Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta uma necessidade de cidade. Classificar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta uma necessidade de cidade. Classificar por data Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Uma necessidade de cidade


Ruy Vasconcelos, 2008



Espaço, dimensão humana:
por uma ontologia da aldeia

No instante em que as relações humanas são cada vez mais deslocadas para extensões indefinidas de tempo e de espaço [Giddens], cada vez mais sinto uma necessidade de cidade. Do volume de uma fruta sobre a mesa. Cor e aroma de café, fumaça do cigarro. Um forte desejo de transparência. Contornos bem definidos. Nitidez. Um pouco mais de conclusão. Alguém dando bom-dia. Ou certas letras em alto relevo na fachada de uma casa da rua em que moro: Pax et Bonum. Hoje nossas cartas são trocadas em virtualidade. Os jornais, lidos no espaço imponderável.

Mas essa necessidade de cidade. Ruas. Gente andando. Cambiando bons-dias. E todos os dias da cidade acumulados nesta manhã. Vejo areia de dunas e bredos-de-praia sob o asfalto. Lavandeiras pairando por cima. Lagoas intactas. O espaço da cidade antes de ser cidade.

Dia desses, passei algum tempo caminhando no quintal do velho Palácio do Bispo, ali nos fundos da Sé. Impossível, ao ver o esgoto em que se converteu o riacho em torno do qual a cidade se ergueu, não pensar no quanto o poder das comodidades modernas vem da mesma fonte abjeta que acumula toda ilimitada circunstância de vontade.

E, no entanto, muito antes disso, é preciso supor o espaço da cidade anterior a ela. Uma espécie de ontologia da aldeia.


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Croqui de uma cidade sem cidade

Wilhelm Wagenfeld, Egg Cups, 1938


Um Ovo sem Sal Faz mais Bem que Mal?
-A cidade de N. S. da Assunção dos diascorrentes, rápido esboço


Fortaleza é um ovo.

Pela desigualdade social, que cai sobre ela como uma lepra, praticamente todos que formam opinião se conhecem. Formar opinião está ligado umbilicalmente com ter poder. Ter poder equivale a dizer: ter um mínimo de grana. Um mínimo de grana que, ao menos, possa ter viabilizado uma educação formal acima da média.

Isso tudo é um evidente truísmo. E acontece em qualquer parte do mundo. E está dito apenas para ressaltar que isso de ter olhos em terra de cegos é, por aqui, muito mais ressaltado.

Mas ter poder é também ter acesso aos espaços de modernidade em Fortaleza. Que são guetos: shopping centers; restaurantes e cafés mais sofisticados; casas de veraneio ou os modernos condomínios horizontais, que proliferam mais a leste – e são as atuais meninas dos olhos da especulação imobiliária. Ter poder resguarda o condão de manter, enfim, um mínimo de acesso a bens culturais: o cinema, a livraria, o jornal, o café, a pós-graduação.

Notem que espaços de urbanidade, como os cafés – que se proliferaram com certa rapidez na última década – nada têm de equívocos em si. São espaços para a convivialidade e a troca de ideias. O que há de errado, no entanto, é que o acesso a eles seja facultado a tão poucos.

E, nesse universo de rebanho escasso em curral pequeno, essa demarcação de poder encontra manifestações diversas de mostrar o nariz. E, quase sempre, bastante ostensivas. Melhor seria dizer ostentatórias. De um modo mais tosco, essa ostentação se dá por aportes de consumo: lustrosas camionetas, roupas de grifes, a frequentação de certos espaços, que, para todos os efeitos, são elitizados, a reforma quase semestral da casa ou do apartamento como demarcação do nível de prosperidade da família.

Isto último, de reformas, é quase o oposto do que se vê, por exemplo, nos países europeus. Onde as características das residências – em especial nos bairros mais afluentes – são preservadas com um zelo canino. Nas áreas ricas de Londres: Mayfair, Highgate, Chelsea – há posturas municipais tão rígidas, quanto a isto, que qualquer modificação que descaracterize o padrão arquitetônico/histórico do imóvel ou o faça destoar dos demais é severamente monitorada.

Porém uma das formas em que esse poder de poucos mais se faz notável em Fortaleza é no modo como a sociabilidade se dá, para alguns, ao modo de um esporte. E esse esporte poderia, digamos, se criássemos um neologismo, ser rotulado de "vantagismo". Essa esportividade já recebeu outros nomes. Alpinismo social, por exemplo. E digamos que ela possa ser expressa na seguinte fórmula: “quanto mais agrego gente de poder à volta, mais poder agrego”. E não só pela instância do poder em si – que tem óbvias reverberações no campo da sexualidade e do consumo; instâncias, de resto tão imbricadas em qualquer lugar do mundo – todavia por explorar ao máximo certo “momento de prestígio de alguém”. Por mais ínfimo que seja.

Há uma espécie de corsariedade psitacídea, aqui. A necessidade de sair na foto. De ser o papagaio de corsário da vez. Como na maioria das ocasiões, esse prestígio é efêmero ou tem a ver com trívias passageiras: algum dinheiro a mais, uma suposta adequação à moda, o destaque por alguma ninharia ligada a prêmio ou cargo, o aspecto jovial, a "boa vibe", a aparência (ainda que se esteja caindo aos pedaços para mantê-la), no geral – tudo isso é calcado numa lógica tão efêmera quanto o endêmico selo nouveau-riche que grassa entre nossa desgraçada elite.

É talvez por essa elite que temos – uma das mais nefastas elites urbanas do planeta – que a cidade seja tão desnivelada e repugnante. Que a preocupação com a coisa pública, a começar da escola básica, assome tão amesquinhada: o transporte coletivo de bom nível, os parques, praças, o acesso a bens culturais na forma de bibliotecas públicas, museus, locais de lazer ao ar livre e comunitários, a preocupação com a memória, com a rua, a preservação do patrimônio arquitetônico, etc. e etc.

Os jovens dessa elite, nossa jeunesse dorée – como os jovens de qualquer outro ponto do planeta – possuem todo o direito de buscar dar vazão ao excesso de hormônios que vaza pelos seus poros em qualquer clube noturno no entorno do Dragão do Mar, durante seus momentos de lazer. Ou aspirar passar o final de semana em torno de um deck-bar à borda de uma piscina no Porto das Dunas, degustando uma lagosta ou entornando um bloody mary.

Faz parte.

O que não faz parte é que a coisa esgote aí. E que pela escassa dimensão dessa elite, mesmo as relações pessoais sejam tremendamente assentadas muito mais em clichês do que no convívio tête-à-tête entre as pessoas.


Isso em parte absolve os jovens. O que fazer, numa cidade planejada para o turista e não para si. Onde não há teatros, universidades realmente fortes, museus, uma efervescência cultural sadia - de alguma feição endentada no local? Reunir-se ao fim-de-semana e encher a cara, nos clubes de forró ou nas festinhas em que os DJ's que comandam a pândega seriam incapazes de compreender uma progressão harmônica de três acordes. 


E, ainda assim, há na cidade locais aprazíveis, potencialmente votados ao lazer público, mas que não são valorizados, não recebem um tratamento urbanístico. Ou, aqui e lá, uma paisagem doce aos olhos, apesar de em certos casos sequer se poder vê-la. Pelo excesso de poluição visual.

De outro modo, a ostensiva necessidade de autodemarcar-se dentro do círculo de giz dessa elite rarefeita, incentiva nas pessoas um culto de pseudo-sofisticações que tiraria riso em uma sociedade onde, de fato, se consolidou uma aristocracia de longa data. Distante desse brilhos efêmeros e, sobretudo, dessa compulsiva necessidade de se dissociar das classes mais pobres.

É claro que esse descompromisso com a dura realidade social da cidade, com sua apartação social, com o fato de haver alguns quistos de classe média em meio a uma favelópolis a perder de vista, é compensado de muitas formas. Uma delas passa pela opção de adotar expressões supostamente “regionais”. Usadas pelo "povo". O povão que comuta de ônibus nos terminas desde muito cedo. E realmente pega no pesado. E aí, esses jovens de classe-média adotam como moeda corrente a linguagem desse povão.


Para bons ouvidos, isso soa como uma espécie de 'mea-culpa'. Ou um certo flerte com um pavoroso humor que se convencionou achar de ser uma característica “local”. Como se houvesse algo análogo a um “cearensês” – ou como, de uso, tanto se vê em mensagens escritas na Internet.

E é também evidente que tudo isso refrata-se nessa sociabilidade exageradamente exaltada via o virtual, exibida com uma ostensividade quase agressiva. Não raro através de índices que agregam tantos signos de modernidade e, logo de poder, como uma necessidade compulsiva: demonstrar aos demais que se cultiva gostos muito singulares – especialmente em termos de música ou das artes no atacado. Como se pode constatar no universo virtual. Daí que celulares, tablets, câmeras digitais, pequenos gadgets, a incorporação de um inglês um tanto capenga – mas derivado em parte dessa terminologia da TI – conformem moeda de troca corrente entre essa elite escassa e autocentrada.

Muito pouco vocacionada a olhar, em desespelho, para tudo que ela não é.

* * *

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O que mais aspiram redear


[s/i/c]



Um sobrevôo sobre Twitter


Após uma estadia de uns poucos meses, para sentir a porta nos guizos, saí do Twitter.

Explico. Nada tenho contra quem lança mão dessa ferramenta. Mas a figura adequada para defini-la é uma esponja. O Twitter suga o quotidiano das gentes: diários, lembretes, mementos, pequenos - íntimos - recados, para convertê-los em assunto público.

Por isso mesmo, repassa a sensação de um micro-Big Brother grafado. Um em que as pessoas sentem-se niveladas com o que mais almejam ser: celebridades. Ou com o que mais aspiram redear: a possibilidade de formar opinião.

Porém, se coadas, as micro-mensagens do Twitter, como das redes sociais no atacado, nada trazem de novidade. São tão-só uma ampliação de Narciso. Certa necessidade de se auto-afirmar, de assegurar aos outros que se está inserido dentro de uma teia social que, no mais das vezes, apenas reproduz, em régua milimetrada, a política institucional.

A analogia, aqui, é a da horrenda obrigatoriedade da propaganda eleitoral gratuita. Com a patente diferença de que esta propaga as propostas - quase sempre ralas, vagas e populistas - de um número consideravelmente mais reduzido de pessoas.

O Twitter não. Está aberto ao bizarro de qualquer um que disponha de acesso à rede.

Ele é uma poderosíssima ferramenta de propaganda. E uma bastante desporporcional, desde que as celebridades, que já o são fora da virtuália mais estrita, dele lançam mão para ampliar ainda mais, seu poder. E, claro, com mais brevidade. A brevidade do Twitter tem nada a ver com concisão.

Os 140 caracteres é o supra-sumo da 'informação', por contraposição à 'narração' - no senso benjaminiano. Mas na barbárie informativa em que esse dispositivo se tornou não há espaço para uma nova forma de sabedoria, tal qual entrevista por teóricos como, digamos, Agamben.

