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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A história precedida


[s/i/c]



Outra noite para Rubem Braga


Há esse avião voando numa noite etérea. Voando em placidez, acima de colchões de nuvens sob um luar de filme. Ainda um turbo-hélice. Provavelmente com o logo da Pan-Air na fuselagem. O percurso é de São Paulo para o Rio. E, em uma das vigias, o rosto de um jornalista extático diante da paisagem de uma noite de sonho, acima das nuvens. Cofiando bigodes em perfeita satisfação. Metido consigo mesmo e com a beleza do mundo.

Uma vez em terra firme, ele desembarca. A noite é chuvosa e lamacenta. Inteiro o inverso da outra noite: superior, luminosa – só alcançável, agora, pela alça da memória. De volta para casa, o jornalista de bigodes e basto cabelo apartado ao meio, diz ao taxista do contraste entre as noites. Entre aquelas duas noites sobre um mesmo mundo. Sobre a mesma cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Uma branca, límpida, ao luar, lá acima. Outra escura e enlameada nas ruas debaixo. E o rumor dos pneus do carro resvalando sobre o asfalto úmido.

O taxista, acompanhando a verve do jornalista. Se põem a sonhar com essa outra noite. Devaneio. Será que existiria mesmo uma outra noite assim? E, ao final, da corrida agradece-lhe, por essa perspectiva – que nem remotamente lhe ocorrera existir, quando só se pensa no aluguel, na caderneta da mercearia, na vida que se tem de ganhar. E agradece-lhe com ênfase. Meio como se o outro a houvesse presenteado. Meio como se o outro lhe houvesse ganho o dia através da descrição daquela outra noite, acima.

Assim é o enredo de uma crônica de Rubem Braga. Me lembro exatamente a primeira ocasião em que a li. Foi em 1975, e eu cursava a sexta série no Colégio General Osório, em Fortaleza. Ela estava em meu livro de Português. Portanto, há milhares de quilômetros e muitos anos de distância daquele registro. Daquela dupla noite sob um mesmo, agudo, olhar.

Passados vinte e seis anos, eu mesmo vivi essa crônica em uma visita ao Rio. Em coincidência, provindo de São Paulo, numa noite límpida, de quase lua plena, acima das nuvens. E lá abaixo – tão logo a aeronave transpôs a barreira de nuvens, e a baía surgiu com a cidade à margem e as montanhas ao fundo – uma segunda noite: lamacenta, aguada e respingando. Uma noite de catorze graus, das mais frias do ano, no Rio. Uma em que todas as minas do Leblon foram aos bares envoltas em pulôveres de gola roulé.

Dando tratos a bola, também pensei em outras colheitas. Como por exemplo, a demasiada necessidade de meus pares poetas de hoje em assuntar somente o desagradável, o sórdido, a escatologia. Será que só isso para falar? Será que neste mundo lamacento e cinza não sobrou sequer uma réstia daquela outra noite, luminosa, acima?

E, uma vez em terra firme, calado, dentro do táxi que me levava para Copacabana, os vidros cerrados sob água, pneus serrilhando o saibro úmido no asfalto, agradeci uma vez mais a Rubem Braga. Por propor-me uma utopia e uma viagem. Com vinte seis anos de antecedência.


* * *


segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ver, ser visto: Ruas de Fortaleza


Nigel Henderson, 1950

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Desterro, Medo e Rua em Fortaleza
–impressões apressadas após uma caminhada lenta

