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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Beleza só se tem quando se acende a lamparina

[s/i/c]




Derivando duas assertivas de J.M.G. Le Clézio


J’ai toujours pensé que la littérature devait servir non pas à décrire mais à comprendre ce qu’on voyait, à entrer en soi ce qu’on voyait. Un peu comme on entre aujourd’hui des informations dans un ordinateur en les scannant. L’oeil permet de faire entrer cette information, et le dessin était pour moi un des moyens me permettant de comprendre ce que je voyais, c’est-à-dire de séparer ce que je jugeais essentiel de ce qui ne l’était pas. Dans un visage, dans une scène de rue, pour un plan de ville, un plan de rue, un plan de maison, ou bien simplement le déroulement d’une action, afin de la mettre sur le papier, afin de la voir évoluer.

[J. M. G. Le Clézio, entrevista à Le Magazine Littéraire. Para a entrevista na íntegra (em francês) AQUI]

Sempre pensei que a literatura devia servir não para descrever mas para compreender o que vemos, para adentrar propriamente no que vemos. Um pouco como adentramos nas informações em um computador hoje em dia escaneando-as. O olho propicia o adentramento nessa informação, e o desenho é para mim um dos meios que me permite compreender o que vejo; quer dizer, separar o que julgo essencial daquilo que não o é. Em um relance, em uma cena de rua, através do plano de uma cidade, o plano de uma rua, o plano de uma casa, ou mais simplesmente o desdobramento de uma ação, a fim de pô-la sobre o papel, a fim de vê-la evoluir.


Outro extrato interessante de Le Clézio – mas que não se encontra na sobrecitada entrevista – passa por aqui, quando ele nos fala das culturas ditas “primitivas”, com as quais conviveu, sobretudo entre indígenas mexicanos e nativos da Oceania:

Souvent très archaïques, à beaucoup d'égards, ces sociétés sont en même temps extrêmement juvéniles. Et possédant, en tout cas, une qualité que seule la jeunesse peut offrir: une certaine insouciance face aux aléas de la vie quotidienne. Manquer d'un peu de nourriture ou perdre quelque chose, un objet par exemple, n'est pas vécu comme un événement dramatique. Ce que je trouve terrifiant, c'est que la société moderne dans laquelle nous vivons en Occident s'enferre dans cette idée que perdre quelque chose est toujours tragique, que le tragique est incontournable, qu'on ne peut y échapper. Il faudrait aborder les aléas de la vie quotidienne avec plus d'insouciance, et accorder une attention plus grande, faire une place plus large a des préoccupations relevant de la beauté et de l'harmonie.
[in J.M.G. Le Clézio, biografia escrita por Gérard de Cortanze, p.79]

Frequentemente bastante arcaicas, em muitos aspectos, essas sociedades são ao mesmo tempo extremamente juvenis. E possuem, em todo caso, uma qualidade que só a juventude pode ofertar: uma certa despreocupação face aos riscos da vida quotidiana. Carecer de um pouco de nutrição ou perder algo, um objeto por exemplo, não é vivido como um evento dramático. É o que acho terrível, o fato de a sociedade moderna na qual vivemos no Ocidente se aferrar a esta ideia de que a perda de qualquer coisa é sempre trágica, que o trágico é incontornável, algo inescapável. Seria necessário abordar os riscos da vida quotidiana com mais despreocupação, e despertar uma maior atenção, abrir mais espaço às inquietações relevantes à beleza e à harmonia.

Sem dúvida, um ponto interessante na, digamos, estética de Le Clézio – e ele possui uma – é uma espécie de "elogio da escassez". Este aspecto é de suma importância para uma região que está se transfigurando de forma avassaladora. Sofrendo a mutação de uma sociedade artesanal, pré-industrial para uma sociedade de consumo, como o Nordeste do Brasil. Tem muito a ver com o que falamos, por exemplo, a respeito do shopping center por contraposição ao alpendre, como metáforas. E, aqui, sem saudosismos, nostalgias ou armorialismos. Mas sim com a necessidade de manter a chama viva das boas promessas históricas, que, de resto, meandram toda a sociedade e, portanto, sua arquitetura ou o uso e a forma de seus utensílios. Ou o utensílio e a forma de seus usos – parodiando Cabral.

Antes, muito antes de se falar em reciclagem, ou de os europeus desenharem o símbolo da reciclagem com três flechas em triângulo, já se fazia reciclagem em larga escala no Nordeste. Porque a escassez, a pobreza nos ensinou assim. Basta lembrar a beleza que eram as lamparinas feitas de latas de óleo de cozinha ou reaproveitando frascos de vidros de remédios. O que, de resto, resultava em objetos extremamente plásticos, úteis, funcionais. Hoje em dia quase não há mais nem uma coisa, nem outra, em termos puramente físicos – os recipientes de óleo de cozinha são de plástico, os remédios raramente vêm em grandes frascos de vidro e quase mais ninguém usa lamparinas a querosene.

Porém o desastre maior é que não as haja em termos de mentalidade real. Apesar de, paradoxalmente, tanto se falar em reciclagem desde fora.


Da minha parte, gostaria de, na medida do possível, aproximar a escrita ao modo como se confeccionavam essas antigas lamparinas: incorporando e reaproveitando materiais dentro de uma simetria e de uma forma únicas, ao mesmo tempo que coletivas e extremamente funcionais. Provindas de um pensamento autóctone, a partir de uma lição da escassez. Porque estou convencido de que a autonomia e a originalidade que essas formas indicam nada tem a ver com nostalgia ou saudade. Elas apontam para uma expressão. Para uma linguagem no melhor sentido da palavra. A que agrega a destreza, a mestria  autônomas de um povo, que só a memória pode vivificar, indicando novos caminhos a partir.


* * *

Há, por certo, nesta forma de pensar, uma solaridade e uma solidariedade não encontrável na maioria dos intelectuais europeus contemporâneos. Inclusive – e até mesmo – entre antropólogos ou missionários religiosos. Entre os primeiros há quase que um excesso, uma hiperinflação de conceitos sem lastro real. Nos segundos, com frequência, há muita condescendência em relação aos ritos locais. E essa é a generosidade de Le Clézio, uma abertura para outras culturas não ortodoxamente "ocidentais". Porém uma abertura não complacente, uma vez que ele próprio não se cansa de reiterar que essas sociedades ditas "primitivas" também tem lá sua boa carga de problemas. Aqui, não se trata de mitos de bons selvagens, portanto. Ele defende, por exemplo, que um país como o Brasil lance mão de seus recursos naturais para safar-se à pobreza. E não cansa de ridicularizar a faceta mais obtusa  e mesmo autoritária do ecologismo que grassa à reboque do "politicamente correto". Uma anedota resume isto. O contexto é o de ele estar num colóquio ao lado de um escritor de Mali, que então recebia uma premiação:


"Il y a une grande hypocrisie dans l'écologie très autoritaire telle qu'elle est pratiquée aujourd'hui. Après avoir pillé la planète, les pays occidentaux voudraient empêcher les autres pays d'accéder au développement, d'utiliser leurs matières premières. On ne peut pas interdire à un pays comme le Brésil d'avoir recours à tous les moyens pour sortir de la pauvreté. J'étais au côté de l'écrivain malien Amadou Hampâté Bâ,  un jour qu'il recevait un prix littéraire. Une dame est venue vers ce grand gaillard, très africain d'aspect, et lui a demandé : « Qu'est-ce que vous comptez faire pour sauver les éléphants ?». Il lui a répondu : « Madame, les éléphants sont de sales bêtes qui piétinent nos plantations ». La dame a été très choquée..."

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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Um conto, um porto, um ponto de partida

Aspecto de Camocim, em maio de 2008



O Prefácio do Mar


Em algum lugar, que prefiro não buscar com sistema, na obra de Simone Weil, ela nos diz que “a cada forma de ser da alma humana corresponde algo físico. À tristeza corresponde água salgada nos olhos”.

Posso tomar isso como ponto de partida. Como porto de partida para buscar entender minha relação com o mar. Nascido diante de uma água que é quase mar, mas não chega a ser mar, porém um prefácio de mar – porque o estuário, a foz de um rio – minha relação com o mar nunca foi das mais plácidas. E no entanto, algo de uma centralidade e presença absolutas para minha constituição não só como escritor – o que, convenhamos é algo menor – mas como gente.

É algo menor como escritor, porque como nos diz Nicolas Bouvier: “não é o fato de ser escritor que nos propõe as questões, mas o fato de ser”.

Então, uma das coisas que mais aprecio vem do fato de provir de famílias, tanto pelo lado materno, quanto paterno, que, ao mesmo tempo extraordinariamente litorâneas - onde a água, seja salgada, doce ou salobra verte-se por todos os poros - gostam de contar histórias. E onde o senso do passado é quase espontâneo, ininterrupto como o bater das ondas. O regime das marés. É como respirar ou fritar um ovo. Desconhecendo qualquer antagonismo em relação ao presente. Uma sorte de continuidade. Em que os mortos nunca estão totalmente mortos. Do contrário, assomam bastante suplementares em relação ao agora.

Nos únicos dois anos em que meu pai passou, por dever de ofício, em uma cidade longe do mar, longe das marés, da rebentação, ainda solteiro, foram torturantes para ele. Nunca que ele disse isso abertamente. Mas isso de dizer coisas abertamente não é de seu feitio. É preciso pescar esse mal-estar a partir de brechas em anedotas e pequenos fatos, que narra. E nessas anedotas há uma espécie de tempo cristalizado. Mas cristalizado a partir de referências tão concretas – da paisagem ou da atmosfera das cidades de ao final da década de 50 – que para bom entendedor, meia-palavra.