Há, isto sim, a lógica da exposição e do lucro. O Twitter é uma ferramenta indispensável para muitos, porque, além de afastá-los da auto-reflexão que só uma pequena fração diária de tempo proporcionaria, possui também uma espécie de darwinismo: os que mais são seguidos são os que menos seguem. Ou seja, os mais aptos a devorarem a mente dos outros numa cadeia de formação de opinião, são os menos afetados pelos demais. Os demais são presas. As celebridades, predadores.

O Twitter, desde sua concepção, fere avassaladoramente os princípios judaico-cristãos de compaixão e, mais especificamente, de solidariedade. Daí que, quase de modo infantil, os utilizadores queiram, via de regra, possuir mais seguidores que seguidos.

Ou seja, querem mais que os outros com eles se importem do que o contrário.

Tamanho grau de exposição pública difere radicalmente do texto literário. Este, ainda encontrou nos blogues seu canto de cisne. No Twitter, a pedra de toque passa ao largo da generosa gratuidade da poesia, da imaginação, do livro. E do tempo que é necessário para fruí-los. É por isso que sua especiosa objetividade consiste, de fato, na mais insidiosa forma de má subjetividade jamais alcançada nos circuitos virtuais.

Nele, a bizarra necessidade de afirmação de uma individualidade cosmética e plastificada chega a seu paroxismo. Especialmente num país que vem passando por uma enorme mudança na instância do consumo. A necessidade de se auto-representar como "in", pelo que se consome praticamente decuplicou. E isto eleva-se ao cubo, numa cidade nova-rica, como Fortaleza. As pessoas querem ser tomadas como "especiais" pelos iogurtes, câmeras, música ou pequeno gadgets eletrônicos que consomem. Isso tudo assilhueta o Twitter em algo, por vezes, tão sombrio, que só encontrável em certas páginas de Conrad. Ou, mais propriamente, no Livro do Eclesiastes.

O vôo do pássaro de seu logo rouba qualquer possibilidade de real tédio. Ou imersão pessoal. O tédio salutar. O tédio que aponta para "o estofo de que são feitos os sonhos". O que conduz, posteriormente à criação de artefactos carregados de uma beleza imperecível, feita das experiências de que realmente necessitamos - e são as mais amesquinhadas. Das experiências que conduzem à confecção do belo - tanto no sentido matemático - pois o Twitter é uma desmesura - como no dinâmico - porque sua mixórdia impede uma concatenação de ideias, uma vez que é ainda mais fracionado, disparatado, que a falta de correlação entre as notícias em um jornal. O Twitter é uma espécie de contra-Sublime.

Verdade, isto tudo são apenas reclamos. E a potência de uma ferramenta como esse micro-"Bog" Brother veio para ficar. Quiçá assumindo num breve futuro o aspecto de um Ferrabrás ainda mais desmedido.

O poeta Carlos Augusto Lima definiu-o como um freak show.

Não está longe disso.



* * *

terça-feira, 1 de abril de 2008

Sozinho com a cidade: passar pelos lugares é ler história inscrita no espaço


Frank Lloyd Wright, 1906



Conversar com casas

Há uma sorte de conversa íntima que você só entretece com uma cidade. E me lembro de caminhar por Fortaleza entretecendo essa conversa horas a fio, um dia depois do outro.
Minha própria noção de Fortaleza é muito limitada. E ela se faz do Centro para leste, na direção do eixo conformado pelas principais ruas e avenidas que cortam a Aldeota Velha – como dizem, em definição perfeita, alguns office-boys.
Foi mais ou menos nesse espaço que vai da Praça do Ferreira à Rua Monsenhor Bruno – e da Antônio Sales para o mar – que mais me movi nos anos em que morei na cidade. E, aqui, sim, conheço mais ou menos de cor toda seqüência de ruas e o que há de mais interessante para ver nelas. E minha geografia se estende, com pequena expansão para os bairros do Benfica, Pici, as Praias de Iracema e do Futuro. Mas também aos novos bairros do Leste – que são, no entanto e de todo, os menos interessantes, pelo menos para mim, à exceção da Cidade dos Funcionários.
Alguém já disse que os locais, as casas, as ruas, os edifícios, as árvores, as esquinas, devolvem a atenção de um olhar. Se sentem em próprio estado de diálogo, de conversa, com o caminhante que lhes lança despretensiosamente os olhos. E é assim, exatamente, que costumo a caminhar – ou mesmo pedalar – por Fortaleza. Não só como exercício físico. Mas como exercício cívico. Tentando fisgar, em meio a prédios e casas, a história dessa cidade quase à prova de história.
Algumas velhas casas da região mais antiga da Aldeota, conheço como ninguém. Se acrescentaram um novo andar em improviso. Se retiraram do muro a graciosidade das colunatas antigas. Se revestiram de ladrilhos a fachada, como se fosse um lavabo – onde antes havia um discreto chapisco cinza. Se desfiguraram de vez a forte eloquência, de sobriedade e calma, que as linhas de uma velha fachada nos repassam. Se aterraram um canteiro onde havia grama e espirradeiras. Tudo isso posso perceber de prima. Pois essas casas parecem reclamar, gemer quando qualquer dessas contrafações é cometida contra sua bela integridade de testemunho. Seu poder de evocação, quase epifânico, é o mesmo de certas velhas canções. Ou quase o mesmo de uns poucos perfumes raros, e que nos datam o tempo com digital precisão interior.
Conheço de certas ruas, cada casa, um tanto como se elas, e não seus donos, fossem os vizinhos. E me exaspera um bocado saber que estão construindo um segundo pavimento improvisado sobre aquela marquise. Ou o que é pior, a fachada será maquilada com lambris para a instalação de um consultório, um escritório de engenharia, uma locadora de vídeos, um salão de beleza, um centro de fisicultura. Por que a necessidade desses estúpidos lambris?
Porém, ao mesmo tempo, alguns dos sítios mais impressionantes são casas demolidas. Digo melhor, parcialmente demolidas, justo na etapa em que elas ainda resguardam o assoalho e um certo vestígio de divisão, do que um dia foram paredes. Espécie de maquetes vazadas, plantas baixas ao vivo e literalmente. Espectros do que foram nos muitos anos em que habitadas por duas ou três gerações. Fortaleza não suporta mais que esse lapso.
A virtual ausência de planejamento urbano aliada à ganância e ao poder manipulador das grandes construtoras degradaram a cidade ao extremo nos últimos vinte e poucos anos. E, se nesses mesmos vinte e poucos anos, se houvesse preservado a melhor parte das belas residências da Aldeota Velha e do Bairro de Fátima teríamos simplesmente uma razão a mais de auto-estima.
Se pode até entender que muitos fatores entraram em conjunção para provocar esse desastre urbano. Mas não se pode perdoar o afã de modificar as características essenciais dos prédios e casas, deformando-os por completo, apenas em nome de ridículos caprichos pessoais ou efêmeras demonstrações novas-ricas de status. Ou mesmo de partições de herança. Deveria haver uma legislação forte e que cuidasse efetivamente disso. Mas se o fenômeno se dá a reboque de razões eminentemente econômicas, essas distorções poderiam ao menos ser atenuadas houvessse um verniz mínimo de planejamento, pois basta passar os olhos por fotos antigas para perceber que já houve mais amenidade em nosso circuito urbano.
É possível pensar, nesse ritmo, no próprio esvaziamento de funções que a casa de classe-média sofreu em Fortaleza nos últimos vinte e poucos anos. A casa não é mais um local para receber. Os encontros foram deslocados para os restaurantes e lobbies de hotéis e shoppings. Já os aniversários – especialmente os infantis – assim como os grandes eventos familiares – casamentos, bodas, batizados, etc. – foram cada vez mais transferidos de casa para os bifês. Ou se dão no salão de festas do condomínio quando casa não mais há. Bem como também, em termos de lazer, as quadras domésticas de esporte e áreas afins perderam sua importância em prol inicialmente dos clubes e raros parques e praças praticáveis; e, mais recentemente para as escolas, os centros de fisicultura e os condomínios. Além disso, as famílias de classe-média não possuíam tantos carros trinta anos atrás. E assim havia mais orçamento disponível para se gastar no zelo do imóvel. E mais espaço no imóvel para abrigar o zelo do corpo.
O excesso de carros nas ruas estreitas da cidade é, aliás, um dos fatores que contribuíram decisivamente para que Fortaleza perdesse muito do charme, algo ibérico, que ainda possuía na década de 70. Quase ninguém caminha ou anda de bicicleta por Fortaleza. Às vezes, percursos mínimos são ostensivamente perfeitos sempre de carro. E há mesmo o ridículo do número de automóveis que se aglomera diariamente, de manhã bem cedo, à Beira-Mar. E esses veículos levam aqueles que vão... caminhar. Quer dizer, para se caminhar em Fortaleza se usa... o carro.
Isso dá o que pensar. Não seria mais prudente, cívico, e muito mais ecológico passear a pé pelas imediações de casa? E isso até serviria para fortalecer laços de vizinhança e solidariedade. Já que famílias inteiras, amigos e vizinhos estariam nas ruas de manhã cedo e passando pelos espaços onde, de fato, moram. Podendo eventualmente observar e zelar pelos equipamentos públicos e até conhecer-se melhor e se organizar no sentido de apurar a qualidade de vida de seu pedaço de cidade, bem como reocupar coletivamente uma rua cuja insegurança também brota da falta de pedestres. E isso não é nenhuma utopia. E é bem fácil de atingir. Bastava que houvesse políticas públicas que incentivassem a prática de caminhadas e passeios de bicicleta em volta da vizinhança. Mas também que todos aqueles que tivessem condição ou disposição para se deslocar a seu local de trabalho de bicicleta ou a pé, o pudessem fazer, e em condições razoáveis de segurança e conforto pessoal.
Admiramos Amsterdã pelo número de ciclistas que se deslocam pela cidade, acrescendo-lhe o charme típico de uma urbe tranqüila e de alta qualidade de vida. E mal nos damos conta de que vivemos numa cidade plana. E que bastaria exclusivisar algumas vias somente para bicicletas – além de excessionar apenas aos moradores, o tráfego de veículos em baixa velocidade nessa vias – para, então, a curto prazo, atingir patamares de qualidade de vida bem mais expressivos e dignos. Inclusive por uma maior desobstução das vias de tráfego, bem como por certa desvalorização simbólica do automóvel. Fácil entender que esculpir uma cidade é uma tarefa essencialmente do olhar. Inclusive no que diz respeito à sua poluição visual.
E tudo isso é tarefa do estado, claro (até hoje me recuso a escrever estado com maiúscula). Mas, por igual, deveria passar pela boa-vontade e pela consciência e cooperação de cada cidadão de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Cada um sabendo de seus potenciais em contribuição para atingir tais metas.
Voltando às velhas casas, há mesmo uma que resume para mim esse elo entre paisagem, história e integridade. Se não me falha a memória, depois de quase cinco anos morando fora de Fortaleza, ela fica na Antônio Augusto. No próprio quarteirão que antecede a Santos Dumont, sentido sertão-praia.
Não é nada opulenta. Poderia passar despercebida para a maioria. Sequer possui um segundo andar ou um vasto jardim gramado à frente. Mas há algo nela que é realmente encantador. Essa residência, hoje ilhada em meio a clínicas, escolas infantis, salões de beleza, concentra toda um estilo de fracionar espaços que me atrai de algum modo. Algo da ruralidade das casas de chácara no bairro do Outeiro – o antigo nome de parte da Aldeota – de que nos falam autores como Herman Lima.
Há essas estreitas janelas. Geralmente ocupando, em trípitico, o espaço que poderia ser preenchido por um só, desgracioso, janelão. Estreitas janelas guarnecidas por venezianas, naturalmente. Estão à esquerda, na fração da casa que avança em bloco sobre o pequeno vão de jardim, que a precede. Há um alpendre em L, que se estende por todo flanco direito. E nele se pode entrever o móvel conforto de redes avarandadas. Há também esse jardim lateral, contíguo à ala direita do alpendre. Esguio e bastante fechado por diversas árvores, ao modo dos antigos caramanchões. Vertendo sombra e conforto para uma faina doméstica e sem fim.
Me espanta um pouco o tanto que há de história naquela casa. Não conheço seus donos. E nunca parei para tomar qualquer informação a respeito dela. Mas, a cada ocasião em que, nas minhas caminhadas, passo em frente a ela, sinto o quanto ela convoca meu olhar. Posso intuir, secretamente, seu misterioso poder de passado e dignidade. A eloquência do que ela testemunhou ao longo de tantos anos. Há uma outra casa assim, só que infinitamente mais triste, numa dobra de esquina, por trás da Escola Normal.
Sei que muito do que toco neste texto são apenas reclamos, e que mal serão ouvidos. E é um pouco inútil chorar o leite derramado. As casas e as edificações que foram postas abaixo ou desfiguradas não vão renascer de seus alicerces. Elas foram derrubadas para sempre. Ou desfiguradas sem remissão.
Mas, desde sempre, para minhas próprias palavras – em meus livros, contos, poemas, letras de música – quero criar um espaço semelhante ao delas. Quero que minhas palavras se organizem dentro dessas densas formas da história. Dentro dessas estreitas janelas, dessas móveis venezianas; desses alpendres laterais vazados para o trabalho dos dias e o brinquedo das noites; dessas redes com varandas; desses caramanchões e latadas. Em certo sentido, sempre dentro dessa perspectiva de sítio ou chácara, pendendo para rua. Algo que indica a própria motivação inicial do bairro em que, por primeiro, residi em Fortaleza. Algo que está nas fachadas e no grau de testemunho e companhia dessas velhas casas, a nos ensinar um caminho mais íntegro. Ou mesmo algo mais lúcido sobre nós próprios e nossa integridade e história enquanto povo
E, então, quem sabe, essas casas e essas palavras nos possam, de novo, nos indicar um futuro mais liberto de ganância ou lucro fácil.