Estar na rua em Fortaleza, num bairro predominantemente residencial, é estar entregue à própria sorte. É viver o exílio e correr risco. Comprar um bilhete para Babilônia. Começar a escrever as Lamentações de Jeremias. Especialmente neste quadrante de final de ano, quando a sensação de ressaca coletiva se inercia pela tarde afora. E muita gente está fora da cidade. Em viagens longas anuais, ou em balneários das circunvizinhanças.
É inevitável que cada um se examine um pouco mais ao final do ano. Não só porque é o final do ano e, logo, é quase automático fazer revisões. Mas também porque se tem mais tempo para essas revisões. Para esses reexames de consciência. E é muito mais isso o que as pessoas temem do que a atmosfera e a decoração natalinas ou o raso fato de mais um ano se ter passado e a morte ficar mais próxima. Dimensionável. Ou coisa parecida.
Os muros cresceram. Às vezes se pode percorrer quadras inteiras sem topar com vivalma. Sobre os muros há cercas elétricas ou de arame farpado. Atrás deles, quase mais nada. Em certos casos, é impossível ver as casas que restaram, entre os vistosos condomínios que as sitiam. Mas ao que parece, elas ainda estão lá. Não foram reduzidas a uma abstração pela violência que seus próprios donos, ao abandonar as ruas, fizeram questão de sancionar. E as janelas que ainda se enxergam são precedidas por grades.
Se todas as grades que protegem e aprisionam os lares de Fortaleza fossem retiradas ao mesmo tempo e exportadas para a China, seria um negócio da China: algumas divisas a mais para o país e um paranóia a menos para todos nós. Toneladas de ferro e medo indo embora. E, então seria necessário só rebaixar os muros, para se ter casas de novo abrindo-se para fora. Para receber. Tê-las mais belas de novo. E de novo essa interação entre casa e rua - que as varandas antigas, que os antigos alpendres de casas rurais insinuam em tempos que se perdem muito além da Volta da Jurema. Mas que foram fruídos por gente como você ou eu. E, alguns, até parecidos conosco, porque tios-avós, bisavós, etc.
O divisável, aqui, é que, se não reocuparmos a rua, não a enxergarmos desde casa, se a abandonarmos à sua própria sorte, ela sempre se prestará melhor a ser via expressa para o crime, desde que não a vivenciamos em cotidiano, coletividade. Não a ocupamos, como espaço social. Desistir da rua, é assumir que se quer viver com medo. Que o saudável controle feito pelos próprios moradores, ao estar mais presentes nelas, passando por elas – dizendo “Bom dia”, “Boa tarde”, “Como vai” – se converte apenas em mais um caso de polícia. Não podemos nos eximir de também sermos responsáveis por elas. Porque por mais que não queiramos temos um pouco – ou muito – de polícia ou controle: ao observar e cuidar das crianças, por exemplo. Porque elas não sabem, num certo sentido o que fazem. Embora, em outros, claro, saibam muito mais que nós.
E, de resto, nunca se vê muito dos condomínios acorcundados em andares sobre andares. Quando se caminha pelas ruas, você segue excessivamente colado a eles para vê-los. Você é apenas um ponto ao pé do muro alto, com a invariável guarita encarapitada, se são mais recentes. Se tivesse de vê-los, de fato, teria de andar olhando para cima. Seria mais fácil levar vários tombos. E, lá de cima, você é visto como pouco mais que um ponto – com se vê um boneco de Forte Apache – que passa na calçada. Sequer se adivinha se você segue enxofrado ou alegre. Seu rosto é indivisável.
Mas ainda assim, você é visto. Em vislumbre passando abaixo de ficus, jambeiros, oitizeiros e acácias. E um dos problemas mora aqui. Você é visto, mas não vê quem te vê. É um problema por quê? Porque gera ainda mais predisposição à assistibilidade. Quem te vê através da vidraça da janela, vê como se vê alguém dentro da tela de plasma de uma TV. Alguém que sabe que está vendo, mas não é visto. É o olhar de quem consome imagens. As devora, em vez de incorporá-las à experiência sensível e à memória afetiva, por meio de interações interpessoais. As únicas que te possibilitam sentir o gesto, a hesitação, a euforia, a tristeza das pessoas. Especialmente no instante, em que a partir do que essas imagens sugerem, se é capaz de editar novas imagens. E não imagens quaisquer, cheias de dignidade, forma, sentidos.
O ponto, aqui é que os condomínios, como os shoppings, sempre se voltaram para dentro de si mesmos. E este é seu princípio básico. Um princípio tumular. Cova que se abre para consumo. Do mesmo feitio como teu corpo um dia será consumido pelos vermes. Ainda que, ao contrário dos sepulcros caiados do Evangelho, alguns dos shoppings possam ser horrendos, vistos de fora. Como o Iguatemi, por exemplo. Pense num único shopping em Fortaleza que se abra generosamente para a rua. Ou em cujo terraço, debruçado sobre a rua, se possa tomar um café apreciando o movimento das pessoas, a pulsação de uma cidade. O modo como as pessoas caminham, se esquivam umas das outras, se escoram nos muros e paredes nas paradas dos ônibus, com seus tédios, sonhos, irritações, pertinácias. O princípio do grande condomínio privado é o mesmo dos shoppings. Não enxergar as pessoas. Aprisionar a vida na gaiola do consumo. Eles nos protegem da violência mas também da poesia da ruas.

