segunda-feira, 12 de maio de 2008

Exercício de desconstrução: escritor radicado no Rio é morto em Fortaleza


Joan Miró, 1921


Escritor baiano morto por diário de Fortaleza faz palestra hoje no Instituto Dragão do Mar


O escritor baiano Antônio Torres foi assassinado hoje [12.05.2008] de madrugada por um redator do Vida & Arte. O escritor veio a Fortaleza para falar, no contexto de um seminário, sobre a chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808. Link e trecho da matéria [ "Cadê as Coxinhas de dom João?"] seguem abaixo:




"[...] Ele [Antônio Torres] participa hoje à noite do seminário Da Chegada da Família Real à República no Brasil. Em sua conferência, traz como principal discussão de como a história construiu a imagem de dom João VI. Quem assistiu, em 2002, à minissérie O Quinto dos Infernos, de Carlos Lombardi, na Rede Globo, deve lembrar das grotescas cenas do ator André Mattos, no papel do príncipe regente: palerma, comedor de coxinha, sem nenhuma moral com a sua família. Mas, de acordo com Antônio Torres, não foi bem assim. A lembrança cômica e pejorativa de dom João VI é herança de Portugal, por não perdoar a transferência da corte para o Brasil.

A relação de Portugal com o Brasil até hoje, para o escritor erradicado no Rio de Janeiro, tem suas ambigüidades. Um pouco de rancor da parte de lá. [...]".

quarta-feira, 30 de abril de 2008

De um romance com título tirado do Eclesiastes


Pablo Picasso, 1958




Hemingway na ratoeira
O mar não está para Hemingway. Um dos mais brilhantes prosadores do século XX se vê mais e mais amesquinhado nesses inícios de XXI. E justo por ter cultivado em seus livros uma virtude formidável: a sinceridade. Uma sinceridade seca que, por exemplo, dá bem a medida de como eram tratados judeus e mulheres naqueles tempos. Uma sinceridade que não recua ante a descrição dos brutais esportes que fascinavam o imaginário masculino de então. Jogos tribais e sanguinários: touradas, boxe, caçadas, pescarias de alto mar e risco.
Por conta dos excessos ralos do politicamente correto, a prosa limpa e desadornada de Hemingway vai cada vez mais passando do proscênio para o fundo do palco em prol de escritores medíocres, relatos étnicos de quinta categoria ou obscuras autoras que apregoam um feminismo estereotipado, ressentido, de extração pouco luminosa.
É verdade que Hemingway tinha um ego dos diabos. E em vida fez de tudo para reforçar esse estereótipo. Era o grandalhão intratável. O grande macho permanentemente bêbado – mas sem dar bandeira. O esportista de muitos riscos, cicatrizes e caçadas sem fim. O guerreiro que esteve em vários fronts. O amigo dileto de Fidel Castro e de tantos outros toureiros de primeiríssima linhagem.
Um tanto por conta disso, Hemingway é cada vez menos lido nos departamentos de literatura ao redor do planeta. Ele não é um escritor que concede muito às ondas do momento. Ou seja, à fração mais histérica desse politicamente correto. Iria sacar um sorriso irônico diante dessa noção farisaica que quer converter a palavra em realidade ao invés do contrário. Não há nada de suave que não seja suave em sua prosa sincera. E, no entanto, ele não suaviza nada.
De outro modo, apesar de se publicar imensamente mais e em maior tiragem do que quando Hemingway começou a ser publicado, raro é hoje em dia encontrar um depoimento tão visceral e apaixonado quanto o de O sol também se levanta (1926). Tampouco um romance em que a noção de cinema esteja tão presente na escrita que a própria adaptação do mesmo pelos grandes estúdios na década de 50 não passe de uma rala concessão à bilheteria, ao entretenimento fácil e à pressa. E não é preciso ir à fiesta de Pamplona para perceber que se há menos espaço para Hemingway no presente, há algo de errado com o presente.
Qualquer era, como a nossa, que entende fazer justiça com palavras deve ser vista com suspeição. A literatura não é uma engrenagem rasa processando uma causa. Seja ela justa ou não, de esquerda ou de direita, feminina ou masculina, terceiro-mundista ou metropolitana. A literatura se ocupa com outro reino e com outro exílio. E, claro, só parcialmente pode ser vista como retrato de uma época, porque também a transcende. E não é através da literatura que se vai reparar a sombra de um mundo injusto. Quando muito, ela pode intuir alguns sintomas dessa injustiça. Murmurar um protesto tímido. Indigitar essas injustiças, talvez. Mas não repará-las.
Quando Hemingway em O sol também se levanta descreve um bando de intelectuais bêbados seguindo para a Espanha em busca de um norte está falando de cada um de nós em qualquer parte do planeta. Intelectuais ou não. Da nossa angústia e do que nos é ainda dado por sonho.
Somos nós que caminhamos pela calçada parisiense onde ao lado um homem segue gravando, suavemente, sobre um molde vazado a palavra Cinzano. Somos nós que desejamos Lady Ashley e antipatizamos Robert Cohn. Somos nós que sentamos às margens do Irati, no entrecho de uma pescaria, para um gole de vinho. Ou então, restamos ao fim da tarde numa mesa do Café Select em Paris para, de forma quase sempre oblíqua, remoer a tragédia que foi a Primeira Guerra em conversas regadas a bourbon, vinho, coquetéis diversos, absinto e metáforas.
Se por um lado sua prosa límpida nos faz enxergar – e participar enxergando d’ – os sucessos narrados no livro, também conversamos por meio dessa habilidade com que Hemingway monta seus diálogos. E é quase cirúrgica a precisão com que o inglês falado é reproduzido neles. Eles entretêm insinuações suficientes para verter em palavras – sempre entrecortadas – a própria alma dos conversantes. Eles testemunham um estado de espírito.
Muito se disse de seu estilo. Da prosa contida emprestada ao tom jornalístico. Da concisão telegráfica de seus parágrafos. Mas Hemingway é muito mais que essa concisão psicológica somada a pouco caso por mera ostentação intelectual. E, claro, se tivesse vivido o suficiente para testemunhar como se escreve hoje nos jornais, teria torcido o nariz.
Quando se pensa na excepcional visualidade onipresente em O sol também se levanta, bem se pode suspeitar que Hemingway foi um leitor aplicado dos poetas chineses da dinastia T’ang ou dos haicaístas japoneses contemporâneos de Bashô. O que, aliás, não é improvável já que a cultura do oriente extremo estava em moda entre artistas plásticos ou literatos do convívio de Hemingway – como Ezra Pound, Gertrud Stein, Picasso, Gris e Braque.
De fato, Hemingway os conhecia. Embora, em seu depoimento autobiográfico sobre os anos parisienses ele não mencione a arte oriental. Aliás, Hemingway entende a posição do escritor como muito avessa à do intelectual ou à do scholar, embora fosse extremamente bem informado e não recriminasse aqueles seus pares que também se mantinham próximos ao universo acadêmico.
De resto, em sua famosa entrevista ao Paris Review, Hemingway cita ao lado de uma extensa lista de escritores também pintores entre seus “mestres”. Nomes como Tintoretto, Bosch, Brueghel, Goya, Giotto, Cézanne, Van Gogh, e Gauguin. Para, então, arrematar a questão dizendo que aprendia “com pintores tanta coisa sobre escrever quanto com escritores”.
Mas há investida nessa visualidade também o extremado amor que ele devota à cidade de Paris e, especialmente, aos campos, rios e montanhas do País Basco. A paisagem basca filtrada pelos olhos de Hemingway é límpida e clara como uma corrente de água recém caída da chuva a fluir sobre aluvião. Ao traduzir essa paisagem em palavras, Hemingway ao modo dos haicaístas japoneses, ao modo da tradição pastoral da literatura romântica, ao modo de Turgueniev, compõem também uma paisagem interior. E esse painel é indissociável de sua admiração pela cultura e pelos ritos ibéricos.
O barroquismo católico, com suas igrejas sombrias, suas plazas amplas, limadas de sol, emolduradas por arcadas, e por onde desfilavam rituais tão díspares – mas complementares – como as procissões e o carnaval fascinavam sua mente anglo-saxã. Talvez como que lhe resgatassem uma espécie de sinceridade que ele não entrevia em seu próprio meio. E a forma exigente com que ele busca essa sinceridade para si é comovente. Ao longo da narrativa de O sol também se levanta se vai formando um largo lastro de empatia, um tanto atávico, entre Hemingway e a Espanha. Para todos os efeitos, essa natureza ibérica, e esses rituais católicos como que parecem assomar, aos olhos dele, mais adequados para compor um painel do trágico, das cinzas, das cicatrizes e pesares que há numa existência – qualquer seja ela – tanto quanto de suas alegrias, réstias de luz, folia e júbilo. Em duas palavras e uma tela de Brueghel: carnaval e quaresma. E há um fascínio pelo barroco nesse homem de temperamento seco e ascendência nórdica.
N’O sol também se levanta crucial para os personagens é o fato de terem compartido uma experiência intraduzível: a guerra. Assim, tantos quantos passaram por essa experiência limite conseguem se entender. Sabem seu nome de guerra, como se diz. Compartem um código. Tantos quantos estiveram no limiar da morte. Pois até mesmo os que só viveram essa experiência obliquamente, longe do front, como Brett Ashley – que tratou dos feridos num hospital londrino –; ou Romero, o jovem toureiro – que trava uma guerra cotidiana e cerrada com a morte, nas corridas de touros – sabem aferir o peso de cada uma das palavras e gestos que articulam ao longo de uma conversa. Compartem-na. Compartem essa experiência tácita onde há muito de estóico mas também de grandeza e heroísmo.
Não a grandeza épica dos antigos. Não como guerreiros na Ilíada. Ainda épicos, sim, mas justamente pelo grampo contrário. Pela cotidianeidade minúscula, oca e a quase total ausência de grandeza em suas vidas. Épicos mas ao avesso. Anti-épicos. E por justamente aferirem, como diz Joyce, o peso dessas grandes abstrações, dessas “grandes palavras que nos tornam tão infelizes”: amor, paz, esperança, honra, heroísmo. E, claro, todo esse ambiente é temperado por um determinismo amargo, um tanto cético, do tipo que se pode surpreender nas páginas do Eclesiastes, o livro bíblico do qual Hemingway sacou o título do romance.
Mas há também espaço para se fruir a paisagem como um recado divino: “adiante a estrada sortia da floresta e seguia por sobre a ombreira da crista dos montes. As colinas acima quase não eram arborizadas, e havia vastos campos de tojo, sombrios sob árvores e ressaltavam cascalhos, que demarcavam o curso do Irati”. Ou ainda: “Era uma linda manhã, havia cirros muito altos sobre as montanhas. Chovera leve à noite, estava fresco e ameno no platô, e a vista maravilhava. Todos nos sentíamos bem, e estávamos contentes”.
Provavelmente todos podiam sentir o fluxo epifânico dessa natureza. Mas ainda aqui, a exceção é Robert Cohn. Ele é o que não passou pela guerra, e logo aquele que está fadado a não entender o código compartido pelos demais. Para usar a metáfora do próprio livro: ele é um boi entre touros. Não tendo vivido seu inferno particular, como saber das belezas do mundo? E há aquele famoso trecho em que os exércitos aqueus se preparam para o assalto à Tróia no Canto 8 da Ilíada para se pôr em paralelo. A cena se dá num amanhecer, e as fogueiras vão perdendo seu brilho. Então, a natureza surge transfigurada justo por que vista pela última vez. Há algo de precariamente eterno no olhar daqueles homens prestes a serem dizimados em combate. A prosa corrida de O sol também se levanta faz parte da tradição desse olhar. Essa melhor obra de Hemingway trata-se de um daqueles raros livros em que a Ilíada reencontra, no correr do tempo, sua edição revista e comentada. Guardadas as proporções, pode lembrar, na prosa, um tanto do que o poeta Eugênio de Andrade diz a propósito de Os Lusíadas: “contém alguns daqueles raros versos que participam da respiração do mundo”.