Nota – Artigo originalmente publicado em O Povo. Em 2000, quando o texto foi escrito, eu estava morando em São Paulo.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Uma necessidade de transparência


Tiago Santana, 2003




Onde o sol dá xeque-mate à tristeza

Imagens do Ceará, de Herman Lima, Edições UFC, Coleção Alagadiço Novo, 1997.

Dos escritores cearenses poucos são tão prazerosos de ler quanto Herman Lima. Não falo dos incorrigivelmente cultos, corretos, de consagrada mestria. Se você anda atrás disso, é melhor se ocupar com Alencar, José Albano, Gustavo Barroso. Os livros de Herman Lima são irregulares. Salta-se de uma página admiravelmente composta para a seguinte, onde há pedantismos, incorreções, equívocos históricos, sentimentalismo em excesso. Mas isso não o diminui. Há algo nele que só encontra paralelo no Gustavo Barroso memorialista. Algo que brota da gratuita pulsão do colecionador. É assim. Herman Lima é possuído de um afeto que quer ressuscitar tempos, lugares. Literalmente. Sem mediação de ficção.
É claro que ele não consegue. E é também em parte por essa não consecução que sua obra de memorialista se estabelece em toda sua dimensão e humanidade. Não sendo a narração o forte de Lima, ele se especializou em captar atmosferas e anedotas -- quase todas coadas num filtro doméstico. É um perito em paisagens, climas, texturas, gestos coletivos, lentas artesanias intuitivas, cores, coisas apreendidas pelos sentidos. É bem mais efetivo -- mas não menos coletivo -- quando se afasta do épico, debruçando-se sobre o concreto dos pequenos afazeres que tomam tempos longos. Seus livros celebram um espécie de etnologia poética. Sua escritura é colorida e solar. Sinestésica. De cortes rápidos, descontínuos. Essencialmente visual. Muita atenta ao digníssimo reino dos detalhes. Às polainas dos dias.
Imagens do Ceará não está sequer na primeira linha da obra de Lima. Não tem o volume e a distância de Poeira do Tempo. Não é difícil perceber no livro inadequações, descontinuidades, falhas. E, no entanto, bem presente assoma essa marca amorosa do colecionador. Esse desejo, impossível, de retorno a tempos e lugares. Ou a vontade de legar para adiante uma cidade e um tempo irremissivelmente desmontados. Um proustianismo. Escrita feita expressamente desde experiência e testemunho.
O Ceará das imagens de Lima é Fortaleza e, quando muito (um único capítulo), deriva para os sertões jaguaribanos com o Aracati na foz. É só isso.
É só isso mas está lá, repleto de sensações. Está lá propiciatório. No sentido de nos inclinar para o resgate de dimensões históricas que estariam perdidas para sempre. De distendê-las, dimensioná-las com vasto senso de inscrição no fluxo do tempo. Um dos capítulos começa com uma definição da cidade de Nossa Senhora da Assunção que é quase um hai-kai: "Fortaleza é um tabuleiro de xadrez colorido, em que o sol dá xeque-mate à tristeza o dia todo".
Pode ser. Pode ser assim, solar. Mas o centro desse espaço é o sítio da família, no Meireles. Para onde tudo converge. Para onde Lima está sempre voltando de férias. É isso mesmo. Chega a ser engraçado, porque hoje o Meireles é um dos bairros mais verticalizados de Fortaleza. Mas, em meados do século passado, quando Lima vinha do Rio em férias, o sítio -- chegando cada vez mais perto da cidade -- ainda estava lá, em sua plenitude de quinta portuguesa, nos arrabaldes. Isso aí pelos anos 50.
Do sítio se sente tudo, até os cheiros. Estão lá os cajueiros, as guabirabas, mofumbas, pinhões bravos, jatobás, o alpendre com redes de varanda armadas, a aragem do mar quebrando ao largo, o ponto de passagem para o Mucuripe, o farol velho piscando lá, acima das dunas, as lagoas que encorpam nos invernos mais caudalosos, os três caminhos de acesso a Fortaleza. O que seguia para a Aldeota, então, atingia a cidade pelo Castelo do Plácido -- hoje, cruzamento da Santos Dumont com Monsenhor Bruno. Herman Lima é uma leitura que Miguel Angelo Azevedo (Nirez) deve fazer com um prazer tanto especular quanto labiríntico.
A marca amorosa do colecionador é patrimônio de ambos. É o eixo da escritura de Lima assim como das coleções de Nirez. Neles não há sistema, mas modos de sentir. Tempos e lugares escaneados pelos sentidos. No caso de Lima, que vive num exílio compensado por retornos esporádicos, o excesso de apego quase neurastênico às coisas passadas ronda o livro à cada página. Em certos trechos, tamanhos apego e sentimentalidade ameaçam amarrar de vez as páginas entre as capas. Expulsar o leitor, em sua intrusividade. E fechar o caso. Lima sabe o quanto um leitor pode ser abelhudo. Viver metendo o nariz onde não é chamado. Embora, em certas passagens, conceda ainda mais de pessoal ao leitor do que manda a prudência. Sua sensibilidade é a de um narrador à antiga, posto à prova de novidades nem sempre alvissareiras. Capaz de depurar um acervo coletivo de sabedorias. Ele nos conta de um pescador paralítico, de uma rendeira que era uma espécie de geômetra intuitiva, de uma cozinheira que conheceu a cidade grande (Recife) graças a uma mordida de cachorro. Seu reino é o das anedotas. Seu exílio, o da nostalgia que surge não como depressão mas remendo.
Mesmo um leitor desatento, no entanto, pode perceber a fixação que Lima tem pelo pai. O carinho pelas filhas. A reticência com que fala da mãe e da esposa. A obsessão com que diz da graça das "caboclinhas" -- filhas de pescadores das proximidades do sítio ou sertanejas que viu passar, enquanto feitor de uma estrada de rodagem, ligando o Aracati ao sertão do Jaguaribe. Algo do que também vai expresso em seu primeiro livro de contos, Tigipió. E, embora sua visão dos tipos cearenses -- vaqueiros, jangadeiros, rendeiras, personagens que fazem parte da mitologia do Centro de Fortaleza -- retenha algum estereotipia, há também coisas de um observador para lá de atento. Coisas que não podem ser vendidas em separado.
O noves fora é sairmos mais conscientes do espaço. Das inflexões passadas pelo espaço no correr dos anos. Esse filtro do espaço através do tempo é extremamente bem cristalizado. E o resultado é uma fina coleção de cristais. Ou uma pilha de roupas brancas, bem engomadas, depois de estendidas no quaradouro e batidas à quartzo e luz.
Por uma espécie de proustianismo muito próprio, Lima quer remontar o passado em um outro lugar. Sob outras circunstâncias. Ao menos uma vez recomposto. Para o prazer dos sentidos. Ou então, carregá-lo consigo. E seguir sendo fiel às boas promessas que não se realizaram.
É de uma visita ao Aracati, com impressões de beira de estrada bastante bem compostas, que sai o trecho abaixo, onde se nota, ainda uma vez, a necessidade de sequestrar o passado para outro lugar. Para perto do coração:

"Três vezes, subo e desço, no correr do dia a rua longa, parando aqui e ali na contemplação de algum daqueles sobrados de azulejos, todos de quadradinhos azuis e brancos, polidos ao sol, e que dão na gente a vontade maluca de carregar inteirinhos de avião, para morar no Rio..."
[Fortaleza, 31.07.08]




Nota - Esta resenha segue dentro de um gesto mais amplo que chamo de contra-resenha. Ou seja, resenhar livros que 1. não foram recém-lançados, mas mereceriam pelo menos serem relançados, dada a sua importância; 2. não fazem parte de qualquer interesse pessoal imediato de quem resenha (ou seja, no caso, de uma coleção que eu estou editando ou que um amigo meu está editando, o que um amigo de um amigo... etc.); 3. que apenas seja um bom livro, embora esteja passando despercebido porque, entre outras, foge à categoria imediatamente anterior. Outro dia, tentei pesquisar algo sobre Herman Lima na rede. Ora, não há sequer um verbete sobre ele na Wikipédia. E olha que Lima, entre outras, foi um dos grandes -- senão o maior -- estudioso da caricatura no Brasil.

domingo, 24 de junho de 2012

Dois sinais na perna esquerda de um n caído para a esquerda


A Promenade, o calçadão à beira-mar em Split

A Placa (ou Stradun), emDubrovnik, pérola do Adriático

Duas cidades na Dalmácia concluídas numa frase 
Oliveira, vinha, montanha, mar: o litoral mais belo da Europa

A Croácia é um N em direção ao Noroeste. A perna esquerda desse N caído segue, por sinal, roída. Ou foi mal apagada: desfaz-se em farelos. Esses farelos estão na água: são ilhas. Elas são mais de mil. Perto de uma dessas ilhas está Split, na costa da Dalmácia. Perto de outra, Dubrovnik [os croatas pronunciam proparoxitando: Dúbrovnik].

