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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Paralaxe Espectroscópica de Adolfo Caminha – ou Esse cabra era bom (e já punha os imigrantes ao centro da trama)


Um dos raros retratos de Adolfo Caminha (1867-1897)

Há um entremear melhor da trama em A Normalista que no Bom-Crioulo. E por uma questão de proporções e situação, se entendermos por situação a paisagem do entorno. E não só a paisagem física como também a humana. E há, por igual, uma contradição interessante: o fato de João da Mata, que mais adiante irá deflorar a própria afilhada, ser um simpatizante do positivismo, das ideias modernas e francesas. Um entusiasta da ciência, anticlerical e leigo. Então, o romance não é nada unidimensional, como costumam ser algumas obras dessa fase de poesia simbolista ou parnasiana, e meio insuportável. Ou previsíveis romancezinhos predeterministas, positivistas, pseudo-científicos. Ou então, francamente insípidos, feito A Fome, de Rodolfo Teófilo.
A Normalista (1893) surge, então, mais arrematado, e mesmo mais romance que Bom-Crioulo (1895). Este, apesar de ser posterior, deve seus méritos, sobretudo, ao fato de tocar num tema completamente estigmatizado e tabu, à época. E, ainda assim, como estrutura literária oscila entre a concepção da novela e a do romance. Embora seja uma oscilação que vale a pena seguir.
No entanto, há algo de ainda mais moderno em Adolfo Caminha, que tematizar incesto ou homoerotismo. E é uma espécie de natural cuidado ao tratar da questão do imigrante. Ele próprio um migrante, do Ceará para o Rio, e então, de volta ao Ceará - e depois errante um pouco por toda parte na Marinha de Guerra - Caminha não se exime de demonstrar uma sorte de cuidado com seus personagens imigrantes e trânsfugas. Como se boa parte da respiração do mundo não se desse sem o arranco transformador e desestabilizador que só os imigrantes portam.
Há alusões à imigração por toda parte em suas páginas. E um de seus dois romances  - ou esboços em prosa - inacabados leva o sugestivo título de O Emigrado. Então, já há em sua obra uma compreensão intuitiva desse fenômeno da imigração e do desenraizamento como vital para a confecção da época em que vivemos. No Cap. II de Bom-Crioulo, por exemplo, em que Amaro, marujo passado na casca do alho, tenta aliciar o jovem grumete Aleixo, para que more consigo, tão logo retornem ao Rio, há a presença, não muito longe, desse senso de migração e moto perpétuo. Ou mesmo, se quiserem, peregrinação sobre a terra; pois no exato instante da proposição, em alto-mar, imigrantes passam, no convés de um transatlântico inglês, como testemunhas distantes, involuntárias dos acontecimentos. Eles não testemunham propriamente, mas demarcam o tempo. Acercam-se dele com sua presença insuspeitada:

Um mundo de gente movia-se na proa do [transatlântico] inglês, decerto imigrantes italianos que chegavam ao Brasil. Distinguia-se bem o comandante, em uniforme branco, chapéu de cortiça, no passadiço, empunhando o óculo. Lenços acenavam para a corveta que ia ficando atrás, toda em panos, lenta e soberba.
E o paquete desapareceu como uma sombra, e ela continuou na sua derrota, sozinha no meio do mar, desolada e lúgubre. Os marinheiros tinham se espalhado pela tolda e pelas cobertas, entregues à labuta, esperando o rancho das quatro horas.
[Bom-Crioulo, Cap. II]

Praticamente todos os protagonistas de Adolfo Caminha são imigrantes. Maria do Carmo, a normalista, é filha de criadores de gado, da região do Jaguaribe. Estes, tendo perdido tudo na Grande Seca de 1877, buscam inicialmente Fortaleza e, depois, a Amazônia. A exceção, em termos de rumo, é a do irmão mais velho, ido previamente em sentido contrário, por mero acaso de temperamento: recrutado compulsoriamente pelo exército, e a serviço no Sul – mas, de algum modo, próximo à carreira militar que o próprio Caminha acabou empreendendo até ser afastado por uma escandalosa união com uma mulher casada. E casada com um oficial.
O Capítulo II de A Normalista que trata da viagem da família de Maria do Carmo dos currais de Campo Alegre para Fortaleza é, por sinal, dos mais vívidos e conta com uma qualidade de simpatia que destoa nesse autor usualmente mais seco ou misantropo:

Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o litoral na pista de socorros públicos. Totalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem por sua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num êxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera também ir-se com a família para Fortaleza, embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas. Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava a esse tempo quarenta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando o peito rijo, não se trocar por muito rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça, cheio de vícios secretos. Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente, puro e abundante sangue português. Nunca sofrera a mais leve dor de cabeça. Conhecia a sífilis por ouvir falar. Casara muito moço, imberbe ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eulália de Mendonça Furtado, de uma família de Furtados da Telha.

Que Mendonça não conhecesse a sífilis, não se entregasse ao tédio, à masturbação, assim como a menção aos casamentos endógenos - tão comuns em famílias sertanejas dos ranchos e currais do Jaguaribe, do Cariri, dos Inhamuns - revela algumas crenças em comum com os naturalistas em qualquer parte do mundo. Coisa dos pré-condicionantes físicos e sociais ditando os espirituais. E, no entanto, é notável essa exaltação do sangue português associado – mais ou menos como entre os de língua espanhola aos galegos - com a disposição para a faina incessante e pesada. Esta última observação, no entanto, é mais cultural que “científica”. Ou seja, que naturalista. E há muitas delas em Caminha. E exatamente por isso ele escapa de ser o naturalista padrão. O mesmo de quem Machado de Assis ainda vai detectar traços no Eça de Queiroz do Primo Basílio em uma brilhante página de crítica. 
De outro modo, é notável que seja justamente O Primo Basílio o romance que Maria do Carmo lia às escondidas, no banheiro de casa. E comentava com uma colega da Escola Normal, que a havia emprestado. E o contrapunha à literatura xarope reservada para as moçoilas da época numa Fortaleza ainda de um provincianismo exemplar. Como se fosse uma espécie de modelo de leitura a se sugerir.
Adolfo Caminho, ainda mais em A Normalista mas também em Bom-Crioulo, é um escritor que dá o que pensar. E se não houvesse morrido com apenas 29 anos, é possível que a gente ouvisse falar mais dele. E melhor. E é uma pena que só seja lembrado para provas de Literatura no secundário ou exames vestibulares.
*
No presente, Adolfo Caminha é apenas a dor de cabeça de muitos colegiais brasileiros forçados a ler seus dois romances, que sobreviveram - A Normalista e Bom-Crioulo. Ele é mais que isso, no entanto. Compartimentalizado entre os naturalistas, com todas as reduções e prejuízos que isso implica, há em seus livros suficiente vida própria para serem lidos ao largo de se pensar em escolas ou movimentos. E, em especial, pelo que agregam da história social do Brasil de fins do séc. XIX. E de um esboço de Brasil urbano. Um esboço tênue, incipiente, que segue sendo protagonizado sobretudo pela figura de um pária: o imigrante. Como contemporâneo do maior escritor brasileiro, Machado de Assis, não é nada natural – mas certamente naturalista – que se esqueçam dele por ofuscamento. Ou que, ao menos, ele não seja posto no devido lugar, para alguém que antes de contar trinta anos, escreveu romances sobre homossexualidade e incesto quando a resposta da sociedade a tais temas era um pesado silêncio.
*
Há uma etnografia de um Brasil urbano em que o peso do rural ainda era demasiado. Em A Normalista, Maria do Carmo, embora morasse em Fortaleza, era filha de rancheiros das margens do Jaguaribe. Chegou à cidade com seis anos, fugindo da estiagem. Amaro, o Bom-Crioulo, um escravo fugido. E que até achava os primeiros tempos da duríssima vida na Marinha como um mar-de-rosas se comparados à extenuante faina na fazenda, da qual ele se lembra apenas fugazmente, muito em raro, e sem nenhuma saudade.¹ Aleixo vem das aldeias de pescadores, de extração açoriana, fixados em torno da Baía de Florianópolis (então, Desterro). Carolina, a senhoria que alcovitava o caso dos marinheiros num cortiço carioca, e depois tornar-se-ia amante de um deles, era uma imigrante portuguesa que também fora prostituta quando mais jovem. E o próprio quartinho no sobrado usado pelos amantes gays fora previamente ocupado por um jovem português recém-chegado que morrera de febre amarela. Ainda tresandava a ácido fênico. Como a aproximar, ainda uma vez, amor e morte. Zuza, o pretendente de Maria do Carmo, parece a exceção. Era amigo do presidente da província e bacharel. Mas seu pai, no entanto, vinha da truculenta cepa dos coronéis do Nordeste - e, portanto, tinha um pé no interior. E o próprio Zuza estudara Direito no Recife. E ao comparar Fortaleza com o Recife, deixava entrever uma situação que, por si, não prognosticava que essas cidades no futuro teriam mais ou menos o mesmo peso nacional, tal a dessimetria em favor do Recife, de meio para fim do séc. XIX:

