Indago: que mérito há em se fracionar o verso ou em variar a sintaxe quando essas piruetas redundam apenas em cosmeticidade ordinária, em grotescas cambalhotas que se dá para serem sancionadas pelos amigos que lhe enviam livros a serem resenhados? Alguns desses livros saudados com efusão, como os de certo poeta argentino passado pelo Brasil, mal contêm entre capa e contracapa um português legível. Onde há mérito nisso tudo? Aqui, não se quer negar certa vontade de acerto ou empenho por parte de alguns autores. Mas lamentar ao modo Saul Bellow que "A great deal of intelligence can be invested in ignorance when the need for illusion is deep" ["Uma boa porção de inteligência pode ser investida em ignorância quando a necessidade de ilusão é profunda"]. O momento de poesia no Brasil ressuma fisiologismos e parnaso: escrever poemas não com a sinceridade de quem descasca vagens para poder se alimentar; mas compor artefatos ou móbiles bonitinhos, penduricalhos datados para servirem de adorno em apartamentos pós-modernos ou serem sancionados pelos prefaciadores de teus prefácios e os prefácios que antepuseste nos livros dos amigos. Amigos do alheio. Não da poesia. Do contrário, poemas como este dialogam com uma tradição. Com Cesário Verde, por exemplo. Porque há Cesário Verde neste poema. Nada contra quem acha graça em Bill Viola ou mesmo Cage. Mas não parece ser uma contrafação beber em Viola ou Glass sem saber de Verde? Coisas assim, passam o recibo do cosmopolitismo tacanho, profusamente multiplicado pela net. Mas o tempo precisa de secretários, como diz em ironia o último verso. Hoje em dia, já me dá certo alívio ler um poema que conclui. Que termina num prosaico ponto final. Porque quase todos os poemas terminam se pretendendo obra-aberta, ou “despoesia” ou “dobra” ou “vinca” ou “dilatoriedade” ou “ponto furo”. O que diabo mesmo vem a ser tudo isso? O que vem a ser abandonar uma tradição para construir "uma grande linha tensa contemporânea"? Aviso logo que não gosto de linhas tensas por perto. Parece um troço meio fálico, não? Ora, por um dialética simples, a força de pretensão nesses poemas de pulverização ou "atomização do verso" – ou na presumível explicação deles – é muito maior do que a força da linguagem em si. Eis porque soam não só pretensiosos ou pueris, mas mais fechados do que as portas do inferno – que, como sabemos, desde sempre anda abarrotado de boas intenções e presumíveis artefatos de delicada vanguarda.



Ensaio Breve Sobre Estilo e o Emprego do Ponto-e-Vírgula


Naum Gabo, 1977



Ensaio Compacto

Nos ensaios, o estilo de Pound é anedota. O de Eliot, provérbio. O de Auden, bonomia. O de Williams, conversa. O de Stevens vem da alma. O de Bishop, paisagem que não se dissocia de estado se espírito. E nenhum deles é tão chato quanto ler má filosofia. Mas todos eles são espelhos da respectiva poesia.


Nota - Estilo é tudo que resta depois de se duvidar da obra toda de um sujeito - ou de se gostar dela sem restritos; cortejando-a no bater de vista do olho. Ou de se pôr o cânone no vinagre. É o que faz o ouvido ouvir. A língua saborear. O olho ver em milagre. [Susan Sontag, via Nietzsche naturalmente, definia o estilo: "a assinatura da vontade do artista"]. A digressão, por exemplo, pode ser um caminho de estilo. Mas se não há terrenos que ela drene, por levar a lugar algum, ao menos ela tente tornar o percurso atraente. Ou, no mais das vezes, não solene. Mas tudo isso, em sua ânsia tradutora, ainda diz muito pouco do que mais falta nos escritores de agora. Por exemplo, para este texto não foi estritamente necessário o emprego do ponto-e-vírgula; embora nunca seja lá muito previsível a demanda desse precioso recurso.


O riso no compacto


Maggi Hambling, 1981



'The limerick packs laughs anatomical'


The limerick packs laughs anatomical

In space that is quite economical,

But the good ones I've seen

So seldom are clean,

And the clean ones so seldom are comical.


Anônimo, sec. XVIII



'O limerick embala o riso, anatômico'


O limerick embala o riso, anatômico,

Num espaço bem econômico,

Os melhores que afiguro

Não são muito puros,

E os puros nada têm de muito cômico.




segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Nada que não seja memória


[s/i/c]



Parla!

É anchamente redundante dizer: “não existe literatura sem memória”. A tua memória – que concentra todas as tuas experiências – é, no fim, a exclusiva responsável pelo único dom sem-par que dá forma às tuas sentenças: estilo. Teu estilo é tua bússola. A única forma real - no sentido do possível - de unicidade. O lograr deixar a marca de teus dedos na argila do vaso (para lançar mão da imagem do velho e bom Benjamin).

Mas não devemos esquecer: existe memória sem literatura. Quanto de dor, abandono, lágrima, prosternação, ostracismo, sonho, contentamento, pensamento suave, fascinação deixou de ser registrado em palavra. E, no entanto, foi real. Existiu. Muito longe. Muito ao largo de romances e versos. De qualquer índice ou prefácio. Porque primeiro vem o mundo. E se todos escrevessem, não haveria leitores.

Escrevem, de fato, aqueles que tem dom para registrar essas memórias, seja em ficção ou não. Da mesma forma que tem gente que tem mais aptidão para jogar tênis, amolar facas, tocar piano ou ser delicado. Por exemplo, deste último ítem e força de talento, arrotar delicadezas, conheço levas de pigmeus pelas selvas das resenhas deste país não menos amazônico.