Nota - ao contrário da maioria dos textos em prosa postados por aqui, este é inédito. Embora haja sido escrito em 2001.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Cultivados grãos de um sadismo datado


Umberto Boccioni, Desenvolvimento de uma garrafa no espaço, 1912



Teoria do garçom fortalezense

Nos últimos tempos noções como qualidade total ou serviço personalizado ameaçam tornar cada local do planeta muito mais previsível e sensabor. Contra essas assepsias, noções holísticas, contra esse politicamente correto de fachada se insurge o garçom fortalezense. Trata-se de uma categoria profissional de fôlego e imaginação. Sua escola superior, seu MIT de beira de praia foi o antigo Estoril. E seu santo padroeiro, o famoso Baleia.
Em sua fase áurea, de meados dos anos 70 até início dos 90, o Estoril era freqüentado por estudantes, professores, artistas e profissionais liberais – ser de esquerda era um lenitivo e uma senha religiosa durante os anos de ditadura, mesmo que se não tivesse argumentos.
O ambiente era sombrio e difuso. Sórdido para todos os efeitos. O balcão, sebento, as paredes mal rebocadas e só parcialmente caiadas. As garrafas de bebida, um tanto avulsas e empoeiradas, se equilibravam sobre velhas prateleiras de bodega do interior, repintadas de um verde aguado – com densas teias de aranha que demarcavam anos sem faxina. Os refrigeradores deviam ser ligados apenas umas poucas horas por dia, uma vez que a cerveja estava invariavelmente quente.
Mas nada, nesse paraíso masoquista, rivalizava com a maneira ríspida com que os garçons atendiam. Ou será mais coerente dizer desatendiam? Agiam com desfaçatez e calculado cinismo. Os garçons do Estoril inventaram Lacan sem terem lido o Seminário.
O velho cassino dos americanos nos idos da guerra andava bem aviltado aí pelos 80. E esse desatendimento era o algo mais, a pedra de toque, o magnetismo distinto que o bar podia oferecer ao espírito masoquista da época. Superava mesmo um galinheiro anexo. Um que em noites de verão e vento solto emitia miasmas que vazavam todo o ambiente. E é de se desconfiar que esse mau humor crônico – vindo de um povo tão solícito e hospitaleiro quanto o cearense – só pode ter sido aprendido pelos garçons com os próprios fregueses. E lapidado posteriormente. Com cálculo e pose. Somos bons nisso.
Em pratos limpos e seguindo com nossa tese: de início os garçons eram extremamente solícitos. Entre os melhores de Fortaleza. Prestativos como parteiras. E olha que a escola de garçoneria cearense não é das mais fracas. Mas sua solicitude em meio à fossa geral – política ou amorosa – começou a irritar os fregueses. Não estava certo. Afinal, o país desmoronava, companheiros eram torturados em porões, os Estados Unidos viviam ensaiando uma nova Baía dos Porcos, o irmão do Henfil ainda amargava o exílio, e, como se não bastasse, certa fulana de tal ainda continuava dando para aquele cara da facção oposta... O mundo estava caído, como dizia Maysa. Agora, não bastasse tudo isso, e esses garçons do Estoril ainda queriam tratar-nos com régia presteza? Com calculada polidez? Como se fôssemos executivos de multinacional? Qual o quê. Havia algo fora dos gonzos ali.
Aos poucos, percebendo a necessidade de sofrer dos fregueses – e que isso tanto os divertia – os garçons resolveram ousar. E começaram a maltratá-los. Seu behaviorismo iniciou-se no simples servir cerveja quente. Ficaram apreensivos. Mas foi um sucesso de soltar fogos.
Depois, quando vieram as trocas de pedidos, as demoras penelopianas, o anúncio de que o estoque da bebida acabara, o excesso de água ou açúcar na caipirinha, a falta de troco três horas da madrugada, a presença só de cigarros racha-peito em estoque – muita vez só vendidos a retalho, inimaginável sofisticação – o Estoril atingiu seu auge. E todos eram felizes. Garçons e habitués. Até as gorjetas encorparam.
Essa escola foi tão forte que seguiu, inercialmente, até os bares de hoje. E deixou, em maior ou menor grau, traços indeléveis nos garçons do Bebedouro, do Buchicho e até da Zug, do Café Pagliucca, do Boteco, da Padaria, de tantos outros.
Nesse intervalo, houve duas escolas intermediárias de alguma relevância: o Cais Bar de meados dos oitenta até meio da década seguinte. E aquele Café da Praia de até oito anos atrás, onde pontificavam o Vandê e o Assis. Para não falar do mitológico e eterno Jairo, entre tantos outros. Todos a propagar as lições primevas, cetáceas, do velho Estoril.
É certo, um cronista vive de boutades. E há várias aqui presentes. Digo isto porque, já na fase outonal do Estoril, certo sujeito sentou lá, noite alta, bastante achacado. Foi, quem sabe, a única ocasião em que teve pensamentos realmente sombrios diante da vida. Havia um imenso mar e breu à sua frente. E ele pensou em se jogar e sair nadando até não encontrar a África. Isto devia estar escrito em seu semblante, pois o garçom de plantão, mandou suspender-lhe a bebida e chamar o táxi. Na hora do pega pra capar, quando não tinha café nem leite na jogada, quando não tinha jeito, eles bem que sabiam.
Até hoje, essa pulsão para atender com certo descaso e calculada rispidez bem que diverte e tem lá seu quê de folclórico. Incorporou-se à noite e aos modos de Fortaleza. E não há nada de tão errado se se mantivesse em alusão. Só em alusão. Discretamente.
Como um trunfo da memória coletiva.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Quando a paisagem, como prece, tem algo de alga e flutua entre os sentidos: engancha, vai embora