No caso dos shoppings, é algo que começa no estacionamento. Que tanto pode sugerir uma vasta planície, um cemitério, se a céu aberto. Ou uma catacumba romana, se subterrâneo ou empoleirado. O certo é que shopping rima com carro não com pedestres ou mesmo ciclistas. Eis porque, como comandam - não é de hoje - o comércio de varejo nos bairros mais afluentes, também decretam que o carro é o meio de transporte em Fortaleza. Sem concessões a pedestres ou ciclistas.
A base de tudo, então, no condomínio – como no shopping – assenta-se num dobrar-se para dentro do consumo e do prazer. Em tese, do vigésimo terceiro andar, pode-se ver muito mais cidade do que lá embaixo, andando pela rua. Mas essa paisagem é vista à distância. A uma distância segura de quem está sob o ar-condicionado, assistindo um blockbuster, navegando pelas virtualidades, ouvindo música, lendo algo, comendo sushi. Ou mesmo fazendo isso tudo ao mesmo tempo. Quem terá tempo para observar sua cidade? Para conhecer a fundo os entornos de sua morada? Para dizer um bom-dia? Para andar pelas ruas em gratuidade? Não para levar o cão para passear ou só para manter a forma. Numa situação dessas, de consumo e segurança, abastança e auto-suficiência privadas, o que sobra para ruas? Ser anti-ruas, muros, conveniência asfaltada para passar o carro por cima? Andar por Fortaleza durante os feriados de fim-de-ano é bom para quem gosta de estar sozinho. E, claro, a necessidade de solidão nem sempre é má. Muito ao contrário. Mas, por igual, isso não deveria ser norma para os demais dias do ano. Que são muitos. A maioria.
A rua é o local público por excelência. É o espaço da palavra, da convivência. A beleza, a sensualidade e a tolerância a atravessam de uma ponta a outra. Isso vale para uma aldeia siciliana tanto quanto para um interior qualquer do Ceará. O convívio social medra melhor nesses espaços. Não nos espaços dos shoppings, que, do íntimo de sua uterinidade, lhes são alérgicos. Pois, como sabemos, a lógica do shopping é dar lucro. Ponto.
Em sua antípoda, a rua, quando bem tratada, estende um tapete vermelho para o bem-estar público ou salubridade de memória. Ao contrário do Shopping, seu equivalente a céu-aberto, uma praça – quase não as temos – ou mesmo um parque, nada mais são que uma rua alargada. Eis porque o nome "largo" ser sinônimo de "praça". Sem conversa e gesto ou rua, uma cidade se torna amorfa. Apenas uma coleção de fragmentos rejuntados pela pressa do carro. A praça, rua alargada, é bom espaço para se estar consigo em meio aos outros pelo que resguarda de saudável e eventual. Pelo que rasga para a memória de sonhos, devaneios e frustrações passadas. Ao contrário do shopping - espaço encontrável e padronizado por todo planeta - tem horizonte e alma. Gera lembranças. Aquelas lembranças vívidas, fundas, que só surgem da convivialidade. Do decurso dos tempos longos. Da feira, que esteve na raiz de tantas cidades, pelo Ceará e pelo Nordeste afora. Uma encruzilhada aprazível, onde as reminiscências te dizem: "Bom dia"! As que precisam ser engatadas a outras, relacionadas, para que tenhamos a dimensão real de onde estamos pisando, de como somos. De onde viemos. De como sentimos. Do que queremos. De que estofo são feitos nossos sonhos. 
E, claro, a vida também se faz de encontros. Especialmente dos que ocorrem na casualidade das esquinas. Entre gente de diferentes opiniões, classes, visões políticas, orientações sexuais, etnias, culturas, jargões, idiomas, etc. 
Das interseções dessas ruas, que ora seguem vazias.

28.12.08



quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Só o realismo resguarda a empatia dos perigos do cinismo e das ironias ocas


Francis Bacon, 1949



Para passear por fora do próprio crânio

The most obvious, ubiquitous, important realities are often the ones that are the hardest to see and talk about. [David Foster Wallace]