Desse senso de contração do tempo em pequenas anedotas cristalizadas – relacionáveis entre si, notáveis pela sabedoria ou humor latentes – e dessa contação de micro-histórias, em ondas sucessivas, em diferentes épocas, sobre diferentes aspectos mas envolvendo quase sempre esse prefácio de mar, essa mesma paisagem ou algo relacionado ou relacionável à ela – deriva um mar de histórias em família. O mar de histórias que me forneceu a vontade de recontá-las. Porque sentia a necessidade de, ao refletir sobre elas – por senti-las minhas, no fim das contas –, tentasse delas retirar algumas gotas. Algumas gotas de algo que está completamente fora de compasso: uma espécie de moral. Ao modo das fábulas.

Talvez não se deva, aqui, falar de um mar de histórias. Porém mais propriamente de uma foz de histórias. De um estuário de histórias. A evocação desse passado profundamente enganchado numa circunstância ao mesmto tempo local, mas que sempre impele para além, foi o que me abriu um caminho. Para um devir não só abstrato, mas geográfico, extremamente concreto. Pois que não se refere só ao presente ou ao devir, mas sobretudo aos tempos passados, vivificando-os. Mas também – e isto é pedra angular – a algo alcançável pelo olhar, pelos sentidos. Um prolongamento material dessas histórias.

Daí que eu possa perfeitamente pensar o porto de Camocim, onde nasci, sem mim. Ou seja, quando eu ainda não existia. Não era. Até porque na limpidez de suas praias, nos tempos da infância, havia um resto desse “não era” bastante visível; depositado na forma de areais, seixos, conchas, búzios, vieiras, cracas, ostras, recifes, corais que estavam lá, às camadas, há séculos, como nos sambaquis, muito antes de eu nascer.

E havia também uma diferença entre o prefácio de mar, que era o estuário do rio, e o mar aberto, o mar oceano.

As águas da foz do rio, como limiaridade composta – ao mesmo tempo salgada e doce (salobra para todos os efeitos) – eram ao menos tão importantes para mim quanto o vasto mar aberto. Entre outras coisas por me ligarem a uma paisagem exuberante que se encontrava na outra margem, conformando, assim, do contrário, mais algo que me aproximava ao modo de estrada dessa paisagem – de dunas e mangues, de vastas luas cheias erguendo-se a leste sob a bela espessura dos mangues ao prenúncio da noite – do que algo que me separava disso tudo. E tendo a entendê-la como uma paisagem que ensina a sintaxe do local por contraposição ao Atlântico, que se abre para a África e a Europa – e, logo, para um mundo mais vasto, fora do alcance da minha vista. Perceptível, num primeiro momento, apenas pela mediação da foto, do filme, da enciclopédia, do dicionário e, após eu ter cinco anos, claro, da TV.

O mar aberto era o livro aberto. O outro lado do rio era o caminho concreto, ao alcance da fala. Esse prefácio de mar era um caminho. Um caminho para aquilo que qualquer camocinense designava como O Outro Lado. Como se, aqui, se tratasse do outro lado do mundo. Ou da própria vida.

E, claro, o modo como se chegava até esse outro lado, esse avesso, esse contrário, onde sequer havia cidade, onde tudo era natureza, uma “não-cidade”, dava-se através das águas. E a forma de chegar até ele, sua mediação, não era o livro – como no caso do mar aberto - mas a canoa. A canoa que porta o nome de uma mulher. E, portanto, guarda todo o mistério do mundo. A despeito de gerá-lo. Ou por isso mesmo. Uma vez que as causas últimas das coisas são indevassáveis.


No fim de tudo, pode-se concordar com Gérard de Cortanze quando ele nos avisa que um "escritor se mobiliza para pisar o país do silêncio: o da reconciliação com suas origens e suas leituras da infância". 


Do anyone need to go further?





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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Paralaxe Espectroscópica de Adolfo Caminha – ou Esse cabra era bom (e já punha os imigrantes ao centro da trama)


Um dos raros retratos de Adolfo Caminha (1867-1897)

Há um entremear melhor da trama em A Normalista que no Bom-Crioulo. E por uma questão de proporções e situação, se entendermos por situação a paisagem do entorno. E não só a paisagem física como também a humana. E há, por igual, uma contradição interessante: o fato de João da Mata, que mais adiante irá deflorar a própria afilhada, ser um simpatizante do positivismo, das ideias modernas e francesas. Um entusiasta da ciência, anticlerical e leigo. Então, o romance não é nada unidimensional, como costumam ser algumas obras dessa fase de poesia simbolista ou parnasiana, e meio insuportável. Ou previsíveis romancezinhos predeterministas, positivistas, pseudo-científicos. Ou então, francamente insípidos, feito A Fome, de Rodolfo Teófilo.
A Normalista (1893) surge, então, mais arrematado, e mesmo mais romance que Bom-Crioulo (1895). Este, apesar de ser posterior, deve seus méritos, sobretudo, ao fato de tocar num tema completamente estigmatizado e tabu, à época. E, ainda assim, como estrutura literária oscila entre a concepção da novela e a do romance. Embora seja uma oscilação que vale a pena seguir.
No entanto, há algo de ainda mais moderno em Adolfo Caminha, que tematizar incesto ou homoerotismo. E é uma espécie de natural cuidado ao tratar da questão do imigrante. Ele próprio um migrante, do Ceará para o Rio, e então, de volta ao Ceará - e depois errante um pouco por toda parte na Marinha de Guerra - Caminha não se exime de demonstrar uma sorte de cuidado com seus personagens imigrantes e trânsfugas. Como se boa parte da respiração do mundo não se desse sem o arranco transformador e desestabilizador que só os imigrantes portam.
Há alusões à imigração por toda parte em suas páginas. E um de seus dois romances  - ou esboços em prosa - inacabados leva o sugestivo título de O Emigrado. Então, já há em sua obra uma compreensão intuitiva desse fenômeno da imigração e do desenraizamento como vital para a confecção da época em que vivemos. No Cap. II de Bom-Crioulo, por exemplo, em que Amaro, marujo passado na casca do alho, tenta aliciar o jovem grumete Aleixo, para que more consigo, tão logo retornem ao Rio, há a presença, não muito longe, desse senso de migração e moto perpétuo. Ou mesmo, se quiserem, peregrinação sobre a terra; pois no exato instante da proposição, em alto-mar, imigrantes passam, no convés de um transatlântico inglês, como testemunhas distantes, involuntárias dos acontecimentos. Eles não testemunham propriamente, mas demarcam o tempo. Acercam-se dele com sua presença insuspeitada:

Um mundo de gente movia-se na proa do [transatlântico] inglês, decerto imigrantes italianos que chegavam ao Brasil. Distinguia-se bem o comandante, em uniforme branco, chapéu de cortiça, no passadiço, empunhando o óculo. Lenços acenavam para a corveta que ia ficando atrás, toda em panos, lenta e soberba.
E o paquete desapareceu como uma sombra, e ela continuou na sua derrota, sozinha no meio do mar, desolada e lúgubre. Os marinheiros tinham se espalhado pela tolda e pelas cobertas, entregues à labuta, esperando o rancho das quatro horas.
[Bom-Crioulo, Cap. II]

Praticamente todos os protagonistas de Adolfo Caminha são imigrantes. Maria do Carmo, a normalista, é filha de criadores de gado, da região do Jaguaribe. Estes, tendo perdido tudo na Grande Seca de 1877, buscam inicialmente Fortaleza e, depois, a Amazônia. A exceção, em termos de rumo, é a do irmão mais velho, ido previamente em sentido contrário, por mero acaso de temperamento: recrutado compulsoriamente pelo exército, e a serviço no Sul – mas, de algum modo, próximo à carreira militar que o próprio Caminha acabou empreendendo até ser afastado por uma escandalosa união com uma mulher casada. E casada com um oficial.
O Capítulo II de A Normalista que trata da viagem da família de Maria do Carmo dos currais de Campo Alegre para Fortaleza é, por sinal, dos mais vívidos e conta com uma qualidade de simpatia que destoa nesse autor usualmente mais seco ou misantropo:

Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o litoral na pista de socorros públicos. Totalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem por sua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num êxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera também ir-se com a família para Fortaleza, embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas. Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava a esse tempo quarenta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando o peito rijo, não se trocar por muito rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça, cheio de vícios secretos. Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente, puro e abundante sangue português. Nunca sofrera a mais leve dor de cabeça. Conhecia a sífilis por ouvir falar. Casara muito moço, imberbe ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eulália de Mendonça Furtado, de uma família de Furtados da Telha.