Chico Albuquerque, c. 1945



De uma ida à Taíba


Este final de semana passei na Taíba.
Fui sozinho.
Toquei bastante violão. Cozinhei. Preparei mariscos ao molho de limão e alho, macarrão, arroz com pimentão, camarões. Caminhei pelas dunas e na várzea do Rio Siupé. Tomei vinho branco e fumei muitos cigarros. De noite, desliguei todas as luzes da casa e vi o rastro transparente da Via-Láctea. Vi e ouvi aves diversas: garças, sabiás-brancas, bem-te-vis, gaviões do mangue, lavandeiras. O rio, que eu vira nédio e fluente por volta da Páscoa, mal arrastava-se emagrecido até o mar. Mas é bom caminhar pelas várzeas ainda limosas e macias, com vestígio de água muita, em meses passados, e a grama que espeta a palma dos pés e faz a festa dos jumentos da região. Grandes bancos de areia, em certos trechos, quase relegam o curso do rio a um risco de lápis. Em geral, tudo estava mais sem água e graça que na Páscoa. A vegetação densa da margem oposta, agora, ressequida, antecipada por aquelas rochas de contornos denteados e cores pálidas, orgânicas, de região de rio salobre, de cenário de filme sci-fiction. A vegetação sobre as dunas também estava mirrada ou morta. Minada pela luz em chapa desse sol de novembro. Guardo um apreço especial por essa região de foz de rio – que conheci exuberante, limpa por água de chuva, bela como uma pré-manhã durante um abril chuvoso.
Fui uma só vez ao povoado. Conheço pouca gente lá. Mais pela assiduidade escassa e pela timidez que por desinteresse. Havia gente na casa de Gentil Barreira. Mas não creio que fossem Patrícia e ele. Se fossem, eu teria parado para um olá. Segui pedalando. A casa deles é próxima à Igreja. Uma igreja festiva, bem popular e católica. Há também uma frágil capela pras bandas lá de casa. Recém-construída. Tão pequena e desamparada. Ainda nem terminaram de caiar-lhe as paredes. E talvez as corujas não tenham sequer dado com o pequeno campanário.
Gosto de ambas. Me servem uma idéia de fragilidade forte. E se contrastam. A do povoado, tão enfeitada, parece um bolo-de-noiva, uma alegoria de escola de samba, um adereço de reisado. Mas mantendo sua dignidade. Pequena e ameaçada como um folguedo popular. Foi construída de costas para o mar, mirando a rua longa que se estende da Enseada até a praça. E possui muitos frisos repintados num azul-ultramar e num amarelo ardente, abaixo das duas torres. Como se suas cores retiradas de uma tela de Veermer. O povoado estava deserto. Havia muito pouca gente de Fortaleza. E os próprios taibanos optaram pela reclusão. Era domingo três da tarde. Quase ninguém nas ruas. Quase ninguém ao sol. Quase ninguém à sombra, tragando a última cachaça antes da semana. Bateu uma vontade de conversar. Mas não por telefone. Não sem enxergar as pausas. Conversar noutra acepção. Como antes. Com olhos, gestos. Com uma procura. Precisão de gente. Apressei o ritmo da bicicleta. Rapidamente refiz a trouxa, joguei no porta-malas, e retornei a Fortaleza. Cheguei no fim da tarde, dormi esplendidamente.
E ainda achei um tempo para sentar, e lhe escrever isto.
A você, que agora vejo.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Por uma questão de excesso de sol


Joris Ivens, Regen (Chuva), 1929



Bonito de Chuva

O dia está bonito de chuva. Bonito de chuva. Nós vivemos na capital do povo que usa esta expressão – e secretamente tenho até receio que, um dia, a percamos, nos meandros da internet. Fortaleza fica linda debaixo de chuva: as pequenas correntes que se formam nas coxias; as biqueiras; o verde mais viçoso dos oitizeiros, mangueiras, pés de jambo; o rumor mais intenso das rodas dos carros no asfalto úmido; as ruas amanhecendo lavadas, ainda mais renovadas que nos dias de sol; e o desolamento dos domingos e feriados, quando todos parecem voltar-se um pouco mais para dentro de si mesmos, como se, de repente, nos tornássemos mais serranos, mais mineiros.
O cearense, por uma questão de excesso de sol, de vida ao ar livre, precisa de sua estação de chuvas. E não só para fins de agricultura. Mas para – em pleno verão no hemisfério sul – chamá-la de inverno, trancar-se em casa e desfrutar de uma sensação de aconchego próxima à do inverno de fato dos climas temperados.
E, então, meio-março corre a mística de S. José e uma mancheia de outras crendices, fórmulas de previsão de inverno. Digo que acredito nelas mais do que na internet. E mesmo me recordo voltando de uma viagem para Jericoacoara em 1984.
O tempo corria chuvoso, nós tínhamos que pernoitar em Gijoca para tomar o ônibus na manhã, e nos arranjamos em redes armadas em um alpendre de casa de farinha. Choveu noite inteira. Era aconchegante sentir que estávamos ali, protegidos da chuva e tão pertos dela. Como se fôssemos velhos conhecidos. E, se ela encorpava, leves respingos chegavam até nós. Mas melhor mesmo era adormecer ao ritmozinho de água martelando as telhas, sem mediação de forro.
De manhã bem cedo, saí para caminhar, e dois agricultores, muito brancos – como é comum naquela região – assuntavam próximos da cerca de um roçado de milho:
--Terreno tá moiado.
--É, tá moiado.
Era Quarta-feira de Cinzas, e esse ‘moiado’ da forma como só eles pronunciariam, me ocorre ainda hoje. E me parece o adjetivo mais úmido da fala brasileira. Nos seus rostos, brancos e vincados, podia-se adivinhar uma secreta alegria. Um ânimo novo, que ia tão bem com aquela manhã onde tudo era bonito de chuva.
É pena que a chuva cause tão grandes percalços a muitos desses agricultores, que foram tangidos de suas terras para a humilhação das favelas fortalezenses. Pois chega a ser um crime que algo tão belo quanto essa chuva macia possa significar destruição, dor e vexame. E é por isso que os agricultores precisam de terras: para que a benção das chuvas, renovando-as, possa prenunciar, já no dia de S. José , o começo da ceia de Natal.
Então o ano avança, deixando para trás o inverno. Em junho é mais ameno, por toda parte, e nas serras faz frio de vera. Agosto, sopra uma brisa aprazível sobre Fortaleza. Setembro tem as chuvas do caju. Dezembro é para caminhar sob toldos. Um calor insuportável que segue janeiro adentro. E, assim, o ano passa, com sutis possibilidades de distinguir estações. Tudo é gradação desse verão imenso em que vivemos. E o ano se desdobra até um próximo, com sorte – e longe de El Niño – para ser bonito de chuva outra vez.


Nota -- Crônica publicada no extinto suplemento literário Sábado, O Povo, 21/09/1996. Republiquei-a porque esta semana Fortaleza passou vários dias com céu encoberto. Choveu copiosamente. E a cidade fica, de fato, outra quando isso acontece. E não só pelos transtornos causados por eventuais cheias e alagamentos.