Split, que é a maior cidade da Dalmácia, vem de um colônia grega, Spalatos. Mas seu núcleo central remete a um palácio mandado erguer pelo Imperador Diocleciano, no séc. IV d.C. Hoje em dia, dentro do que foi esse palácio erguem-se cafés, lojas e até a catedral da cidade. A baía é um mimo. E a avenida peonal à beira dela, a Promenade, um projeto exemplar. Essas cidades guardam algo de uma escala urbana que desconhecemos. Quer dizer, onde há muita urbanidade dentro de pouca área e ao longo de toda ela. É uma concentração de serviços uniforme, inversa ao de nossas metrópoles imensas, caóticas, desiguais.
Split não conta com mais de 800.000 habitantes. Mas isso na conurbação. A cidade em si é muito menor. E, contudo, há museus e boa arquitetura para o lado em que se teimar ir. E para qualquer lado onde se vá, montanhas suaves metidas em entradas de banho. A colina mais alta, junto ao porto, chama-se Marjane. E há essa canção, muito popular entre os partisans iugoslavos da Segunda Guerra, que é cantada até hoje: "Marjane, Marjane".
Num enclave, 230 km mais ao sul, vem o clímax: Dubrovinik, a Pérola do Adriático. É não menos conhecida pelos antigos como Ragusa, cidade-estado satelizada por Veneza, mas que chegou a competir com a metrópole à época em que a rota das especiarias fazia a glória do Mediterrâneo.
Pela força de sua astúcia, Ragusa sobreviveu séculos entre grandes potências - como a República de Veneza, o Império Otomano ou o Império Austro-Húngaro. Seu corpo diplomático fez história. Fortunas cumularam-se nos porões. Dubrovinik recebeu um considerável contingente de judeus portugueses no sec. XVI. A sinagoga – que é ainda referida por “sinagoga” (como em Amsterdã ainda há a “esnoga”) - guarda referências dessa migração sefardí. E Dubrovnik, apesar de haver sido destruída por um terremoto no sec. XVI e atingida por bombardeios na Guerra de Independência (1992), constitui um dos mais orgânicos e admiráveis exemplos de cidade medieval murada, na Europa.
Com não mais de 50.000 habitantes, a pequena cidade – que, não obstante, é servida por um aeroporto internacional - triplica de população no verão, quando é literalmente tomada de assalto por alemães, italianos e ingleses, sedentos pelo sol, pelas praias esplêndidas - de seixos ao fundo e água cristalina.
A Placa (ou Stradun), como é conhecida a rua principal da cidadela, em Dubrovinik, não tem mais de três quarteirões. Porém constantemente palmilhados por hordas e hordas de turistas, a ponto de haverem polido as pedras calcárias que revestem o leito da rua. Toda a parte antiga é vedada à circulação de veículos. De um lado das muralhas, barcos e iates oscilam suave na calma baía. No oposto - pois a cidadela ocupa uma pequena península - as ondas quebram violentamente contra as muralhas que escalam os arrecifes. Adiante há ilhas alflorando no mar. E montanhas do lado do continente, por onde também se espalha a zona mais moderna da cidade. Alguém bem-humorado, certamente visando a combinação entre montanha, mar e outras formas rotundas, rebatizou uma das praias circunvizinhas de Copacabana.
Mas, se falta algo da alegre solaridade tropical do Rio a essas praias recortadas e crespas - como decerto sobra algo ao risco comportado do biquíni das garotas locais - a paisagem ao longo do litoral de Split e Dubrovinik, estendendo-se até a Baía de Kotor, já em Montenegro, com suas ilhas, enseadas, istmos, golfos, canais, angras, estreitos e penínsulas, sitiados por montanhas e dominados por antigas cidadelas medievais - onde sobressaem e sobrepassam-se torres e campanários (ou ainda ruínas romanas e gregas) - é de descoser a tênue linha entre sonho e vigília, quando o sol é suave; seja ao fim da tarde, seja principalmente ao amanhecer, que acerca as praias desde a silhueta das colinas.


------------------
Nota - havia lido muitos tuítos ao longo da tarde deste sábado, ao mesmo tempo em que dava uma espiada no jogo da Eurocopa (Espanha 2x0 França). Aí, cansado do tanto de esforço - de resto inútil - que as pessoas fazem para soarem lapidares, epigramáticas no Twitter, veio essa necessidade de escrever um texto em que pudesse jogar o pensamento numa frase longa. Como a última do texto acima, que ocupa um parágrafo inteiro. Pois as pessoas parecem esquecer que mesmo o estilo conciso, quando jogado de qualquer jeito (ou seja, quando mal jogado), apenas aborrece. E que escritores como W. G. Sebald esticam-se por períodos que seguem por páginas e mais páginas. E é o que há de delicioso, por exemplo, quando se lê um desses cronistas do Quinhentos. As frases parecem não ter fim. E, logo, não fazer sentido. Mas, do contrário, fazem muito. Fazem todo. E o que não faz sentido é nossa incapacidade de perceber e acompanhar o sentido de uma frase longa e bem lastrada. Isso compele. E nos leva adiante. E talvez seja uma maneira de lembrar - numa feição análoga, aliás, aos planos-sequências de Bela Tarr - que a frase curta é apenas um dos veículos da elegância e da concisão. E que essa mesma concisão e essa idêntica elegância podem ser atingidas por frases que parecem não ter fim. Quer dizer, não é o tamanho da frase o que determina a concisão e a elegância. Mas o ritmo dela. Seu modo de dispor-se. Sua disposição. Sua relação com as outras frases e a totalidade do texto. Eis porque cansa ler textos jornalísticos hoje em dia. Eles estão tão vendidos à necessidade da inteligibilidade, da economia de tempo e espaço, da exatidão, à serviço da informação e da comunicação mais rasteiras e imediatas, que não há mais lugar algum para o calor de um pensamento menos entregue à venda. Mais misterioso, místico, intuitivo. Mais sinestésico. Perto do coração selvagem. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Só o realismo resguarda a empatia dos perigos do cinismo e das ironias ocas


Francis Bacon, 1949



Para passear por fora do próprio crânio

The most obvious, ubiquitous, important realities are often the ones that are the hardest to see and talk about. [David Foster Wallace]