Que Mendonça não conhecesse a sífilis, não se entregasse ao tédio, à masturbação, assim como a menção aos casamentos endógenos - tão comuns em famílias sertanejas dos ranchos e currais do Jaguaribe, do Cariri, dos Inhamuns - revela algumas crenças em comum com os naturalistas em qualquer parte do mundo. Coisa dos pré-condicionantes físicos e sociais ditando os espirituais. E, no entanto, é notável essa exaltação do sangue português associado – mais ou menos como entre os de língua espanhola aos galegos - com a disposição para a faina incessante e pesada. Esta última observação, no entanto, é mais cultural que “científica”. Ou seja, que naturalista. E há muitas delas em Caminha. E exatamente por isso ele escapa de ser o naturalista padrão. O mesmo de quem Machado de Assis ainda vai detectar traços no Eça de Queiroz do Primo Basílio em uma brilhante página de crítica. 
De outro modo, é notável que seja justamente O Primo Basílio o romance que Maria do Carmo lia às escondidas, no banheiro de casa. E comentava com uma colega da Escola Normal, que a havia emprestado. E o contrapunha à literatura xarope reservada para as moçoilas da época numa Fortaleza ainda de um provincianismo exemplar. Como se fosse uma espécie de modelo de leitura a se sugerir.
Adolfo Caminho, ainda mais em A Normalista mas também em Bom-Crioulo, é um escritor que dá o que pensar. E se não houvesse morrido com apenas 29 anos, é possível que a gente ouvisse falar mais dele. E melhor. E é uma pena que só seja lembrado para provas de Literatura no secundário ou exames vestibulares.
*
No presente, Adolfo Caminha é apenas a dor de cabeça de muitos colegiais brasileiros forçados a ler seus dois romances, que sobreviveram - A Normalista e Bom-Crioulo. Ele é mais que isso, no entanto. Compartimentalizado entre os naturalistas, com todas as reduções e prejuízos que isso implica, há em seus livros suficiente vida própria para serem lidos ao largo de se pensar em escolas ou movimentos. E, em especial, pelo que agregam da história social do Brasil de fins do séc. XIX. E de um esboço de Brasil urbano. Um esboço tênue, incipiente, que segue sendo protagonizado sobretudo pela figura de um pária: o imigrante. Como contemporâneo do maior escritor brasileiro, Machado de Assis, não é nada natural – mas certamente naturalista – que se esqueçam dele por ofuscamento. Ou que, ao menos, ele não seja posto no devido lugar, para alguém que antes de contar trinta anos, escreveu romances sobre homossexualidade e incesto quando a resposta da sociedade a tais temas era um pesado silêncio.
*
Há uma etnografia de um Brasil urbano em que o peso do rural ainda era demasiado. Em A Normalista, Maria do Carmo, embora morasse em Fortaleza, era filha de rancheiros das margens do Jaguaribe. Chegou à cidade com seis anos, fugindo da estiagem. Amaro, o Bom-Crioulo, um escravo fugido. E que até achava os primeiros tempos da duríssima vida na Marinha como um mar-de-rosas se comparados à extenuante faina na fazenda, da qual ele se lembra apenas fugazmente, muito em raro, e sem nenhuma saudade.¹ Aleixo vem das aldeias de pescadores, de extração açoriana, fixados em torno da Baía de Florianópolis (então, Desterro). Carolina, a senhoria que alcovitava o caso dos marinheiros num cortiço carioca, e depois tornar-se-ia amante de um deles, era uma imigrante portuguesa que também fora prostituta quando mais jovem. E o próprio quartinho no sobrado usado pelos amantes gays fora previamente ocupado por um jovem português recém-chegado que morrera de febre amarela. Ainda tresandava a ácido fênico. Como a aproximar, ainda uma vez, amor e morte. Zuza, o pretendente de Maria do Carmo, parece a exceção. Era amigo do presidente da província e bacharel. Mas seu pai, no entanto, vinha da truculenta cepa dos coronéis do Nordeste - e, portanto, tinha um pé no interior. E o próprio Zuza estudara Direito no Recife. E ao comparar Fortaleza com o Recife, deixava entrever uma situação que, por si, não prognosticava que essas cidades no futuro teriam mais ou menos o mesmo peso nacional, tal a dessimetria em favor do Recife, de meio para fim do séc. XIX:

Uma vidinha estúpida aquela! pensava o estudante estendendo-se na rede. Morria-se de tédio e calor. Vieram-lhe saudades do Recife. Oh! o Recife, o Prado aos domingos, os passeios, belos piqueniques a Caxangá... Lembrou-se de sua última conquista amorosa — a Rosita, uma espanhola com quem estivera seguramente seis meses. Um peixão! Morava na Madalena. Vira-a uma vez no teatrinho da Nova Hamburgo, sozinha num camarote, muito bem vestida, com um rico leque de plumas, anéis de brilhantes, esplêndida: era argentina. Que de cerveja e ceatas e passeios de carro e pagodeiras nos hotéis! Relembrava a primeira noite que passara com a Rosita, por sinal tinha tomado muita champanha, tinha feito um figurão. A rapariga compreendeu que tratava com gente fina e entregou-se. Uma noite deliciosa! Começou por uma ceia em casa dela na Madalena, um chalezinho de porta e janela com varanda, forrado a papel sangue de boi e jardinzinho na frente. A sala de visitas era um mimo com a sua mobília mignon de assento estufado, piano, quadros do paganismo, bibelô... E a alcova? Um ninho, um perfeito ninho de amores. Zuzinha – era como ela o tratava com toda ternura, cobrindo-o de beijos, suspendendo-o nos braços como se levantasse uma criança, sentando-o no colo — ela de peignoir de fustão com fitinhas azuis, uns olhos matadores, úmidos de sensualidade, e ele à frescata, em mangas de camisa, sem colarinho – um deboche!

É, a vida em Recife parecia mais viva. Mas o próprio modo abrupto com que Zuza propõe a comparação com a acanhada Fortaleza de então aponta um pouco às suas origens:

Às seis horas da tarde já lá estava ele, no Trilho, em casa do amanuense, queixando-se da monotonia da vida cearense e gabando, com ares de fidalgo, a capital de Pernambuco. Ali, sim, a gente pode viver, pode gozar. Muito progresso, muito divertimento: corridas de cavalos, uma sociedade papa-fina muitíssimo bem-educada, magníficos arrabaldes, certo bom gosto nas toaletes, nos costumes, certas comodidades que ainda não havia no Ceará...

Ao que parece o Sr. Zuza não gosta do Ceará... disse-lhe um dia D. Terezinha.

Absolutamente não, minha senhora. Sou meio exigente em matéria de civilização; isto me parece ainda uma terra de bugres...

De bugres?!

...Sim, uma terra em que só se fala nas secas e no preço da carne verde. V. Exª compreende, não pode corresponder à expectativa de um rapaz de certa ordem, por assim dizer educado na Veneza Americana...

Deste modo o Sr. Zuza ofende os seus conterrâneos, os seus parentes...

Absolutamente não.

O que dizia é que o Recife está num plano muito superior a Fortaleza. Apenas estabelecia um paralelo.

É interessante essa ressalva final do autor: um pouco condescendente com a personagem, mas absolutamente realista em relação ao assunto. E, no atacado, o que dizem ser sombrio é, na verdade, apenas mais realista em Adolfo Caminha. Ocorre que, por temperamento, ele não suaviza nada. E de outra modo, ele só fala daquilo que conhece por dentro, com uso e vezo de uma experiência voraz e apaixonada. Caminha, entre outras, apaixonou-se pela esposa de um alferes. Foi correspondido. Passaram a viver juntos. Um escândalo na pequena Fortaleza do final do séc. XIX. Teve de renunciar a seu cargo de oficial da Marinha. E partir em definitivo para o Rio, onde passara parte dos anos de formação e estudos na Escola Naval. Tiveram duas filhas.
Quando escreve sobre homossexualismo na Marinha, em Bom-Crioulo, escreve sobre um fenômeno que sabia da existência por ter andado embarcado, e conhecido meio mundo. E inclusive compilado, em uma obra menos estudada, algumas vívidas impressões dos Estados Unidos (No País dos Ianques, 1894). Não era geografia pequena para um escritor àquela época.
Sua opção em tocar num assunto absolutamente tabu fez cair uma cortina de silêncio sobre Bom-Crioulo, onde, entre outras, há a insinuação de que alguns oficiais graduados da marinha eram homossexuais e mantinham casos com subordinados, a quem retribuíam com favores, quando embarcados. Não é pouca ousadia. Muitos daqueles críticos acadêmicos, bacharéis, um pouco empoeirados pelo vezo da classificação em escolas e a rigidez dos gêneros literários encaram essa opção temática como parte daquele apego à anomalia, ao defectivo, ao monstruoso, peculiar ao espírito naturalista. Outra impressão se tem quando se lê o livro e constata a naturalidade com que o caso entre os dois grumetes é narrado, descontados obviamente alguma observação de asco por força de época. Se essas observações ocorrem, são de todo infrequentes, no entanto. Pode-se mesmo dizer que talvez em nenhuma outra parte do planeta àquela altura falava-se de homossexualidade com a naturalidade - e não o naturalismo - presente em Bom-Crioulo²: 

Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o outro: completavam-se.
Vocês acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina.
Nunca vira dois homens gostarem-se tanto!