Uma vidinha estúpida aquela! pensava o estudante estendendo-se na rede. Morria-se de tédio e calor. Vieram-lhe saudades do Recife. Oh! o Recife, o Prado aos domingos, os passeios, belos piqueniques a Caxangá... Lembrou-se de sua última conquista amorosa — a Rosita, uma espanhola com quem estivera seguramente seis meses. Um peixão! Morava na Madalena. Vira-a uma vez no teatrinho da Nova Hamburgo, sozinha num camarote, muito bem vestida, com um rico leque de plumas, anéis de brilhantes, esplêndida: era argentina. Que de cerveja e ceatas e passeios de carro e pagodeiras nos hotéis! Relembrava a primeira noite que passara com a Rosita, por sinal tinha tomado muita champanha, tinha feito um figurão. A rapariga compreendeu que tratava com gente fina e entregou-se. Uma noite deliciosa! Começou por uma ceia em casa dela na Madalena, um chalezinho de porta e janela com varanda, forrado a papel sangue de boi e jardinzinho na frente. A sala de visitas era um mimo com a sua mobília mignon de assento estufado, piano, quadros do paganismo, bibelô... E a alcova? Um ninho, um perfeito ninho de amores. Zuzinha – era como ela o tratava com toda ternura, cobrindo-o de beijos, suspendendo-o nos braços como se levantasse uma criança, sentando-o no colo — ela de peignoir de fustão com fitinhas azuis, uns olhos matadores, úmidos de sensualidade, e ele à frescata, em mangas de camisa, sem colarinho – um deboche!

É, a vida em Recife parecia mais viva. Mas o próprio modo abrupto com que Zuza propõe a comparação com a acanhada Fortaleza de então aponta um pouco às suas origens:

Às seis horas da tarde já lá estava ele, no Trilho, em casa do amanuense, queixando-se da monotonia da vida cearense e gabando, com ares de fidalgo, a capital de Pernambuco. Ali, sim, a gente pode viver, pode gozar. Muito progresso, muito divertimento: corridas de cavalos, uma sociedade papa-fina muitíssimo bem-educada, magníficos arrabaldes, certo bom gosto nas toaletes, nos costumes, certas comodidades que ainda não havia no Ceará...

Ao que parece o Sr. Zuza não gosta do Ceará... disse-lhe um dia D. Terezinha.

Absolutamente não, minha senhora. Sou meio exigente em matéria de civilização; isto me parece ainda uma terra de bugres...

De bugres?!

...Sim, uma terra em que só se fala nas secas e no preço da carne verde. V. Exª compreende, não pode corresponder à expectativa de um rapaz de certa ordem, por assim dizer educado na Veneza Americana...

Deste modo o Sr. Zuza ofende os seus conterrâneos, os seus parentes...

Absolutamente não.

O que dizia é que o Recife está num plano muito superior a Fortaleza. Apenas estabelecia um paralelo.

É interessante essa ressalva final do autor: um pouco condescendente com a personagem, mas absolutamente realista em relação ao assunto. E, no atacado, o que dizem ser sombrio é, na verdade, apenas mais realista em Adolfo Caminha. Ocorre que, por temperamento, ele não suaviza nada. E de outra modo, ele só fala daquilo que conhece por dentro, com uso e vezo de uma experiência voraz e apaixonada. Caminha, entre outras, apaixonou-se pela esposa de um alferes. Foi correspondido. Passaram a viver juntos. Um escândalo na pequena Fortaleza do final do séc. XIX. Teve de renunciar a seu cargo de oficial da Marinha. E partir em definitivo para o Rio, onde passara parte dos anos de formação e estudos na Escola Naval. Tiveram duas filhas.
Quando escreve sobre homossexualismo na Marinha, em Bom-Crioulo, escreve sobre um fenômeno que sabia da existência por ter andado embarcado, e conhecido meio mundo. E inclusive compilado, em uma obra menos estudada, algumas vívidas impressões dos Estados Unidos (No País dos Ianques, 1894). Não era geografia pequena para um escritor àquela época.
Sua opção em tocar num assunto absolutamente tabu fez cair uma cortina de silêncio sobre Bom-Crioulo, onde, entre outras, há a insinuação de que alguns oficiais graduados da marinha eram homossexuais e mantinham casos com subordinados, a quem retribuíam com favores, quando embarcados. Não é pouca ousadia. Muitos daqueles críticos acadêmicos, bacharéis, um pouco empoeirados pelo vezo da classificação em escolas e a rigidez dos gêneros literários encaram essa opção temática como parte daquele apego à anomalia, ao defectivo, ao monstruoso, peculiar ao espírito naturalista. Outra impressão se tem quando se lê o livro e constata a naturalidade com que o caso entre os dois grumetes é narrado, descontados obviamente alguma observação de asco por força de época. Se essas observações ocorrem, são de todo infrequentes, no entanto. Pode-se mesmo dizer que talvez em nenhuma outra parte do planeta àquela altura falava-se de homossexualidade com a naturalidade - e não o naturalismo - presente em Bom-Crioulo²: 

Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o outro: completavam-se.
Vocês acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina.
Nunca vira dois homens gostarem-se tanto!

Há cenas da intimidade, e mesmo das carícias entre Amaro e Aleixo. Algo ousado mesmo para os padrões de hoje. Mas é custoso a críticos do Sul - ou a esses papagaios de pirata pós-modernos, que por toda parte propagam pós-estruturalismos - reconhecer que tamanha coragem, independência de espírito e ousadia tenham vindo de um escritor da suposta "periferia", do Nordeste, e bastante afetado por ideais positivistas. Quando no futuro se reler a enormidade de bobagens escritas sob os eflúvios de Barthes, Blanchot, Baudrillard, Deleuze, Derrida & Cia. talvez, então, se tenha a dimensão do ridículo que constitui no presente a absorção acrítica, em pororoca, dessas teorias. 
É mais ou menos como tornar ao passado e vislumbrar aquele entusiasmo meio doentio mas contagiante que os escritores e intelectuais nutriam pelo positivismo. E lembrar que Fortaleza, através de um grpo de rapazes formados na Faculdade de Direito do Recife e capitaneados por Rocha Lima - só alguns poucos anos antes de Caminha - foi um dos centros pioneiros na absorção do ideário positivista em língua portuguesa. Aportes teóricos que tanto tem a ver com o naturalismo em literatura. E, no entanto, ao contrário dessa festividade insípida e pouco consistente de hoje, eles realmente sabiam da matéria que tinham em mãos e do solo em que estavam pisando.³ Mais importante que isso: sabiam tecer uma solução de continuidade e chegar a uma síntese entre esse pensamento importado e os cotidianos e realidades locais. Uma tarefa de tradução diante da qual as pós-graduações de hoje deviam voltar-se para esmiuçar e aprender com, com pés no chão e um mínimo senso de humildade intelectual.
Também conta a favor de Caminha haver participado da Padaria Espiritual, sob o pseudônimo de Félix Guanabarino. E como alguém que escolhe para pseudônimo Félix ou luta por um amor comprometido, quase impossível à época, poderia ser esse misantropo caricatural que nossos velhos professores de literatura nos impingiam? Entre outras coisas, Caminha editou praticamente sozinho um jornal em seus anos de Fortaleza. Na verdade, ia dizer: em seus anos de maturidade em Fortaleza. Mas como falar em maturidade para um homem que morreu aos vinte e nove anos?
E, então, é bem mais real colher impressões da atmosfera dos arrabaldes pobres e cortiços em Fortaleza ou no Rio de Janeiro nos capítulos de Caminha que em alguma página de Manuel Antônio de Almeida ou Joaquim Manoel de Macedo, cronistas anteriores, românticos, e de uma Corte mais alegre, bonachona ou dos salões. Mas também, mesmo nas tavernas, becos e vielas de Almeida - onde há tanta graça e povo - há menos escória que em Caminha. Quer dizer, em Caminha os personagens são ainda mais pobres e relegados ao esquecimento e à desesperança: uma filha de retirantes da seca violada pelo padrinho; um filho de humildes pescadores da costa de Santa Catarina que vê na Marinha a possibilidade de fugir da miséria; uma imigrante portuguesa fazendo a vida no Rio de Janeiro; e, por fim, o pária dos párias, Amaro: homossexual, negro, pobre, ex-escravo e militar subordinado numa Marinha onde ainda imperavam pesados castigos físicos. 
Os personagens de Caminha, no entanto, tem uma rica vida interior. E, evidente, também carregada de sordidez. Parecem tramar coisas más quase o tempo inteiro, ao ruminar em torno de seus pequenos desejos egoístas ou limitadíssimos pela estreiteza da vida na faixa social reservada a eles num instante em que à classe-média baixa urbana cabia um papel um bocado mesquinho na vida do país. Ao contrário de hoje. Mas isso, no entanto, não é algo determinista ou isolado. Se dá em contíguo com alegrias, pequenas conquistas e contentamentos, na vida e no amor.
E mesmo em Caminha há humor. Um humor menos ostensivo que o temperamento geral brasileiro. E, por isso mesmo, mais abrasivo e pleno de sugestões. O momento em que a senhoria portuguesa e Aleixo fazem sexo à borda do tanque, no quintal do pequeno sobrado em Bom-Crioulo é hilário: extremamente visual e deslavadamente cômico. Mais que uma notação de roteiro, surge como o próprio filme em edição final e irrevisável. Ou antes disso quando ela - que na juventude tivera a sugestiva alcunha de Carola Bunda - praticamente deflora o jovem grumete com um calor de meio-dia em Teresina:

Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo! A mulher só faltava urrar. E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
[…]
E com fingida ternura, ameigando a voz:
-Fica, meu bonitinho, fica, junto à tua negra...

Mas há também o instante na Normalista em que João da Mata, roído de ciúmes, especula na cama se o Zuza passou ou não um bilhete à Maria do Carmo - a jovem afilhada por quem ele nutria um desejo reprimido  - por baixo da mesa do jogo de víspora. E a mulher, depois de ouvir por largo trecho a arenga, tasca um:

Homem, trate das suas hemorroidas que é melhor...
Ora, sabe que mais? Você é outra!
E deram-se as costas fazendo ranger a cama.
Com pouco ambos roncavam no discreto silêncio da alcova.
Sobre a cômoda, ao pé do oratório, ardia uma lamparina de azeite.

Adolfo Caminha vale tanto pela observação mordaz da esposa quanto pelo ranger da cama ao gesto de repelência do casal para a noite. Ou pelo ronco e o silêncio. Ele é mesmo essa lamparina de azeite acesa sobre a face menos luminosa de nossa cultura urbana. Um caldo de cultura, aliás, assaltado pelo medo. Ou que vive de janelas atrás de grades, ainda longe da propalada pós-história. A vida dura, no improviso dos cortiços, depois propagada pelo tamanho e a miséria das favelas e zonas de anomia, onde uma espécie de seleção não natural decretou que a lei do mais forte é ainda mais forte.


___________________________
¹Aliás, essa imprecisão geográfica da localização, uma falta de nitidez do cotidiano na fazenda da qual fugira Amaro é uma das evidentes debilidades de Bom-Crioulo.  É sobre isso que falamos ao nos referir a "proporções e situação" no início mesmo do texto. Pois ao contrário de Aleixo, do qual se tem esse contexto na descrição da vida de pescadores na costa catarinense; ou do que se pode presumir do Portugal de Dona Carolina; ou ainda da sina de imigrantes de Maria do Carmo e sua família, em A Normalista; o que se sabe do contexto rural de Amaro é um bocado vago, lacunar. E por outra, não é tão árduo perceber que em alguns personagens se processam verdadeiras inversões de mitos ou clichês mais ou menos naturalistas. Ou mesmo senso-comuns. Como o fato de Amaro, apesar de negro e bem constituído fisicamente - era um jovem forte, bem apessoado - não se haver revelado amante dos mais solicitados pelas mulheres, quando o clichê ainda hoje é o de que negros são mais desenvoltos na cama do que brancos - isso também se estendendo a uma suposta volúpia e maior licenciosidade da mulher negra. E, logo, Caminha opera por meio de Amaro uma verdadeira inversão de valores. Ou quebra de clichês. Ora, os africanos é que eram tidos como mais lascivos e próximos de certa fixidez sexual. (Em palavras diretas: como melhores na cama pelas mulheres, como, aliás, registra Gilberto Freyre em certo passo de Sobrados e Mocambos, numa observação sobre o Rio Grande do Sul, que bem pode ser estendida ao senso comum do Brasil inteiro àquela altura e depois. A observação, aliás, é cristalizada numa citação de Saint-Hillaire, o naturalista  - e, entenda-se, porta-voz por excelência do positivismo científico: "as índias dizem que se entregam aos de sua raça por dever;  aos brancos por interesse; e aos negros por prazer" (Cap.  VIII, p. 489). Ora Amaro, negro, mas posto na condição de mau amante de mulheres, não é precisamente algo que fere certo senso-comum da desenvoltura sexual do africano? Isso, ao invés de aproximar o ponto de vista de Caminha dos determinismos naturalistas, ou mesmo de uma dedução um tanto senso-comum,  o afasta deles. Abre a Amaro uma perspectiva que segue para além de qualquer determinismo racial ou atávico, pondo ao plano praticamente da opção a condição homossexual. Ou mesmo facultando ao arbítrio pessoal a escolha dessa orientação. E não é isso justamente o oposto dos determinismos naturalistas? Quer dizer, a visão de Caminha é excepcionalmente moderna. E há miopia em quem não assim a reconhece apenas para tentar encostá-lo aos traços gerais que caracterizam uma "escola literária".
²De outro modo, à baixa auto-estima dos escritores e críticos brasileiros e fortalezenses não ocorre supor que, de dentro da modorra provinciana de Fortaleza, aparentemente estanque, sem nenhum dinamismo mais à tona, surja  um escritor que trata de temas tão deslavadamente modernos, temas que não recebiam tratamento em nenhum outro lugar do país, ou mesmo da ex-metrópole (Portugal) e de quase qualquer outro lugar do mundo. Ou seja, algo não está nos gonzos: como surgir um escritor assim - ou um movimento como a Padaria Espiritual - se não houvesse um mínimo de dinamismo, transitividade intelectual e algum cosmopolitismo ambiente? E quem ainda virá um dia, quem sabe num futuro mais distante, perceber que devia haver algum mérito na composição social da cidade de Fortaleza, a ponto de permitir a efervescência cultural de figuras literárias desse grau de modernidade e impacto?
³Rotulados de Geração de 77 ou referidos por certa Academia Francesa do Ceará, com toda a carga cômica que isso repassa. Contavam entre seus adeptos mais destacados: Capistrano de Abreu, Araripe Júnior, Felino Barroso, Tomás Pompeu, João Lopes e Xilderico Farias, além de Rocha Lima.

sábado, 15 de setembro de 2012

Porvir (uma história romheriana)