terça-feira, 1 de abril de 2008

Sozinho com a cidade: passar pelos lugares é ler história inscrita no espaço


Frank Lloyd Wright, 1906



Conversar com casas

Há uma sorte de conversa íntima que você só entretece com uma cidade. E me lembro de caminhar por Fortaleza entretecendo essa conversa horas a fio, um dia depois do outro.
Minha própria noção de Fortaleza é muito limitada. E ela se faz do Centro para leste, na direção do eixo conformado pelas principais ruas e avenidas que cortam a Aldeota Velha – como dizem, em definição perfeita, alguns office-boys.
Foi mais ou menos nesse espaço que vai da Praça do Ferreira à Rua Monsenhor Bruno – e da Antônio Sales para o mar – que mais me movi nos anos em que morei na cidade. E, aqui, sim, conheço mais ou menos de cor toda seqüência de ruas e o que há de mais interessante para ver nelas. E minha geografia se estende, com pequena expansão para os bairros do Benfica, Pici, as Praias de Iracema e do Futuro. Mas também aos novos bairros do Leste – que são, no entanto e de todo, os menos interessantes, pelo menos para mim, à exceção da Cidade dos Funcionários.
Alguém já disse que os locais, as casas, as ruas, os edifícios, as árvores, as esquinas, devolvem a atenção de um olhar. Se sentem em próprio estado de diálogo, de conversa, com o caminhante que lhes lança despretensiosamente os olhos. E é assim, exatamente, que costumo a caminhar – ou mesmo pedalar – por Fortaleza. Não só como exercício físico. Mas como exercício cívico. Tentando fisgar, em meio a prédios e casas, a história dessa cidade quase à prova de história.
Algumas velhas casas da região mais antiga da Aldeota, conheço como ninguém. Se acrescentaram um novo andar em improviso. Se retiraram do muro a graciosidade das colunatas antigas. Se revestiram de ladrilhos a fachada, como se fosse um lavabo – onde antes havia um discreto chapisco cinza. Se desfiguraram de vez a forte eloquência, de sobriedade e calma, que as linhas de uma velha fachada nos repassam. Se aterraram um canteiro onde havia grama e espirradeiras. Tudo isso posso perceber de prima. Pois essas casas parecem reclamar, gemer quando qualquer dessas contrafações é cometida contra sua bela integridade de testemunho. Seu poder de evocação, quase epifânico, é o mesmo de certas velhas canções. Ou quase o mesmo de uns poucos perfumes raros, e que nos datam o tempo com digital precisão interior.
Conheço de certas ruas, cada casa, um tanto como se elas, e não seus donos, fossem os vizinhos. E me exaspera um bocado saber que estão construindo um segundo pavimento improvisado sobre aquela marquise. Ou o que é pior, a fachada será maquilada com lambris para a instalação de um consultório, um escritório de engenharia, uma locadora de vídeos, um salão de beleza, um centro de fisicultura. Por que a necessidade desses estúpidos lambris?
Porém, ao mesmo tempo, alguns dos sítios mais impressionantes são casas demolidas. Digo melhor, parcialmente demolidas, justo na etapa em que elas ainda resguardam o assoalho e um certo vestígio de divisão, do que um dia foram paredes. Espécie de maquetes vazadas, plantas baixas ao vivo e literalmente. Espectros do que foram nos muitos anos em que habitadas por duas ou três gerações. Fortaleza não suporta mais que esse lapso.
A virtual ausência de planejamento urbano aliada à ganância e ao poder manipulador das grandes construtoras degradaram a cidade ao extremo nos últimos vinte e poucos anos. E, se nesses mesmos vinte e poucos anos, se houvesse preservado a melhor parte das belas residências da Aldeota Velha e do Bairro de Fátima teríamos simplesmente uma razão a mais de auto-estima.
Se pode até entender que muitos fatores entraram em conjunção para provocar esse desastre urbano. Mas não se pode perdoar o afã de modificar as características essenciais dos prédios e casas, deformando-os por completo, apenas em nome de ridículos caprichos pessoais ou efêmeras demonstrações novas-ricas de status. Ou mesmo de partições de herança. Deveria haver uma legislação forte e que cuidasse efetivamente disso. Mas se o fenômeno se dá a reboque de razões eminentemente econômicas, essas distorções poderiam ao menos ser atenuadas houvessse um verniz mínimo de planejamento, pois basta passar os olhos por fotos antigas para perceber que já houve mais amenidade em nosso circuito urbano.
É possível pensar, nesse ritmo, no próprio esvaziamento de funções que a casa de classe-média sofreu em Fortaleza nos últimos vinte e poucos anos. A casa não é mais um local para receber. Os encontros foram deslocados para os restaurantes e lobbies de hotéis e shoppings. Já os aniversários – especialmente os infantis – assim como os grandes eventos familiares – casamentos, bodas, batizados, etc. – foram cada vez mais transferidos de casa para os bifês. Ou se dão no salão de festas do condomínio quando casa não mais há. Bem como também, em termos de lazer, as quadras domésticas de esporte e áreas afins perderam sua importância em prol inicialmente dos clubes e raros parques e praças praticáveis; e, mais recentemente para as escolas, os centros de fisicultura e os condomínios. Além disso, as famílias de classe-média não possuíam tantos carros trinta anos atrás. E assim havia mais orçamento disponível para se gastar no zelo do imóvel. E mais espaço no imóvel para abrigar o zelo do corpo.
O excesso de carros nas ruas estreitas da cidade é, aliás, um dos fatores que contribuíram decisivamente para que Fortaleza perdesse muito do charme, algo ibérico, que ainda possuía na década de 70. Quase ninguém caminha ou anda de bicicleta por Fortaleza. Às vezes, percursos mínimos são ostensivamente perfeitos sempre de carro. E há mesmo o ridículo do número de automóveis que se aglomera diariamente, de manhã bem cedo, à Beira-Mar. E esses veículos levam aqueles que vão... caminhar. Quer dizer, para se caminhar em Fortaleza se usa... o carro.
Isso dá o que pensar. Não seria mais prudente, cívico, e muito mais ecológico passear a pé pelas imediações de casa? E isso até serviria para fortalecer laços de vizinhança e solidariedade. Já que famílias inteiras, amigos e vizinhos estariam nas ruas de manhã cedo e passando pelos espaços onde, de fato, moram. Podendo eventualmente observar e zelar pelos equipamentos públicos e até conhecer-se melhor e se organizar no sentido de apurar a qualidade de vida de seu pedaço de cidade, bem como reocupar coletivamente uma rua cuja insegurança também brota da falta de pedestres. E isso não é nenhuma utopia. E é bem fácil de atingir. Bastava que houvesse políticas públicas que incentivassem a prática de caminhadas e passeios de bicicleta em volta da vizinhança. Mas também que todos aqueles que tivessem condição ou disposição para se deslocar a seu local de trabalho de bicicleta ou a pé, o pudessem fazer, e em condições razoáveis de segurança e conforto pessoal.
Admiramos Amsterdã pelo número de ciclistas que se deslocam pela cidade, acrescendo-lhe o charme típico de uma urbe tranqüila e de alta qualidade de vida. E mal nos damos conta de que vivemos numa cidade plana. E que bastaria exclusivisar algumas vias somente para bicicletas – além de excessionar apenas aos moradores, o tráfego de veículos em baixa velocidade nessa vias – para, então, a curto prazo, atingir patamares de qualidade de vida bem mais expressivos e dignos. Inclusive por uma maior desobstução das vias de tráfego, bem como por certa desvalorização simbólica do automóvel. Fácil entender que esculpir uma cidade é uma tarefa essencialmente do olhar. Inclusive no que diz respeito à sua poluição visual.
E tudo isso é tarefa do estado, claro (até hoje me recuso a escrever estado com maiúscula). Mas, por igual, deveria passar pela boa-vontade e pela consciência e cooperação de cada cidadão de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Cada um sabendo de seus potenciais em contribuição para atingir tais metas.
Voltando às velhas casas, há mesmo uma que resume para mim esse elo entre paisagem, história e integridade. Se não me falha a memória, depois de quase cinco anos morando fora de Fortaleza, ela fica na Antônio Augusto. No próprio quarteirão que antecede a Santos Dumont, sentido sertão-praia.
Não é nada opulenta. Poderia passar despercebida para a maioria. Sequer possui um segundo andar ou um vasto jardim gramado à frente. Mas há algo nela que é realmente encantador. Essa residência, hoje ilhada em meio a clínicas, escolas infantis, salões de beleza, concentra toda um estilo de fracionar espaços que me atrai de algum modo. Algo da ruralidade das casas de chácara no bairro do Outeiro – o antigo nome de parte da Aldeota – de que nos falam autores como Herman Lima.
Há essas estreitas janelas. Geralmente ocupando, em trípitico, o espaço que poderia ser preenchido por um só, desgracioso, janelão. Estreitas janelas guarnecidas por venezianas, naturalmente. Estão à esquerda, na fração da casa que avança em bloco sobre o pequeno vão de jardim, que a precede. Há um alpendre em L, que se estende por todo flanco direito. E nele se pode entrever o móvel conforto de redes avarandadas. Há também esse jardim lateral, contíguo à ala direita do alpendre. Esguio e bastante fechado por diversas árvores, ao modo dos antigos caramanchões. Vertendo sombra e conforto para uma faina doméstica e sem fim.
Me espanta um pouco o tanto que há de história naquela casa. Não conheço seus donos. E nunca parei para tomar qualquer informação a respeito dela. Mas, a cada ocasião em que, nas minhas caminhadas, passo em frente a ela, sinto o quanto ela convoca meu olhar. Posso intuir, secretamente, seu misterioso poder de passado e dignidade. A eloquência do que ela testemunhou ao longo de tantos anos. Há uma outra casa assim, só que infinitamente mais triste, numa dobra de esquina, por trás da Escola Normal.
Sei que muito do que toco neste texto são apenas reclamos, e que mal serão ouvidos. E é um pouco inútil chorar o leite derramado. As casas e as edificações que foram postas abaixo ou desfiguradas não vão renascer de seus alicerces. Elas foram derrubadas para sempre. Ou desfiguradas sem remissão.
Mas, desde sempre, para minhas próprias palavras – em meus livros, contos, poemas, letras de música – quero criar um espaço semelhante ao delas. Quero que minhas palavras se organizem dentro dessas densas formas da história. Dentro dessas estreitas janelas, dessas móveis venezianas; desses alpendres laterais vazados para o trabalho dos dias e o brinquedo das noites; dessas redes com varandas; desses caramanchões e latadas. Em certo sentido, sempre dentro dessa perspectiva de sítio ou chácara, pendendo para rua. Algo que indica a própria motivação inicial do bairro em que, por primeiro, residi em Fortaleza. Algo que está nas fachadas e no grau de testemunho e companhia dessas velhas casas, a nos ensinar um caminho mais íntegro. Ou mesmo algo mais lúcido sobre nós próprios e nossa integridade e história enquanto povo
E, então, quem sabe, essas casas e essas palavras nos possam, de novo, nos indicar um futuro mais liberto de ganância ou lucro fácil.







Nota – Artigo originalmente publicado em O Povo. Em 2000, quando o texto foi escrito, eu estava morando em São Paulo.

domingo, 2 de março de 2008

Quem avisa


Marc Chagall, Birthday, 1915



A V I S O

Por diversos compromissos de trabalho, vou estar muito ocupado até o final deste março. Logo, não estranhem se as postagens escassearem.

De resto, amigos, faço 45 anos amanhã. É bem estranho. 1963 foi ontem, e já se vai chegando a meio-século. Bem que notava, especialmente nos últimos tempos, que, a cada ano, os alunos iam ficando surpreendentemente mais novos.

Um abraço para todos os leitores de Afetivagem. Temos um ano e um mês na rede, e cerca de 120 poemas traduzidos. Alguns deles de autores inéditos por aqui. Além de alguns comentários - em geral mal-humorados - sobre a imprensa; e também algo sobre e para Fortaleza.

Ruy

Declaração de amor a uma das solidões perfeitas, a da leitura: Stevens


Paul Klee, 1909



The house was quiet and the world was calm

The house was quiet and the world was calm.
The reader became the book; and summer night

Was like the conscious being of the book.
The house was quiet and the world was calm.

The words were spoken as if there was no book,
Except that the reader leaned above the page,

Wanted to lean, wanted much most to be
The scholar to whom his book is true, to whom

The summer night was like a perfection of thought.
The house was quiet because it had to be.

The quiet was part of the meaning, part of the mind:
The access of perfection to the page.