Há cenas da intimidade, e mesmo das carícias entre Amaro e Aleixo. Algo ousado mesmo para os padrões de hoje. Mas é custoso a críticos do Sul - ou a esses papagaios de pirata pós-modernos, que por toda parte propagam pós-estruturalismos - reconhecer que tamanha coragem, independência de espírito e ousadia tenham vindo de um escritor da suposta "periferia", do Nordeste, e bastante afetado por ideais positivistas. Quando no futuro se reler a enormidade de bobagens escritas sob os eflúvios de Barthes, Blanchot, Baudrillard, Deleuze, Derrida & Cia. talvez, então, se tenha a dimensão do ridículo que constitui no presente a absorção acrítica, em pororoca, dessas teorias. 
É mais ou menos como tornar ao passado e vislumbrar aquele entusiasmo meio doentio mas contagiante que os escritores e intelectuais nutriam pelo positivismo. E lembrar que Fortaleza, através de um grpo de rapazes formados na Faculdade de Direito do Recife e capitaneados por Rocha Lima - só alguns poucos anos antes de Caminha - foi um dos centros pioneiros na absorção do ideário positivista em língua portuguesa. Aportes teóricos que tanto tem a ver com o naturalismo em literatura. E, no entanto, ao contrário dessa festividade insípida e pouco consistente de hoje, eles realmente sabiam da matéria que tinham em mãos e do solo em que estavam pisando.³ Mais importante que isso: sabiam tecer uma solução de continuidade e chegar a uma síntese entre esse pensamento importado e os cotidianos e realidades locais. Uma tarefa de tradução diante da qual as pós-graduações de hoje deviam voltar-se para esmiuçar e aprender com, com pés no chão e um mínimo senso de humildade intelectual.
Também conta a favor de Caminha haver participado da Padaria Espiritual, sob o pseudônimo de Félix Guanabarino. E como alguém que escolhe para pseudônimo Félix ou luta por um amor comprometido, quase impossível à época, poderia ser esse misantropo caricatural que nossos velhos professores de literatura nos impingiam? Entre outras coisas, Caminha editou praticamente sozinho um jornal em seus anos de Fortaleza. Na verdade, ia dizer: em seus anos de maturidade em Fortaleza. Mas como falar em maturidade para um homem que morreu aos vinte e nove anos?
E, então, é bem mais real colher impressões da atmosfera dos arrabaldes pobres e cortiços em Fortaleza ou no Rio de Janeiro nos capítulos de Caminha que em alguma página de Manuel Antônio de Almeida ou Joaquim Manoel de Macedo, cronistas anteriores, românticos, e de uma Corte mais alegre, bonachona ou dos salões. Mas também, mesmo nas tavernas, becos e vielas de Almeida - onde há tanta graça e povo - há menos escória que em Caminha. Quer dizer, em Caminha os personagens são ainda mais pobres e relegados ao esquecimento e à desesperança: uma filha de retirantes da seca violada pelo padrinho; um filho de humildes pescadores da costa de Santa Catarina que vê na Marinha a possibilidade de fugir da miséria; uma imigrante portuguesa fazendo a vida no Rio de Janeiro; e, por fim, o pária dos párias, Amaro: homossexual, negro, pobre, ex-escravo e militar subordinado numa Marinha onde ainda imperavam pesados castigos físicos. 
Os personagens de Caminha, no entanto, tem uma rica vida interior. E, evidente, também carregada de sordidez. Parecem tramar coisas más quase o tempo inteiro, ao ruminar em torno de seus pequenos desejos egoístas ou limitadíssimos pela estreiteza da vida na faixa social reservada a eles num instante em que à classe-média baixa urbana cabia um papel um bocado mesquinho na vida do país. Ao contrário de hoje. Mas isso, no entanto, não é algo determinista ou isolado. Se dá em contíguo com alegrias, pequenas conquistas e contentamentos, na vida e no amor.
E mesmo em Caminha há humor. Um humor menos ostensivo que o temperamento geral brasileiro. E, por isso mesmo, mais abrasivo e pleno de sugestões. O momento em que a senhoria portuguesa e Aleixo fazem sexo à borda do tanque, no quintal do pequeno sobrado em Bom-Crioulo é hilário: extremamente visual e deslavadamente cômico. Mais que uma notação de roteiro, surge como o próprio filme em edição final e irrevisável. Ou antes disso quando ela - que na juventude tivera a sugestiva alcunha de Carola Bunda - praticamente deflora o jovem grumete com um calor de meio-dia em Teresina:

Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo! A mulher só faltava urrar. E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
[…]
E com fingida ternura, ameigando a voz:
-Fica, meu bonitinho, fica, junto à tua negra...

Mas há também o instante na Normalista em que João da Mata, roído de ciúmes, especula na cama se o Zuza passou ou não um bilhete à Maria do Carmo - a jovem afilhada por quem ele nutria um desejo reprimido  - por baixo da mesa do jogo de víspora. E a mulher, depois de ouvir por largo trecho a arenga, tasca um:

Homem, trate das suas hemorroidas que é melhor...
Ora, sabe que mais? Você é outra!
E deram-se as costas fazendo ranger a cama.
Com pouco ambos roncavam no discreto silêncio da alcova.
Sobre a cômoda, ao pé do oratório, ardia uma lamparina de azeite.

Adolfo Caminha vale tanto pela observação mordaz da esposa quanto pelo ranger da cama ao gesto de repelência do casal para a noite. Ou pelo ronco e o silêncio. Ele é mesmo essa lamparina de azeite acesa sobre a face menos luminosa de nossa cultura urbana. Um caldo de cultura, aliás, assaltado pelo medo. Ou que vive de janelas atrás de grades, ainda longe da propalada pós-história. A vida dura, no improviso dos cortiços, depois propagada pelo tamanho e a miséria das favelas e zonas de anomia, onde uma espécie de seleção não natural decretou que a lei do mais forte é ainda mais forte.


___________________________
¹Aliás, essa imprecisão geográfica da localização, uma falta de nitidez do cotidiano na fazenda da qual fugira Amaro é uma das evidentes debilidades de Bom-Crioulo.  É sobre isso que falamos ao nos referir a "proporções e situação" no início mesmo do texto. Pois ao contrário de Aleixo, do qual se tem esse contexto na descrição da vida de pescadores na costa catarinense; ou do que se pode presumir do Portugal de Dona Carolina; ou ainda da sina de imigrantes de Maria do Carmo e sua família, em A Normalista; o que se sabe do contexto rural de Amaro é um bocado vago, lacunar. E por outra, não é tão árduo perceber que em alguns personagens se processam verdadeiras inversões de mitos ou clichês mais ou menos naturalistas. Ou mesmo senso-comuns. Como o fato de Amaro, apesar de negro e bem constituído fisicamente - era um jovem forte, bem apessoado - não se haver revelado amante dos mais solicitados pelas mulheres, quando o clichê ainda hoje é o de que negros são mais desenvoltos na cama do que brancos - isso também se estendendo a uma suposta volúpia e maior licenciosidade da mulher negra. E, logo, Caminha opera por meio de Amaro uma verdadeira inversão de valores. Ou quebra de clichês. Ora, os africanos é que eram tidos como mais lascivos e próximos de certa fixidez sexual. (Em palavras diretas: como melhores na cama pelas mulheres, como, aliás, registra Gilberto Freyre em certo passo de Sobrados e Mocambos, numa observação sobre o Rio Grande do Sul, que bem pode ser estendida ao senso comum do Brasil inteiro àquela altura e depois. A observação, aliás, é cristalizada numa citação de Saint-Hillaire, o naturalista  - e, entenda-se, porta-voz por excelência do positivismo científico: "as índias dizem que se entregam aos de sua raça por dever;  aos brancos por interesse; e aos negros por prazer" (Cap.  VIII, p. 489). Ora Amaro, negro, mas posto na condição de mau amante de mulheres, não é precisamente algo que fere certo senso-comum da desenvoltura sexual do africano? Isso, ao invés de aproximar o ponto de vista de Caminha dos determinismos naturalistas, ou mesmo de uma dedução um tanto senso-comum,  o afasta deles. Abre a Amaro uma perspectiva que segue para além de qualquer determinismo racial ou atávico, pondo ao plano praticamente da opção a condição homossexual. Ou mesmo facultando ao arbítrio pessoal a escolha dessa orientação. E não é isso justamente o oposto dos determinismos naturalistas? Quer dizer, a visão de Caminha é excepcionalmente moderna. E há miopia em quem não assim a reconhece apenas para tentar encostá-lo aos traços gerais que caracterizam uma "escola literária".
²De outro modo, à baixa auto-estima dos escritores e críticos brasileiros e fortalezenses não ocorre supor que, de dentro da modorra provinciana de Fortaleza, aparentemente estanque, sem nenhum dinamismo mais à tona, surja  um escritor que trata de temas tão deslavadamente modernos, temas que não recebiam tratamento em nenhum outro lugar do país, ou mesmo da ex-metrópole (Portugal) e de quase qualquer outro lugar do mundo. Ou seja, algo não está nos gonzos: como surgir um escritor assim - ou um movimento como a Padaria Espiritual - se não houvesse um mínimo de dinamismo, transitividade intelectual e algum cosmopolitismo ambiente? E quem ainda virá um dia, quem sabe num futuro mais distante, perceber que devia haver algum mérito na composição social da cidade de Fortaleza, a ponto de permitir a efervescência cultural de figuras literárias desse grau de modernidade e impacto?
³Rotulados de Geração de 77 ou referidos por certa Academia Francesa do Ceará, com toda a carga cômica que isso repassa. Contavam entre seus adeptos mais destacados: Capistrano de Abreu, Araripe Júnior, Felino Barroso, Tomás Pompeu, João Lopes e Xilderico Farias, além de Rocha Lima.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ver, ser visto: Ruas de Fortaleza


Nigel Henderson, 1950

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Desterro, Medo e Rua em Fortaleza
–impressões apressadas após uma caminhada lenta