Os perigos de pensar que o estético é auto-suficiente é também o perigo de desistir da perspectiva realista em arte.
É o momento terrível de se pensar que se perdeu de uma vez e para sempre as chaves de decifração do mundo. A possibilidade de contato com ele. É contra isto que se insurgiu a mente brilhante de, digamos, um David Foster Wallace. Ele percebeu algo contra o qual se insurgir em sinceridade: o cinismo e a hipocrisia contida na estética de alguns dos prosadores pós-modernos que vieram antes dele, por mais brilhantes que fossem enquanto escritores dotados de uma técnica: Pynchon, DeLillo, Coover, Burroughs, Gaddis, Barth.
O experimentalismo em arte não pode se auto-nutrir. Ou ser feito deixando os outros de fora. Os outros estão no mundo, concretamente. Ainda não existe um corpo virtual. Não se pode escolher uma outra humanidade, virtual, para conviver com ela nos termos ideais que se deseja por capricho ou volubilidade.
Ora, deixar os outros de fora, equivale a deixar o mundo de fora. A se estar completamente vedado dentro de si mesmo. Sem um canal de comunicação com a realidade que passe pelo mínimo poro do corpo. O que sai do devaneio narcisista, do fechar-se-sobre-si a partir de referências livrescas ou profusocitações, de alguns, é apenas ruído. Narcisismo inconsistente, vanguarda árida, dandismo inconseqüente. Mas não arte. Ou sequer pensamento estruturado em honestidade.
Esses prosadores pós-modernos, de início, tinham uma missão que parecia de todo razoável. Sua missão era a de denunciar que o modo realista como a literatura estava tentando traduzir o mundo, à altura dos turbulentos anos 60, era equívoco – porque suas convenções já estavam desgastadas, rotas, cansadas, convencionadas e aclichesadas demais – para dar conta do mundo. Então, era necessário apontar essas fissuras e debilidades. Ou o modo como elas eram tomadas em naturalidade. Mais ou menos como o cinema de montagem “invisível” hollywoodiano foi denunciado pela perspicácia dos “jovens turcos” franceses, do cinema-novo.
O que tornava o realismo clássico – bisneto de Flaubert, neto de Joyce e Hemingway, filho de Bellow – inviável para a época, era que a própria realidade já nem de perto era a mesma dos tempos desses heróis do modernismo. As sentenças criptográficas de Pynchon; os artefatos auto-canibais de Coover; as intrusões narrativas de Barth, o cinismo programado de Borroughs, tudo isso se arregimentava para estilhaçar a hipocrisia de uma sociedade pós-industrial complexa, monstruosa, excessivamente afeita ao consumo, à abundância, ao mesmo tempo que desprovida de qualquer idéia de sacrifício por parte do indivíduo. O ponto é que ao desenvolver tal projeto, essa geração de escritores conseguiu apenas legar a seus leitores e epígonos hábitos de escrita e normas estilísticas como um valor em si. Ou seja, a segunda parte do caminho, o reencontro com o mundo, restou secundarizada e amesquinhada no processo. Ou simplesmente não existiu.
Portanto, esses prosadores, de meados dos 60 aos 90, se empenharam mais em denunciar a má representação do mundo por uma realismo cansado – tarefa negativa – do que em achar uma alternativa possível para essa representação. E, assim, a meio-caminho ficaram presos, siderados pela própria perspicácia de sua denúncia. Deslumbrados com suas habilidades de artesãos da denúncia. Como artesãos eles agiram, malcomparando, como carrapatos: sugaram o sangue do cavalo que parasitavam – e que se chamava realidade – mas foram incapazes de plantar seu próprio de comer no solo dessa realidade-cavalo. O mundo foi abandonado em favor de um universo estético fechado, repleto de devastadoras ironias e cinismos sem referencialidade. Uma grande farra estética. Vigorosas demonstrações de virtuosismo, como naqueles longos solos de guitarra onde, por vezes, há mais datilografia veloz que propriamente melodia, paixão, engenho e algum sentimento humano: seja suave, seja sonoro e furioso.
Esse louvor da arte como um valor em si (no fundo, aurático, religioso – e logo, idólatra –) é a mesma pasmaceira que se nota em alguns artistas por toda parte hoje em dia. [E, inclusive, claro, também aqui pelo Brasil, em diversas áreas: poesia, audiovisual, dança, artes plásticas, etc.]. Artistas que, cheios de ilusão – e não de fantasia radicada no real – entendem que o pequeno mundo que constroem dá conta de ler as realidades que estão lá fora. Ou ainda pior, estão convictos: é impossível lê-la.
O ponto, aqui, é que as obras gestadas por esses artistas sequer se põem a serviço de apaziguar o espírito do próprio artista que, mesmo sem nelas acreditar, necessita continuar elaborando-as “daquela” maneira niilista para não se ver face a face com sua própria hipocrisia ou mediocridade. A renúncia ao realismo – a um realismo complexo, sopesado, buscado, de nova estirpe – conforma também um auto-consumo da própria arte como uma sorte de droga em nada diferente do tabaco, do álcool, da maconha, da cocaína, da heroína, do blogue como purgação do tédio, do fumo de mascar, das horas na academia esculpindo o corpo, das telenovelas ou das bandas de forró que soam uníssonas.
Dependência que vive de si. Para si. Que causa paralisia. Que é vício, não virtude. Engessa. Mesmo quando se pensa estar produzindo feito um escravo de Jó. Essa dependência torna o artista incapaz de saltar para fora de seu ciclo auto-semovente. De seu umbigo repleno de hedonismos, bocejos, ironias e pseudo-sofisticações. Artefatos exóticos, esquisitos – supostamente bebidos em fontes da cosmópolis, porque alavancados pela internet –, mas formalmente ocos é o que surge desse deplorável mundo novo em que o artista posta em segundo plano o que é necessário em favor do como é necessário.
Uma perspectiva maneirista, fechada sobre si mesma. Tumular. É nessa perspectiva, amaneirada, afrancesada nas idéias, muito afeita a sofisticar coisas simples, que muitos optamos por viver. Dos nacos de uma linguagem prolixa, que, apesar de criar conceitos em espantosa voragem, não resiste quando é torcida pelos dedos ásperos do cotidiano – como se torce café num daqueles velhos panos enodoados pelo uso. Aqueles que por mais que se lave, ainda se fica com impressão de que a alma dos grãos de café nele restam como por um golpe de inércia ou pela misericórdia do ato enquanto rotina inescapável.
Porém há mais dignidade nesse pano enodoado pela necessidade de se fazer, diariamente, com paciência e método, com experiência, uma boa medida de café, forte e aromático – para se saborear melhor a manhã antes de se lançar à rotina dos dias – do que nessas trívias espúrias de tornar a arte o lenitivo químico da vez: tolas instalações de panos ou lençóis pendendo de um varal, por exemplo.
A questão aqui é que o varal da instalação não resguarda um segundo moral do varal real, em que a lavadeira estende com mãos rachadas a sua roupa recém-lavada. Porque são precisamente as ranhuras nas mãos rudes da lavadeira, grossas como uma casca, o que empresta dignidade ao lençol que a brisa agita, feito uma bandeira branca sopre o capim da várzea à volta da lagoa. É o costume, a rotina desse estendimento o que não vaza para a instalação. O gesto do costumeiro. O relógio das tarefas longas e pacientes, onde o amor reside de modo tão pouco atraente. Porque as verdadeiras formas do amor nada tem de glamour. Pois, sendo as mais belas, conseguem ser também as mais úteis.
E, portanto, são essas as mãos que sempre ficam do lado de fora das instalações. Justo as que mais precisariam ser internalizadas, porque conhecem seus assuntos desde dentro, a ponto de serem só um com eles. E, logo, a instalação se situa milhas náuticas de distância de qualquer possibilidade de interação com a história e com o passado comum. Afinal, “o mundo não pode ser representado ou revelado”.
E é pensando por aqui que também se pode divisar: não se pode assumir o mundo como capricho. Com o espírito do volúvel. Do tipo, resolução repentina: agora vou inovar. Ou isso é ingênuo demais, ou embute má-fé. Má-fé consciente ou sub-reptícia. Mas mesmo quando sub-reptícia, ela se vai explicitando, ao longo das horas, dos dias, dos anos. As possibilidades de uma inovação verdadeira, em arte, sabemos, são escassíssimas. E radicam também num mapeamento do local. O local aqui no sentido mais prosaico: os vizinhos, o boteco, a rua, o bairro, a cidade, as palavras que te cercam.
Toda a vontade legítima de inovação aponta para um ângulo inevitável: a superação do que já foi feito. Ora, superar o que já foi feito, ou, no mínimo, expressar-se com a unicidade de uma voz achada, requer horas queimando pestanas e apurando o que de melhor já foi gestado, imitado, jogado, brincado, citado, digerido, variado, tresvariado, dissonado, etc. E isso vinculando a área específica em que se age com o contexto amplo, macro, do atual, da circunstância. Mas, aqui, pelo menos, há duas coisas: 1. a necessidade de se aprender com o passado – única possibilidade real de se estar no presente de modo alerta, à altura do presente e 2. ascese (que, originalmente em grego quer dizer “exercício” e, portanto, rotina, esforço continuado e também atenção – no sentido de concentração extrema, extática: êxtase).
A raiz da palavra ascese não indica apenas o esforço do místico para se lavar das impurezas do mundo, mas, indo bem mais longe, um exercício capaz de tornar esse mundo mais cômodo e habitável. Fruível. Também para os outros. O custo disso está encascado na mão da lavadeira. Mas é só por conta dessa casca que o mundo torna-se um lugar menos insalubre para os que virão depois de nós. Sobre esse segundo ponto, o da ascese, Auden nos diz que “rotina num jovem é sinal de [boa] ambição”. Sobre o primeiro argumento, o da necessidade da memória e do passado – de onde se decalca, entre outras, toda a obra de Benjamin – há a afirmação de outro mestre alemão, Karl Kraus: “o historiador é como se fosse um profeta olhando para trás” (e quem aqui não lembra, é quase automático, do Agelus Novus benjaminiano?). Mas claro, só após esse exercício das articulações do pescoço, do olhar para trás sem virar estátua de sal, é que se pode divisar melhor os próprios dias que correm. Os dias em que moramos, no dizer de Larkin.
George Oppen, escritor acima de qualquer suspeita – pois passou quase 25 anos sem escrever poesia porque havia coisas “mais importantes” onde empregar as mãos – é um testemunho disso. Quando o poeta Richard Wilbur insinua que é preciso afastar-se da esfera do discurso – ou seja ocupar-se com experiências que nada tem a ver ortodoxamente com a área lingüística, da poesia, para poder retornar à poesia com a precisão do artesão – ele está também indicando que não se pode escrever a não ser a partir de experiências sedimentadas com o mesmo vagar com que os detritos, os pequenos seixos, o cascalho, as cracas, ostras, algas, sargaços, restolhos e restos de mariscos se deitam no leito de um rio, ao longo de anos, décadas, séculos – tempos sem tempos – conformando o próprio leito do rio. Tornando-se um com ele. Em causalidade e tempo longo. Ao mesmo tempo ele e sua memória. Eis a imagem para o artista e sua arte.
Na escrita – ou em qualquer outra linguagem – se dá o mesmo. E esse sedimento de experiência, essa crosta do já vivido, é tão preciosa quanto a própria vida do artista, porque assenta nas suas reminiscências. Cair na ilusão de uma arte que sai de tua cachola sem relacionar-se com a concretude – inclusive material, apalpável, farejável, degustável, visível, memorável – do mundo é conversa para um rebanho de búfalos cochilar, mesmo se com os cascos afundados na lama mais densa dos charcos e igarapés – com vivazes vitórias régias e profusos aguapés – da Ilha de Marajó. Tentar tornar arte e memória, arte e história compatíveis é uma das poucas tarefas que restam a um escritor, a um artista. Foge da gratuidade de uma arte que se compraz apenas de virtuosismos irônicos e jogos de estilo.
O resto, é recepção acrítica de teorias da recepção, classes de redação criativa, escombros do politicamente correto e as prolixas lições pós-modernistas à francesa.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Beleza só se tem quando se acende a lamparina

[s/i/c]




Derivando duas assertivas de J.M.G. Le Clézio


J’ai toujours pensé que la littérature devait servir non pas à décrire mais à comprendre ce qu’on voyait, à entrer en soi ce qu’on voyait. Un peu comme on entre aujourd’hui des informations dans un ordinateur en les scannant. L’oeil permet de faire entrer cette information, et le dessin était pour moi un des moyens me permettant de comprendre ce que je voyais, c’est-à-dire de séparer ce que je jugeais essentiel de ce qui ne l’était pas. Dans un visage, dans une scène de rue, pour un plan de ville, un plan de rue, un plan de maison, ou bien simplement le déroulement d’une action, afin de la mettre sur le papier, afin de la voir évoluer.

[J. M. G. Le Clézio, entrevista à Le Magazine Littéraire. Para a entrevista na íntegra (em francês) AQUI]

Sempre pensei que a literatura devia servir não para descrever mas para compreender o que vemos, para adentrar propriamente no que vemos. Um pouco como adentramos nas informações em um computador hoje em dia escaneando-as. O olho propicia o adentramento nessa informação, e o desenho é para mim um dos meios que me permite compreender o que vejo; quer dizer, separar o que julgo essencial daquilo que não o é. Em um relance, em uma cena de rua, através do plano de uma cidade, o plano de uma rua, o plano de uma casa, ou mais simplesmente o desdobramento de uma ação, a fim de pô-la sobre o papel, a fim de vê-la evoluir.


Outro extrato interessante de Le Clézio – mas que não se encontra na sobrecitada entrevista – passa por aqui, quando ele nos fala das culturas ditas “primitivas”, com as quais conviveu, sobretudo entre indígenas mexicanos e nativos da Oceania:

Souvent très archaïques, à beaucoup d'égards, ces sociétés sont en même temps extrêmement juvéniles. Et possédant, en tout cas, une qualité que seule la jeunesse peut offrir: une certaine insouciance face aux aléas de la vie quotidienne. Manquer d'un peu de nourriture ou perdre quelque chose, un objet par exemple, n'est pas vécu comme un événement dramatique. Ce que je trouve terrifiant, c'est que la société moderne dans laquelle nous vivons en Occident s'enferre dans cette idée que perdre quelque chose est toujours tragique, que le tragique est incontournable, qu'on ne peut y échapper. Il faudrait aborder les aléas de la vie quotidienne avec plus d'insouciance, et accorder une attention plus grande, faire une place plus large a des préoccupations relevant de la beauté et de l'harmonie.
[in J.M.G. Le Clézio, biografia escrita por Gérard de Cortanze, p.79]

Frequentemente bastante arcaicas, em muitos aspectos, essas sociedades são ao mesmo tempo extremamente juvenis. E possuem, em todo caso, uma qualidade que só a juventude pode ofertar: uma certa despreocupação face aos riscos da vida quotidiana. Carecer de um pouco de nutrição ou perder algo, um objeto por exemplo, não é vivido como um evento dramático. É o que acho terrível, o fato de a sociedade moderna na qual vivemos no Ocidente se aferrar a esta ideia de que a perda de qualquer coisa é sempre trágica, que o trágico é incontornável, algo inescapável. Seria necessário abordar os riscos da vida quotidiana com mais despreocupação, e despertar uma maior atenção, abrir mais espaço às inquietações relevantes à beleza e à harmonia.