Os perigos de pensar que o estético é auto-suficiente é também o perigo de desistir da perspectiva realista em arte.
É o momento terrível de se pensar que se perdeu de uma vez e para sempre as chaves de decifração do mundo. A possibilidade de contato com ele. É contra isto que se insurgiu a mente brilhante de, digamos, um David Foster Wallace. Ele percebeu algo contra o qual se insurgir em sinceridade: o cinismo e a hipocrisia contida na estética de alguns dos prosadores pós-modernos que vieram antes dele, por mais brilhantes que fossem enquanto escritores dotados de uma técnica: Pynchon, DeLillo, Coover, Burroughs, Gaddis, Barth.
O experimentalismo em arte não pode se auto-nutrir. Ou ser feito deixando os outros de fora. Os outros estão no mundo, concretamente. Ainda não existe um corpo virtual. Não se pode escolher uma outra humanidade, virtual, para conviver com ela nos termos ideais que se deseja por capricho ou volubilidade.
Ora, deixar os outros de fora, equivale a deixar o mundo de fora. A se estar completamente vedado dentro de si mesmo. Sem um canal de comunicação com a realidade que passe pelo mínimo poro do corpo. O que sai do devaneio narcisista, do fechar-se-sobre-si a partir de referências livrescas ou profusocitações, de alguns, é apenas ruído. Narcisismo inconsistente, vanguarda árida, dandismo inconseqüente. Mas não arte. Ou sequer pensamento estruturado em honestidade.
Esses prosadores pós-modernos, de início, tinham uma missão que parecia de todo razoável. Sua missão era a de denunciar que o modo realista como a literatura estava tentando traduzir o mundo, à altura dos turbulentos anos 60, era equívoco – porque suas convenções já estavam desgastadas, rotas, cansadas, convencionadas e aclichesadas demais – para dar conta do mundo. Então, era necessário apontar essas fissuras e debilidades. Ou o modo como elas eram tomadas em naturalidade. Mais ou menos como o cinema de montagem “invisível” hollywoodiano foi denunciado pela perspicácia dos “jovens turcos” franceses, do cinema-novo.
O que tornava o realismo clássico – bisneto de Flaubert, neto de Joyce e Hemingway, filho de Bellow – inviável para a época, era que a própria realidade já nem de perto era a mesma dos tempos desses heróis do modernismo. As sentenças criptográficas de Pynchon; os artefatos auto-canibais de Coover; as intrusões narrativas de Barth, o cinismo programado de Borroughs, tudo isso se arregimentava para estilhaçar a hipocrisia de uma sociedade pós-industrial complexa, monstruosa, excessivamente afeita ao consumo, à abundância, ao mesmo tempo que desprovida de qualquer idéia de sacrifício por parte do indivíduo. O ponto é que ao desenvolver tal projeto, essa geração de escritores conseguiu apenas legar a seus leitores e epígonos hábitos de escrita e normas estilísticas como um valor em si. Ou seja, a segunda parte do caminho, o reencontro com o mundo, restou secundarizada e amesquinhada no processo. Ou simplesmente não existiu.
Portanto, esses prosadores, de meados dos 60 aos 90, se empenharam mais em denunciar a má representação do mundo por uma realismo cansado – tarefa negativa – do que em achar uma alternativa possível para essa representação. E, assim, a meio-caminho ficaram presos, siderados pela própria perspicácia de sua denúncia. Deslumbrados com suas habilidades de artesãos da denúncia. Como artesãos eles agiram, malcomparando, como carrapatos: sugaram o sangue do cavalo que parasitavam – e que se chamava realidade – mas foram incapazes de plantar seu próprio de comer no solo dessa realidade-cavalo. O mundo foi abandonado em favor de um universo estético fechado, repleto de devastadoras ironias e cinismos sem referencialidade. Uma grande farra estética. Vigorosas demonstrações de virtuosismo, como naqueles longos solos de guitarra onde, por vezes, há mais datilografia veloz que propriamente melodia, paixão, engenho e algum sentimento humano: seja suave, seja sonoro e furioso.
Esse louvor da arte como um valor em si (no fundo, aurático, religioso – e logo, idólatra –) é a mesma pasmaceira que se nota em alguns artistas por toda parte hoje em dia. [E, inclusive, claro, também aqui pelo Brasil, em diversas áreas: poesia, audiovisual, dança, artes plásticas, etc.]. Artistas que, cheios de ilusão – e não de fantasia radicada no real – entendem que o pequeno mundo que constroem dá conta de ler as realidades que estão lá fora. Ou ainda pior, estão convictos: é impossível lê-la.
O ponto, aqui, é que as obras gestadas por esses artistas sequer se põem a serviço de apaziguar o espírito do próprio artista que, mesmo sem nelas acreditar, necessita continuar elaborando-as “daquela” maneira niilista para não se ver face a face com sua própria hipocrisia ou mediocridade. A renúncia ao realismo – a um realismo complexo, sopesado, buscado, de nova estirpe – conforma também um auto-consumo da própria arte como uma sorte de droga em nada diferente do tabaco, do álcool, da maconha, da cocaína, da heroína, do blogue como purgação do tédio, do fumo de mascar, das horas na academia esculpindo o corpo, das telenovelas ou das bandas de forró que soam uníssonas.
Dependência que vive de si. Para si. Que causa paralisia. Que é vício, não virtude. Engessa. Mesmo quando se pensa estar produzindo feito um escravo de Jó. Essa dependência torna o artista incapaz de saltar para fora de seu ciclo auto-semovente. De seu umbigo repleno de hedonismos, bocejos, ironias e pseudo-sofisticações. Artefatos exóticos, esquisitos – supostamente bebidos em fontes da cosmópolis, porque alavancados pela internet –, mas formalmente ocos é o que surge desse deplorável mundo novo em que o artista posta em segundo plano o que é necessário em favor do como é necessário.
Uma perspectiva maneirista, fechada sobre si mesma. Tumular. É nessa perspectiva, amaneirada, afrancesada nas idéias, muito afeita a sofisticar coisas simples, que muitos optamos por viver. Dos nacos de uma linguagem prolixa, que, apesar de criar conceitos em espantosa voragem, não resiste quando é torcida pelos dedos ásperos do cotidiano – como se torce café num daqueles velhos panos enodoados pelo uso. Aqueles que por mais que se lave, ainda se fica com impressão de que a alma dos grãos de café nele restam como por um golpe de inércia ou pela misericórdia do ato enquanto rotina inescapável.