Estar na rua em Fortaleza, num bairro predominantemente residencial, é estar entregue à própria sorte. É viver o exílio e correr risco. Comprar um bilhete para Babilônia. Começar a escrever as Lamentações de Jeremias. Especialmente neste quadrante de final de ano, quando a sensação de ressaca coletiva se inercia pela tarde afora. E muita gente está fora da cidade. Em viagens longas anuais, ou em balneários das circunvizinhanças.
É inevitável que cada um se examine um pouco mais ao final do ano. Não só porque é o final do ano e, logo, é quase automático fazer revisões. Mas também porque se tem mais tempo para essas revisões. Para esses reexames de consciência. E é muito mais isso o que as pessoas temem do que a atmosfera e a decoração natalinas ou o raso fato de mais um ano se ter passado e a morte ficar mais próxima. Dimensionável. Ou coisa parecida.
Os muros cresceram. Às vezes se pode percorrer quadras inteiras sem topar com vivalma. Sobre os muros há cercas elétricas ou de arame farpado. Atrás deles, quase mais nada. Em certos casos, é impossível ver as casas que restaram, entre os vistosos condomínios que as sitiam. Mas ao que parece, elas ainda estão lá. Não foram reduzidas a uma abstração pela violência que seus próprios donos, ao abandonar as ruas, fizeram questão de sancionar. E as janelas que ainda se enxergam são precedidas por grades.
Se todas as grades que protegem e aprisionam os lares de Fortaleza fossem retiradas ao mesmo tempo e exportadas para a China, seria um negócio da China: algumas divisas a mais para o país e um paranóia a menos para todos nós. Toneladas de ferro e medo indo embora. E, então seria necessário só rebaixar os muros, para se ter casas de novo abrindo-se para fora. Para receber. Tê-las mais belas de novo. E de novo essa interação entre casa e rua - que as varandas antigas, que os antigos alpendres de casas rurais insinuam em tempos que se perdem muito além da Volta da Jurema. Mas que foram fruídos por gente como você ou eu. E, alguns, até parecidos conosco, porque tios-avós, bisavós, etc.
O divisável, aqui, é que, se não reocuparmos a rua, não a enxergarmos desde casa, se a abandonarmos à sua própria sorte, ela sempre se prestará melhor a ser via expressa para o crime, desde que não a vivenciamos em cotidiano, coletividade. Não a ocupamos, como espaço social. Desistir da rua, é assumir que se quer viver com medo. Que o saudável controle feito pelos próprios moradores, ao estar mais presentes nelas, passando por elas – dizendo “Bom dia”, “Boa tarde”, “Como vai” – se converte apenas em mais um caso de polícia. Não podemos nos eximir de também sermos responsáveis por elas. Porque por mais que não queiramos temos um pouco – ou muito – de polícia ou controle: ao observar e cuidar das crianças, por exemplo. Porque elas não sabem, num certo sentido o que fazem. Embora, em outros, claro, saibam muito mais que nós.
E, de resto, nunca se vê muito dos condomínios acorcundados em andares sobre andares. Quando se caminha pelas ruas, você segue excessivamente colado a eles para vê-los. Você é apenas um ponto ao pé do muro alto, com a invariável guarita encarapitada, se são mais recentes. Se tivesse de vê-los, de fato, teria de andar olhando para cima. Seria mais fácil levar vários tombos. E, lá de cima, você é visto como pouco mais que um ponto – com se vê um boneco de Forte Apache – que passa na calçada. Sequer se adivinha se você segue enxofrado ou alegre. Seu rosto é indivisável.
Mas ainda assim, você é visto. Em vislumbre passando abaixo de ficus, jambeiros, oitizeiros e acácias. E um dos problemas mora aqui. Você é visto, mas não vê quem te vê. É um problema por quê? Porque gera ainda mais predisposição à assistibilidade. Quem te vê através da vidraça da janela, vê como se vê alguém dentro da tela de plasma de uma TV. Alguém que sabe que está vendo, mas não é visto. É o olhar de quem consome imagens. As devora, em vez de incorporá-las à experiência sensível e à memória afetiva, por meio de interações interpessoais. As únicas que te possibilitam sentir o gesto, a hesitação, a euforia, a tristeza das pessoas. Especialmente no instante, em que a partir do que essas imagens sugerem, se é capaz de editar novas imagens. E não imagens quaisquer, cheias de dignidade, forma, sentidos.
O ponto, aqui é que os condomínios, como os shoppings, sempre se voltaram para dentro de si mesmos. E este é seu princípio básico. Um princípio tumular. Cova que se abre para consumo. Do mesmo feitio como teu corpo um dia será consumido pelos vermes. Ainda que, ao contrário dos sepulcros caiados do Evangelho, alguns dos shoppings possam ser horrendos, vistos de fora. Como o Iguatemi, por exemplo. Pense num único shopping em Fortaleza que se abra generosamente para a rua. Ou em cujo terraço, debruçado sobre a rua, se possa tomar um café apreciando o movimento das pessoas, a pulsação de uma cidade. O modo como as pessoas caminham, se esquivam umas das outras, se escoram nos muros e paredes nas paradas dos ônibus, com seus tédios, sonhos, irritações, pertinácias. O princípio do grande condomínio privado é o mesmo dos shoppings. Não enxergar as pessoas. Aprisionar a vida na gaiola do consumo. Eles nos protegem da violência mas também da poesia da ruas.

No caso dos shoppings, é algo que começa no estacionamento. Que tanto pode sugerir uma vasta planície, um cemitério, se a céu aberto. Ou uma catacumba romana, se subterrâneo ou empoleirado. O certo é que shopping rima com carro não com pedestres ou mesmo ciclistas. Eis porque, como comandam - não é de hoje - o comércio de varejo nos bairros mais afluentes, também decretam que o carro é o meio de transporte em Fortaleza. Sem concessões a pedestres ou ciclistas.
A base de tudo, então, no condomínio – como no shopping – assenta-se num dobrar-se para dentro do consumo e do prazer. Em tese, do vigésimo terceiro andar, pode-se ver muito mais cidade do que lá embaixo, andando pela rua. Mas essa paisagem é vista à distância. A uma distância segura de quem está sob o ar-condicionado, assistindo um blockbuster, navegando pelas virtualidades, ouvindo música, lendo algo, comendo sushi. Ou mesmo fazendo isso tudo ao mesmo tempo. Quem terá tempo para observar sua cidade? Para conhecer a fundo os entornos de sua morada? Para dizer um bom-dia? Para andar pelas ruas em gratuidade? Não para levar o cão para passear ou só para manter a forma. Numa situação dessas, de consumo e segurança, abastança e auto-suficiência privadas, o que sobra para ruas? Ser anti-ruas, muros, conveniência asfaltada para passar o carro por cima? Andar por Fortaleza durante os feriados de fim-de-ano é bom para quem gosta de estar sozinho. E, claro, a necessidade de solidão nem sempre é má. Muito ao contrário. Mas, por igual, isso não deveria ser norma para os demais dias do ano. Que são muitos. A maioria.
A rua é o local público por excelência. É o espaço da palavra, da convivência. A beleza, a sensualidade e a tolerância a atravessam de uma ponta a outra. Isso vale para uma aldeia siciliana tanto quanto para um interior qualquer do Ceará. O convívio social medra melhor nesses espaços. Não nos espaços dos shoppings, que, do íntimo de sua uterinidade, lhes são alérgicos. Pois, como sabemos, a lógica do shopping é dar lucro. Ponto.
Em sua antípoda, a rua, quando bem tratada, estende um tapete vermelho para o bem-estar público ou salubridade de memória. Ao contrário do Shopping, seu equivalente a céu-aberto, uma praça – quase não as temos – ou mesmo um parque, nada mais são que uma rua alargada. Eis porque o nome "largo" ser sinônimo de "praça". Sem conversa e gesto ou rua, uma cidade se torna amorfa. Apenas uma coleção de fragmentos rejuntados pela pressa do carro. A praça, rua alargada, é bom espaço para se estar consigo em meio aos outros pelo que resguarda de saudável e eventual. Pelo que rasga para a memória de sonhos, devaneios e frustrações passadas. Ao contrário do shopping - espaço encontrável e padronizado por todo planeta - tem horizonte e alma. Gera lembranças. Aquelas lembranças vívidas, fundas, que só surgem da convivialidade. Do decurso dos tempos longos. Da feira, que esteve na raiz de tantas cidades, pelo Ceará e pelo Nordeste afora. Uma encruzilhada aprazível, onde as reminiscências te dizem: "Bom dia"! As que precisam ser engatadas a outras, relacionadas, para que tenhamos a dimensão real de onde estamos pisando, de como somos. De onde viemos. De como sentimos. Do que queremos. De que estofo são feitos nossos sonhos. 
E, claro, a vida também se faz de encontros. Especialmente dos que ocorrem na casualidade das esquinas. Entre gente de diferentes opiniões, classes, visões políticas, orientações sexuais, etnias, culturas, jargões, idiomas, etc. 
Das interseções dessas ruas, que ora seguem vazias.

28.12.08



terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A história precedida


[s/i/c]



Outra noite para Rubem Braga


Há esse avião voando numa noite etérea. Voando em placidez, acima de colchões de nuvens sob um luar de filme. Ainda um turbo-hélice. Provavelmente com o logo da Pan-Air na fuselagem. O percurso é de São Paulo para o Rio. E, em uma das vigias, o rosto de um jornalista extático diante da paisagem de uma noite de sonho, acima das nuvens. Cofiando bigodes em perfeita satisfação. Metido consigo mesmo e com a beleza do mundo.