Mas, bom, todos os textos postados neste blogue – da resenha do Infância de Graciliano Ramos à tradução de “Forgetfulness” (“Esquecimento”), de Hart Crane – têm certa tendência: a de pelo menos, roçar na questão da memória. A disposição para trazê-la de cor, nem que só em alusão. De ao menos roçar nela.

Quero dizer isso mesmo e não roçar “a” memória: roçar “na”. Como quando se é adolescente e tanto se deseja, ao menos na dança, roçar o corpo da outra, suas pernas tenras e roliças sob a seda, como para esboçar um prefácio de unir-se à própria beleza. Pois a beleza também é prazerosa, nos faz tirá-la para dançar. E segue a valsa.

No universo de língua inglesa, em escala bem mais agigantada que no nosso, é estonteante a quantidade de livros de memórias, de correspondência, de relatos ou reportagens mais amplas de viagem (travelogues) escritos pelos próprios romancistas, poetas, ensaístas, críticos, jornalistas, políticos etc. Aqui, por outro lado, no campo mais específico, mais estrito da memória, a biografia reina com despotismo tranqüilo, e quase desdêm. Afinal não são tantos os escritores que, como Graciliano Ramos, Gustavo Barroso ou Pedro Nava, escreveram grandes livros de memória. De um desses livros de memória de escritores da língua inglesa, não propriamente lançado recente, lembro pela beleza do título. Trata-se das lembranças de infância de Vladimir Nabokov: Fala, Memória [Speak, Memory].

Até parece que a graça do título nos remete para aquela anedota – certamente apócrifa ou inventada por Vasari – que se atribui a Michelângelo. A de que após haver concluído a escultura de seu Moisés, ele bateu no joelho da peça e disse: Fala! De modo análogo – só que antes de concluir qualquer peça – reproduzimos a mesma interjeição às nossas reminiscências. E aí elas podem concordar em depor. Ou não. Elas são, de fato, nossas musas. As únicas. E, como não poderia deixar de ser, a sorte de ouvi-las falar está do lado de quem menos desprezou-as.



Metáfora de morte e vida tomada à jardinagem: Larkin


Brotos de Queen Anne's lace: carota ou cenoura selvagem



Cut Grass


Cut grass lies frail:

Brief is the breath

Mown stalks exhale.

Long, long the death


It dies in the white hours

Of young-leafed June

With chestnut flowers,

With hedges snowlike strewn,


White lilac bowed,

Lost lanes of Queen Anne's lace,

And that high-builded cloud

Moving at summer's pace.


Philip Larkin



Grama Cortada


Grama cortada jaz frágil:

O fôlego é fugaz

Da rama rastejável.

A morte, tenaz, tenaz


Se faz nas alvas horas

Da nêspera ainda em broto,

Com flores de amoras,

Com sebes feito neves em coto,


Alvas lilases curvadas,

Alas perdidas de carotas,

E essa nuvem avultada

Com o ritmo do verão, às voltas.




Blogue e escovação de dentes


[s/i/c]



Uma terceira dentição


Cada um faz de seu blogue o que bem entende. Uns preferem dispor do espaço para dizer que escovaram os dentes. Outros que, a partir de agora, escovarão os seus com raspa de joá. Outros, que escovaram os dentes e as gengivas sangraram. Alguns, para registrar que lembraram de uma tal fulana enquanto escovavam os dentes. Outros vivem de colecionar a escovação de dentes alheia. E assim se prossegue numa orquestrada escovação sem fim. Como se o mundo fosse se interessar por ela apenas como ato ou vez. Sem forma. Ritmo. Tropos.

Mas gosto mais daqueles poucos que se vê por aí, onde o blogue – pela forma, pelo estilo – quer fazer crescer uma terceira dentição. Contra as leis da biologia e os ciclos da vida humana. Uma terceira dentição que permaneça até quando seu autor não estiver mais por aqui. O blogueiro que também não posta para o póstumo, nada sabe do passado. Não faz jus a sequer uma única das polegadas de cristal líquido da tela em que escreve. Mas os primeiros, não apagam nada. Escreveram justo o que “devia” ser postado. Não menos que isso.



sábado, 13 de dezembro de 2008

Pudessem voltar como gaivotas: Lowell


[s/i/c]



Water


It was a Maine lobster town—

each morning boatloads of hands

pushed off for granite

quarries on the islands,


and left dozens of bleak

white frame houses stuck

like oyster shells

on a hill of rock,


and below us, the sea lapped

the raw little match-stick

mazes of a weir,

where the fish for bait were trapped.


Remember? We sat on a slab of rock.

From this distance in time

it seems the color

of iris, rotting and turning purpler,


but it was only

the usual gray rock

turning the usual green

when drenched by the sea.


The sea drenched the rock

at our feet all day,

and kept tearing away

flake after flake.


One night you dreamed

you were a mermaid clinging to a wharf-pile,

and trying to pull

off the barnacles with your hands.


We wished our two souls

might return like gulls

to the rock. In the end,

the water was too cold for us.


Robert Lowell



Água


Era uma vila lagosteira no Maine—

a cada manhã barcadas de mãos

forcejavam em pedreiras

de granito pelas ilhas,


e deixavam dúzias de áridas

casas silhuetadas em branco e encrustadas

como ostras

numa colina de pedra,


e abaixo de nós, o mar rodeava

a pequena e rústica armadilha

labirintos de caniçada,

onde os peixes pela isca se encurralavam.


Lembra? Sentávamos numa fenda da rocha.