Suzana às vezes lia os textos dele. Não que ela achasse alguma revelação ou consolo neles, apenas era o que tinha mais à mão. Especialmente quando faltava grana para ir ao próximo livro. Ou coragem para ir até a esquina comprar a Bravo! Essa, uma das poucas serventias dos blogues: suprir pequenas preguiças. Mais ou menos como ser bom supor ter por perto um supermercado 24 horas, ainda que não se vá lá a três por quatro, às três ou quatro da madrugada.
Principalmente às três. Como nos versos de Torquato.
E então Suzana às vezes lia o blogue dele, enquanto terminava de chupar o resto do iogurte na colher da sobremesa. Sequer a visão do amplo Atlântico tornado piscina serenada, na enseada, após o quebra-mar, lhe sustinha os achaques da idade. E do parque eólico junto ao porto deviam provir essas ventanias de agosto e de setembro. Desembestadas. Os cabelos de Suzana, no entanto, pouco esvoaçavam nesse vento que refresca à sombra mesmo com o dia a meio.
Desde menina, decidiu-se reclusa. Coisa que o pai, representante comercial e em constantes andanças por capitais atrás de capitais, não podia obstar-lhe: uma vida social mais estável e enérgica. Era separado, e a mulher afastara-se da vida deles por alguma razão. E então, Suzana, de costas, caída desde o encosto do sofá, refestelada, com o marca texto à mão, escolhia a frase mais ou menos barroca como a favorita da tarde, enquanto na área de serviço o canário cantava amplamente, anunciando que mais um dia sazonava no meio daquela greve, que não tinha mais fim, da universidade. E Suzana marcava textos, e imaginava o porquê de os escritores serem assim tão sórdidos, como ele se revelara num porvir que ela havia imaginado de outro jeito.
Mais precisamente em certo imeio. E logo ele, que tinha idade de ser pai dela e até parecia boa gente.
-É. Com folga. De longe – pensava agora – Deus'ulivre.
Mas Suzana tinha um porvir e planos. Uma pós-vida em uma pós-cidade, uma pós-graduação sobre um autor pós-moderno e a possibilidade de uma identidade postiça e pós-amigos, após isso. Possessa, ela fazia mil planos a posteriori. E, assim, quando os planos começavam a não dar certo na sua imaginação, ela desandava a enviar mensagens do smartphone sempre ao alcance de um toque. E em sessenta e quatro por cento dos casos era respondida. Pós-imaginação. Quase de imediato. E então meio que enviava uma foto com a nova pintura da unha do dedinho do pé. 
Mas, às vezes, não podia evitar de voltar-se sobre as próprias curvas. E, então, entregava-se à imaginação, à lassidão gozosa e às carícias auto. Grunhia baixinho, suave, se os vizinhos mais barulhentos entrassem em inesperado armistício. E o silêncio, como um devoto, ajoelhasse sobre o vão da sala e colhesse, em pleno quarto andar, os gemidos dela como se colhe amoras, e pusesse dentro de um ex-voto.
Mas e a escrita dele? Essa não entrava nessas posteridades desterritorializadas. E era apenas como o quê? Como a borra do iogurte na colher de sobremesa, que ela lambia lentamente enquanto o fade derretia tarde na câmera da estival primavera em que estavam condenados a viver.
Um dia encontraram-se à Beira Mar. Um pouco remotamente. E caminharam para lá e para cá. Como se faz. Quando não se tem mais uma tela entre. Lá e cá. Uma cela.
Uma tela, aliás, sempre nos deixa menos no prejuízo. E imediatamente depois de uns poucos blagues, ele logo começou a rir mais amarelo do que o uniforme número três do Palmeiras. Sozinho. Quem manda: na vida real não existem undos. Ela? Comprou um acarajé e discorreu sobre seus anos na França e uma amiga em comum:
Mesmo com pouca pimenta, tá pegando.
Ele apontou algumas coisas. Lá e cá. O velho edifício em forma de navio em que havia morado nos anos 90. Como era isso, aquilo. Como aqueloutro era animado:
Aqueloutro? – Suzana indagou.
É, Aqueloutro. Nunca ouviu falar?
Eu não – ela disse.
Puxa, é isso mesmo: não é do seu tempo, não, Suzie. Mas era um barzinho muito decente, viu? E o Sá Júnior servia nas mesas do Aqueloutro, e coisa e tal. E o Baleia... Não. O Baleia, não. Era só no Estoril.
E quem ia no Aqueloutro? – ela perguntou disfarçando certo tédio-ambiente. Não queria encompridar conversa, e, entretanto, não sabia abreviá-la com bisturi mais súbito.
E então a coisa ia longa: a que horas abria o Aqueloutro. Quem frequentava o bar famoso (além dele, claro). O que tocava. Que músicos iam por lá. Quem pintou o painel. Em que ano foi ampliado. As meninas que sorriam, acenando, desde o mezanino...E até o dia em que ele disse para o Cariry, ambos mortos de bêbados, que todo grande cineasta termina em -berg: como Rosemberg e Spielberg. E análogas sandices.
Ela ouvia enfastiada, mas fazendo ouvidos de interesse – não houvesse certa mercancia em volta da coisa – só para não contrariá-lo. E, quando ele não estava olhando, fixava aquelas entradas na testa, desolada, e os grisalhos. Cheia de fascínios. Mas era algo mais da ordem da mãe. E da filha. E da estudante marca-textos. E que mulher não porta mãe, filha e estudante marca-textos ao se esquecer de si?
Verdade: mal conseguia explicar o tesão que lhe davam os grisalhos dele.
E, entretantos, a coisa parava ali. Bem ali. Pois bem podia dissociar entre os grisalhos e ele. E entre ele e carícias menos públicas. Ele, no entanto, queria carícias mais púbicas. Ou pelo menos mais púbicas. Queria era beijar o cu dela, e, adiante, empreender uma ruma de outras fundas sacanagens. 
Ela, todavia, sonhava mesmo era com outro. Um sujeito jovem, suave, tímido, de cabelinho crespo, que deitava a cabeça no colo dela e ficava em silêncio. Um tempão. Não precisava lançar mão de tantas palavras. Ou tocar em tantos assuntos. Ou se tocava, era violino. Mas não, não gostava de poesia, embora o pai deste, do violinista, que cometera versinhos mais ou menos ao tempo em que tinha a idade dela, possuísse uma até vasta biblioteca.
Agora, pra falar a verdade, cores, embora emotivas, não correspondem à necessidade sólida de um bem querer. Afinal, amor que fica, não é amor de apostilha, como é sabido. Mesmo em tempos de greve.
Grave essa! – disse Suzana baixinho, passando o marca texto na frase acima – “amor que fica...amor que fica, não é amor de apostilha, como é sabido. Mesmo em tempos de greve” – repetiu em certo tom de sonho, supinamente recostada no sofá, os olhos comprimidos como espátulas.
E o mais, era só a repulsa que aquela figura de meia-idade, ensimesmada, professoral, ventre ligeiramente proeminente, muitos pelos avulsos do pescoço às orelhas, podia causar numa recém-pós-adolescente, que gostava de marcar textos, enviar mensagens, escrever diários,

enquanto seu lobo não vinha.

domingo, 24 de junho de 2012

Dois sinais na perna esquerda de um n caído para a esquerda


A Promenade, o calçadão à beira-mar em Split

A Placa (ou Stradun), emDubrovnik, pérola do Adriático

Duas cidades na Dalmácia concluídas numa frase 
Oliveira, vinha, montanha, mar: o litoral mais belo da Europa

A Croácia é um N em direção ao Noroeste. A perna esquerda desse N caído segue, por sinal, roída. Ou foi mal apagada: desfaz-se em farelos. Esses farelos estão na água: são ilhas. Elas são mais de mil. Perto de uma dessas ilhas está Split, na costa da Dalmácia. Perto de outra, Dubrovnik [os croatas pronunciam proparoxitando: Dúbrovnik].

Split, que é a maior cidade da Dalmácia, vem de um colônia grega, Spalatos. Mas seu núcleo central remete a um palácio mandado erguer pelo Imperador Diocleciano, no séc. IV d.C. Hoje em dia, dentro do que foi esse palácio erguem-se cafés, lojas e até a catedral da cidade. A baía é um mimo. E a avenida peonal à beira dela, a Promenade, um projeto exemplar. Essas cidades guardam algo de uma escala urbana que desconhecemos. Quer dizer, onde há muita urbanidade dentro de pouca área e ao longo de toda ela. É uma concentração de serviços uniforme, inversa ao de nossas metrópoles imensas, caóticas, desiguais.
Split não conta com mais de 800.000 habitantes. Mas isso na conurbação. A cidade em si é muito menor. E, contudo, há museus e boa arquitetura para o lado em que se teimar ir. E para qualquer lado onde se vá, montanhas suaves metidas em entradas de banho. A colina mais alta, junto ao porto, chama-se Marjane. E há essa canção, muito popular entre os partisans iugoslavos da Segunda Guerra, que é cantada até hoje: "Marjane, Marjane".
Num enclave, 230 km mais ao sul, vem o clímax: Dubrovinik, a Pérola do Adriático. É não menos conhecida pelos antigos como Ragusa, cidade-estado satelizada por Veneza, mas que chegou a competir com a metrópole à época em que a rota das especiarias fazia a glória do Mediterrâneo.
Pela força de sua astúcia, Ragusa sobreviveu séculos entre grandes potências - como a República de Veneza, o Império Otomano ou o Império Austro-Húngaro. Seu corpo diplomático fez história. Fortunas cumularam-se nos porões. Dubrovinik recebeu um considerável contingente de judeus portugueses no sec. XVI. A sinagoga – que é ainda referida por “sinagoga” (como em Amsterdã ainda há a “esnoga”) - guarda referências dessa migração sefardí. E Dubrovnik, apesar de haver sido destruída por um terremoto no sec. XVI e atingida por bombardeios na Guerra de Independência (1992), constitui um dos mais orgânicos e admiráveis exemplos de cidade medieval murada, na Europa.
Com não mais de 50.000 habitantes, a pequena cidade – que, não obstante, é servida por um aeroporto internacional - triplica de população no verão, quando é literalmente tomada de assalto por alemães, italianos e ingleses, sedentos pelo sol, pelas praias esplêndidas - de seixos ao fundo e água cristalina.
A Placa (ou Stradun), como é conhecida a rua principal da cidadela, em Dubrovinik, não tem mais de três quarteirões. Porém constantemente palmilhados por hordas e hordas de turistas, a ponto de haverem polido as pedras calcárias que revestem o leito da rua. Toda a parte antiga é vedada à circulação de veículos. De um lado das muralhas, barcos e iates oscilam suave na calma baía. No oposto - pois a cidadela ocupa uma pequena península - as ondas quebram violentamente contra as muralhas que escalam os arrecifes. Adiante há ilhas alflorando no mar. E montanhas do lado do continente, por onde também se espalha a zona mais moderna da cidade. Alguém bem-humorado, certamente visando a combinação entre montanha, mar e outras formas rotundas, rebatizou uma das praias circunvizinhas de Copacabana.
Mas, se falta algo da alegre solaridade tropical do Rio a essas praias recortadas e crespas - como decerto sobra algo ao risco comportado do biquíni das garotas locais - a paisagem ao longo do litoral de Split e Dubrovinik, estendendo-se até a Baía de Kotor, já em Montenegro, com suas ilhas, enseadas, istmos, golfos, canais, angras, estreitos e penínsulas, sitiados por montanhas e dominados por antigas cidadelas medievais - onde sobressaem e sobrepassam-se torres e campanários (ou ainda ruínas romanas e gregas) - é de descoser a tênue linha entre sonho e vigília, quando o sol é suave; seja ao fim da tarde, seja principalmente ao amanhecer, que acerca as praias desde a silhueta das colinas.