And the world was calm. The truth in a calm world,
In which there is no other meaning, itself

Is calm, itself is summer and night, itself
Is the reader leaning late and reading there.

Wallace Stevens


A casa era quieta e o mundo era calmo

A casa era quieta e o mundo era calmo.
Leitor virou livro, e a noite de verão

Era como ser consciente o livro.
A casa era quieta e o mundo era calmo.

Palavras eram ditas como se não tivesse livro,
Só que o leitor, curvo sobre a página,

Queria curvar-se, queria muito mais
Ser o sábio para quem o livro é real

E a noite de verão, uma perfeição pensada.
A casa era quieta porque tinha de ser.

A quietude era parte do senso, da mente:
Acesso de perfeição à página.

E o mundo era calmo. A verdade num mundo
Calmo, em que não há outro senso, é

Calma, só verão e noite, só
leitor, ali, lendo, tarde da noite.




Nota - não posso evitar a emoção toda vez que leio este poema. Wallace Stevens era um sujeito muito austero. Ele escreveu-o para seu pai, um leitor voraz - desses de esgotar um romance volumoso em uma noite. O modo como se dá interseção entre leitor e livro é absolutamente encantador. Até chegar ao dístico mais belo - se é que há algo assim num poema tão especial: "E a noite de verão, uma perfeição pensada/ A casa era quieta porque tinha de ser". De fato, o poema é peça de antologia. E pelo modo com que celebra tão belamente o prazer da leitura. Há ao mesmo tempo sonho, solidão e uma imensa harmonia. Foi bastante traduzido em português. Cito duas traduções: a de Paulo Henriques Britto para uma antologia de Stevens editada para a Companhia das Letras em 1987; e a de Amir Brito Cadôr, para o Suplemento de Minas, uns três anos atrás. Infelizmente, o prazer da leitura está cada vez mais deixado de lado. Ontem, meu irmão, que é professor universitário, área de Comunicação, me contou que havia pedido um texto para a próxima aula sobre um determinado assunto. Pronta e inevitável pergunta dos alunos: "qual o tamanho? É grande"? E meu irmão: "não, uma lauda". Silêncio em bloco. Certa tensão no ar. E, de repente, um deles diz: "Professor, o que é uma lauda?"

sábado, 1 de março de 2008

Duas latitudes e um mesmo verão: Williams e Cardozo


Robert Delaunay, Simultaneous Contrasts: Sun and Moon, 1913



Summer Song

Wandering moon,
smiling a
faintly ironical smile
at this
brilliant, dew moistened
summer morning
a detached,
sleepily indifferent
smile,
a wanderers smile-
if I should
buy a shirt
your color, and
put on a necktie
sky-blue,
where would they carry me?

William Carlos Williams


Cancão de Verão

Cigana lua
abrindo
um sorriso murcho, irônico
ante esta radiante
manhã de verão
serenada— um
sorriso
avulso
letárgico indiferente,
um sorriso de cigana—
se eu pudesse
comprar uma camisa
da tua cor, e
pôr uma gravata
azul-celeste
para onde elas me levariam?


-----


Canção de Veraneio

Água de coco verde
doce e salobre,
água do mar do Nordeste
filtrada pela raízes.

Dentro da casca vermelha
polpa de coco maduro:
alvos dentes, riso franco
carne de peixe.

Na onda verde dos coqueiros
brilho de escamas:
cardume de agulhas pretas
nadando entre as folhas.

Alga! Por que cresceste
tanto e tão alto?
que apareceste coqueiro
roxo-azul, verde de mar.

Joaquim Cardozo

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Algo que está algures entre o que se pensa e o que se diz: MacCaig


Pablo Picasso, 1931



Incident

I look across the table and think
(fiery with love)
Ask me, go on, ask me
to do something impossible,
something freakishly useless,
something unimaginable and inimitable

Like making a finger break into blossom
or walking for half an hour in twenty minutes
or remembering tomorrow.

I will you to ask it.
But all you say is
Will you give me a cigarette?
And I smile and,
returning to the marvelous world
of possibility
I give you one
with a hand that trembles
with a human trembling.
Norman MacCaig


Incidente

Olhei ao longo da mesa e pensei
(ardendo de amor)
Me pede, vamos, pede
para eu fazer algo impossível,
algo inútil de tão bizarro,
algo inimaginável, inimitável

como fazer um dedo abrir-se em flor
ou caminhar meia hora em vinte minutos
ou lembrar de amanhã.

Queria que você pedisse.
Mas tudo que você diz é
Você vai me dar um cigarro?

E eu sorrio e,
de volta ao maravilhoso mundo
da possibilidade
lhe passo um
com uma mão que treme
com um tremor humano.



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Da prece pouco proveitosa: Wright


David Smith, 1950



Confession to J. Edgar Hoover

Hiding in the church of an abandoned stone,
A Negro soldier
Is flipping the pages of the Articles of War,
That he can't read.

Our father,
Last evening I devoured the wing
Of a cloud.

And, in the city, I sneaked down
To pray with a sick tree.

I labor to die, father,

I ride the great stones,
I hide under stars and maples,
And yet I cannot find my own face.

In the mountains of blast furnaces,
The trees turn their backs on me.

Father, the dark moths
Crouch at the sills of the earth, waiting.

And I am afraid of my own prayers.
Father, forgive me.
I did not know what I was doing.

James Wright


Confissão a J. Edgar Hoover

Escondendo-se numa igreja de lápide esquecida,
Um soldado negro
Folheia as páginas da Articles of War,
Que não sabe ler.

Pai nosso,
Ontem à noite devorei a asa
De uma nuvem.
E, na cidade, esquivei-me
Para rezar com a árvore enferma.

Trabalho até morrer, pai,
Removo as grandes lousas,
Escondo-me sob as estrelas e os bordos,
E ainda assim não encontro meu rosto.
Na serra, fornalhas e fuligem,
As árvores me dão as costas.

Pai, as traças negras
Agacham-se nas soleiras da terra, em espera.

E temo minhas próprias preces.
Pai, perdoa-me.
Eu não sabia o que estava fazendo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Bossanovando os documentos