Dessa distância de tempo

parece que a cor da

íris, sazonava e purpurejava,


mas era só

a usual rocha cinza

sorvendo o verde habitual

quando banhada pelo mar.


O mar banhava a rocha

a nossos pés o dia todo,

e seguia dilacerando

um floco após outro.


Certa noite sonhaste

que eras uma sereia agarrada ao pilar do píer,

e tentando arrancar as cracas

com as próprias mãos.


Desejamos que nossas almas

pudessem voltar como gaivotas

para a rocha. No fim,

A água era fria demais para nós.




Nota – Este ano foi lançada a correspondência entre Elisabeth Bishop e Robert Lowell. O volume tem mais de oitocentas páginas, pois que eles trocaram cartas por mais de 30 anos. Á certa altura, ao que tudo indica, Lowell, que sofreu várias crises nervosas e internamentos psiquiátricos, apaixonou-se pela amiga, que era lésbica. E lhe fez uma proposta de casamento por carta. À época, Bishop morava no Brasil, na companhia de Lota de Macedo Soares. Em sua resposta, Bishop indica a Lowell o nome de um terapeuta em Cambridge Massachusetts, onde ele estava morando. Ao que também tudo indica, muito antes disso, eles parecem ter conhecido um pequeno idílio, durante um feriado, em certa cidadezinha lagosteira na costa do Maine. O registro deste idílio, nas palavras de Lowell – com sua obsessão pelo confessional – encontra-se aqui acima. Posto isto porque dificilmente se vai encontrar na poesia brasileira algo análogo - com a possível exceção de Mário de Andrade e seus inúmeros correspondentes - no que diz respeito a se manter uma conversa ao mesmo tempo afetiva e interessada pelos aspectos mais áridos, técnicos, formais de poesia ou estética. Há várias boas resenhas sobre esse livro de cartas (Words on Air) pela net afora. Assim como também há alguns poemas tanto de Bishop quanto de Lowell traduzidos aqui por Afetivagem. Listo alguns, com os linques respectivos:


de Bishop:

Florida (Flórida)

One Arte (Uma Arte)

Conversation (Conversa)

I am in need of music (Ando precisada de música)

North Haven (North Haven)


de Lowell:

Sylvia (Sílvia)

Sailing Home From Rapallo (Voltando de Rapallo por Mar)

For Sale (À Venda)

Epilogue (Epílogo)




Uma prova a dar bandeira da impossibilidade do bilinguismo


William Ratcliffe, Sótão (Attic Room), 1918




CHAMBRE VIDE


Petit chat blanc et gris

Reste encore dans la chambre

La nuit est si noire dehors

Et le silence pèse


Ce soir je crains la nuit

Petit chat frère du silence

Reste encore

Reste auprès de moi

Petit chat blanc et gris

Petit chat


La nuit pèse

Il n´y a pas de papillons de nuit

Où sont donc ces bêtes?

Les mouches dorment sur le fil de l´électricité

Je suis trop seul vivant dans cette chambre

Petit chat frère du silence

Reste à mes côtés


Car il faut que je sente la vie auprès de moi

Et c´est toi qui fais que la chambre n´est pas vide

Petit chat blanc et gris

Reste dans la chambre

Eveillé minutieux et lucide

Petit chat blanc et gris

Petit chat.


Petrópolis, 1925

Manuel Bandeira



Quarto vazio



Bichano branco e gris

Fica ainda no quarto

A noite é tão negra lá fora

E o silêncio pesa


Neste ocaso temo a noite

Bichano irmão do silêncio

Fica ainda

Fica perto de mim

Bichano branco e gris

Bichano


A noite pesa

Não há as vespas da noite

E então para onde elas foram?

As moscas dormem sobre os fios da electricidade

Sou tão-só o só vivente neste quarto

Bichano irmão do silêncio

Fica a meu lado


Pois preciso sentir vida perto de mim

E és tu quem faz do quarto um não-vazio

Bichano branco e gris

Fica no quarto

Esperto minucioso e lúcido

Bichano branco e gris

Bichano


Fortaleza, 2008


P.S. --- Ou seja, a rigor o poema apenas está em francês. Mas com todas as letras é um poema de Manuel Bandeira. Por acaso, escrito em francês. Não é propriamente um poema francês. Nenhum poeta francês escreveria algo assim. Ou que, ao menos, passasse perto disto. Porque a estrutura de sensibilidade é pernambucana com algum sotaque carioca. Para bons ouvidos: é frevo com uns compassos de samba no refrão. Quem aliás, compôs um tema chamado 'Blanc et Gris', que refrata certa melancolia suave presente no poema aliada à gentileza característica de alguns temas de Pat Metheny, foi o guitarrista Pádua Pires. O tema, instrumental, está registrado no CD Cidadela (2004). Gosto bastante da linha melódica desse tema. E cheguei a esboçar uma letra - que saiu um tanto chinfrim. Mas ainda não sei se a letra funciona. Em música, a prova dos nove é mais exigente. Para ler mais sobre bilinguismo e poesia: AQUI.