Sem dúvida, um ponto interessante na, digamos, estética de Le Clézio – e ele possui uma – é uma espécie de "elogio da escassez". Este aspecto é de suma importância para uma região que está se transfigurando de forma avassaladora. Sofrendo a mutação de uma sociedade artesanal, pré-industrial para uma sociedade de consumo, como o Nordeste do Brasil. Tem muito a ver com o que falamos, por exemplo, a respeito do shopping center por contraposição ao alpendre, como metáforas. E, aqui, sem saudosismos, nostalgias ou armorialismos. Mas sim com a necessidade de manter a chama viva das boas promessas históricas, que, de resto, meandram toda a sociedade e, portanto, sua arquitetura ou o uso e a forma de seus utensílios. Ou o utensílio e a forma de seus usos – parodiando Cabral.

Antes, muito antes de se falar em reciclagem, ou de os europeus desenharem o símbolo da reciclagem com três flechas em triângulo, já se fazia reciclagem em larga escala no Nordeste. Porque a escassez, a pobreza nos ensinou assim. Basta lembrar a beleza que eram as lamparinas feitas de latas de óleo de cozinha ou reaproveitando frascos de vidros de remédios. O que, de resto, resultava em objetos extremamente plásticos, úteis, funcionais. Hoje em dia quase não há mais nem uma coisa, nem outra, em termos puramente físicos – os recipientes de óleo de cozinha são de plástico, os remédios raramente vêm em grandes frascos de vidro e quase mais ninguém usa lamparinas a querosene.

Porém o desastre maior é que não as haja em termos de mentalidade real. Apesar de, paradoxalmente, tanto se falar em reciclagem desde fora.


Da minha parte, gostaria de, na medida do possível, aproximar a escrita ao modo como se confeccionavam essas antigas lamparinas: incorporando e reaproveitando materiais dentro de uma simetria e de uma forma únicas, ao mesmo tempo que coletivas e extremamente funcionais. Provindas de um pensamento autóctone, a partir de uma lição da escassez. Porque estou convencido de que a autonomia e a originalidade que essas formas indicam nada tem a ver com nostalgia ou saudade. Elas apontam para uma expressão. Para uma linguagem no melhor sentido da palavra. A que agrega a destreza, a mestria  autônomas de um povo, que só a memória pode vivificar, indicando novos caminhos a partir.


* * *

Há, por certo, nesta forma de pensar, uma solaridade e uma solidariedade não encontrável na maioria dos intelectuais europeus contemporâneos. Inclusive – e até mesmo – entre antropólogos ou missionários religiosos. Entre os primeiros há quase que um excesso, uma hiperinflação de conceitos sem lastro real. Nos segundos, com frequência, há muita condescendência em relação aos ritos locais. E essa é a generosidade de Le Clézio, uma abertura para outras culturas não ortodoxamente "ocidentais". Porém uma abertura não complacente, uma vez que ele próprio não se cansa de reiterar que essas sociedades ditas "primitivas" também tem lá sua boa carga de problemas. Aqui, não se trata de mitos de bons selvagens, portanto. Ele defende, por exemplo, que um país como o Brasil lance mão de seus recursos naturais para safar-se à pobreza. E não cansa de ridicularizar a faceta mais obtusa  e mesmo autoritária do ecologismo que grassa à reboque do "politicamente correto". Uma anedota resume isto. O contexto é o de ele estar num colóquio ao lado de um escritor de Mali, que então recebia uma premiação:


"Il y a une grande hypocrisie dans l'écologie très autoritaire telle qu'elle est pratiquée aujourd'hui. Après avoir pillé la planète, les pays occidentaux voudraient empêcher les autres pays d'accéder au développement, d'utiliser leurs matières premières. On ne peut pas interdire à un pays comme le Brésil d'avoir recours à tous les moyens pour sortir de la pauvreté. J'étais au côté de l'écrivain malien Amadou Hampâté Bâ,  un jour qu'il recevait un prix littéraire. Une dame est venue vers ce grand gaillard, très africain d'aspect, et lui a demandé : « Qu'est-ce que vous comptez faire pour sauver les éléphants ?». Il lui a répondu : « Madame, les éléphants sont de sales bêtes qui piétinent nos plantations ». La dame a été très choquée..."

* * *

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Um conto, um porto, um ponto de partida

Aspecto de Camocim, em maio de 2008



O Prefácio do Mar


Em algum lugar, que prefiro não buscar com sistema, na obra de Simone Weil, ela nos diz que “a cada forma de ser da alma humana corresponde algo físico. À tristeza corresponde água salgada nos olhos”.

Posso tomar isso como ponto de partida. Como porto de partida para buscar entender minha relação com o mar. Nascido diante de uma água que é quase mar, mas não chega a ser mar, porém um prefácio de mar – porque o estuário, a foz de um rio – minha relação com o mar nunca foi das mais plácidas. E no entanto, algo de uma centralidade e presença absolutas para minha constituição não só como escritor – o que, convenhamos é algo menor – mas como gente.

É algo menor como escritor, porque como nos diz Nicolas Bouvier: “não é o fato de ser escritor que nos propõe as questões, mas o fato de ser”.

Então, uma das coisas que mais aprecio vem do fato de provir de famílias, tanto pelo lado materno, quanto paterno, que, ao mesmo tempo extraordinariamente litorâneas - onde a água, seja salgada, doce ou salobra verte-se por todos os poros - gostam de contar histórias. E onde o senso do passado é quase espontâneo, ininterrupto como o bater das ondas. O regime das marés. É como respirar ou fritar um ovo. Desconhecendo qualquer antagonismo em relação ao presente. Uma sorte de continuidade. Em que os mortos nunca estão totalmente mortos. Do contrário, assomam bastante suplementares em relação ao agora.

Nos únicos dois anos em que meu pai passou, por dever de ofício, em uma cidade longe do mar, longe das marés, da rebentação, ainda solteiro, foram torturantes para ele. Nunca que ele disse isso abertamente. Mas isso de dizer coisas abertamente não é de seu feitio. É preciso pescar esse mal-estar a partir de brechas em anedotas e pequenos fatos, que narra. E nessas anedotas há uma espécie de tempo cristalizado. Mas cristalizado a partir de referências tão concretas – da paisagem ou da atmosfera das cidades de ao final da década de 50 – que para bom entendedor, meia-palavra.

Desse senso de contração do tempo em pequenas anedotas cristalizadas – relacionáveis entre si, notáveis pela sabedoria ou humor latentes – e dessa contação de micro-histórias, em ondas sucessivas, em diferentes épocas, sobre diferentes aspectos mas envolvendo quase sempre esse prefácio de mar, essa mesma paisagem ou algo relacionado ou relacionável à ela – deriva um mar de histórias em família. O mar de histórias que me forneceu a vontade de recontá-las. Porque sentia a necessidade de, ao refletir sobre elas – por senti-las minhas, no fim das contas –, tentasse delas retirar algumas gotas. Algumas gotas de algo que está completamente fora de compasso: uma espécie de moral. Ao modo das fábulas.

Talvez não se deva, aqui, falar de um mar de histórias. Porém mais propriamente de uma foz de histórias. De um estuário de histórias. A evocação desse passado profundamente enganchado numa circunstância ao mesmto tempo local, mas que sempre impele para além, foi o que me abriu um caminho. Para um devir não só abstrato, mas geográfico, extremamente concreto. Pois que não se refere só ao presente ou ao devir, mas sobretudo aos tempos passados, vivificando-os. Mas também – e isto é pedra angular – a algo alcançável pelo olhar, pelos sentidos. Um prolongamento material dessas histórias.

Daí que eu possa perfeitamente pensar o porto de Camocim, onde nasci, sem mim. Ou seja, quando eu ainda não existia. Não era. Até porque na limpidez de suas praias, nos tempos da infância, havia um resto desse “não era” bastante visível; depositado na forma de areais, seixos, conchas, búzios, vieiras, cracas, ostras, recifes, corais que estavam lá, às camadas, há séculos, como nos sambaquis, muito antes de eu nascer.

E havia também uma diferença entre o prefácio de mar, que era o estuário do rio, e o mar aberto, o mar oceano.

As águas da foz do rio, como limiaridade composta – ao mesmo tempo salgada e doce (salobra para todos os efeitos) – eram ao menos tão importantes para mim quanto o vasto mar aberto. Entre outras coisas por me ligarem a uma paisagem exuberante que se encontrava na outra margem, conformando, assim, do contrário, mais algo que me aproximava ao modo de estrada dessa paisagem – de dunas e mangues, de vastas luas cheias erguendo-se a leste sob a bela espessura dos mangues ao prenúncio da noite – do que algo que me separava disso tudo. E tendo a entendê-la como uma paisagem que ensina a sintaxe do local por contraposição ao Atlântico, que se abre para a África e a Europa – e, logo, para um mundo mais vasto, fora do alcance da minha vista. Perceptível, num primeiro momento, apenas pela mediação da foto, do filme, da enciclopédia, do dicionário e, após eu ter cinco anos, claro, da TV.

O mar aberto era o livro aberto. O outro lado do rio era o caminho concreto, ao alcance da fala. Esse prefácio de mar era um caminho. Um caminho para aquilo que qualquer camocinense designava como O Outro Lado. Como se, aqui, se tratasse do outro lado do mundo. Ou da própria vida.

E, claro, o modo como se chegava até esse outro lado, esse avesso, esse contrário, onde sequer havia cidade, onde tudo era natureza, uma “não-cidade”, dava-se através das águas. E a forma de chegar até ele, sua mediação, não era o livro – como no caso do mar aberto - mas a canoa. A canoa que porta o nome de uma mulher. E, portanto, guarda todo o mistério do mundo. A despeito de gerá-lo. Ou por isso mesmo. Uma vez que as causas últimas das coisas são indevassáveis.


No fim de tudo, pode-se concordar com Gérard de Cortanze quando ele nos avisa que um "escritor se mobiliza para pisar o país do silêncio: o da reconciliação com suas origens e suas leituras da infância". 


Do anyone need to go further?