Hélio Oiticica, 1957



Na ausência da trindade, vamos contar anedotas


Acabo de assistir Coisa Mais Linda – História e Casos da Bossa Nova no Canal Brasil. Não vi esse filme quando passou no cinema. O documentário é muito limpo. Joga com espaços assépticos e registros ao vivo. E os alterna com imagens de arquivo. A fórmula nada tem de nova. Mas alguns espaços, apesar de maltratados, ainda guardam charme. Como o Teatro de Arena da antiga Faculdade de Arquitetura, por exemplo. O teatro foi erguido no pátio de um claustro.
É, aliás, nele que se dá uma das tomadas mais belas do filme. Nela se vê Menescal cantarolando ao violão. Até aí, nada de excepcional. Menescal nunca foi propriamente um cantor. Mas, atrás dele há um arco, algo colonial, e, atrás do arco, um pouco à penumbra, na parede a meio, um painel de azulejos com padrões geométricos. Belos azulejos clássicos - ou seria melhor dizer barrocos? Com o perdão da redundância: azuis.
Digo isto, porque chega a ser extemporânea a discussão sobre se a bossa nova bebeu mais no samba, no jazz ou nos compositores impressionistas franceses. Sem dúvida, o samba vem como o ancestral mais determinante. Tanto assim que, num paradoxo, o próprio “criador” da célebre batida, João Gilberto, jamais aceitou o rótulo de bossa-nova. João entende que a música que faz começa com “s” e termina com “a”, tem sua raiz na África, mas medrou na Bahia e no Rio. Agora, mesmo que o jazz ou Debussy tivessem marcado a bossa-nova mais do que o samba – o que seria completamente impossível – ainda assim a bossa-nova valeria a pena.
Há no documentário a presença de grandes músicos. É bom ver Johnny Alf, Alaíde Costa, o Tamba Trio, Leny Andrade, Sérgio Ricardo e Joyce em ação. Ou João Donato, acompanhado por um exultante Robertinho Silva na bateria, num dos melhores momentos musicais do filme.
Mas não deixa de ser curioso, no entanto, que esta celebração do gênero se preencha, sobretudo, pelo que ela não mostra. Pela ausência. Uma espécie de ausência onipresente. Falo da trindade máxima da Bossa Nova, de seu alto clero: Vinícius de Moraes, Antônio Carlos Jobim e João Gilberto. Afinal, todos falam deles. E toda conversa se não começa neles, neles termina. Coisa Mais Linda põe em campo, digamos, o "médio clero", cuja reza, ainda assim, claro, é interessante de ouvir. Especialmente a de Carlos Lyra, esse grande melodista. Mesmo que as anedotas e os casos não tragam algo de propriamente novo.
Vinícius e Tom já morreram há muitos anos, embora eles assombrem o documentário ao serem tratados com tamanha reverência pelos dois co-produtores do mesmo: Lyra e Menescal. Aliás, Tom chega a aparecer em filme de arquivo, conversando com Gerry Mulligan, cantando com Sinatra. Mas Vinícius, não. Talvez porque o documentário sobre o poeta ainda esteja muito recente.
Bem outro é o caso de João, que também aparece em arquivo. João Gilberto está vivinho da silva. Mas João sempre apontou para o essencial: a figura pública de João sempre foi sua música. As entrevistas de João sempre foram suas magníficas performances. Ele sempre soube distinguir perfeitamente entre arte e relações públicas. O que depõe por João é sua artesania, sua técnica. Somente. Elas são a figura pública João Gilberto. Ao contrário de quase todos os outros, o estilo de João é que faz seu Big Brother, jamais sua presença física. Ou sua fala - que só há nas letras de música. Nós não o vemos gastando-se em programas de entrevistas, em clipes, promovendo seus discos. Sequer em produções sofisticados, como o Ensaio, de Faro. Em vinte anos, numa única exceção, ele fez um especial para a Globo uns poucos anos antes da morte de Tom. De resto, o depoimento de João Gilberto a seu público sempre foi o mesmo: música.
Digo isto, porque há uma síntese nessa trindade da bossa-nova. Vinícius era o carioca mais escorreito. Jobim nasceu no Rio, sem dúvida, mas sua família é gaúcha, e ele herdou algo desse temperamento do Sul – ainda que musicalmente, a exemplo de seu ídolo, Villa-Lobos – estivesse mais perto dos sertões aqui de cima. E João, o de Juazeiro da Bahia, quase de Canudos, é o Nordeste em estado puro. Portanto, se o pai é carioca e o filho é assim meio gaúcho, o espírito santo é da Bahia para cima. O mais certo é que os três são cosmopolitíssimos. E João até morou na Cidade do México, por conta de sua admiração pelo bolero e por Lucho Gatica.
Deixando a geografia de lado, não deixa de ser extremamente difícil fazer um documentário sobre bossa-nova pondo tão em campo figuras de fundo e deixando de lado quem realmente importa.
Talvez, por isso mesmo, a ressalva esteja no próprio título: "história e casos da bossa-nova". A desculpa vai um pouco por: “nós, que contamos os casos, contamos sobre Vinícius, Tom e João, que são, de fato, a história da bossa-nova com 'h' maiúsculo".
Bom, mas falei dos azulejos na parede, porque há na bossa-nova um quê de brasilidade e de feminino que é muito comovente. Os azulejos são ladrilhos delgados e têm algo de femino em sua esguia elegância. São frágeis, se isolados. Mas, em painel, atravessam séculos como testemunha de uma arte da mestiçagem e do compósito que já nos foi prometida desde a cultura mourisca. Na verdade, os azulejos são azuis por uma ilusão de ótica. Eles são, de fato, morenos - esse adjetivo que o politicamente correto faz força para nos roubar. A curiosa analogia entre os bossa-novistas e os trovadores provençais, no que diz respeito ao papel sobressalente da mulher, feita por Carlos Lyra, é tão instigante quanto pouco provável.
De resto, só os incautos se deixam apanhar pelas boutades de Menescal. Pois é mais ou menos óbvio que Bôscoli não fez a letra d'O Barquinho relembrando os trancos de um motor que falhava. Ou pode-se duvidar que a razão de a bossa-nova desenvolver um estilo vocal tão em sussurro deveu-se à exigüidade dos apartamentos em Copacabana.
Algumas das imagens mais emocionantes no documentário, no entanto, vêm das latas de arquivo. Como as raras tomadas em que vemos Silvinha Telles. Mas, ainda assim, o travo amargo que fica na boca é o de perceber que o país em que vivemos hoje é uma espécie de desvio descomunal, que passa bem longe da “coisa mais linda” e dos sonhos dessa geração ilustre.
Falo dos azulejos, porque é impossível pensar num ícone que remeta tão expressamente à nossa arquitetura colonial. E, portanto, a um forte senso de tradição. Ora, que me perdoe José Ramos Tinhorão – que, de resto, é um historiador muito agradável de se ler, munido de um conhecimento de causa de se tirar um ou mais chapéus – mas a bossa-nova não é mais do que azulejos postos em música.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Assim como o son ou a rumba guardam algo


Jean Epstein, Coeur fidèle, 1923



Alguma inteligente mimese


"Todos os tiranos são o mesmo tirano, embora não pareçam iguais. Castro, com sua barba de maranhas e seu nariz romano, é capaz de produzir uma poção de carisma tóxico à segunda potência: os que bebem suas palavras se intoxicam para sempre. É Circe de uniforme que transforma em porcos seus amantes.”

[Cabrera Infante, in Mea Cuba]


Nota - este trecho de Mea Cuba me foi relembrado num texto de Elias Pinto, blog de minha amiga Cris Moreno, jornalista de Belém. Cabrera Infante morreu em seu frio exílio londrino em 2005. Seu senso de humor guardava algo de brasileiro, assim com o son ou a rumba guardam algo de samba ou de choro. Esse humor está exemplarmente em dia no seu livro de memórias, Havana para um Infante Defunto [La Habana para un Infante Difunto, 1979] publicado aqui pela Companhia das Letras. Infante era apaixonado por filmes, escrevia críticas e chegou a dirigir o Instituto do Cinema de seu país, antes de se desentender com o regime em 1965. Sua obra maior é o romance Três Tristes Tigres, em que estiliza as nuanças dos falares de Cuba.

Um ente imune ao tato deste mundo: Wordsworth


André Masson, 1941



CLXXX 'A slumber did my spirit seal'


A slumber did my spirit seal,
I had no human fears:
She seemed a thing that could not feel
The touch of earthly years.


No motion has she now, no force;
She neither hears nor sees;
Rolled round in earth's diurnal course,
With rocks, and stones, and trees.

William Wordsworth



CLXXX 'Um sono selou meu ânimo'


Um sono selou meu ânimo
Não tive medos humanos:
Ela era um ente imune
Ao toque dos térreos anos.

Já nem força tem, imóvel,
Ela não ouve ou vê;
O diuturno curso a envolve
Em seixo, e rocha, e ipê.