Colóquio dos Bodegueiros do Oeste do Bom Jardim


[s/i/c]



Encontros demais

Vocês já devem ter reparado. Hoje há encontros para tudo. Uma verdadeira indústria do encontro. Calma, não falo daquele encontro mais furtivo. Em que você, à Romeu, espera por Julieta no balcão sob o beneplácito sempre providencial da aia.
Refiro-me a essa enxurrada de congressos, seminários, colóquios, simpósios, bienais, conferências, feiras, mostras, oficinas, festivais, comunicações e o escambau que varre o país. Não há um único dia em que não se anuncie um evento assim na imprensa. Seja a efeméride que celebra duzentos anos de mídia no Nordeste[?], seja o encontro de curadores de bienais, passando pela reunião dos merceeiros do oeste do Bom Jardim. Ou mesa redonda para discutir sobre a violência urbana num asséptico, seguro e refrigerado mall de hotel cinco estrelas.
Dizem que isso faz parte da democracia. Que é um indício de consolidação da cidadania participativa.
Mas então a cidadania participativa já anda tão disseminada, que dá até medo. Medo que um dia o cotidiano se transforme apenas nesses encontros. Que eles se tornem norma de vida. Cotidiano. E se esqueça de que é preciso cumprir algumas outras rotinas, talvez mais prescindíveis, tais como: fazer pão, dirigir ônibus, passar trocos e recibos, auscultar caixas toráxicas, namorar, dar aulas, furar bolos, catar piolhos...



Flavas flores pendendo de um vaso da memória


[s/i/c]



O BELO PÁSSARO DECIFRANDO O DESCONHECIDO DURANTE O PERCURSO DOS AMANTES



Tenho estas fotos à mão. Tenho estas fotos bem à mão.

Numa delas tem um vaso improvisado de uma panela velha, suspensa num beiral de telhado. Do vaso pendem flores amarelas. Em outra, é só telhado. Os arcos das telhas encaixando pequenas sombras no cromo. Como se pode prender a luz num cartão. A exata luz. Na terceira reponta a proa semi-destruída de um lagosteiro contraposta à duna e a um céu de azulejada manhã -- abaixo à direita, faixa mais escura na areia, atestando a varredura da última maré. Na quarta só tábuas da lateral de uma pequena canoa repintada de verde, vermelho e um azul lavado por cima. Três frisos. Sendo que, no do meio, gravado em baixo relevo, um nome: Saturna. E na quinta, uma mulher jovem no copiar de uma pousada, lendo um paperback de Flannery O’Brien.

Tomo mais um gole de vinho. Um carro da polícia passa com alvoroço. Algo raro em Sabiaguaba.

O farol piscava sobre o serrote diligentemente. Deslizei a mão por baixo da saia, e acariciei seu sexo úmido. Muito leve. Muito lento. E ela comprimindo os olhos, e quase expelindo da boca um dropes de hortelã imaginário. Desenho dos lábios dela. Moldura do que sentia. Contorções e espasmos. E, enfim, bem supremo. Estávamos juntos. A isto se chama amor, presumo. O intercurso. É algo molhado. Um ato. Aquático. Como derramar leite de coco num confeito seco.

Estávamos deitados no convés do barco lagosteiro semi-destruído, com estrelas em riba, rumor de mar, e respirações curtas por todos os lados. Uma aleatoriedade. E consternação era longe da gente. A noite em Jericoacoara pescando quartos-minguantes para melhor nos envolver em mistério e búzios:

Diga algo. Me abrace”, ela disse. Muito sussurrado, muito suplicante. Uma beata. E seu delicado corpo de dezenove estios vibrava inteiro sob o meu.

Se na tarde ela lia Flannery O’Brien deitada na rede de tucum, que importava agora. Agora, estávamos para sempre longe das palavras, perto do decoro. Encerrados no pequeno jardim de um não mais esquecer.

Tomo outro gole de vinho.

Uma conhecida minha, bibliotecária da universidade, puxando água do cacimbão da pousada, a cumprimentou, uma tanto como se ela fosse minha mulher. O que ela era. Sim, felicidade e amor me acompanhavam.

Hoje. Bem, hoje não é mais minha mão que releva umidades sob o algodão daquela saia cinza. A praia não é a mesma, desmancharam o lagosteiro, desmontaram cada um daqueles segundos com a precisão de um ourives. Quietude. Calmaria da noite janeira. Brisa alguma. E vinho chileno ao redor. Desolamentos. Prateleiras de livros. Palavras. A civilização. Flannery O’Brien. Esterilidade. Um pouco de excesso de álcool e desalinho, de vez em quando.

Mas, então eu sentia cada centímetro do corpo dela sob. Seu quadril feito de elásticos. Seu fôlego, a falta dele. E o o beijo era lento, dissolvendo. O beijo dela dissolvendo, dissolvia. Tensão, tensão que ia embora. Forma de ria, revelação, e pequenos truques de nunca mais sempre. Gingas. Forma de camboa, de espumas encardidas, de águas-vivas, rebentação. Quadril feito de elásticos. Cheiro de salsugem e piche. Caravelas. Cairzinho de gota d’água num manguezal sem fim. Tão firmes no presente. Sem sonhar com a vida futura que, bem sabíamos, não seria a nossa. Porque tudo era tão perfeito, amor. E ainda assim os homens escolheram diferente.

A garrafa do Santa Helena está vazia. Madrugada alta.

Sou insistente. Quase perverso. Até não mais poder. Tudo de uma só vez novamente ao mesmo tempo um. Sim, felicidade e amor me acompanhavam.

Reponho as fotos na caixa metálica, de chá. Longe dos círculos de suor da garrafa sobre o tampo do birô. E os pássaros de Miró esvoaçam sobre aquela noite e aquelas frases entrecortadas na Jericoacoara de quatro anos atrás, agora.


[1995]

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Verão de 42


Robert Mulligan, Summer of 42', 1971



A Redundância é um Elemento Ancilar da Amizade

Saíram os três. Foram ao boteco preferido de dois deles. Era lua cheia. O fluxo das marés no sangue. Certa fúria de tourada-ambiente. Os dois mais velhos eram velhos amigos: o professor de matemática e o bancário. O terceiro estagiava num tribunal e havia sido aluno do primeiro.