Porém há mais dignidade nesse pano enodoado pela necessidade de se fazer, diariamente, com paciência e método, com experiência, uma boa medida de café, forte e aromático – para se saborear melhor a manhã antes de se lançar à rotina dos dias – do que nessas trívias espúrias de tornar a arte o lenitivo químico da vez: tolas instalações de panos ou lençóis pendendo de um varal, por exemplo.
A questão aqui é que o varal da instalação não resguarda um segundo moral do varal real, em que a lavadeira estende com mãos rachadas a sua roupa recém-lavada. Porque são precisamente as ranhuras nas mãos rudes da lavadeira, grossas como uma casca, o que empresta dignidade ao lençol que a brisa agita, feito uma bandeira branca sopre o capim da várzea à volta da lagoa. É o costume, a rotina desse estendimento o que não vaza para a instalação. O gesto do costumeiro. O relógio das tarefas longas e pacientes, onde o amor reside de modo tão pouco atraente. Porque as verdadeiras formas do amor nada tem de glamour. Pois, sendo as mais belas, conseguem ser também as mais úteis.
E, portanto, são essas as mãos que sempre ficam do lado de fora das instalações. Justo as que mais precisariam ser internalizadas, porque conhecem seus assuntos desde dentro, a ponto de serem só um com eles. E, logo, a instalação se situa milhas náuticas de distância de qualquer possibilidade de interação com a história e com o passado comum. Afinal, “o mundo não pode ser representado ou revelado”.
E é pensando por aqui que também se pode divisar: não se pode assumir o mundo como capricho. Com o espírito do volúvel. Do tipo, resolução repentina: agora vou inovar. Ou isso é ingênuo demais, ou embute má-fé. Má-fé consciente ou sub-reptícia. Mas mesmo quando sub-reptícia, ela se vai explicitando, ao longo das horas, dos dias, dos anos. As possibilidades de uma inovação verdadeira, em arte, sabemos, são escassíssimas. E radicam também num mapeamento do local. O local aqui no sentido mais prosaico: os vizinhos, o boteco, a rua, o bairro, a cidade, as palavras que te cercam.
Toda a vontade legítima de inovação aponta para um ângulo inevitável: a superação do que já foi feito. Ora, superar o que já foi feito, ou, no mínimo, expressar-se com a unicidade de uma voz achada, requer horas queimando pestanas e apurando o que de melhor já foi gestado, imitado, jogado, brincado, citado, digerido, variado, tresvariado, dissonado, etc. E isso vinculando a área específica em que se age com o contexto amplo, macro, do atual, da circunstância. Mas, aqui, pelo menos, há duas coisas: 1. a necessidade de se aprender com o passado – única possibilidade real de se estar no presente de modo alerta, à altura do presente e 2. ascese (que, originalmente em grego quer dizer “exercício” e, portanto, rotina, esforço continuado e também atenção – no sentido de concentração extrema, extática: êxtase).
A raiz da palavra ascese não indica apenas o esforço do místico para se lavar das impurezas do mundo, mas, indo bem mais longe, um exercício capaz de tornar esse mundo mais cômodo e habitável. Fruível. Também para os outros. O custo disso está encascado na mão da lavadeira. Mas é só por conta dessa casca que o mundo torna-se um lugar menos insalubre para os que virão depois de nós. Sobre esse segundo ponto, o da ascese, Auden nos diz que “rotina num jovem é sinal de [boa] ambição”. Sobre o primeiro argumento, o da necessidade da memória e do passado – de onde se decalca, entre outras, toda a obra de Benjamin – há a afirmação de outro mestre alemão, Karl Kraus: “o historiador é como se fosse um profeta olhando para trás” (e quem aqui não lembra, é quase automático, do Agelus Novus benjaminiano?). Mas claro, só após esse exercício das articulações do pescoço, do olhar para trás sem virar estátua de sal, é que se pode divisar melhor os próprios dias que correm. Os dias em que moramos, no dizer de Larkin.
George Oppen, escritor acima de qualquer suspeita – pois passou quase 25 anos sem escrever poesia porque havia coisas “mais importantes” onde empregar as mãos – é um testemunho disso. Quando o poeta Richard Wilbur insinua que é preciso afastar-se da esfera do discurso – ou seja ocupar-se com experiências que nada tem a ver ortodoxamente com a área lingüística, da poesia, para poder retornar à poesia com a precisão do artesão – ele está também indicando que não se pode escrever a não ser a partir de experiências sedimentadas com o mesmo vagar com que os detritos, os pequenos seixos, o cascalho, as cracas, ostras, algas, sargaços, restolhos e restos de mariscos se deitam no leito de um rio, ao longo de anos, décadas, séculos – tempos sem tempos – conformando o próprio leito do rio. Tornando-se um com ele. Em causalidade e tempo longo. Ao mesmo tempo ele e sua memória. Eis a imagem para o artista e sua arte.
Na escrita – ou em qualquer outra linguagem – se dá o mesmo. E esse sedimento de experiência, essa crosta do já vivido, é tão preciosa quanto a própria vida do artista, porque assenta nas suas reminiscências. Cair na ilusão de uma arte que sai de tua cachola sem relacionar-se com a concretude – inclusive material, apalpável, farejável, degustável, visível, memorável – do mundo é conversa para um rebanho de búfalos cochilar, mesmo se com os cascos afundados na lama mais densa dos charcos e igarapés – com vivazes vitórias régias e profusos aguapés – da Ilha de Marajó. Tentar tornar arte e memória, arte e história compatíveis é uma das poucas tarefas que restam a um escritor, a um artista. Foge da gratuidade de uma arte que se compraz apenas de virtuosismos irônicos e jogos de estilo.
O resto, é recepção acrítica de teorias da recepção, classes de redação criativa, escombros do politicamente correto e as prolixas lições pós-modernistas à francesa.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Nos trinques, como manda o figurino: Riding