Bairros & depósitos de Fortaleza


Paula Gavin, 2007


Entre sábado passado e a Praia do Futuro
Pode-se concordar com o Professor Antônio Lemenhe, quanto a vislumbrar o bairro como o núcleo inicial do qual partir para traçar um mínimo de planejamento urbano. Um tal que dê conta das demandas extremas de uma cidade com as dimensões e os problemas de Fortaleza. E, mesmo, num plano mais sutil, essa progressiva despersonalização dos bairros fortalezenses é, de fato, preocupante.
O lugar de um homem é sua cidade. Mas é antes sua rua e seu bairro. Mora-se num bairro, antes de se morar numa cidade. É no bairro onde, efetivamente, se tem vizinhos e amigos. E é lá onde se sai para comprar pão ou jornal. E é lá onde se bate um racha. Ou se tem ilusões amorosas. Onde se corta o cabelo. Ou se toma um trago. Ou se vai à missa. Ou onde se cria uma teia de conversas, afetos, presenças, procuras.
Lembro, que muito do que se produzia na década de oitenta em termos de música, em Fortaleza, era bastante decalcado dessa instância do conviver no bairro. Dessa geografia do bairro. Por exemplo, o Grupo Budega era formado, em predominância, pela turma que cresceu na Nova Aldeota e na Varjota. Enquanto o Latim em Pó era da turma da Aldeota Velha e da Piedade. Daí que o pessoal do Budega tenha se conhecido no Colégio Santo Inácio. Ao passo que a turma do Latim era do Cearense.
Uma cidade é tão mais forte culturalmente quanto ela possibilita essa diversidade entre bairros. Essa especificidade para cada bairro. Afinal, um bairro só se forma pela convivência. E isso leva tempo. Sem história, um bairro é apenas um depósito de gente. E é nisso que os bairros fortalezenses estão se transformando. Grandes empórios de consumo e tédio.
Um bairro é algo mais vivo. Não é só um lugar. Um bairro é um lugar com pessoas. Com pessoas concretas. E, no entanto, não só com as que moram nele atualmente. Mas também todas – indistintamente – que já passaram por ele, com suas angústias e sonhos, contam. Por curto ou longo tempo. E é destes que estamos abrindo mão. Destes que já passaram. E porque o fortalezense não se dá conta de que o presente não é um valor absoluto. O presente em si, de fato, vale bem pouco. É, quando muito, uma estreita faixa espremida entre sábado passado e a Praia do Futuro.
Logo, se o bairro é algo concreto, isso se deve a seu passado – algo que decreta suas possibilidades de futuro. Ao acúmulo de todas histórias que passaram por ele ao longo do tempo. À soma das esperanças e frustrações de todos os que, um dia, o habitaram. E dito, de novo: bairro não é apenas um lugar. É a parte desse lugar que está no primeiro coração das pessoas.
Fortaleza é tanto mais gostável quanto mais possível dimensionar isto. É a maneira como certas pessoas olham e falam de seus locais, de seus espaços, de seus bairros, que acaba por traduzir o que realmente se passa neles. O que eles representam. E o que Fortaleza, de fato, é. É por isso que Fortaleza seria infinitamente mais pobre sem o considerável número de alusões concretas a bairros ou locais da cidade feitas por artistas, historiadores, jornalistas, etc. E essas referências, claro, também se encontram não no ar, mas na impressão que as pessoas colhem, como flores podem ser colhidas. E, de fato, Fortaleza seria bem mais mesquinha sem qualquer pequeno mapa do tempo, de Belchior. Ou sem o Mucuripe, dele e de Fagner. Sem a Maraponga de Ricardo Bezerra. Ou sem a Gentilândia de Airton Monte. Sem a Aldeota, de Ednardo e tantos outros. Ou sem a Praia de Iracema de Luís Assunção, Alano de Freitas, Baleia e toda a melhor boemia. Sem o Bairro de Fátima de Ethel de Paula. Ou sem o antigo Outeiro de Herman Lima. Sem o Pici de Rachel de Queiroz. Ou sem o Sabiaguaba dos irmãos Albano. Sem o Benfica de Adolfo Caminha. Ou sem o colecionismo zeloso de Nirez e Christiano Câmara. Sem a geografia estética de Girão. Ou sem a belle-époque de Rogério da Ponte. É dessa sorte de antologia de olhares, a partir de diversos tempos e propósitos, que se faz uma cidade. E é nela que Fortaleza pulsa seu coração mais secreto.
No momento, é o Mucuripe que está ameaçado. O Mucuripe já foi bem enxovalhado também. Mas trata-se de uma região de grande relevância histórica para Fortaleza. Especialmente por haver sido e, em parte ainda o ser, uma região de pescadores. Uma colônia de pescadores que foi tangida da beira da praia, pela ganância dos especuladores, para as encostas do Castelo Encantado. E, no entanto, os pescadores continuam trabalhando lá, e há uma pequena capela nas redondezas. No dia em que passarem um espigão por cima daquela capela, na verdade o estarão passando por cima dos corpos daqueles pescadores e de suas famílias. E os que já morreram, vão morrer uma segunda vez. E o Mucuripe se povoará de visagens. Pois todos sabemos que foi no Mucuripe – e por causa dos pescadores – que se fez o mais belo ensaio fotográfico jamais realizado no Ceará. E onde também um gringo registrou imagens em filme que só em sonho. O Mucuripe já possuía uma densa carga alegórica no Iracema, de Alencar. É preciso tomar conta do Mucuripe. Discuti-lo. Opinar sobre seu futuro. Saber sobre seu passado. Esculpi-lo. E com paciência. Caso contrário, José de Alencar, Chico Albuquerque, Orson Welles, e tantos outros, mas sobretudo os velhos pescadores não vão descansar em paz.
Se hoje o Mucuripe é esse cartão-postal, com sua bela enseada, barcos oscilando leve, e hotéis cinco estrelas farejando em volta, isso se deve à intrepidez desses velhos pescadores, antes de mais ninguém. E seria justo que, depois de tanta violência e destruição, depois de tanta hipocrisia, se preservasse ao máximo os vestígios da cultura daqueles que foram os primeiros habitantes do bairro.
É bem bonito mas meio gratuito que pensadores fortes como Deleuze, Negri ou Andrew Benjamin advoguem desenraizamentos mundo afora. Eles escreveram – ou escrevem – seus ensaios aboletados em prédios de apartamento de duzentos anos. É, no mínimo, reconfortante. Mas o Ceará não tem prédios de duzentos anos. E, difícil, para nós, na mais brutal margem, é entrever vestígios mínimos de passado nos serem surrupiados a todo instante.
Fortaleza não precisa de mais feridas. Ela já vem agonizando faz tempo. Mas essa última medida da Câmara de Vereadores, franqueando o uso e a ocupação do solo – de lambuja – aos especuladores, nos enxovalha a todos. Entre mortos e feridos, nenhum final feliz com a ganância desses edis mal escolhidos. Que se anote e divulgue o nome de todos quantos votaram essa nova lei de uso do solo. E que não sejam reeleitos. Que sua memória seja amaldiçoada e se passe cal por cima de seus nomes.
Está mais do que na hora de tentar salvar o que ainda pode ser salvo dentro de nosso escasso patrimônio histórico. E o Mucuripe, farol da cidade, já esteve conosco tempo demais para que, de repente, sem qualquer forma de resistência, o entreguemos de mão beijada a um punhado de lobistas ávidos.
É desesperador pensar que apenas na imaginação - que só entre sábado passado e a Praia do Futuro - temos espaço para estar e lembrar de Fortaleza, ainda quando passamos por ela. Para apreciá-la do mirante da memória, dos lugares da reminiscência, se faz necessário algo menos abstrato, porque a beleza também habita a matéria. E há muito pouco de paisagem e história para se deixar aos que ainda virão. Ou, como quer Creeley, "o local não é um lugar. Mas um lugar em uma determinada pessoa. A parte desse lugar para onde se é impelido ou trazido pelo amor. Pare dele dar testemunho."


Nota - artigo originalmente publicado no jornal O Povo.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Ainda as estatuetas


Bernard Tschumi, Cinematic Beams, 1992



Os americanos estão se lixando para o Oscar


Só para respaldar o segundo comentário da postagem anterior:


"LOS ANGELES (Reuters) - A 80a cerimônia do Oscar, dominada por astros europeus e filmes de fraca bilheteria, pode ter batido um recorde negativo de audiência televisiva nos Estados Unidos, segundo dados preliminares da Nielsen Media Research, divulgados na segunda-feira.

[...]

As cifras nacionais devem ser divulgadas ainda na segunda-feira.

O número preliminar fica abaixo do de 2003, considerado o Oscar menos visto desde que a festa começou a ser transmitida pela TV, em 1953. Realizada logo depois do início da ocupação militar dos EUA no Iraque, aquela cerimônia deu média de apenas 25,5 pontos. A média nacional foi de 20,4 pontos." [Fonte: UOL]

domingo, 24 de fevereiro de 2008

De uma breve leitura domingueira do Diário só para Júlia Lopes


Robert Gober, 1992


Oscar, feiras, zagueiras, mutirões & o jargão jurídico


De uma rápida leitura do Diário do Nordeste de hoje [24.02.08]. Tomei como eixo de leitura, o segundo caderno [Caderno 3], e alguns artigos da seção de Opinião:

Meia-volante ou quarta zagueira?
[http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=514619]
O Jogada informa da convocação de Jana Cavalcanti, atleta cearense, para a seleção brasileira de futebol feminino sub-20. Mas sequer indica a posição em que a garota joga. Já imaginaram a grita geral que seria a omissão da informação se se tratasse de um garoto? Goleira, meia-volante ou quarta zagueira? Até para a gente se habituar ao nome das posições no feminino teria sido boa a informação.
Todos juntos, vamos
É um tanto engraçado que a cerimônia do Oscar tenha virado algo semelhante à Copa do Mundo. Mobilização nacional. Mas daí a dizer que “uma pesquisa da agência E-Poll/Reuters indica a flagrante torcida do público americano pelo filme Juno”, é colorir além da conta a expressão [Caderno 3]. Ou seja, é atribuir aos americanos uma postura bem nossa: adotar um filme como se fosse a seleção de futebol do país. Talvez mais imparcial fosse dizer que a pesquisa indica a “preferência” do público americano. Afinal, claro, os americanos não se reúnem em torno de um churrasco e põem bandeirolas na rua para apoiar a escolha de um dos filmes americanos. No caso deles, os filmes não-americanos que concorrem aos prêmios é que são a exceção.
A pátria de claquetes
Este ano, aliás, a frustração da galera de não ver um filme brasileiro concorrendo ao Oscar foi agradavelmente compensada com o Urso de Ouro atribuído a Tropa de Elite. E a galera já sonha com bicampeonato. Essa mistura de pátria de chuteiras com pátria de claquetes, de resto, é precisamente o tom com que o tema do Oscar é tratado aqui ["Brasil versus Oscar"]: fonte de orgulho nacional. Só que no caso do autor da matéria, ele não toma nenhuma distância, assume a patriotada na íntegra. E, notem, o texto dele está até divertido – apesar de ele vestir a camisa do torcedor de Oscar e dar bem pouca bola para uma postura mais isenta e crítica. Mas, às vezes, tem de ser esse vai ou racha, mesmo.
A Feira dos Malandros
Há um primor de eufemismo no editorial de hoje, que versa sobre o abandono das praças: “na Praça da Lagoinha, prospera de modo notório a Feira dos Malandros, onde objetos de procedência duvidosa são comercializados abertamente”. É preciso ser muito elegante para não falar em repasse de objetos roubados numa feira que, como o próprio nome indica, é de malandros. Taí, gostei. Resta saber se o consumidor da feira, que compra os objetos que são “comercializados abertamente”, também pode entrar na categoria de malandro. E, além disso, que medidas os poderes constituídos tomam para previnir ou fiscalizar essa comercialização aberta de objetos suspeitos de serem roubados.
O mutirão dos ladrões
Não é propriamente um equívoco, é mais a força da expressão, como no caso da “torcida” americana pelo Oscar. Porém, neste artigo sobre a Ronda do Quarteirão, a frase soa torta por uma razão: desvirtuar um termo que tem uma conotação bastante positiva e preciosa: “contudo, é preciso atentar que os ladrões estão fazendo até mesmo mutirões, principalmente nos chamados pontos críticos”. Convenhamos, o mutirão é um esforço coletivo que tem como alcance final um benefício à comunidade. O mesmo benefício que o articulista, em um tom, de resto, discutível, acredita que o eleitor usufruirá ao priorizar a segurança: “os eleitores devem só votar em quem oferece mais segurança, com base na mudança dos sistemas carcerário e penal”. Pode-se perguntar, apenas com base nesta mudança? Ou ainda: com a preocupação justificada pela segurança, sim, mas por que apenas com ela? E educação, e saúde, e transporte, e beleza, e o próprio sistema de eleições - que poderia ser distrital e de voto não obrigatório? Claro, segurança é uma das prioridades máximas de momento, mas, nos sentimos até mais seguros quando não se mixa alhos com bugalhos. Inclusive no precioso plano das idéias. E não se pode entregar uma idéia tão bonita quanto a de mutirão assim de mão beijada para os bandidos.
Qual a razão de não interpor o seu recurso adesivo?
Até que ponto o jargão de determinada classe profissional pode ser publicado no jornal impunemente, sem que seja minimamente filtrado para o entendimento de um maior número de mortais? Não falo isto em relação ao jornal como um todo. Pois ele é plural. Mas, os artigos da seção de opinião, por exemplo, pretendem alcançar um público mais amplo. Ainda que de longa educação formal ou acostumado a debater e medir idéias. Quer dizer, mais amplo, aqui, em termos das vivências profissionais de cada leitor, e não da educação formal deles. Pois os leitores que se dirigem à opinião possuem, em geral, mais anos de banco escolar ou mais horas de leituras. Ou, no mínimo de debate, de convivialidade pública. De outro modo, voltando ao jargão, é notória a verbosidade e o empolamento presentes no campo jurídico. Dizem que isso resulta de mais uma astúcia que as elites tecem, ao modo de trunfo. Uma reserva de poder. De qualquer maneira, um exemplo de artigo inadequado – por estar mais próximo de uma revista acadêmica que de uma seção de opinião – é este "Recurso Adesivo", escrito por um juiz que também é professor universitário: “se a parte obteve uma procedência parcial do seu direito e quer vê-lo logo executado (satisfeito), mas é surpreendida, posteriormente, pelo recurso principal da outra parte, qual a razão de não interpor o seu recurso adesivo, se os autos já irão mesmo para a Turma Recursal com o recurso principal da outra parte? Onde haver incompatibilidade? Qual o prejuízo que o adesivo causará ao processo? Incompatibilidade não se presume.” Perfeitamente claro, Meritíssimo. Eu também não quero interpor o meu recurso a alguém, especialmente se não estiver apaixonado. E depois, quem é que advinha mesmo as incompatibilidades conjugais? Além disso, também concordo que se deveria colar o adesivo, não no processo dela, mas no “vrido” do carro. E quanto à essa Turma Recursal, já encontrei mesmo com esse bando de bonequeiros lá pelo Arlindo.
Até a próxima!