O matemático, na verdade geômetra, era metido a poeta e falava de Walter Benjamin. Dos anos que viveu na Europa. Sempre com remissões a seus importantes trabalhos e artigos científicos – o mais recente, publicado pela Universidade de Edimburgo. Quando não a seu blogue. E gostava de citar-se. E não só uma vez:

–Lembra daquela crônica lá do blogue? Lembra daquela conversa sobre tradução e geometria lá pelo meu blogue?

–Lembro – dizia o estagiário solícito – e ainda havia algo como flores amarelas, acho.

–Flores amarelas? – disse o matemático com ar surpreso – não me recordo de ter falado em flores amarelas.

A lua rotunda e amarela, muito de quando, era traspassada por nuvens.

Tomaram cervejas no metro. Três vezes trocaram de bar. E apesar de um pouco entorpecido, o estagiário guiava os outros dois em seu carro ao som de Hendrix.

Uma única vez uma mulher realmente linda passou diante da mesa deles. Mas não passou mais. Meteoros não fundam duas vezes a mesma cratera.

O mais mudo era o bancário. Sofrera um acidente vascular cerebral e a voz ficara corrompida. Escutava à fanfarronice do matemático e quando muito lhe escrevia um aval no guardanapo, porque não gostava de polêmica. E respeitava o matemático apenas pelo tempo de serviço da amizade entre ambos. Embora estivesse convencido de sua fanfarronice. Às vezes escrevia coisas como:

–Jennifer O'Neill.

E tudo estava dito. E com enorme precisão. Podia-se ver várias coisas através de “Jennifer O'Neill”: a música de Legrand; as solitárias noites de Corujão naquela Aldeota de noites tranqüilas, ruas de calçamento, chalés e vastos jardins; a vergonha de partilhar o filme com os pais quando adolescentes; ou certa morena que parecia com ela, estudava no Ibeu e merendava na Lobrás. Naquele tempo “Jennifer O'Neill” ninguém ainda lanchava.

E era uma vez um verão no qual havia muitas e belas andorinhas. Especialmente na Feirinha da Praça Portugal. E no recreio do Colégio General Osório: Jacqueline, Giselle, Marley, Ana Paula. Tudo isso, todas elas e muito mais - e muitas mais - estavam por trás de “Jennifer O'Neill” esfereografada no fino papel do guardanapo. E era como vê-las reclinando-se sobre o bebedouro com aquela graça mitológica de segurar os cabelos.

Mas apesar do pesar, era um sujeito muito agradável de se ter por perto, o bancário. Apenas mais calado do que devia. Sua agilidade mental era extrema. Enquanto o pedante professor e seu jovem epígono seguiam para a pesca, ele já vinha com o cesto de peixes. O problema é que a mecânica do corpo não seguia a velocidade da mente. Algo se desgrudara lá dentro.

A noite foi imensamente longa. Nela, de tudo um pouco aconteceu. Especialmente de desagradável. E no fim os velhos amigos brigaram. E o matemático, não satisfeito, ainda brigou com seu ex-aluno. Queria tirar sangue. Nem que de pedras. O geômetra bêbado e falto de bons argumentos diante do discípulo – irritado com o grau em que a noite implicou certo previsível, irreversível parricídio intelectual – sobre ele lançou o sobejo de sua cerveja, após os arrazoados crisparem-se. Foi preciso a intervenção de uma pronta turma do deixa-disso.

Enfim, a hora apodreceu, e cada um seguiu ainda mais achacado para o habitual desolamento. E, no dia seguinte, a ressaca e a modorra, como pecados capitais, tornaram o dia ainda mais previsível e sozinho. Como se só vozes e não presenças houvesse na noite de véspera. E as cansadas promessas nunca cumpridas: da próxima vez, não há como beber tanto, porque, então, tudo apenas se transforma numa massa informe de vozes. E a gente acaba esquecendo do que disse. E diz muito. Não em confissão. Mas em asneira.

Mais noites de lua dessas e haveria revoluções de verdade no Brasil. Mas por aqui, nada disso é tão sério, como se sabe. Como se sempre soube.

E na próxima lua cheia a trinca estará de novo reunida, trocando as habituais arengas. Tomando cerveja no metro. Fechando bares. Recontando as mesmas piadas. Declamando os usuais queixumes. Anotando “Jennifers O'Neills” nos guardanapos. E uivando à passagem de cada beldade. Claros como teoremas e logarítimos. Como o encontro das paralelas no infinito.

Pois é tão óbvio que a redundância é um elemento ancilar da amizade.



quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Poema


[s/i/c]


Uma idéia


Passei a noite pensando uma idéia.

Era tão obsedante que eu não ouvia

o rumor do vento nos galhos da goiabeira.

Não tinha mais filhas.

De uma prece, não lembraria.

Ou se lembrasse, a prece cairia

no fosso, antes de atravessar a muralha.


Fiquei nu com essa idéia.

Ela roubou meu corpo.

Retirou minha necessidade de água.

Fumou todos os meus cigarros.

Ocupou meu sono como

uma girafa chama o olho da criança no zôo.


Pus-lhe sob vários prismas.

Olhei-a com as pernas presas ao trapézio.

Mas ela revidava lá, abaixo

e engolia fogo.

Tentei em vão extingui-la;

cresceu, labareda.


Retorceu o meu passado

e dele coou café e insônias.

Mas quando pensei tomá-la na mão

—como se toma o lápis ou a seda—

ela me disse que não, sem rastros.


Então, a borra da noite cedeu à luz inevitável.