[s/i/c]


In Due Form


I do not doubt you.

I know you love me.

It is a fact of your indoor face,

A true fancy of your muscularity.

Your step is confident.

Your look is thorough.

Your stay-beside-me is a pillow

To roll over on

And sleep as on my own upon.


But make me a statement

In due form on endless foolscap

Witnessed before a notary

And sent by post, registered,

To be signed for on receipt

And opened under oath to believe;

An antique paper missing from my strong-box,

A bond to clutch when hail tortures the chimney

And lightning circles redder round the city,

And your brisk step and thorough look

Are gallant but uncircumstantial,

And not mentionable in a doom-book


Laura Riding



Na Forma Devida


De você não duvido.

Sei que me ama.

É fato no interno de seu rosto,

Real marca de musculosidade.

Seu passo é confiante.

Sua aparência, cabal.

O ficar-junto-a-mim, um travesseiro

Para bolar por cima

E adormecer como no meu, acima.


Mas faça-me uma declaração

Na forma devida em ofício volumoso

Testemunhada pelo notário

E remetida pelos correios, registrada,

Para ser assinada em recibo

E aberta sob juramento de palavra;

Um gasto papel em falta no meu velho cofre-forte,

Um arrimo para agarrar quando o granizo açoitar a chaminé

E círculos rubros propagarem-se por onde cidade é,

E teu passo firme e aparência audaz,

Surgirem galantes mas incircunstantes,

Não figuráveis em relatos de juízos-finais.




Nota - muito boa ironia neste poema. Especialmente na linha que refere ao cofre-forte, com todas suas implicações sexuais. As garantias legais de que se cerca a suposta pretendida parecem, no fim, soar como um inventário de pequenas sandices e convenções sociais. Além, claro, de carregar nos estereótipos, na caricatura: o homem, quase um super-homem; a mulher em casa, durante uma tempestade de granizo, satisfeita de ao menos possuir o documento que comprova o contrato entre ela e o macho onipotente, que é também seu arrimo, literalmente "travesseiro". De poemas assim, pode-se dizer que provem de um feminismo saudável. Até porque auto-derrisório. E não daquela histeria menos luminosa encontrada em certos departamentos de gender-studies por esse mundo afora. Digamos que pode-se imaginar isto sendo escrito por uma daquelas secretárias de detetives em filmes noir dos 40 e 50 - cujas tramas intrincadas radicam em Chandler ou Hamemtt. Belas moças atrapalhadas por óculos e sentadas à máquina de datilografar em ante-salas permanentemente enfumaçadas. As mesmas que acabam se envolvendo com tipos misóginos - que tanto podem ser os próprios detetives quanto os vilões (pois, de resto, a diferença entre ambos, em certos casos, é tão extensa quanto a distância de São Paulo a Diadema). Essa estranha necessidade, um tanto jurídica, de tomar o amor pelo contrato. De subsumir o amor no ofício.


terça-feira, 4 de novembro de 2008

Uma necessidade de cidade


Ruy Vasconcelos, 2008



Espaço, dimensão humana:
por uma ontologia da aldeia

No instante em que as relações humanas são cada vez mais deslocadas para extensões indefinidas de tempo e de espaço [Giddens], cada vez mais sinto uma necessidade de cidade. Do volume de uma fruta sobre a mesa. Cor e aroma de café, fumaça do cigarro. Um forte desejo de transparência. Contornos bem definidos. Nitidez. Um pouco mais de conclusão. Alguém dando bom-dia. Ou certas letras em alto relevo na fachada de uma casa da rua em que moro: Pax et Bonum. Hoje nossas cartas são trocadas em virtualidade. Os jornais, lidos no espaço imponderável.

Mas essa necessidade de cidade. Ruas. Gente andando. Cambiando bons-dias. E todos os dias da cidade acumulados nesta manhã. Vejo areia de dunas e bredos-de-praia sob o asfalto. Lavandeiras pairando por cima. Lagoas intactas. O espaço da cidade antes de ser cidade.

Dia desses, passei algum tempo caminhando no quintal do velho Palácio do Bispo, ali nos fundos da Sé. Impossível, ao ver o esgoto em que se converteu o riacho em torno do qual a cidade se ergueu, não pensar no quanto o poder das comodidades modernas vem da mesma fonte abjeta que acumula toda ilimitada circunstância de vontade.

E, no entanto, muito antes disso, é preciso supor o espaço da cidade anterior a ela. Uma espécie de ontologia da aldeia.


quinta-feira, 31 de julho de 2008

Uma necessidade de transparência


Tiago Santana, 2003




Onde o sol dá xeque-mate à tristeza

Imagens do Ceará, de Herman Lima, Edições UFC, Coleção Alagadiço Novo, 1997.