Uma vez em terra firme, ele desembarca. A noite é chuvosa e lamacenta. Inteiro o inverso da outra noite: superior, luminosa – só alcançável, agora, pela alça da memória. De volta para casa, o jornalista de bigodes e basto cabelo apartado ao meio, diz ao taxista do contraste entre as noites. Entre aquelas duas noites sobre um mesmo mundo. Sobre a mesma cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Uma branca, límpida, ao luar, lá acima. Outra escura e enlameada nas ruas debaixo. E o rumor dos pneus do carro resvalando sobre o asfalto úmido.

O taxista, acompanhando a verve do jornalista. Se põem a sonhar com essa outra noite. Devaneio. Será que existiria mesmo uma outra noite assim? E, ao final, da corrida agradece-lhe, por essa perspectiva – que nem remotamente lhe ocorrera existir, quando só se pensa no aluguel, na caderneta da mercearia, na vida que se tem de ganhar. E agradece-lhe com ênfase. Meio como se o outro a houvesse presenteado. Meio como se o outro lhe houvesse ganho o dia através da descrição daquela outra noite, acima.

Assim é o enredo de uma crônica de Rubem Braga. Me lembro exatamente a primeira ocasião em que a li. Foi em 1975, e eu cursava a sexta série no Colégio General Osório, em Fortaleza. Ela estava em meu livro de Português. Portanto, há milhares de quilômetros e muitos anos de distância daquele registro. Daquela dupla noite sob um mesmo, agudo, olhar.

Passados vinte e seis anos, eu mesmo vivi essa crônica em uma visita ao Rio. Em coincidência, provindo de São Paulo, numa noite límpida, de quase lua plena, acima das nuvens. E lá abaixo – tão logo a aeronave transpôs a barreira de nuvens, e a baía surgiu com a cidade à margem e as montanhas ao fundo – uma segunda noite: lamacenta, aguada e respingando. Uma noite de catorze graus, das mais frias do ano, no Rio. Uma em que todas as minas do Leblon foram aos bares envoltas em pulôveres de gola roulé.

Dando tratos a bola, também pensei em outras colheitas. Como por exemplo, a demasiada necessidade de meus pares poetas de hoje em assuntar somente o desagradável, o sórdido, a escatologia. Será que só isso para falar? Será que neste mundo lamacento e cinza não sobrou sequer uma réstia daquela outra noite, luminosa, acima?

E, uma vez em terra firme, calado, dentro do táxi que me levava para Copacabana, os vidros cerrados sob água, pneus serrilhando o saibro úmido no asfalto, agradeci uma vez mais a Rubem Braga. Por propor-me uma utopia e uma viagem. Com vinte seis anos de antecedência.


* * *


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

ARQUITETURA INTUITIVA DA ALDEOTA


Na década de 70, qualquer sinal de uma região mais comercial se extinguia à altura da Rua Barão de Aracati. Havia, na esquina com a Av. Heráclito Graça, um terreno baldio de um lado, com alguns eucaliptos, e do outro uma revendedora da Volkswagen - que lá está até hoje. Essa revendedora demarcava o último sinal de comércio mais amplo à leste da cidade. O que se seguia era um bairro de casas. Essas casas eram ajardinadas. E havia um grande cuidado com esses jardins. E se cuidar de jardins é um índice de bairro residencial, a Aldeota dessa época era essencialmente para morar.

Algumas árvores eram muitas populares, então. Castanholas, oitis, fícus, mangueiras, algum pau-brasil e, posteriormente, jambos e acácias emolduravam as ruas. Nos jardins, além de diversas espécies de gramíneas - algumas delas não mais em uso - era comum se topar com espirradeiras, coqueirinhos, crótons e roseiras. O destaque eram papoulas de espécimes diversas, quase sempre em renques calcados contra os muros - que ainda eram baixos e, em geral, chapiscados. Mas havia também árvores mais exóticas, como pinheiros - muito cultivados durante certo tempo e um tanto na contramão de sua aclimação.

Pela Av. Santos Dummont seguiam as casas mais aristocráticas. E também algumas das mais antigas. Elas ficavam entre a Praça do Cristo Rei e a Avenida Barão de Studart. Algumas ainda com um certo traço de rústica ruralidade. Essas possuíam um só pavimento e aqueles alpendres laterais, suspensos por vigorosas colunas arredondadas, de alvenaria. Mas também, quando mais achalezadas, os alpendres findavam em uma treliça de madeira com algum arabesco simples, e as colunas eram esguias - fossem de madeira ou metal. E transmitiam uma certa atmosfera ferroviária, vagamente européia. O certo é que pareciam mais com casas de chácara do que de cidade. E são elas que estão na própria raiz do bairro, que antigamente não passava de um ajuntamento de chácaras, quintas e sítios para o fim-de-semana. Um conceito, aliás, bastante ibérico. E como tudo que é ibérico, quase varrido do mapa na Fortaleza de hoje em dia.

Mais recentes que essas, eram as casas em estilo mediterrâneo. Geralmente assobradadas e transmitindo uma certa sensação de solidez e peso. Os jardins eram amplos, guarnecidos por sebes, e a varanda da frente se reproduzia acima e nas laterais. Essas varandas eram suportadas por colunas maciças, e que deixavam vãos de consideráveis tamanhos entre si - embora limitados por pesadas sobre-paredes. Alguns elementos europeus se faziam presentes, como os olhos-de-boi. E havia uma certa compulsão para formas rotundas. Todas elas transmitiam peso e alguma dose de calculado terror.

A geração seguinte eram casas de feição mais americana. Talvez as primeiras riscadas pelos arquitetos que se diplomaram na escola local. As varandas quase desapareceram. Legaram espaço para uma coberta lateral onde se podia pôr o carro. Um espaço que, então, se conhecia como descansa-carro, geralmente antecipado por pérgolas. Mas a garagem era ainda avulsa. Os telhados armavam-se em águas simples e ângulos pronunciados, com destaque para os beirais largos e acolhedores. As janelas ocupavam vasta área. E não eram incomuns imensos janelões correndo sobre trilhos.

Depois dessas, e um tanto no influxo de Brasília, sobrevieram casas modernistas. Algumas belas. Outras excessivamente moldadas em concreto para serem belas. Brutalistas em excesso, num clima que reclama mais vazamento de varandas que bloqueios em cimento armado.

O comércio no meio de tantas casas, quando muito, se limitava a uma bodega na esquina. Os termos ainda eram esses: bodega e mercearia. Há uma secreta integridade nesses nomes. Eles são muito distantes de shopping ou mall. Bodega, em espanhol, quer dizer mais "adega" que qualquer outra coisa. Mercearia também não fica por menos, provém direto do latim merce = mercadoria (de onde mercadejar, mercantil, mercado etc.). Essa proximidade entre palavra, radicalidade histórica e espaços não é desprezível.

Mas havia também um tempo lento e católico naquela Aldeota. Ela era menos leiga e esse tempo se amplificava nos domingos e dias santos. A própria luz que descia sobre os gramados parecia incendiar o dia com mais lentidão. Longos domingos em que se respirava um sabá.

O dia mais morto na Aldeota - em Fortaleza, suponho - era Sexta-feira da Paixão. O mundo parava. Ainda mais que nos domingos. Não se ouvia música. Não se ouviam passos nas ruas. Não havia qualquer expansão de gestos. Hoje em dia, não se tem noção do que representava um luto fechado como o daquelas sextas-feiras. Estamos excessivamente escolados em nos prover 24 horas ao dia já faz algum tempo. E esses certos dias da rememoração pulverizaram-se na uniformidade shopping-center do dia-a-dia presente.

Não tenho nenhuma saudade daquele tempo em si, ou do bairro como se organizava então. O menor traço de recolheita. Certamente era mais tranqüilo do que hoje. Tenho, sim, saudades do que não aconteceu para melhor a partir daquele tempo e daquele espaço. Não acreditando em progresso e sendo bastante simpático a coisas que nos ensinam pela permanência, é claro que penso que a verticalização não foi uma boa saída para a Aldeota, assim como a excessiva mercantilização do bairro. E creio que o futuro poderia ter sido mais generoso com a Aldeota ou com Fortaleza em geral.

Mas depois que, no início dos 80, se desmatou uma perna de mangue e por cima se ergueu um shopping de ares monumentais, a melhor ponte para um futuro digno de Fortaleza foi desmontada. Claro que isso se reveste de uma estratégia política. Ou mesmo geopolítica, se quiserem. Mas, nesse ritmo, apenas se atolou na lama mais infecta a possibilidade de dotar de dignidade a memória da própria cidade. O Iguatemi apenas amesquinhou o Centro, a Aldeota, Fátima, e bairros mais antigos, como o Jacarecanga ou o Benfica.

Nada de tão singular. As elites brasileiras reproduziram a mesma estupidez em todas as outras capitais do país. Da Barra, no Rio, à Beira Mar Norte, em Florianópolis. É a mesma necessidade de se alienar da memória - como se de um esqueleto dentro do armário. Quando se cometem crimes, não deixar vestígios é a única possibilidade de prosseguir cometendo-os. Essa é a lógica que desfigura nossas cidades quando elas estão prestes a esboçar um sorriso.

Fortaleza não é exceção. Então, as saudades vão não para o que a Aldeota foi. Mas para o que Fortaleza não é.