A clara manhã é bem-vinda.





Nos trinques, como manda o figurino: Riding


[s/i/c]


In Due Form


I do not doubt you.

I know you love me.

It is a fact of your indoor face,

A true fancy of your muscularity.

Your step is confident.

Your look is thorough.

Your stay-beside-me is a pillow

To roll over on

And sleep as on my own upon.


But make me a statement

In due form on endless foolscap

Witnessed before a notary

And sent by post, registered,

To be signed for on receipt

And opened under oath to believe;

An antique paper missing from my strong-box,

A bond to clutch when hail tortures the chimney

And lightning circles redder round the city,

And your brisk step and thorough look

Are gallant but uncircumstantial,

And not mentionable in a doom-book


Laura Riding



Na Forma Devida


De você não duvido.

Sei que me ama.

É fato no interno de seu rosto,

Real marca de musculosidade.

Seu passo é confiante.

Sua aparência, cabal.

O ficar-junto-a-mim, um travesseiro

Para bolar por cima

E adormecer como no meu, acima.


Mas faça-me uma declaração

Na forma devida em ofício volumoso

Testemunhada pelo notário

E remetida pelos correios, registrada,

Para ser assinada em recibo

E aberta sob juramento de palavra;

Um gasto papel em falta no meu velho cofre-forte,

Um arrimo para agarrar quando o granizo açoitar a chaminé

E círculos rubros propagarem-se por onde cidade é,

E teu passo firme e aparência audaz,

Surgirem galantes mas incircunstantes,

Não figuráveis em relatos de juízos-finais.




Nota - muito boa ironia neste poema. Especialmente na linha que refere ao cofre-forte, com todas suas implicações sexuais. As garantias legais de que se cerca a suposta pretendida parecem, no fim, soar como um inventário de pequenas sandices e convenções sociais. Além, claro, de carregar nos estereótipos, na caricatura: o homem, quase um super-homem; a mulher em casa, durante uma tempestade de granizo, satisfeita de ao menos possuir o documento que comprova o contrato entre ela e o macho onipotente, que é também seu arrimo, literalmente "travesseiro". De poemas assim, pode-se dizer que provem de um feminismo saudável. Até porque auto-derrisório. E não daquela histeria menos luminosa encontrada em certos departamentos de gender-studies por esse mundo afora. Digamos que pode-se imaginar isto sendo escrito por uma daquelas secretárias de detetives em filmes noir dos 40 e 50 - cujas tramas intrincadas radicam em Chandler ou Hamemtt. Belas moças atrapalhadas por óculos e sentadas à máquina de datilografar em ante-salas permanentemente enfumaçadas. As mesmas que acabam se envolvendo com tipos misóginos - que tanto podem ser os próprios detetives quanto os vilões (pois, de resto, a diferença entre ambos, em certos casos, é tão extensa quanto a distância de São Paulo a Diadema). Essa estranha necessidade, um tanto jurídica, de tomar o amor pelo contrato. De subsumir o amor no ofício.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Three quotations with portuguese prosaic translations


Francis Bacon, 1972



Três citações com traduções em português prosaico



We all know what light is; but it is not easy to tell what it is.

Todos sabemos o que é a luz; mas não é nada fácil dizê-lo.

[Dr. Johnson]


This is so American, man: either make something your God and cosmos and then worship it, or else kill it.

Isso é tão americano, cara: ou tornar algo o teu Deus e cosmos e cultuá-lo, ou do contrário matá-lo.

[David Foster Wallace]


It is difficult to whip the donkey of dailiness into big, bucking, dramatic scenes.

É complicado fustigar a mula do dia-a-dia até as grandes, escoiceantes cenas dramáticas.

[James Wood]



Três poetas-promessas de Pindorama


Elizabeth Murray, 1982



Pedra



É uma pedra.
Mas a maquie aborígine,
e a vista com tecidos –
ósseos, musculares, epiteliais –
e com lã e seda e cetim;
deixe que ela ultrapasse
a forma do casulo e do caracol.
Mais que para um molde ou fantoche,
dê a ela uma vida postiça:
alfabetize-a, andrógina e lasciva;
faça disso um exercício físico.
Contudo ela é seca – frígida – hostil
e se esquiva: sua origem mineral
quer ser definida pelo tempo.
Ela quer ser terra, areia
e alheia nada revela.
Ela se recompõe.
É uma pedra.

Nicollas Rannieri, MG


* * * * *


'Antes amasse'


Antes amasse

como os românticos amavam

as desolações marinhas.


Antes, não amor,

mas nostalgia atlântica.

Amor vai, porque é preciso que passe.

O passado esculpe nosso aspecto

e nos recurva

à eternidade.



Odorico Leal
, PI


* * * * *


Departure



A plataforma vazia

um fog indócil

Malas no

chão do trem e

mãos decepadas

acenavam para o nada

das janelas.

Queria sussurrar no

teu peito e cantar

aquela canção antiga

- palavras irresponsáveis -



Mas um apito insistente cegou

minha voz e,

kamikaze, dei-lhe a brancura das costas:

hic habitat felicitas



Rios afogando

o frágil rosto

convulso

trilhando caminhos

opostos aos teus.

(e era verão no sul).


Naquele trem minha

alma degelava,

líquida como chumbo.


Carol Marossi, SP
[Ana Carolina Marossi]



Bilinguismo e Poesia


Mel Bochner, Language Is Not Transparent, 1969


A língua dos poetas e os poetas na ponta da língua


É natural que movidos pela disseminação do inglês como a Koiné moderna – sobretudo por conta do universo pop, do cinema, da tecnologia digital, etc. – alguns poetas aspirem escrever em inglês. Mas o caso é complicado. E cabem muitos matizes por aqui.