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Nota - havia lido muitos tuítos ao longo da tarde deste sábado, ao mesmo tempo em que dava uma espiada no jogo da Eurocopa (Espanha 2x0 França). Aí, cansado do tanto de esforço - de resto inútil - que as pessoas fazem para soarem lapidares, epigramáticas no Twitter, veio essa necessidade de escrever um texto em que pudesse jogar o pensamento numa frase longa. Como a última do texto acima, que ocupa um parágrafo inteiro. Pois as pessoas parecem esquecer que mesmo o estilo conciso, quando jogado de qualquer jeito (ou seja, quando mal jogado), apenas aborrece. E que escritores como W. G. Sebald esticam-se por períodos que seguem por páginas e mais páginas. E é o que há de delicioso, por exemplo, quando se lê um desses cronistas do Quinhentos. As frases parecem não ter fim. E, logo, não fazer sentido. Mas, do contrário, fazem muito. Fazem todo. E o que não faz sentido é nossa incapacidade de perceber e acompanhar o sentido de uma frase longa e bem lastrada. Isso compele. E nos leva adiante. E talvez seja uma maneira de lembrar - numa feição análoga, aliás, aos planos-sequências de Bela Tarr - que a frase curta é apenas um dos veículos da elegância e da concisão. E que essa mesma concisão e essa idêntica elegância podem ser atingidas por frases que parecem não ter fim. Quer dizer, não é o tamanho da frase o que determina a concisão e a elegância. Mas o ritmo dela. Seu modo de dispor-se. Sua disposição. Sua relação com as outras frases e a totalidade do texto. Eis porque cansa ler textos jornalísticos hoje em dia. Eles estão tão vendidos à necessidade da inteligibilidade, da economia de tempo e espaço, da exatidão, à serviço da informação e da comunicação mais rasteiras e imediatas, que não há mais lugar algum para o calor de um pensamento menos entregue à venda. Mais misterioso, místico, intuitivo. Mais sinestésico. Perto do coração selvagem. 

quarta-feira, 28 de março de 2012

Dos Novos Malls e a Partir

Pedestres chegando e saindo de um shopping em Vilnius, Lituânia

Em Amsterdã, o estacionamento de bicicletas do Piazza Shopping é subterrâneo

Na Europa, na China, shoppings que privilegiam pedestres e ciclistas, abertos ao exterior, em interação com a vizinhança, suplementados por moradias, com amplos e seguros estacionamentos para bicicletas, integrados aos corredores de transporte público - à base de metrôs, bondes, vlt's, monotrilhos, ônibus elétricos - lançando mão de energias limpas, renováveis, captando água de chuva, são a tendência. Espaços que se pode atravessar a pé, sentindo a brisa nas árvores ou o sol da manhã, como numa calçada de bairro. Que quando acabamos de perfazê-los, caímos de novo na cidade quase sem sentir. Que abrem-se permanentemente para a cidade, e estão longe de serem mônadas.


Por que insistimos no modelo de shoppings de estilo americano: segregados, ultrapassados, privilegiando o automóvel; ilhas fechadas sobre si mesmas, e cedendo, ao invés de parques e praças, estacionamentos, que são pontos cegos noite alta, madrugada e boa parte da manhã? No Chile, país que já tem um padrão de vida análogo ao europeu – lá já se pode por exemplo beber água da torneira, primeiro indício – esboçam-se soluções diferentes.

A ressalva é a de que mesmo na Europa, a proliferação desses novos shoppings é tendência recente. E ainda se constroem muitos malls de padrão americano. Mas seria estupendo que se começasse a construir centros de comércio desse tipo por aqui. E, o máximo possível, adaptados às circunstâncias locais, quando se tem tudo à volta e à vista: sol, vento, chuvas (na primeira parte do ano); nenhum problema com frio ou necessidade de calefação, etc. Relevo pouco acidentado, favorável ao ciclismo urbano. E logo necessitaríamos apenas criar mais sombra de árvores ao longo das vias para atenuar os excessos de sol e calor. Já para o interior dos edifícios, espanta, por exemplo, o fato de ainda não se ter desenvolvido um sistema de condicionamento de ar mais eficiente e natural, que dispenda menos energia.

De outro modo, tanta ênfase se pôs no carro e no caminhão que os penalizados são os que mereciam mais incentivos. De um lado, pedestres, ciclistas e motociclistas – justamente os que morrem como piolhos no tráfego de veículos das grandes cidades. De outro, praticamente não há transporte ferroviário e hidroviário para passageiros no país. Isso para não falar que o de cargas é irrisório.

No caso de Fortaleza, passa a medida de nossa inércia que ninguém haja ao menos estudado a viabilidade de ferryboats, catamarãs ou lanchas de transporte de passageiros modernas, seguras, de boa velocidade e conforto, que pudessem cobrir um percurso como Porto das Dunas/Centro com paradas no Mucuripe, Meireles, Praia de Iracema. No Oeste pode-se pensar em Icaraí/Centro ou mesmo, numa linha mais estendida Pecém/Centro. Não seria uma forma muito mais bela de fazer esse trajeto diariamente. E muito menos estressante? Não iria desafogar um bocado o trânsito, desde que houvesse ancoradouros em pontos estratégicos, como Eusébio, Sabiaguaba, Cumbuco e Barra do Ceará, por exemplo? Mas isso não é sequer cogitado. Assim como ciclovias de verdade e uma ampla implantação do vlt – mesmo que já se tenha uma indústria que os fabrica, no sul do estado. E o vlt é solução muito mais barata e requer menos preparo de implantação, menos intervenções urbanas, que o metrô. É necessário apenas estudar bem onde e como implantá-lo. Ainda assim, seguimos marcando passo com automóveis numa ponta e ônibus lotados e ineficientes na outra. E, como sempre, apenas copiando. Copiando. Copiando desesperadamente, no piloto automático e nem sempre as melhores soluções. Sem qualquer possibilidade de inventar nossas próprias soluções. 
Porque fomos educados para isso. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Aos Leitores em Agradecimento

Robin Rhode, 2004

Conversa Mais Intransferível

Apesar de bater muito pouco tambor, AFETIVAGEM segue para seu mês mais lido desde maio de 2009 – que é também desde quando tenho estatísticas. 

Como já notaram o blogue virou algo meio atemporal. Uma espécie de almoxarifado de textos. Só o que escrevo de mais técnico ou pessoal não vai aqui. Os textos, na medida do possível, são redigidos com a proposta livro no horizonte. A cortejam. E os comentários voltaram. Desde o Natal para já, houve leitores deixando comentários a posts de 2008, 2009. Achei isso muito bacana. Sinal que os textos não envelheceram.

De outro modo, abri mão de escrever para jornais há mais de cinco anos.