Dos escritores cearenses poucos são tão prazerosos de ler quanto Herman Lima. Não falo dos incorrigivelmente cultos, corretos, de consagrada mestria. Se você anda atrás disso, é melhor se ocupar com Alencar, José Albano, Gustavo Barroso. Os livros de Herman Lima são irregulares. Salta-se de uma página admiravelmente composta para a seguinte, onde há pedantismos, incorreções, equívocos históricos, sentimentalismo em excesso. Mas isso não o diminui. Há algo nele que só encontra paralelo no Gustavo Barroso memorialista. Algo que brota da gratuita pulsão do colecionador. É assim. Herman Lima é possuído de um afeto que quer ressuscitar tempos, lugares. Literalmente. Sem mediação de ficção.
É claro que ele não consegue. E é também em parte por essa não consecução que sua obra de memorialista se estabelece em toda sua dimensão e humanidade. Não sendo a narração o forte de Lima, ele se especializou em captar atmosferas e anedotas -- quase todas coadas num filtro doméstico. É um perito em paisagens, climas, texturas, gestos coletivos, lentas artesanias intuitivas, cores, coisas apreendidas pelos sentidos. É bem mais efetivo -- mas não menos coletivo -- quando se afasta do épico, debruçando-se sobre o concreto dos pequenos afazeres que tomam tempos longos. Seus livros celebram um espécie de etnologia poética. Sua escritura é colorida e solar. Sinestésica. De cortes rápidos, descontínuos. Essencialmente visual. Muita atenta ao digníssimo reino dos detalhes. Às polainas dos dias.
Imagens do Ceará não está sequer na primeira linha da obra de Lima. Não tem o volume e a distância de Poeira do Tempo. Não é difícil perceber no livro inadequações, descontinuidades, falhas. E, no entanto, bem presente assoma essa marca amorosa do colecionador. Esse desejo, impossível, de retorno a tempos e lugares. Ou a vontade de legar para adiante uma cidade e um tempo irremissivelmente desmontados. Um proustianismo. Escrita feita expressamente desde experiência e testemunho.
O Ceará das imagens de Lima é Fortaleza e, quando muito (um único capítulo), deriva para os sertões jaguaribanos com o Aracati na foz. É só isso.
É só isso mas está lá, repleto de sensações. Está lá propiciatório. No sentido de nos inclinar para o resgate de dimensões históricas que estariam perdidas para sempre. De distendê-las, dimensioná-las com vasto senso de inscrição no fluxo do tempo. Um dos capítulos começa com uma definição da cidade de Nossa Senhora da Assunção que é quase um hai-kai: "Fortaleza é um tabuleiro de xadrez colorido, em que o sol dá xeque-mate à tristeza o dia todo".
Pode ser. Pode ser assim, solar. Mas o centro desse espaço é o sítio da família, no Meireles. Para onde tudo converge. Para onde Lima está sempre voltando de férias. É isso mesmo. Chega a ser engraçado, porque hoje o Meireles é um dos bairros mais verticalizados de Fortaleza. Mas, em meados do século passado, quando Lima vinha do Rio em férias, o sítio -- chegando cada vez mais perto da cidade -- ainda estava lá, em sua plenitude de quinta portuguesa, nos arrabaldes. Isso aí pelos anos 50.
Do sítio se sente tudo, até os cheiros. Estão lá os cajueiros, as guabirabas, mofumbas, pinhões bravos, jatobás, o alpendre com redes de varanda armadas, a aragem do mar quebrando ao largo, o ponto de passagem para o Mucuripe, o farol velho piscando lá, acima das dunas, as lagoas que encorpam nos invernos mais caudalosos, os três caminhos de acesso a Fortaleza. O que seguia para a Aldeota, então, atingia a cidade pelo Castelo do Plácido -- hoje, cruzamento da Santos Dumont com Monsenhor Bruno. Herman Lima é uma leitura que Miguel Angelo Azevedo (Nirez) deve fazer com um prazer tanto especular quanto labiríntico.
A marca amorosa do colecionador é patrimônio de ambos. É o eixo da escritura de Lima assim como das coleções de Nirez. Neles não há sistema, mas modos de sentir. Tempos e lugares escaneados pelos sentidos. No caso de Lima, que vive num exílio compensado por retornos esporádicos, o excesso de apego quase neurastênico às coisas passadas ronda o livro à cada página. Em certos trechos, tamanhos apego e sentimentalidade ameaçam amarrar de vez as páginas entre as capas. Expulsar o leitor, em sua intrusividade. E fechar o caso. Lima sabe o quanto um leitor pode ser abelhudo. Viver metendo o nariz onde não é chamado. Embora, em certas passagens, conceda ainda mais de pessoal ao leitor do que manda a prudência. Sua sensibilidade é a de um narrador à antiga, posto à prova de novidades nem sempre alvissareiras. Capaz de depurar um acervo coletivo de sabedorias. Ele nos conta de um pescador paralítico, de uma rendeira que era uma espécie de geômetra intuitiva, de uma cozinheira que conheceu a cidade grande (Recife) graças a uma mordida de cachorro. Seu reino é o das anedotas. Seu exílio, o da nostalgia que surge não como depressão mas remendo.
Mesmo um leitor desatento, no entanto, pode perceber a fixação que Lima tem pelo pai. O carinho pelas filhas. A reticência com que fala da mãe e da esposa. A obsessão com que diz da graça das "caboclinhas" -- filhas de pescadores das proximidades do sítio ou sertanejas que viu passar, enquanto feitor de uma estrada de rodagem, ligando o Aracati ao sertão do Jaguaribe. Algo do que também vai expresso em seu primeiro livro de contos, Tigipió. E, embora sua visão dos tipos cearenses -- vaqueiros, jangadeiros, rendeiras, personagens que fazem parte da mitologia do Centro de Fortaleza -- retenha algum estereotipia, há também coisas de um observador para lá de atento. Coisas que não podem ser vendidas em separado.
O noves fora é sairmos mais conscientes do espaço. Das inflexões passadas pelo espaço no correr dos anos. Esse filtro do espaço através do tempo é extremamente bem cristalizado. E o resultado é uma fina coleção de cristais. Ou uma pilha de roupas brancas, bem engomadas, depois de estendidas no quaradouro e batidas à quartzo e luz.
Por uma espécie de proustianismo muito próprio, Lima quer remontar o passado em um outro lugar. Sob outras circunstâncias. Ao menos uma vez recomposto. Para o prazer dos sentidos. Ou então, carregá-lo consigo. E seguir sendo fiel às boas promessas que não se realizaram.
É de uma visita ao Aracati, com impressões de beira de estrada bastante bem compostas, que sai o trecho abaixo, onde se nota, ainda uma vez, a necessidade de sequestrar o passado para outro lugar. Para perto do coração:

"Três vezes, subo e desço, no correr do dia a rua longa, parando aqui e ali na contemplação de algum daqueles sobrados de azulejos, todos de quadradinhos azuis e brancos, polidos ao sol, e que dão na gente a vontade maluca de carregar inteirinhos de avião, para morar no Rio..."
[Fortaleza, 31.07.08]