Primeiro há aqueles países em que se é educado em inglês, a despeito da existência de uma ou de várias línguas nativas. É o caso da Índia, do Paquistão, da Malásia, entre tantos outros. Nesses países, toda a educação – especialmente a superior e técnica – é efetivada em inglês. Logo, se pode pensar que se é muito mais afetado por outro idioma do que nós aqui no Brasil.

Depois há regiões no mundo onde se falam muitos idiomas num pequeno espaço. Só para ficar na Europa: a Polônia, a Lituânia, certas regiões da Romênia; a Suiça, algumas regiões nos Balcãs. E, pairando acima disso tudo, há o caso de culturas nômades: ciganos e, sobretudo, judeus. Só para ilustrar esses locais de trânsito e cosmópolis, lembrar que o principal poeta grego do sec. XX, Kaváfis, nasceu em Alexandria, no Egito e era conhecido na Grécia continental por "o alexandrino".

Por outro lado, há aqueles momentos em que o florescimento de certos impulsos poéticos em determinado idioma são tão potentes que despertam o desejo de nele se escrever. A geração de Eliot e Pound admirava tanto os poetas simbolistas franceses – sobretudo Jules Laforgue – que tanto Pound quanto Eliot arriscaram escrever poeminhas em francês. Mas não foram muito longe. Logo perceberam o logro em que estavam se metendo. Drummond e Bandeira escreveram em francês, também como exercício. Mas duvido que seus poemas sejam mais do que isto: meros exercícios retóricos.

Sem embargo, ainda é possível alegar o caso de gente como Joseph Brodsky. Em sua maturidade, Brodsky escreveu poemas em inglês razoavelmente bem aceitos pela crítica. Mas, além de constituir uma exceção seria ingenuidade pensar que esses poemas foram mentados exclusivamente por Brodsky. Pode-se pensar, de outro modo, neles, como traduções de poemas originalmente escritos em russo e vertidos para o inglês em primeira mão. Ou, no mínimo, que eles devem ter passado por um sem número de revisões de pessoas que, desde que ainda estavam no útero da mãe, escutavam o idioma de Shakespeare. E isso, apesar de Brodsky já estar vivendo há vários anos nos Estados Unidos.

O tradutor de Drummond para o inglês, Mark Strand, sequer fala português. E olha que ele morou e foi professor visitante por ano e meio aqui no Brasil.

Recentemente, alguns poetas brasileiros – cuja proficiência em inglês é reconhecidamente baixa – andaram arriscando escrever poemas em inglês. Mas alguns o fizeram em parceria com poetas norte-americanos. E, convenhamos, a produção em inglês deles é, quando muito, sofrível. E está claro que jamais passará para alguma antologia séria de poemas escritos naquela língua.

Livrar-se dos esquemas mentais que uma língua – que é também uma tradição, uma história, um modo de vida – nos impõe não é como querer trocar de namorada. É como querer trocar de vida. O buraco é bem mais embaixo. Lembremos que Fernando Pessoa fez toda sua educação básica em inglês. Logo, detinha um manejo raro do idioma. Mas a língua falada na casa de Pessoa, que era a que importava na infância – por nomear a domesticidade, os afetos imediatos, e a comunicação petty, com a família – era o português. Além disso, havia uma numerosa colônia portuguesa em Durban. Como ainda há até hoje. Os que gostam de tênis devem lembrar de Wayne Ferreira, tenista sul-africano.

Quem sabe se Pessoa seguisse vivendo num país de língua inglesa – África do Sul ou Inglaterra – talvez houvesse se tornado um bom poeta escrevendo na língua de Chaucer. Do contrário, seus poemas de juventude, escritos em inglês, são vistos como meras curiosidades pelos críticos. Bem escritos, corretos, mas longe de se aproximarem – ainda que em afluência – do fluxo de literatura que realmente importa para os de língua inglesa. Pessoa em inglês sequer chega a emular o virtuosismo de certos poetas sul-africanos, como o sempre subestimado - aqui também por razões políticas - Roy Campbell.

José Albano, o exótico poeta cearense que tantos anos morou na Inglaterra e por lá em parte se educou, tem uma série de poemas chamada Four Sonnets With Portuguese Prose Translation. Mas talvez essas traduções em prosa para o português valham mais que os Four Sonnets. Ou, no máximo, o que se pode levar em conta é o conjunto inteiro: originais em inglês com as traduções em prosa para o português. E, claro, o que menos importa é o mérito isolado dos poemas em inglês. Eles não tem nenhuma ressonância cultural para os de língua inglesa.

Há casos e casos. Kerouac falava francês na infância, pois era filho de imigrantes franco-canadenses morando na Nova Inglaterra. Mas só falava francês em casa, porque para o resto da vida seu idioma foi o inglês. E além disso, o francês falado no Quebec é profundamente afetado pelo inglês. Eis porque não foi difícil para Kerouac firmar-se no inglês – mais ou menos como não seria para um nissei ou um descendente de italianos firmar-se no português em São Paulo – Menotti del Picchia que o diga - ainda quando os pais falavam japonês ou italiano em casa.

O mesmo vale para certa descendente de judeus-ucranianos que veio ainda bebê para o Brasil: Clarice Lispector. E, de outro modo, no caso de Lispector, por um português inteiramente afetado pelos modos e usos do Nordeste, uma vez que ela passou a infância e parte da adolescência em Alagoas e no Recife. [E, aqui, não conheço um só estudo que investigue a fundo esse evidente rasto e traço da cultura do Nordeste sobre a escritura de Lispector. Esperemos que alguém desperte para o aspecto em breve futuro].