* * *

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Paralaxe Espectroscópica de Adolfo Caminha – ou Esse cabra era bom (e já punha os imigrantes ao centro da trama)


Um dos raros retratos de Adolfo Caminha (1867-1897)

Há um entremear melhor da trama em A Normalista que no Bom-Crioulo. E por uma questão de proporções e situação, se entendermos por situação a paisagem do entorno. E não só a paisagem física como também a humana. E há, por igual, uma contradição interessante: o fato de João da Mata, que mais adiante irá deflorar a própria afilhada, ser um simpatizante do positivismo, das ideias modernas e francesas. Um entusiasta da ciência, anticlerical e leigo. Então, o romance não é nada unidimensional, como costumam ser algumas obras dessa fase de poesia simbolista ou parnasiana, e meio insuportável. Ou previsíveis romancezinhos predeterministas, positivistas, pseudo-científicos. Ou então, francamente insípidos, feito A Fome, de Rodolfo Teófilo.
A Normalista (1893) surge, então, mais arrematado, e mesmo mais romance que Bom-Crioulo (1895). Este, apesar de ser posterior, deve seus méritos, sobretudo, ao fato de tocar num tema completamente estigmatizado e tabu, à época. E, ainda assim, como estrutura literária oscila entre a concepção da novela e a do romance. Embora seja uma oscilação que vale a pena seguir.
No entanto, há algo de ainda mais moderno em Adolfo Caminha, que tematizar incesto ou homoerotismo. E é uma espécie de natural cuidado ao tratar da questão do imigrante. Ele próprio um migrante, do Ceará para o Rio, e então, de volta ao Ceará - e depois errante um pouco por toda parte na Marinha de Guerra - Caminha não se exime de demonstrar uma sorte de cuidado com seus personagens imigrantes e trânsfugas. Como se boa parte da respiração do mundo não se desse sem o arranco transformador e desestabilizador que só os imigrantes portam.
Há alusões à imigração por toda parte em suas páginas. E um de seus dois romances  - ou esboços em prosa - inacabados leva o sugestivo título de O Emigrado. Então, já há em sua obra uma compreensão intuitiva desse fenômeno da imigração e do desenraizamento como vital para a confecção da época em que vivemos. No Cap. II de Bom-Crioulo, por exemplo, em que Amaro, marujo passado na casca do alho, tenta aliciar o jovem grumete Aleixo, para que more consigo, tão logo retornem ao Rio, há a presença, não muito longe, desse senso de migração e moto perpétuo. Ou mesmo, se quiserem, peregrinação sobre a terra; pois no exato instante da proposição, em alto-mar, imigrantes passam, no convés de um transatlântico inglês, como testemunhas distantes, involuntárias dos acontecimentos. Eles não testemunham propriamente, mas demarcam o tempo. Acercam-se dele com sua presença insuspeitada:

Um mundo de gente movia-se na proa do [transatlântico] inglês, decerto imigrantes italianos que chegavam ao Brasil. Distinguia-se bem o comandante, em uniforme branco, chapéu de cortiça, no passadiço, empunhando o óculo. Lenços acenavam para a corveta que ia ficando atrás, toda em panos, lenta e soberba.
E o paquete desapareceu como uma sombra, e ela continuou na sua derrota, sozinha no meio do mar, desolada e lúgubre. Os marinheiros tinham se espalhado pela tolda e pelas cobertas, entregues à labuta, esperando o rancho das quatro horas.
[Bom-Crioulo, Cap. II]

Praticamente todos os protagonistas de Adolfo Caminha são imigrantes. Maria do Carmo, a normalista, é filha de criadores de gado, da região do Jaguaribe. Estes, tendo perdido tudo na Grande Seca de 1877, buscam inicialmente Fortaleza e, depois, a Amazônia. A exceção, em termos de rumo, é a do irmão mais velho, ido previamente em sentido contrário, por mero acaso de temperamento: recrutado compulsoriamente pelo exército, e a serviço no Sul – mas, de algum modo, próximo à carreira militar que o próprio Caminha acabou empreendendo até ser afastado por uma escandalosa união com uma mulher casada. E casada com um oficial.
O Capítulo II de A Normalista que trata da viagem da família de Maria do Carmo dos currais de Campo Alegre para Fortaleza é, por sinal, dos mais vívidos e conta com uma qualidade de simpatia que destoa nesse autor usualmente mais seco ou misantropo:

Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o litoral na pista de socorros públicos. Totalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem por sua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num êxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera também ir-se com a família para Fortaleza, embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas. Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava a esse tempo quarenta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando o peito rijo, não se trocar por muito rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça, cheio de vícios secretos. Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente, puro e abundante sangue português. Nunca sofrera a mais leve dor de cabeça. Conhecia a sífilis por ouvir falar. Casara muito moço, imberbe ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eulália de Mendonça Furtado, de uma família de Furtados da Telha.

Que Mendonça não conhecesse a sífilis, não se entregasse ao tédio, à masturbação, assim como a menção aos casamentos endógenos - tão comuns em famílias sertanejas dos ranchos e currais do Jaguaribe, do Cariri, dos Inhamuns - revela algumas crenças em comum com os naturalistas em qualquer parte do mundo. Coisa dos pré-condicionantes físicos e sociais ditando os espirituais. E, no entanto, é notável essa exaltação do sangue português associado – mais ou menos como entre os de língua espanhola aos galegos - com a disposição para a faina incessante e pesada. Esta última observação, no entanto, é mais cultural que “científica”. Ou seja, que naturalista. E há muitas delas em Caminha. E exatamente por isso ele escapa de ser o naturalista padrão. O mesmo de quem Machado de Assis ainda vai detectar traços no Eça de Queiroz do Primo Basílio em uma brilhante página de crítica. 
De outro modo, é notável que seja justamente O Primo Basílio o romance que Maria do Carmo lia às escondidas, no banheiro de casa. E comentava com uma colega da Escola Normal, que a havia emprestado. E o contrapunha à literatura xarope reservada para as moçoilas da época numa Fortaleza ainda de um provincianismo exemplar. Como se fosse uma espécie de modelo de leitura a se sugerir.
Adolfo Caminho, ainda mais em A Normalista mas também em Bom-Crioulo, é um escritor que dá o que pensar. E se não houvesse morrido com apenas 29 anos, é possível que a gente ouvisse falar mais dele. E melhor. E é uma pena que só seja lembrado para provas de Literatura no secundário ou exames vestibulares.
*
No presente, Adolfo Caminha é apenas a dor de cabeça de muitos colegiais brasileiros forçados a ler seus dois romances, que sobreviveram - A Normalista e Bom-Crioulo. Ele é mais que isso, no entanto. Compartimentalizado entre os naturalistas, com todas as reduções e prejuízos que isso implica, há em seus livros suficiente vida própria para serem lidos ao largo de se pensar em escolas ou movimentos. E, em especial, pelo que agregam da história social do Brasil de fins do séc. XIX. E de um esboço de Brasil urbano. Um esboço tênue, incipiente, que segue sendo protagonizado sobretudo pela figura de um pária: o imigrante. Como contemporâneo do maior escritor brasileiro, Machado de Assis, não é nada natural – mas certamente naturalista – que se esqueçam dele por ofuscamento. Ou que, ao menos, ele não seja posto no devido lugar, para alguém que antes de contar trinta anos, escreveu romances sobre homossexualidade e incesto quando a resposta da sociedade a tais temas era um pesado silêncio.
*
Há uma etnografia de um Brasil urbano em que o peso do rural ainda era demasiado. Em A Normalista, Maria do Carmo, embora morasse em Fortaleza, era filha de rancheiros das margens do Jaguaribe. Chegou à cidade com seis anos, fugindo da estiagem. Amaro, o Bom-Crioulo, um escravo fugido. E que até achava os primeiros tempos da duríssima vida na Marinha como um mar-de-rosas se comparados à extenuante faina na fazenda, da qual ele se lembra apenas fugazmente, muito em raro, e sem nenhuma saudade.¹ Aleixo vem das aldeias de pescadores, de extração açoriana, fixados em torno da Baía de Florianópolis (então, Desterro). Carolina, a senhoria que alcovitava o caso dos marinheiros num cortiço carioca, e depois tornar-se-ia amante de um deles, era uma imigrante portuguesa que também fora prostituta quando mais jovem. E o próprio quartinho no sobrado usado pelos amantes gays fora previamente ocupado por um jovem português recém-chegado que morrera de febre amarela. Ainda tresandava a ácido fênico. Como a aproximar, ainda uma vez, amor e morte. Zuza, o pretendente de Maria do Carmo, parece a exceção. Era amigo do presidente da província e bacharel. Mas seu pai, no entanto, vinha da truculenta cepa dos coronéis do Nordeste - e, portanto, tinha um pé no interior. E o próprio Zuza estudara Direito no Recife. E ao comparar Fortaleza com o Recife, deixava entrever uma situação que, por si, não prognosticava que essas cidades no futuro teriam mais ou menos o mesmo peso nacional, tal a dessimetria em favor do Recife, de meio para fim do séc. XIX:

Uma vidinha estúpida aquela! pensava o estudante estendendo-se na rede. Morria-se de tédio e calor. Vieram-lhe saudades do Recife. Oh! o Recife, o Prado aos domingos, os passeios, belos piqueniques a Caxangá... Lembrou-se de sua última conquista amorosa — a Rosita, uma espanhola com quem estivera seguramente seis meses. Um peixão! Morava na Madalena. Vira-a uma vez no teatrinho da Nova Hamburgo, sozinha num camarote, muito bem vestida, com um rico leque de plumas, anéis de brilhantes, esplêndida: era argentina. Que de cerveja e ceatas e passeios de carro e pagodeiras nos hotéis! Relembrava a primeira noite que passara com a Rosita, por sinal tinha tomado muita champanha, tinha feito um figurão. A rapariga compreendeu que tratava com gente fina e entregou-se. Uma noite deliciosa! Começou por uma ceia em casa dela na Madalena, um chalezinho de porta e janela com varanda, forrado a papel sangue de boi e jardinzinho na frente. A sala de visitas era um mimo com a sua mobília mignon de assento estufado, piano, quadros do paganismo, bibelô... E a alcova? Um ninho, um perfeito ninho de amores. Zuzinha – era como ela o tratava com toda ternura, cobrindo-o de beijos, suspendendo-o nos braços como se levantasse uma criança, sentando-o no colo — ela de peignoir de fustão com fitinhas azuis, uns olhos matadores, úmidos de sensualidade, e ele à frescata, em mangas de camisa, sem colarinho – um deboche!

É, a vida em Recife parecia mais viva. Mas o próprio modo abrupto com que Zuza propõe a comparação com a acanhada Fortaleza de então aponta um pouco às suas origens:

Às seis horas da tarde já lá estava ele, no Trilho, em casa do amanuense, queixando-se da monotonia da vida cearense e gabando, com ares de fidalgo, a capital de Pernambuco. Ali, sim, a gente pode viver, pode gozar. Muito progresso, muito divertimento: corridas de cavalos, uma sociedade papa-fina muitíssimo bem-educada, magníficos arrabaldes, certo bom gosto nas toaletes, nos costumes, certas comodidades que ainda não havia no Ceará...

Ao que parece o Sr. Zuza não gosta do Ceará... disse-lhe um dia D. Terezinha.

Absolutamente não, minha senhora. Sou meio exigente em matéria de civilização; isto me parece ainda uma terra de bugres...

De bugres?!

...Sim, uma terra em que só se fala nas secas e no preço da carne verde. V. Exª compreende, não pode corresponder à expectativa de um rapaz de certa ordem, por assim dizer educado na Veneza Americana...

Deste modo o Sr. Zuza ofende os seus conterrâneos, os seus parentes...

Absolutamente não.

O que dizia é que o Recife está num plano muito superior a Fortaleza. Apenas estabelecia um paralelo.