Ruas da Aldeota

perfeitas de carro
essas ruas não são

nada, a não ser o
branco do olho

mas se vistas
a pé, à sombra

espessa de oitis
o olho a seguir

na luminosa tarde
as velhas fachadas

as formas da história
uma senha de noite

cai sobre as palavras



Nota – o artigo “Arquitetura Intuitiva da Aldeota” foi inicialmente publicado em O Povo [31/12/2002] e na revista de arquitetura Vivercidades (Rio)[17/01/2003]. O poema “Ruas da Aldeota” [1999] foi publicado em revistas diversas, e também no Caderno: uma literatura sem livros [2006], editado por Eduardo Jorge Oliveira para o Núcleo de Literatura da Funcet. Em geral, há a tendência de se ler o “perfeitas” no 1º verso do poema como adjetivo. Nada contra, mas eu, pessoalmente, leio como flexão do verbo “perfazer”. “[Quando] se perfaz de carro as ruas, elas não são nada, a não ser o branco do olho, etc”. Há uma tendência – tão ancestral quanto a própria poesia – de se não dirimir ambigüidades. As literaturas contemporâneas acham o máximo isso de ambigüidades. Mas eu não sou contemporâneo. E posso ser muito mal-humorado. E, por vezes, é importante que, ao menos, o leitor esteja a par das ambigüidades – ou seja, de outras possibilidades de ler um poema.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

La Belle au bois dormant

[s/i/c]


A Bela Adormecida

On ne trouve plus de femelle/ Qui dormît si tranquillement”.
. [Charles Perrault]