Vários autores descendentes de judeus, falavam iídiche ou polonês em Nova York. Porém o inglês acabou absorvendo o esquema mental deles por contigüidade e desde muito cedo. De forma que o iídiche não restou para eles como “a língua”. É o caso de Saul Bellow. Bellow podia traduzir do iídiche, mas não escrever – com razoável grau de segurança e desenvoltura.

Por seu turno, um imigrante como Isaac Bashevis Singer, que aportou já mais maduro em Nova York, expressava-se em iídiche e não em inglês. E simplesmente porque havia levado uma vida nesse idioma. E não se pode arrancar uma vida num idioma e substituí-la por outra.

Para arrematar, aqui, pode-se lembrar o Eliot que dizia: I don’t think that one can be a bilingual poet. I don’t know of any case in which a man wrote great or even fine poems equally well in two languages [“Não creio que se possa ser um poeta bilíngue. Não conheço um único caso de alguém que escreveu grandes poemas ou mesmo poemas decentes em duas línguas distintas”].

E Eliot parece ter um bocado razão.



terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Um profuso intrincado ritmo: Zukofsky


[s/i/c]



(A FRAGMENT)



And so till we have died
And grass with grass
Lie faceless as the grass

Grow sheathed with the grass.
Between our spines a hollow
The stillest sense will pass
Or weighted cloud will follow.

Louis Zukofsky



(UM FRAGMENTO)



E então até morrermos
E folha com folha
Jazer deformados feito folha

Viça embainhada em folha.
Entre nossas vértebras um vão
Onde o mais tranqüilo se recolha
Ou nuvens pesadas se farão.


Nota- traduzir Zukosfsky é quase sempre uma tarefa de alto risco. É difícil pressentir o que ele quer dizer de fato em seus poemas. Pode-se, no entanto, sentir a música. Uma versão deste breve poema, um tanto diversa da atual, publiquei originalmente na revista Zunái, de Claudio Daniel. Não parece exagerado o modo como certa feita George Oppen classificou Zukosfsky de "obscuro". De usar a "obscuridade como tática" em poesia. Os dois foram grandes amigos, mas à certa altura, na maturidade, sobreveio algum mal-estar. Oppen foi mais explícito em relação a situação e mandou um recado a Zukofsky num poema de seu último livro (Primitive, 1978):

if you want to say no say/ no if you want to say yes say yes in loyalty

se você quer dizer não diga/não se quer dizer sim diga sim com franqueza

Às vezes, desconfio que a chave para a leitura de Zukofsky seja algo análogo à dificuldade que alguns leitores sentem diante de, digamos, Guimarães Rosa. Com uma complicação a mais: o primeiro idioma de Zukofsky era o iídiche. Só depois ele aprendeu o inglês. Sobre o iídiche este belíssimo artigo de um crítico que nunca esteve entre os prediletos, Harold Bloom (ele próprio também um falante do iídiche), mas que, aqui, acerta a mão. Os três últimos parágrafos deste artigo, aliás, são de tirar lágrimas de pedras:

[http://www.nybooks.com/articles/22020]

Por fim, como recordação sentimental, lembro que o primeiro texto que traduzi do inglês foi um conto de Isaac Bashevis Singer, chamado Gimpel the Fool [Gimpel, o Tolo]. Isto no longínquo ano de 1984. Singer é uma espécie de Kafka em estado de inocência. Ora, na verdade o idioma original de Singer era o iídiche e, logo, essa minha tradução foi feita a partir da versão para o inglês - que, de resto, foi levada a cabo por ninguém menos que Saul Bellow. Singer é um narrador extraordinário. Com toda aquela indizível verve e leveza dos contadores de histórias de trancoso. Todo o dinâmico (e, algo, miniatural) mundo judaico da Europa Central - varrido do mapa por Hitler - assoma tão animado e cheio de cores em sua escrita. E, assim, sua escrita urde-se como uma arqueologia no melhor senso do termo. Ou seja, uma elegia. Mas, enfim, isto de digressões nos leva para o alto mar e nos deixa à deriva. Falávamos de Zukofsky, que tem em seu épico poema "A" o seu opus maximus. Um intrincado poema cheio de referências. Inclusive ao marxismo e à música de Bach. Contando, por vezes, com trechos que são transcrições musicais em partitura.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O que os olhos vêem e o coração sente nem sempre é palpável. Mas ainda assim é belo: Oppen


Eaton Slaughtzinger, 1946




THE FORMS OF LOVE


Parked in the fields

All night

So many years ago,

We saw

A lake beside us

When the moon rose.

I remember


Leaving that ancient car

Together. I remember

Standing in the white grass

Beside it. We groped

Our way together

Downhill in the bright

Incredible light


Beginning to wonder

Whether it could be lake

Or fog

We saw, our heads

Ringing under the stars we walked

To where it would have wet our feet

Had it been water


George Oppen



AS FORMAS DO AMOR


Estacionados no mato,

A noite toda

Tantos anos atrás,

Vimos

Uma lagoa ao lado

Quando a lua surgiu.

Me lembro


Saindo daquele carro velho

Juntos. Me lembro

De pé sobre a relva branca

Ao lado do carro. Tateamos

Nosso caminho juntos

Morro abaixo no esplendor

Incrível da luz


E logo ponderando

Se se tratava de lagoa ou

Névoa

O que vimos, nossas cabeças

insinuando-se sob estrelas caminhamos

Para onde teríamos molhado os pés

Fosse aquilo água