É interessante essa ressalva final do autor: um pouco condescendente com a personagem, mas absolutamente realista em relação ao assunto. E, no atacado, o que dizem ser sombrio é, na verdade, apenas mais realista em Adolfo Caminha. Ocorre que, por temperamento, ele não suaviza nada. E de outra modo, ele só fala daquilo que conhece por dentro, com uso e vezo de uma experiência voraz e apaixonada. Caminha, entre outras, apaixonou-se pela esposa de um alferes. Foi correspondido. Passaram a viver juntos. Um escândalo na pequena Fortaleza do final do séc. XIX. Teve de renunciar a seu cargo de oficial da Marinha. E partir em definitivo para o Rio, onde passara parte dos anos de formação e estudos na Escola Naval. Tiveram duas filhas.
Quando escreve sobre homossexualismo na Marinha, em Bom-Crioulo, escreve sobre um fenômeno que sabia da existência por ter andado embarcado, e conhecido meio mundo. E inclusive compilado, em uma obra menos estudada, algumas vívidas impressões dos Estados Unidos (No País dos Ianques, 1894). Não era geografia pequena para um escritor àquela época.
Sua opção em tocar num assunto absolutamente tabu fez cair uma cortina de silêncio sobre Bom-Crioulo, onde, entre outras, há a insinuação de que alguns oficiais graduados da marinha eram homossexuais e mantinham casos com subordinados, a quem retribuíam com favores, quando embarcados. Não é pouca ousadia. Muitos daqueles críticos acadêmicos, bacharéis, um pouco empoeirados pelo vezo da classificação em escolas e a rigidez dos gêneros literários encaram essa opção temática como parte daquele apego à anomalia, ao defectivo, ao monstruoso, peculiar ao espírito naturalista. Outra impressão se tem quando se lê o livro e constata a naturalidade com que o caso entre os dois grumetes é narrado, descontados obviamente alguma observação de asco por força de época. Se essas observações ocorrem, são de todo infrequentes, no entanto. Pode-se mesmo dizer que talvez em nenhuma outra parte do planeta àquela altura falava-se de homossexualidade com a naturalidade - e não o naturalismo - presente em Bom-Crioulo²: 

Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o outro: completavam-se.
Vocês acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina.
Nunca vira dois homens gostarem-se tanto!

Há cenas da intimidade, e mesmo das carícias entre Amaro e Aleixo. Algo ousado mesmo para os padrões de hoje. Mas é custoso a críticos do Sul - ou a esses papagaios de pirata pós-modernos, que por toda parte propagam pós-estruturalismos - reconhecer que tamanha coragem, independência de espírito e ousadia tenham vindo de um escritor da suposta "periferia", do Nordeste, e bastante afetado por ideais positivistas. Quando no futuro se reler a enormidade de bobagens escritas sob os eflúvios de Barthes, Blanchot, Baudrillard, Deleuze, Derrida & Cia. talvez, então, se tenha a dimensão do ridículo que constitui no presente a absorção acrítica, em pororoca, dessas teorias. 
É mais ou menos como tornar ao passado e vislumbrar aquele entusiasmo meio doentio mas contagiante que os escritores e intelectuais nutriam pelo positivismo. E lembrar que Fortaleza, através de um grpo de rapazes formados na Faculdade de Direito do Recife e capitaneados por Rocha Lima - só alguns poucos anos antes de Caminha - foi um dos centros pioneiros na absorção do ideário positivista em língua portuguesa. Aportes teóricos que tanto tem a ver com o naturalismo em literatura. E, no entanto, ao contrário dessa festividade insípida e pouco consistente de hoje, eles realmente sabiam da matéria que tinham em mãos e do solo em que estavam pisando.³ Mais importante que isso: sabiam tecer uma solução de continuidade e chegar a uma síntese entre esse pensamento importado e os cotidianos e realidades locais. Uma tarefa de tradução diante da qual as pós-graduações de hoje deviam voltar-se para esmiuçar e aprender com, com pés no chão e um mínimo senso de humildade intelectual.
Também conta a favor de Caminha haver participado da Padaria Espiritual, sob o pseudônimo de Félix Guanabarino. E como alguém que escolhe para pseudônimo Félix ou luta por um amor comprometido, quase impossível à época, poderia ser esse misantropo caricatural que nossos velhos professores de literatura nos impingiam? Entre outras coisas, Caminha editou praticamente sozinho um jornal em seus anos de Fortaleza. Na verdade, ia dizer: em seus anos de maturidade em Fortaleza. Mas como falar em maturidade para um homem que morreu aos vinte e nove anos?
E, então, é bem mais real colher impressões da atmosfera dos arrabaldes pobres e cortiços em Fortaleza ou no Rio de Janeiro nos capítulos de Caminha que em alguma página de Manuel Antônio de Almeida ou Joaquim Manoel de Macedo, cronistas anteriores, românticos, e de uma Corte mais alegre, bonachona ou dos salões. Mas também, mesmo nas tavernas, becos e vielas de Almeida - onde há tanta graça e povo - há menos escória que em Caminha. Quer dizer, em Caminha os personagens são ainda mais pobres e relegados ao esquecimento e à desesperança: uma filha de retirantes da seca violada pelo padrinho; um filho de humildes pescadores da costa de Santa Catarina que vê na Marinha a possibilidade de fugir da miséria; uma imigrante portuguesa fazendo a vida no Rio de Janeiro; e, por fim, o pária dos párias, Amaro: homossexual, negro, pobre, ex-escravo e militar subordinado numa Marinha onde ainda imperavam pesados castigos físicos. 
Os personagens de Caminha, no entanto, tem uma rica vida interior. E, evidente, também carregada de sordidez. Parecem tramar coisas más quase o tempo inteiro, ao ruminar em torno de seus pequenos desejos egoístas ou limitadíssimos pela estreiteza da vida na faixa social reservada a eles num instante em que à classe-média baixa urbana cabia um papel um bocado mesquinho na vida do país. Ao contrário de hoje. Mas isso, no entanto, não é algo determinista ou isolado. Se dá em contíguo com alegrias, pequenas conquistas e contentamentos, na vida e no amor.
E mesmo em Caminha há humor. Um humor menos ostensivo que o temperamento geral brasileiro. E, por isso mesmo, mais abrasivo e pleno de sugestões. O momento em que a senhoria portuguesa e Aleixo fazem sexo à borda do tanque, no quintal do pequeno sobrado em Bom-Crioulo é hilário: extremamente visual e deslavadamente cômico. Mais que uma notação de roteiro, surge como o próprio filme em edição final e irrevisável. Ou antes disso quando ela - que na juventude tivera a sugestiva alcunha de Carola Bunda - praticamente deflora o jovem grumete com um calor de meio-dia em Teresina:

Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo! A mulher só faltava urrar. E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
[…]
E com fingida ternura, ameigando a voz:
-Fica, meu bonitinho, fica, junto à tua negra...

Mas há também o instante na Normalista em que João da Mata, roído de ciúmes, especula na cama se o Zuza passou ou não um bilhete à Maria do Carmo - a jovem afilhada por quem ele nutria um desejo reprimido  - por baixo da mesa do jogo de víspora. E a mulher, depois de ouvir por largo trecho a arenga, tasca um:

Homem, trate das suas hemorroidas que é melhor...
Ora, sabe que mais? Você é outra!
E deram-se as costas fazendo ranger a cama.
Com pouco ambos roncavam no discreto silêncio da alcova.
Sobre a cômoda, ao pé do oratório, ardia uma lamparina de azeite.

Adolfo Caminha vale tanto pela observação mordaz da esposa quanto pelo ranger da cama ao gesto de repelência do casal para a noite. Ou pelo ronco e o silêncio. Ele é mesmo essa lamparina de azeite acesa sobre a face menos luminosa de nossa cultura urbana. Um caldo de cultura, aliás, assaltado pelo medo. Ou que vive de janelas atrás de grades, ainda longe da propalada pós-história. A vida dura, no improviso dos cortiços, depois propagada pelo tamanho e a miséria das favelas e zonas de anomia, onde uma espécie de seleção não natural decretou que a lei do mais forte é ainda mais forte.


___________________________
¹Aliás, essa imprecisão geográfica da localização, uma falta de nitidez do cotidiano na fazenda da qual fugira Amaro é uma das evidentes debilidades de Bom-Crioulo.  É sobre isso que falamos ao nos referir a "proporções e situação" no início mesmo do texto. Pois ao contrário de Aleixo, do qual se tem esse contexto na descrição da vida de pescadores na costa catarinense; ou do que se pode presumir do Portugal de Dona Carolina; ou ainda da sina de imigrantes de Maria do Carmo e sua família, em A Normalista; o que se sabe do contexto rural de Amaro é um bocado vago, lacunar. E por outra, não é tão árduo perceber que em alguns personagens se processam verdadeiras inversões de mitos ou clichês mais ou menos naturalistas. Ou mesmo senso-comuns. Como o fato de Amaro, apesar de negro e bem constituído fisicamente - era um jovem forte, bem apessoado - não se haver revelado amante dos mais solicitados pelas mulheres, quando o clichê ainda hoje é o de que negros são mais desenvoltos na cama do que brancos - isso também se estendendo a uma suposta volúpia e maior licenciosidade da mulher negra. E, logo, Caminha opera por meio de Amaro uma verdadeira inversão de valores. Ou quebra de clichês. Ora, os africanos é que eram tidos como mais lascivos e próximos de certa fixidez sexual. (Em palavras diretas: como melhores na cama pelas mulheres, como, aliás, registra Gilberto Freyre em certo passo de Sobrados e Mocambos, numa observação sobre o Rio Grande do Sul, que bem pode ser estendida ao senso comum do Brasil inteiro àquela altura e depois. A observação, aliás, é cristalizada numa citação de Saint-Hillaire, o naturalista  - e, entenda-se, porta-voz por excelência do positivismo científico: "as índias dizem que se entregam aos de sua raça por dever;  aos brancos por interesse; e aos negros por prazer" (Cap.  VIII, p. 489). Ora Amaro, negro, mas posto na condição de mau amante de mulheres, não é precisamente algo que fere certo senso-comum da desenvoltura sexual do africano? Isso, ao invés de aproximar o ponto de vista de Caminha dos determinismos naturalistas, ou mesmo de uma dedução um tanto senso-comum,  o afasta deles. Abre a Amaro uma perspectiva que segue para além de qualquer determinismo racial ou atávico, pondo ao plano praticamente da opção a condição homossexual. Ou mesmo facultando ao arbítrio pessoal a escolha dessa orientação. E não é isso justamente o oposto dos determinismos naturalistas? Quer dizer, a visão de Caminha é excepcionalmente moderna. E há miopia em quem não assim a reconhece apenas para tentar encostá-lo aos traços gerais que caracterizam uma "escola literária".
²De outro modo, à baixa auto-estima dos escritores e críticos brasileiros e fortalezenses não ocorre supor que, de dentro da modorra provinciana de Fortaleza, aparentemente estanque, sem nenhum dinamismo mais à tona, surja  um escritor que trata de temas tão deslavadamente modernos, temas que não recebiam tratamento em nenhum outro lugar do país, ou mesmo da ex-metrópole (Portugal) e de quase qualquer outro lugar do mundo. Ou seja, algo não está nos gonzos: como surgir um escritor assim - ou um movimento como a Padaria Espiritual - se não houvesse um mínimo de dinamismo, transitividade intelectual e algum cosmopolitismo ambiente? E quem ainda virá um dia, quem sabe num futuro mais distante, perceber que devia haver algum mérito na composição social da cidade de Fortaleza, a ponto de permitir a efervescência cultural de figuras literárias desse grau de modernidade e impacto?
³Rotulados de Geração de 77 ou referidos por certa Academia Francesa do Ceará, com toda a carga cômica que isso repassa. Contavam entre seus adeptos mais destacados: Capistrano de Abreu, Araripe Júnior, Felino Barroso, Tomás Pompeu, João Lopes e Xilderico Farias, além de Rocha Lima.