Quando comecei a publicar em jornal, no início mesmo da década de 90, o jornal ainda era jornal e posto em papel. Era central, centrífugo, hegemônico, monopólico, concentrava a leitura de toda uma cidade, um estado, um país – a depender de sua proposta, alcance. Hoje, o jornal é só mais um na miríade de modos de informar-se, colher dados para refletir. E acompanhei de perto essa metamorfose. As vantagens do blogue sobre o jornal – particularmente para um articulista – são tremendas. Publica-se o que se quer e bem entende. Pode-se priorizar o que é pouco lido. Ou editar o texto a posteriori. Pode-se limpá-lo de seus excessos, acrescer aspectos que não vieram ao crivo de uma escrita mais fluxo. Ou ainda ilustrá-lo exatamente com o que se quer, sem depender de editorias de imagem ou dos arquivos iconográficos do jornal que hoje são inequivocamente limitados. 

Pode-se cultivar elisões por igual. E dar a mostra do a que se vem apenas pelo que segue publicado, sem necessidade de editoriais ou programas.

Sigo, enfim, muito feliz de manter um blogue que segue para o sexto ano e nos últimos dois teve um total de mais de 60.000 páginas visitadas. Parece pouco. Não é. Hoje em dia, o artigo fino, a especiaria que todos buscam se chama ATENÇÃO. E, mais que evidente, há uma imensa disponibilidade de bons textos, sobre os mais diversos assuntos, rede afora. Então, se você insiste em vir por aqui, é porque repartimos algo. E deve haver algo de bom nesse algo. 

Notem, por igual, que não há um só vídeo publicado diretamente no corpo das postagens nestes cinco anos de AFETIVAGEMO blogue foi também recomendado pelo MEC e por uma comissão de cultura da União Europeia em que curiosamente está incorporado com sendo francês (vá pensando!); além de haver caído nas graças de alguns arquitetos (o que é sempre um ótimo aval!). 

Gostaria também de sublinhar a presença de gente ligada a cinema, a publicidade bem como de amigos que escrevem e/ou ensinam, são muito ocupados e ainda guardam disposição de vir por aqui. E, em especial, de jornalistas - e entre estes alguns ex-alunos - cujo tempo e talento são vampirizados pelas respectivas editorias, e os quais podem se sentir criticados; quando o que se critica, no entanto, não são indivíduos, mas antes modos, rotinas, procedimentos de trabalho e o que resulta disso. E, logo, muito mais os admiro pela difícil escolha num meio rarefeito, extremamente alérgico à criatividade, ao talento,  à autonomia, etc.

Grato a todos.

Um abraço!


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Na República do Essencial

[s/i/c]


A Revolução Tranquila [¹]

As motocicletas estão chegando. Primeiro aos poucos. Depois, nem tanto. O sol ainda não saiu. A república do essencial conversa a observar a nova cidade que está sendo erguida. Ela é feita pelas mãos de alguns dos motociclistas. O que produzimos é secundário diante dessa essencialidade que é morar. Ter uma gruta. Toldo mais bem fechado a zíper de tijolos, que deixa de fora chuvas e ventos.
Você ouve os barulhos da cidade. E eles, de momento, são de marretas, maçaricos, bombas, betoneiras.
Um dia futuro dirão que vivemos os tempos da inocência digital. Da segunda ilustração. Da segunda Renascença. Tempo de partilhas e delicadezas. De enciclopédias livres, arquivos de música e imagem à disposição do usuário da Sibéria à Patagônia. E duas décadas em que a disciplina capitalista penou para pôr preços nisso tudo e segmentar melhor uma mercadoria ainda mais abstrata. Em que a ilustração esteve mais à mão de todos, justo porque o mercado deu com uma mercadoria ainda mais dobrada sobre si. Colhido de surpresa diante do inesperado. Do imponderável. Do impossível de se tocar com a ponta dos dedos. E, despreparado, assistiu a derrocada de impérios da música. E pop-stars serem atropelados pelo dinheiro dos jogadores de futebol.
E foi nesse ínterim que o Brasil viveu sua revolução.
Ainda ontem, caminhando supermarcado pelo sol da manhã, do supermercado para casa, ao passar em frente a uma de todas as construções que se erguem por um bairro que mais se assemelha a um canteiro de obras, aquele enxame de motocicletas. Bem podia ser uma convenção de motociclistas. Mas não. Eram as motocicletas dos peões da obra, Hells Angels vindos da Jurema, de Maracanaú. Eles agora podem comprá-las, revendê-las. Passear nelas nas horas de folga. E a cidade segue entupindo-se de veículos até o gargalo do gargalo.
A classe-média, nova ou velha, reluz seus lustrosos zeros quilômetros ao sol. Ostenta seus iphones. E muito se tem falado dos malefícios dessa verdadeira explosão automobilística, total falta de infra-estrutura dos transportes públicos ou da ubíqua superfluidade da informação. No Dia Mundial Sem Carro, vereadores seguiram de bicicleta para a Câmara. Como são abnegados! Eles fazem isso uma vez por ano. Embora ninguém noticie como eles chegam até a Praça da Imprensa para, então, devidamente sob as câmeras dos canais de TV, tomar seu legislativo rumo. 
Logo, efetivamente, quase nada se tem feito. Tanto no plano pessoal – pois mesmo os que reclamam do automóvel ou da informação supranumerária são seus usu(r)ários mais recorrentes (e até que ponto é possível deixar de sê-lo?) – quanto, o que é bem pior, no plano coletivo.
Os sistemas de metrô são irrisórios. Os já implantados, tímidos, mesquinhos diante da monstruosa escala das megacidades, como em São Paulo. Do Rio, nem falar: ainda uma incipiência. Ou, quando em construção, eles estão mais para poços de pré-sal da corrupção e procrastinação, que beiram certo sado-masoquismo masturbatório tão a gosto de nossa ilustrada elite, como em Brasília ou Fortaleza.
Não há ciclovias. Ou vontade política de tomá-las a sério. Tanto por parte da população, como do poder público. E haveria categoria profissional mais acomodada, pouco criativa e preguiçosa que a dos estudantes universitários? Eles morrem para ir às aulas de carro: por que reclamariam ciclovias ou boicotariam automóveis? Por que seriam criativos entre si e consignariam uma extensa rede de caronas solidárias ao mesmo tempo que formariam comissões para pressionar rotundos deputados e vereadores nas respectivas Assembleias e Câmaras? Por que pressionariam por metrôs, tramways, vlts, corredores de ônibus articulados? E há tempo para isso, se todos posam de personalidade no Twitter, a revelar ao mundo a que horas voaram para Recife ou foram passar o feriado no Porto das Dunas? Ou o que ganharam na promoção da Peugeot? [²] Quanto tempo até considerarem que as coisas realmente relevantes feitas na vida de cada ser humano não podem ser postas num CV? Ou qual o mérito de tantos encontros e colóquios país afora se a vida fica do lado de fora dessas conversas?
No plano da informação, tome-se um portal como O Uol e verifique-se o quanto ele amoldou-se ao gosto mais amplo e plano da recém-classe média. Ou o quanto há de supérfluo e tabela de consumo no leque de informação que ostenta na sua folha de rosto: “Teste para cheerleaders corintianas tem fanatismo, tombos e código para boas meninas”; “Estimular cérebro com eletricidade acelera aprendizado, diz estudo”, “Análise mostra as semelhanças entre iPad 2 e Galaxy Tab”; “Casados, Paulo Vilhena e Thaila vivem em casas separadas”; “Gigantes, girafas se abaixam para comer nas mãos do tratador”; “Em Fina Estampa, Antenor rouba beijo de Patrícia” “Falta de vacinação de adultos impulsiona surto de coqueluche”; “Rihanna vai até a sacada de hotel no Rio usando pijamas”.
Poderia ser diferente?
Outrossim, todos sabemos que enquanto cérebros são estimulados pela eletricidade; parlamentares de siglas obscuras preenchem sua cota de segundo escalão com afilhados sem preparo profissional; girafas se abaixam para comer; Antenor rouba um beijo de Patrícia; posseiros são mortos como piolhos no sul do Pará; e Riahanna e seu pijama deslocam-se até a sacada do hotel carioca; uma revolução silenciosa se processa país afora. Uma revolução que atravessa todo o dia o país. Aparentemente de pijama. Mas paramos muito pouco para nos dar conta dela. Ainda que, por sua conta, dentro em breve, categorias profissionais inteiras, como a das empregadas domésticas, sigam desaparecendo.
Uma das luzes cultivadas nas brenhas dos anos de chumbo foi o cuidado que os militares – os mais esclarecidos dentre eles, é verdade, como Golbery & Cia – tiveram com a infra-estrutura. Rasgaram estradas. Construíram hidrelétricas. Modernizaram portos. Ergueram e ampliaram aeroportos. Deram deciso impulso à nossa indústria aeronáutica - que é, hoje, uma das mais sofisticadas e competitivas do planeta. Fomentaram projetos estratégicos que possibilitaram ao Nordeste e ao Norte uma industrialização e um crescimento que segue, de momento, acima da média do país – casos de Pernambuco e do Ceará, que cresceram mais de 8%, em 2010. Então, parece óbvio: o principal gargalo a entravar um crescimento mais amplo e equitativo da república brasileira é, de momento, a morosidade, os entraves, a corrupção e a degradação ambiental em torno dos projetos de infra-estrutura, que simplesmente andam a passo de tartaruga. E é essa incapacidade de infraestuturar-se que impede um crescimento e uma expansão ainda mais dinâmica da economia brasileira.
O império do kitsch, o denuncismo profuso como herança de uma esquerda que já não tem uma ditadura para culpar (embora não haja dado conta disso), o crédito pequeno e fácil, o portentoso enriquecimento de poucos, o suor de muitos. O carreirismo desenfreado, o pseudointelectualismo na academia, a rigidez dos títulos, a complacência da teoria. A teoria a serviço de si mesma. A inadequação de teorias e categorias importadas acriticamente. De todo um mundo incapaz de seguir para além dos muros do campus – ainda que esses sejam acossados pelos medonhos condomínios verticais, que sobre eles debruçam seus estacionamentos alpendrados e indigentes áreas de lazer para uma infância cada vez mais sequestrada ao rio, à flora, à fauna, ao futebol de várzea, ao quintal, ao açude, ao curral, à serra, ou à lenta comunidade das farinhadas e despescas.
Quanto mais houver espaço para a suavização das desigualdades regionais e sociais, todos sairão ganhando. Ainda sob a égide da perda de delicadas formas regionais de fala, escuta e convivências. Se o modo de se atingir isso passa por certas degradações temporárias – tanto estruturais quanto culturais –, elas não devem, no entanto, passar incólumes, sem escrutínio. E nesse entreato, é necessário que Shakira e Luan Santana, Claudia Leitte e Restart, Michel Teló e Nx Zero comandem a folia, e toquem até os dígitos se confundirem e emergir um terceiro excluído: uma classe média que, devidamente educada, inclusive musicalmente, resolva destruir seus antigos ídolos de barro e parca coreografia. 
A classe C, motor dessa revolução silenciosa, ao atingir ser consumidora, também sofisticará, progressiva e penosamente, seus gostos. Pacotes turísticos para os Estados Unidos, Iquitos, Bariloche, Aruba. O sabor da uvaia, do mirtilo, dos bombons de cupuaçu, do alfajor. O estilo de mise-en-scène das telenovelas. As posturas do Pilates. A conjugação de certos verbos irregulares em francês. Mais além, fará pressão por melhores escolas, hospitais, transporte. Porque efetivamente precisará – por vezes desesperadamente – disso. De forma concreta. 
Uma das fontes de esperança do país está investida nessa necessidade. Nessas mulheres que, graças a seu próprio suor, são cada vez menos faxineiras, cozinheiras. São independentes e guerreiras. Nesses homens que fazem cada vez menos biscate e passeiam certa auto-suficiência sobre motocicletas. Até que a curva do consumo estabilize uma classe. E conquistas se convertam em rematada acomodação nova-rica. Como no Québec, na Espanha, em Portugal.
O problema não é bem esse, no entanto. Desde que nossa criatividade vem de, com alguma sorte e algum improviso (às vezes involuntário), não sermos “cópias”, “traduções” ou "decalques" dessas velhas sociedades europeias, mas um derivativo de luz bem mais própria e com possibilidades muito mais amplas de descontinuá-las.[³]