Ela agora só podia espiá-lo – entre um e outro control-vcontrol-c – do trabalho. Essa banalização da cópia que converteu o ofício do jornalista em compilações e sinopses. Isso até que rimava com a sordidez geral da coisa. E havia retirado suas micropostagens do ar tão-logo ele assinalou, do seu lado de lá do servidor – das coisas, da vida, da cidade – após meses a fio sem rastro, numa sorte de exílio digital, que estava de novo ciente da presença dela, na rede. E, inclusive, a monitorá-lo em recorrência. E ela então – previsível – retirou fotos, referências, músicas, vídeos, linques. O diabo. Qualquer agitar, pulsar mínimo, que pudesse dar bandeira. Tinha de ser a boa moça, como sempre. Ao menos tão boa que o recém-namorado, a quem cozinhara anos a fio até perceber que ele era um bom sujeito e podia ser de alguma serventia, lhe ajudasse a obter, então, por meio de uma amiga dele, um emprego de redatora auxiliar no maior conglomerado de comunicação do estado. Justo onde fazia essas triagens e pequenas adaptações do que chegava cornucopiosamente pelas agências de notícias ou pelos repórteres de além-redação.
O que ela não queria era ser esquecida. Porque seu maior vexame: sentir-se desimportante. Não só para “x” ou “y”. Mas para o Planeta Terra. Agora, isso não implicava em que operasse algo que redundasse num esforço continuado a merecer reconhecimento. E um dia, quem sabe, um Prêmio Nobel da Adolescência. Ela julgava que o mundo iria curvar-se, um dia. Pelos seus belos olhos. E, assim, ela apenas teria de mostrar-se bela – como se não houvesse trocentos caminhões cheios de beldades japonesas ou não de estonteante beleza congestionando uma reta tão longa quanto a Belém-Brasília. Mas nem tão rodoviariamente comprometida assim ela era. Fora uma única vez ao Tocantins. Sua geografia ainda não era tão longa. E muito menos escrava do passado se percebia. Sentia-se boa simplesmente. Ponto. Sabendo sopesar exatamente a conveniência que lhe proporcionava cada pequena mentira nos modorrentos plantões de suas noites, enquanto a chuva caía lá fora e em sua cabeça latejavam enxaquecas. Sem jamais pensar que mentiras desse gênero, tão ao largo da realidade, encapsulam-se em botões, que lá, mais adiante, vão causar dor a alguém. Ela apenas seguia com as mentiras de praxe, dizendo para si mesma: elas não entram no cômputo, desde que não afetem o modus operandi. No caso, por modus operandi, ela entendia ocupar-se com essas coisas do coração e, quem sabe, um tanto vagamente, com o sentimentos dos outros – se alguma sensibilidade mais madura resguardasse para tanto. E era essa a matriz de seu catolicismo e o modo como esperava que Nossa Senhora de Fátima, de Aparecida, de Guadalupe ou de Lurdes a abençoasse para sempre e de novo, de modo que ela não andasse permanentemente necessitada de um perpétuo socorro. E, logo, pudesse continuar ela mesma. Ter aquele estilo que ninguém mais tinha. E sua auto-estima, em alta, galgasse a muralha da China, apesar das insônias, enxaquecas, Buscopans.
E havia aquela necessidade de não propriamente ser querida – isso seria demais – mas pelo menos lembrada pelo maior número possível de pessoas. (Lembram da teoria da importância?) E, quando possível, desejada. Isso até que não destoava de certos signos femininos, eram apenas superposições enfáticas do seu caráter. Como se essa lembrança desejante, que os outros dela tivessem, fosse, sob o ponto de vista dela, uma modalidade de preocupar-se com eles. De cuidar deles. Lhes fazer companhia. Um tanto assim como se pensa que, no Twitter, Luciano Huck seria mais ou menos uma espécie de santo padroeiro que, à hora de dormir, baixasse numa nuvem, espiritualmente, a cada um se seus seguidores, a trazer um pouco de leite morno, conforto, um bom livro para ler ou algumas palavras de incentivo.
No fim, o importante, avaliou, era prosseguir a mesma boa moça de sempre. De família – embora uma vez tenha achado tentadora a carreira de acompanhante, ofertada, muito em discreto e raro tino profissional, por um colega da faculdade. Boa filha. Boa amiga. Boa irmã. Boa amante. Boa namorada. Boa nadadora dos duzentos metros borboleta. Futura boa mãe. Jovem. Bonita. Ainda a mesma fedelha, morena, esbelta, que corria para se olhar ao primeiro espelho, ao primeiro toalete, e daí aproveitava para conferir se havia alguma mensagem, em desoras, no celular. Em caso afirmativo, após uma mentira menos volumosa aos circunstantes, disparava ao apartamento do fotógrafo que mal pingava na cidade de suas viagens em torno da Terra, e ela o encontrava esporadicamente e nem tanto em segredo quanto pensava. Ou então, para o condomínio do namorado, se é que algum coelho – em termos de carreira, migalha ou dividendo – podia sair mesmo da cartola do namorado àquelas alturas do campeonato. Por essa época, a coisa ainda seguia em suposições. Só depois veio esse empreguinho reles. Mas, de qualquer forma, garantindo os trocos.
Ela, agora, já não era exatamente a que costumava ser só uns anos atrás. A que ansiava ir em busca de aventuras adolescentes na micareta. E chorava ao ler o Meu Michael, de Oz. Embora a adolescência nunca tenha ficado totalmente de escanteio. A adolescência nela continuou sob duas formas: mofo e metafísica. Por mofo, ela podia apenas ser irritantemente teimosa, mesmo quando sabia que operacionalmente estava errada. E por isso era advertida. E isso era mesmo que nada. Metafísica, porque algo nela ainda não chegava a funcionar no registro da mulher, tendendo sempre à espessa volubilidade da adolescente. Ou da criança e seus mimos. E essa metafísica da micareta – da festa patrocinada, plástica, cosmética, do kit com os brindes, do abadá, do gosto do acidulante na bebida energética – ainda prevalecia junto com a pulsão para gastar sua hora à beira de uma sociabilidade furiosamente virtual, feito uma modalidade de masturbação em que os dedos tem de ser hábeis o suficiente para simultaneamente manejar dois aparatos, em pólos opostos. E é preciso saber regulá-los, com mais firmeza ou suavidade, como quando se toca um velho órgão Moog com a destra e um moderno sintetizador Yamaha com a sestra.
Aliás, dessa metafísica da micareta reflui, em linha reta, seu acentuado gosto por brindes. Tudo que ela tinha a mínima possibilidade de ganhar – nem que fosse um simples kit da Avon ou um par de ingressos para a Noite da Lambada no Mucuripe Clube, sorteados via Twitter – lhe parecia uma dádiva celeste. Ouro, incenso, mirra. Minas de Salomão. Baús da Felicidade. Delíquios megasênicos. Seus olhos densamente negros brilhavam intensos. E esse mesmo espírito de abnegação e brindes era o que lhe comandava toda uma ética. Uma ética, no fundo, católica e carismática, voltada para orações à Virgem. E porque era assim que ela dizia a si:
Se eu ganhar o tônico facial para peles sensíveis, vou ficar tão feliz, que todos à minha volta também vão – era uma sua suposição. Mas não mera. Ela punha fé nisso.
E, logo, ganhar o tônico facial para peles sensíveis convertia-se em algo importante, de fato, para ela; e, sem embargo, segundo ela, ainda mais crucial para o mundo, que ficaria um lugar melhor por conta de sua radiante felicidade. E, portanto, o tônico facial para peles sensíveis, deveria ser ardorosamente reivindicado em suas preces. Em especial, as dirigidas à Virgem que, como mulher, devia entender melhor que a Santíssima Trindade a importância que um creme facial para peles sensíveis tem na vida de uma jovem mulher.
Às vezes, hesitava diante dessa ética da prece, é verdade. Mas logo esquecia as hesitações. Como podia estar errada? E sua volubilidade impunha-se como a fragrância do Chanel Nº5. Era espontânea. "Pensar demais faz mal à cabeça" – despensava, enquanto machucava a banana no garfo, que depois seria polvilhada de leite em pó. Isso, no entanto, não a poupava das terríveis enxaquecas. E, sem dúvida, um entranhado senso de negócios pairava sobre seu espírito, como fosse coisa de família, ainda que ela se considerasse um temperamento artístico. E, logo, longe da ética protestante, embora com algum espírito do capitalismo. 
Como neta preferida da avó, havia, ao seu turno, faturado no espólio um apartamento com vista para o mar. E seguindo costumes locais em relação a imóveis – tão dados à não ecológica prática de sucessivas, vertiginosas, dispensáveis reformas – logo mandara destruir as paredes de um dos quartos contíguos à sala, para aumentá-la, e nela instalar um balanço, onde, noite após noite oscilasse seu capricho, bipolarmente, entre seguir o curso de certos inconfessáveis desejos ou optar pela segurança financeira e masculina que só um marido e uma família poderiam lhe dar – a despeito do pouco verniz e do excesso de contabilidades do principal pretendente.
Era isso. Essas duas opções. Mas era só isso? Isso era tudo na vida? E sempre buscava dizer para si mesma:
Embora não lhe pareça tanto, quem pode ter tudo neste mundo?
Às vezes sentia que o que lhe restava era antes esse morrer de vez e para sempre ainda antes dos trinta. Não fisicamente. Mas num acomodar-se. Anular-se. Deixar de flertar com os devaneios juvenis. Mesmo que ela se defendesse. E aí apelasse para outras vidas. Para vidas exemplares. Para modelos que decalva das novelas. Ou gente bem sucedida, que via na vida real: suas mentoras, por exemplo.
Porém, quando ela própria olhava à lupa as mentoras, um frio lhe percorria a medula. Para cada uma delas – e eram três – havia terríveis impasses. A infelicidade no casamento às custas da conta bancária do marido – a manter certo padrão de vida elevado e alguma futilidade em forma de umas poucas peças a mais na cristaleira ou milhagens ao redor do mundo no cartão de crédito – era o apanágio da que ela mais admirava.
Um duplo divórcio; certo exotismo antropológico na escolha dos parceiros; uma noção vulgar de sexualidade provinda de uma família excessivamente tradicional, rígida por contraposição a amigos tresloucadamente liberais nos anos de faculdade; a insegurança quanto aos próprios dotes de mulher (que, de resto, não tinham sido pequenos embora já se encontrassem um pouco puídos); o total pânico de chegar à meia-idade sozinha; marcavam os dias da segunda das mentoras, que ela à admiração jogava também por sobre uma pitada de calculado humor.
E, por fim, havia a terceira, que era o paroxismo de seus receios. E da qual sentia  verdadeiro pavor. Não da figura em si. Mas sobretudo de um dia, quiçá, tornar-se como ela. E então, esse último caso, ela o temia com todas as forças. Seria uma hecatombe. Largar às traças as páginas de um livro bom, fino leque chinês de bela estampa. Um desastre completo: já estar para lá da capital da meia-idade e a passear, celibatária, pelas ruas dessa pré-velhice com ares de operosa chefe de departamento, a esgrimir poses de gestora rigorosa sob taieullers de uma austeridade militar. Sabe-se que o que mais se teme – ou comisera – é aquilo onde mora perigo de a gente se converter, por uma bizarra analogia.
E então lhe vinha à mente os impulsos dessa terceira mentora. Dessa matrona sem filhos, de grandes olhos duros, fixos, que parira seu próprio sucesso profissional a qualquer custo. De rosto em forma de maçã e um sorriso semelhante ao daquelas caveiras mexicanas da Fiesta de los Muertos. De demonstrar certo gozo, sincero e perverso, em reprovar quase toda uma turma de graduandos. E não exatamente por méritos, deméritos; porém para compensar-se de frustrações – que ela punha no cômputo das vantagens: ser mulher, liberada, autônoma, sem filhos, livre, a pagar seus próprios impostos. E, no fim de tudo, isso somado dava em quê? Apenas em algumas carapuças. Carapuças e fealdades e futilidades e temores. Os mesmos que se encontra em algumas mulheres por essa vida a meio. Não nas realmente mais libertas, cuidadosas, felizes, abertas à conversa e nem por isso menos autônomas; mas, em especial, naquelas ditas: poderosas. Ou seja, naquelas que, ao modo de homens, fizeram do acúmulo de poder o próprio centro, a periferia e as estações de metrô de suas vidas. Seja por serem belas – e explorarem isso à migalha, objetualizando-se e aos demais em torno –, seja por operarem no mesmo registro do machismo e da mesquinhez daqueles homens, os que querem transformar em coisa tudo que lhes está sob, sujeito, à responsabilidade.
E, porém, todos sabiam o quanto um dos esportes diletos dessa terceira mentora passava por denunciar colegas junto ao colegiado. Para bajular pro-reitores e, em nível puramente teórico mas nem sempre, tentar a reciclagem dos surrados dogmas marxistas, de quando ela era jovem, até bonita, e o desespero pelo acúmulo de poder e um câncer ainda não lhe tinham roído um dos seios.
Sim, especialmente enquanto o corpo fenece ou equilibra-se inseguro, como o funâmbulo na corda bamba, ainda se vê a vida com os olhos apreensivos de quem aspira consertá-la. De alguma forma. Sob algum lance de dados. Se alguma gota de melancolia ainda varre a tepidez dos dias. E como um raio pode explodir a pasmaceira dessa virulenta fome de mando. Depois, quando esse estágio fica para trás, e o frio do risco e das apostas já estão devidamente postos no freezer, como aquelas polpas de fruta que a gente acaba esquecendo, é necessário apenas acumular poder. No fim de tudo, talvez, para acabar com algumas plásticas a mais nas maçãs do rosto, no sorriso de caveira do Dia de los Muertos, e desesperadamente no encalço daquela migalha de celebridade que só a província confere. Tão peculiar formato: tornar-se, diga-se, uma Heloísa Juaçaba, benemérita das artes plásticas. Uma Adísia Sá, decana das jornalistas, embora sem verve ou nenhuma imaginação. Era isso, atingir o patamar de uma Adísia Sá dessas qualquer, no jogo do bicho. Que, antes de morrer, fornece assunto para um TCC ou, no máximo, uma monografiazinha de mestrado meio chinfrim, decalcada de teorias surradas e fora do lugar. Aquelas mesmas que, depois de solenemente defendidas, têm a impressão custeada do próprio bolso do autor, por editoras do Sul, especializadas em publicar monografias e teses que ninguém lê. Edições primeiras e únicas, que mofam nas prateleiras das bibliotecas e depois dos sebos e depois da usina de reciclagem, junto com as rebuscadas dedicatórias que o tempo trata como a flores.
E, então, no meio da noite, a saber que amanhã bem cedo tinha de estar na redação ela pensou vários diferentes rumos para si, que não passavam pelas três mentoras. Pensou que possuía uma distinção: ainda era jovem, o tempo tardaria. Até pensou num famoso quadro dos Trapalhões em que Didi, parodiando Maria Bethânia, cantava uma música de Chico Buarque baseada em uma ciranda de roda que fazia referência aos três amores de Terezinha de Jesus, a tal que deu a queda e foi ao chão. E mais devaneios pensou, refluindo, quase sempre, às três mentoras. Para depois delas afastar-se de novo. E de novo voltar. Como o latejar da dor em sua cabeça. Mas, com um pouco de sorte, o tempo lhe seria lento.
Porém, não. Quão zás o tempo passou e lhe deu a manhã áquela noite. E o tempo sem mão para ninguém, estendia-se em contramão por uma longa e sinuosa estrada, como nos Beatles. E nós vamos colhendo beijos, como diz outra canção. Melhor nem pensar nisso por ora, ponderou. Melhor ralar. Ralar e ralar e ralar. E aí deixar boa parte das coisas simplesmente acontecer. Como se fez na faculdade. Quatro anos de sofrimento. Com aquelas terríveis aulas de Teorias da Comunicação e, contrariedade suprema: Economia Política.
Tudo isso pesado, e a madrugada já apagara-se atrás da curva do dia aceso e pleno, sobre seus quartzos, cristais, areias e águas. Fumegando desde o limiar. O despertador a postos, no criado mudo, à luz da janela, dissolvendo-se em fade.
E, súbito, ela percorria a Alhambra. Saía da esplanada do Palácio de Carlos V na direção da Puerta de la Justicia. Tocando com os olhos as filigranas. Quase com dó de pisar nos mosaicos que inspiraram as artes gráficas de Escher. Banhando-se na piscina de Comares. E, refeita, envolta numa abaya e envergando um hijab, mirando paisagens que muito mais tenras tornavam-se pela moldura das janelas e seus arabescos e entalhes. E, com uma moldura dessas, o vale, lá, abaixo, com sua paisagem ordenada pela mão humana, e as três culturas que quase se fundem para dar paga daquela maravilha assentada sobre o rochedo, ainda assomava mais belo, com suas oliveiras e carvalhos. Sua cabeça errara a almofada, por pouco e repousava diretamente sobre a colcha, com uma pequena poça de cuspe ao lado da mão em concha, pousada sobre a barra do lençol.

E ela, como quase sempre, bela-adormecia de cansaço.


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