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Quando é preferível ir direto à fonte: titereiros e apresentadores de talk-show


Hans Richter, Dreams That Money Can Buy, 1946


Da arte de transformar bonecos em humanos e vice-versa

O parente mais próximo do apresentador de talk-show na fauna comunicativa do passado é o titereiro. Mas por uma razão inversa. O titereiro punha bem às claras a regra do seu jogo. Ele nunca escondeu que comandava bonecos. E, quando também ventríloquo, lhes emprestava a voz. Não raro, no entanto, a assistência o esquecia, tal a perícia com que ele conseguia dar vida a um ser inanimado. Tal o modo como determinado boneco assumia uma personalidade vibrante, própria. O titereiro animava o jogo todo, mas era invisível. E, portanto, imprevisível. A tarefa do apresentador de talk-show é inversa. É vampiresca. Ele está sempre ali. Às vezes em close. A câmera quer comer seu rosto e nos mostra até a verruga que está começando a despontar, no pescoço. Ao contrário do bonequeiro medieval, ele toma seres de carne e osso e os transforma em títeres. Em zumbis, que nada mais fazem do que reproduzir mecanicamente aquilo que o próprio apresentador deseja que eles digam, façam, sintam ou sejam. É claro, nem sempre conseguem. Um amigo me disse, certa vez, que a "a literatura e a filosofia estão cheias de autores maus que escrevem para parecer bons, para se assear nos leitores, e, por conseguinte, produzem típicas aberrações." O caso é bem esse com os apresentadores de talk-show: eles se asseiam nos entrevistados e nos espectadores. Os titereiros pegavam aberrações e as humanizavam. Os apresentadores de talk-show pegam humanos e os transformam em aberrações.

Nada mais sem graça do que talk-shows. E justamente porque eles querem extrair do entrevistado até a mínima gota de graça no menor tempo possível. O problema é que essa graça é aferida pelo humor do apresentador e pelo tempo de edição frenética da TV. Se o entrevistado é maior do que eles, bajulam-no. Mesmo se essa maioridade se der pelos quinze minutos de fama da vez. Se é menor, tratam de amesquinhá-lo ainda mais, com requinte e variações. O certo é que dificilmente o espectador sai mais do que com ego – o imenso ego do apresentador – após a assistência de qualquer um deles: Ophra Winfrey, David Letterman, Marília Gabriela, Soares... Marília Gabriela faz anos que entrevista ela própria. Rigorosamente. Seu número poderia ser intitulado “A Volta ao Umbigo em Oitenta Programas”. Não só entrevista a si, mas o faz munida de um fervoroso patrulhamento do qual não se pode divergir por um segundo sob pena de ferozes ressalvas e censuras. O que ela defende é dogma. E seu ideal é que todos fossem "independentes" (seja lá o que isso quer dizer), divorciados, adpetos das cirurgias plásticas, a favor do aborto, afro-brasileiros, bissexuais (ao menos em intenção), espiritualistas (mas sem filiação religiosa), vagamente de esquerda, complacentes com os do Nordeste, defensores dos direitos humanos acima de tudo, dados à esoteria em moda, anti-católicos; fizessem análise; criassem os filhos "sem traumas" (acaso os tivessem); cuidassem zelosamente do corpo; andassem predominantemente de alto astral; "amassem o teatro"; não tivessem câncer; copiassem toscamente as últimas ondas comportamentais euro-americanas; criassem gatos; fossem ao supermercado com a mesma sacola; soubessem seus respectivos ascendentes; praticassem pilates; se devotassem a um certo consumismo básico; e também à busca do "seu espaço" a qualquer preço. Afinal, "você tem que ser você" -- seja lá o que isso significa desmembrado dos deveres que se tem para com os outros. Os muitos, variados outros. E que nem sempre praticam pilates. Seja porque não tem tempo, dinheiro ou disposição, seja porque preferem pescar, namorar ou olhar a rua pela janela com indiferença. Talvez este "você tem que ser você" funcione no mundo da publicidade, onde "um pneu é um pneu". Ou no mundo das citações, onde uma "rosa é uma rosa". Ou até no mundo deste texto. Ora, os outros - os muitos variados outros - e você são mais do que pneus, citações e textos. E vivem num mundo real. Mesmo que num país de ressalvas e auto-complacência. E, por um paradoxo histórico - que chega a ser deslavadamente cômico - Gabriela e Soares exercem uma função muito próxima de uma ferrenha e ortodoxa censura.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Poucos cigarros, muito trabalho e poucas cigarras, os males do Brasil não são


Sergio Berizzi, Cesare Butté e Dario Montagni, 1956


Fé e Lavanda

Elvira Lobato é uma jornalista que ousou mexer num vespeiro. Deu-nos uma reportagem detalhada sobre os vínculos de integrantes da Igreja Universal do Reino de Deus com paraísos fiscais. Inclusive com a participação de doleiros.

Por conta disso, está sendo acusada de difamação em diferentes comarcas brasileiras. Como a repórter não pode estar presente a todas as audiências simultaneamente, acaba prejudicada. Foi a tática de vingança utilizada pela cúpula da Universal. Enquanto isso, eles tiram ouro do nariz. E dos dentes dos fiéis.

Ouvi de uma fonte ligada às favelas: a Rede Record ofereceu verbas dez vezes mais polpudas que a Globo, para ser parceira na organização e divulgação de um evento esportivo ligado às comunidades. Só para se dimensionar o quanto o marketing cultural é filtrado por uma noção – um tanto quanto fajuta – de justiça social.

É, pode-se suspeitar que haja vínculos – ao menos de trégua – entre as redes do narcotráfico e as redes dos supostos neo-pescadores de homens. Afinal, o destino do dinheiro, num e noutro caso, é a lavanderia.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

De um surrealismo mais denso que o europeu: Stevens


Francis Alÿs, 2008



The Emperor of Ice-Cream

Call the roller of big cigars,
The muscular one, and bid him whip
In kitchen cups concupiscent curds.
Let the wenches dawdle in such dress
As they are used to wear, and let the boys
Bring flowers in last month's newspapers.
Let be be finale of seem.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Take from the dresser of deal,
Lacking the three glass knobs, that sheet
On which she embroidered fantails once
And spread it so as to cover her face.
If her horny feet protrude, they come
To show how cold she is, and dumb.
Let the lamp affix its beam.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Wallace Stevens


O Imperador do Sorvete

Chame o enrolador de charutos,
O musculoso, e requeira que ele bata
Nos copos da copa coágulos concupiscentes.
Que as donzelas afrouxem-se nesses vestidos
Como de uso delas, e os rapazes
Tragam flores em jornais do mês passado.
Que ser e parecer formem o mesmo tapete.
O único imperador é o imperador do sorvete.

Tome do criado-mudo de pinho,
Faltando as três alças de vidro, aquele pano
No qual certa vez ela bordou cacatuas
E desdobre-o de modo a cobrir-lhe o rosto.
Se os calosos pés distenderem-se, são
A mostra de quão fria ela está, e estulta.
Que a lâmpada destile o filete.
O único imperador é o imperador do sorvete.