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[¹] É por tudo isso que a expressão Revolução Tranquila [Révolution tranquile ou Quiet Revolution], utilizada para designar os movimentos modernizadores -- ou pós-modernizadores, se o gosto do freguês vem por Lyotard -- do Québec na década de 60, rompendo com anos de imobilismo oligárquico comandada pelo personalismo de Maurice DuPlessis e pela ala mais reacionária da Igreja Católica, cai como uma luva para designar dois momentos recentes, imbrincados, que experienciamos na carne e no espírito, atônitos: a própria revolução digital e a revolução brasileira, as quais abriram as perspectivas de consumo (inclusive cultural) e interação a milhões de pessoas. Isso não implica, no entanto, que ambas (e muito especialmente a segunda) tenham sido oceanos pacíficos nos sete mares da política convivência. Mas de os efeitos alcançados -- a despeito de enormes, grotescas imperfeições -- não comportarem, em seu processo, os grandes gestos palinódicos e sectários ou a sangrenta violência dos processos revolucionários do século passado. A violência, claro, está lá. Mas com outros rostos. E, com um pouco de sorte, sem o personalismo fascisto-comunistóide dos ridículos ditadores, grandes timoneiros. A revolução brasileira, a despeito das bases econômicas lançadas por PSDB's e PT's será, sempre e acima de tudo, uma conquista das classes indigentes, que passaram a consumidoras muito mais por esforço próprio e ao largo do assistencialismo das políticas públicas. Elas revelam, de outro modo, o imenso, subestimado potencial empreendedor da feirante que vende confecções, da sacoleira, do pequeno empresário, do comerciante do subúrbio, do mototaxista, etc.

[²] Ao que parece o que os jovens almejam no Twitter e outras rendas sociais são formas de comunicação outras, desesperadamente novas, que buscam codificação e cifra a todo custo, e que ainda não entendemos. E, portanto, tudo que se diz sobre elas parece precipitado, no mínimo. Que há nelas largo coeficiente de escapismo [do tipo "Inocentes do Leblon"] e matéria datada -- prestes a ser convertida em cemitérios e nostalgia -- no entanto, disso ninguém duvida. Pode-se ter essa sensação ao passar por redes sociais que começam a cair em desuso, como o Orkut - um insucesso em quase qualquer lugar à exceção da Índia e do Brasil. Ou então, quando, numa rede social, chega-se ao perfil de alguém que já morreu e, logo, dá-se aquele estranho contraste entre a supérflua imediatez das mensagens e a inexorabilidade da morte. Pois um dos aspectos mais atraentes nas novas mídias é a possibilidade praticamente universalizada de reverter processos e efeitos.

[³]Ou seja, de descontinuá-las para melhor, pois alguns de nossos traços históricos e culturais já nos asseguraram melhores trunfos societários em alguns aspectos. A miscigenação étnica, cultural é algo no qual estamos anos-luz à frente deles. É algo original e nosso, quando se pensa na xenofobia, na má-vontade de aceitar a outridade -- caso entre outros da forma torpe como é conduzida a convivência com os imigrantes, em particular os muçulmanos na França e um pouco por toda parte --, no avanço dos partidos de extrema-direita por todo a Europa. Ou no crescente receio dos Estados Unidos diante dos imigrantes latinos. Ou no recente massacre na Noruega. Quando se pensa que um dos maiores porta-vozes da cultura brasileira, Machado de Assis, é considerado "o maior escritor negro" pelo renomado crítico norte-americano Harold Bloom se colhe a exata noção disso. Não há espaço na mentalidade norte-americana para a categoria mulato -- ao menos como nós a entendemos. Quer dizer, existe a palavra em inglês [mulatto], mas ela reverbera outras coisas. Diferentes das que ecoa para nós. Há um forte receio de miscigenação ao redor da palavra mulato em inglês. Há um desejo de que ela seja sinônima de híbrido -- já que o híbrido não reproduz. Esse receio, como bem ensina Gilberto Freyre, já perdemos há muito tempo. Foi isso, aliás, o que possibilitou, já há cem anos atrás, que o maior expoente de nossa cultura, literariamente falando, seja um mulato. E isso dá testemunho do vigor que ela irradia.  


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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Anyone for tennis?

 
Martin Elliott, 1976


Alguns segundos de tênis e outros duelos entre os que urinam contra a parede


Há as partidas de duplas, e as de duplas mistas. Quem liga para elas? O tênis é um esporte sozinho, mas naquele estar só a dois de que nos fala Beckett. E provavelmente um das modalidades em que o caráter dos jogadores sobrevem à flor da pele. Ele é uma conversa. É claro que ele não é sozinho ao modo do golfe, onde há um homem, um taco e buracos. Ou, em outra sala, na arqueria: um alvo, arcos, maçãs, Guilhemes Tells e flechas.

O tênis é um duelo. Ele tem muito mais de contenda, desafio. Um desagravo entre dois seres humanos, que, por vezes, até se olham nos olhos, pois eles não estão velados, como na Fórmula-1. Ou olham na mesma direção, como no tiro ao alvo. E os tenistas permanentemente dão a cara à câmera. E, ao contrário do futebol, a câmera os toma tão de mais perto que cada mínimo gesto é tradução mais esforçada do que vai pela mente. Se contra-atacam em cabal desfaçatez, há um retardo no ocultar a intenção até o golpe da raquete largar o drop shot – a famosa deixadinha – provocando aquele supremo desespero no adversário, que dispara, feito um cachorro atrás do graveto, da linha de base na direção da rede, resvalando pelo saibro, resfolegando, abrindo pequenas clareiras no pó de ladrilho. E isso manifesta, no caso de o golpe bem aplicado – a bola baixa, sem peso, ao modo de uma folha seca – algo análogo ao blefe na milimétrica fleuma do pôquer.
O tênis é um pôquer sem ser em torno de uma mesa, não jogado com cartas de baralho ou por meio apenas de caras, bocas, esgares. Mais importante que essas circunstâncias – pois acentua sua característica de duelo –, a gente o joga contra um só adversário. Nesse último ponto se pode principiar a prospectar seu rubro veio de duelo. E é o que o aproxima daqueles ajustes de contas ao pôr-do-sol nas poeirentas vielas do Velho Oeste que, à sua vez, são uma reatualização das justas e torneios medievais, que à sua vez são uma reatualização de vendetas tribais, que à sua vez.
No campo do esporte, as touradas e o tênis são os mais dignos sucedâneos desses “à sua vez”.
Pode-se contrargumentar: “ah, mas não: há o boxe, o vale-tudo, a esgrima, a capoeira, as artes marciais orientais, a luta greco-romana”. Afinal, aparentemente ao menos, todas essas modalidades seriam também duelos. Dentre elas, no entanto, é o boxe a que mais se aproxima do sangue-frio do duelo, seja pelo conversar por gestos, tendões e músculos, feito no tênis, seja no arriscado enfrentamento entre homem e animal, feito na tourada.
E, no entanto, quão diferente é o boxe em essência. Não se pode bater abaixo da linha da cintura. Há uma série de regras que fazem dos pugilistas verdadeiros gentlemen. Polidos ao excesso, ainda que com os supercílios esfolados, as narinas sangrando ou aqueles inchaços nos olhos. Ou ao redor da boca, que, então, mais se assemelha à de um símio, pela protuberância do protetor dental além dos hematomas. Acima dos narizes amassados --- e por vezes, recheados de chumaços de algodão, onde o sangue embebe e coalha --- há, sobretudo, as mentes limpas de dois cavalheiros. Basta assistir Fat City (Cidade das Ilusões, 1972) de John Huston para se aperceber disso. O quão no boxe o duelo é muito mais consigo próprio que no tênis, na tourada. Há uma espécie de estoicismo que está à base desse negócio de pugilato. E há aquela lendária cena em que após urinar sangue, o veterano lutador mexicano, derrotado, vergado pelo peso dos anos, e no entanto composto, extremamente alinhado, com a solenidade de um cavaleiro andante desce ao saguão do hotel caminhando sua pavorosa solidão -- a dos losers -- e aquela resignação elegante que transcende a sanha do duelista, e é de uma dignidade a toda prova.
Jorge Luis Borges chorava em westerns. E principalmente em filmes onde havia duelos com armas brancas: “ninguém mais sabe dimensionar a beleza disso; o heroísmo disso”, dizia, aos prantos.
Todos os outros embates, afora o boxe – que é, em verdade, o duelo de um só – sequer chegam perto do tênis e da tourada. E assim podem facilmente, facilmente ser descartados enquanto duelos. O vale–tudo semelha uma rinha de galos. Ou mais propriamente uma luta entre colegiais. Em noites de mais desjeito, sugere uma briga entre meninas à hora do recreio, daquelas onde valem unhas, dentadas, caras feias, puxar cabelos e os infames gritinhos, onde surtem insultos histéricos --- do tipo: "bicha feia" --- que fazem a delícia da meninada quando se tem seis anos. E é mesmo uma das maiores demarcações da sensualidade que irá aflorar com todas suas profusas cores na puberdade. Já antecipam algo do Johnny Guitar, de Ray. Mas definitivamente não são duelos.
A esgrima é uma Fórmula-1 com floretes e sem ronco de motores. Como na F-1 não se vê algo essencial: a reação facial dos contendores. O fato de estarem amarrados pelas costas também aproxima os esgrimistas daqueles fantoches que os titereiros comandam ao bel-prazer de seus cordeis e humores.
A capoeira, como sabemos, é muito mais uma dança acrobática. Deriva de rituais de trabalho. Da necessidade de espantar do corpo, primeiro com um espasmo, depois com movimentos de uma coordenação quase encantatória, o tédio de quando as tarefas que o corpo executa aproximam-se de repetições massacrantes.
As lutas orientais são profundas filosofias radicadas em ideogramas, e traduzidas em gestos rápidos. Mas, se olharmos, bem, por vezes, bem mais desgraciosas são que, digamos, essa “capoeira oriental” que é o Tai-Chi. No judô, por exemplo, é um pouco ridícula a importância que se atribui ao quimono. A vestimenta converte-se na base de apoio para o próprio combate. Além do que, os golpes em que o judoca tenta agarrar o outro pelos fundilhos para arremessá-lo como a um saco de batatas sobre o tatame assomam um tanto bisonhos, mesmo quando executados por um grande mestre. Não há muita elegância naquilo, pois tudo se passa numa rapidez mesquinha, quase descartável ao olho. E, porém, como tão se cita de Machado: "ao vencedor..."
Quanto à luta greco-romana é um espetáculo obsceno. Que talvez só perca em falta de plasticidade para o halterofilismo. E olhe lá. Parece que há um empate técnico. Que dela existam aficionados é uma prova viva da diversidade humana.
Restam, assim, de descendentes de duelos para valer, a tourada e o tênis.
O politicamente correto, a sociedade protetora dos animais, os ambientalistas radicais, o instituto de prevenção de riscos no trabalho e no amor, além do urro tribal entre as culturas, mesmo e principalmente as multiculturalistas e pós-modernas, acabará com as touradas – talvez um dos mais nobres esportes jamais surgidos. Hemingway, que escreveu páginas antólogicas sobre a tauromaquia, diz com grande propriedade, sobre esse zelo das pessoas em relação ao presumido sofrimento dos touros e, não menos, à forte cena dos cavalos dos picadores quando chifrados, com as tripas a dissipar-se sobre a areia da arena:

From observation I would say that people may possibly be divided in two general groups; those who to use one of the terms of the jargon of psychology, identify themselves with, that is, place themselves in the position of, animals, an those who identify themselves with human beings. I believe, after experience and observation, that those people who identify themselves with animals, that is, the most professional lovers of dogs, and other beasts, are capable of greater cruelty to human beings with those who do not identify themselves as animals.
[Death in The Afternoon, 1932]

Por observação, eu diria que as pessoas podem ser divididas em dois grupos, grosso modo; aqueles que, para usar um termo do jargão da psicologia, identificam-se, ou seja, se põe na posição dos animais; e aqueles que se identificam com seres humanos. Creio, após exame e experiência, que os que se identificam com animais, quer dizer, os maiores apreciadores, de carteirinha, de cachorros e outros mascotes, são capazes de maiores crueldades contra seres humanos do que os que não se identificam com animais.

Quando se pensa nos coqueteis de anfetaminas e esteroides que atletas de alto rendimento ingerem dia após dia em “esportes” como o atletismo e o ciclismo nos diascorrentes, pode-se pressentir que, além de bem abalizada, a assertiva de Hemingway foi quase profética.
Já o tênis, coitado, quem sabe o que dele farão os psicanalistas.
Talvez um monótono jogar a bola contra a parede. Só que, ao contrário do squash, não para disputá-la com um adversário, porém para travar um embate contra a própria parede; de tal modo que não haja vencedores nem vencidos entre humanos. Até que se descubra que a parede tem uma simbologia muito rente ao Muro das Lamentações, em Jerusalém, e se tenha de partir para outra superfície que não a que se mija contra. [1]

Ou, sobretudo, que a psicanálise elimine do tênis, ao modo do que praticamente fez com as touradas, o trauma dos vencidos. Como se de derrotas não se tirassem algumas, não digo lições, mas frações de humana experiência debaixo do sol.



[1]Uma das muitas definições para homem na Bíblia é justamente “aquele que urina contra a parede”.

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