Nota - Esta resenha segue dentro de um gesto mais amplo que chamo de contra-resenha. Ou seja, resenhar livros que 1. não foram recém-lançados, mas mereceriam pelo menos serem relançados, dada a sua importância; 2. não fazem parte de qualquer interesse pessoal imediato de quem resenha (ou seja, no caso, de uma coleção que eu estou editando ou que um amigo meu está editando, o que um amigo de um amigo... etc.); 3. que apenas seja um bom livro, embora esteja passando despercebido porque, entre outras, foge à categoria imediatamente anterior. Outro dia, tentei pesquisar algo sobre Herman Lima na rede. Ora, não há sequer um verbete sobre ele na Wikipédia. E olha que Lima, entre outras, foi um dos grandes -- senão o maior -- estudioso da caricatura no Brasil.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Fios de Ariadne contra as Dalilas do tempo

Léopold Survage, Study for the Film, 1913

Antes que eles se mandem para Não-Me-Toque
"Nenhum peixe que se preze gostaria de ser embrulhado num de nossos jornais".
[Mark Royko]   
                                                                                                                                       
A história se torna mais volumosa quando se aproxima dos tempos recentes. Fazer jornalismo é, de certa forma, contar histórias. Mas é preciso saber filtrá-las. E esse filtro passa pela perspicácia de cada um. O dom de escolher o que vai contado. 
Há uma cidade gaúcha chamada Não-Me-Toque. Falo dela, porque alguns assuntos, quando tocados com certa falta de manejo em nossa resenha cultural, nas páginas de nossos briosos diários, parecem dizer aos seus autores que nasceram por lá. Lá por Não-Me-Toque. 
Quem não toca, toca-se. Ou seja, só tocar o mesmo disco não vale. Masturbação. É gostoso tocar as pessoas do afeto. Ou então, alguns instrumentos. Tocar a tela com o pincel. Saber manejar um teclado – de computador ou de piano. Roçar os dedos sobre ébano e marfim. Manejar para melodia. Manejar como uma música que vem do pensamento quase sem passar por ele.  Ou aquelas palavras que se vão arrumando à revelia de quem as digita.

Uma canção (de Etelvino Abreu), indagava de cara, desafiadoramente, no início da década de 90: “Cê toca o quê?” Acho que quem vive de escrever - seja jornalista, historiador, letrista, redator publicitário, tradutor, estudante, roteirista, anotador de atas, ghost-writer, professor, palavra-cruzadista profissional, missivista, eterno doutorando, pintor de paredes ou crítico literário - deve se perguntar, ao menos duas horas a cada segundo: será que meu assunto me diz que é de Não-Me-Toque? Se disser, melhor deixar quieto. Deixar o assunto voltar pros pampas sozinho até segundo flerte. E, na seqüência, partir para outras praias. Outros sertões. Quem sabe, para o Paraguai. Flanar por aí, sem muita pretensão. Ao menos até o dia em que você perceba, de volta à prosa, que já mora no assunto, na filosofia. Será que a isso se chama critério? 

Esse parece ser o caso de Dalwton Moura, que escreve regularmente para o Caderno 3, do Diário do Nordeste. O cara tem bom faro para assuntos. Quer dizer, Dalwton é daqueles que parecem desconfiar que só triscar no assunto não vale. É necessário descobri-lo; se apossar dele, no bom sentido.
Triscar é o caminho mais fácil, verdade. Mas a satisfação tirada, como o arroubo do ato, é perfeitamente vicária. E cedo se percebe que viver só disso não é lá muito saudável. Assim também, repetir, à papagaio-louro-do-bico-dourado, as pautas e resenhas das forças do Eixo Rio-São Paulo é triste sina para um jornalista. Para um comentador. E o torna mais provinciano. Confina com aquelas satisfações vicárias e emergenciais, que a maior parte de nós passa a manejar desde a tenra adolescência. E, assim, essa copiosa algaravia manchando os segundos cadernos parece não ter fim. Ela está a serviço de vender, não de fazer pensar. A serviço da gelatina, não do tutano. A serviço de fazer resenhas como se faz lasanhas pré-cozidas no microondasO cosmopolitismo só é real quando também engancha na circunstância local.  

Em geral, tenho sido muito ranzinza com quem escreve em jornal aqui pelo Afetivagem, mas devo reconhecer os méritos a quem os tem. E, assim, dizer que leio com prazer a coluna do Jocélio Leal n'O Povo, por exemplo. Ou volta meia, me divirto com a crônica do Airton Monte. Que sinto falta dos textos do Lira Neto e da Ethel de Paula, cujos compromissos profissionais levaram-nos para outras páginas, menos diárias. Que entre a turma mais nova, temos boas promessas em ambos os jornais (Amanda Queirós, Júlia Lopes...). Era já para eu ter feito essas e outras ressalvas, numa esfera em que seguimos particularmente carentes de pautas que contam, pedras que rolam, bichos que falam. Gente que segue atrás do que se encontra longe de estar na vitrine

Quer dizer, falar de profissionais que não se deixam levar pela limitadora régua riscada nas redações dos jornais ao sul de Minas, ao norte do Paraná. Ou então, dos assuntos de momento: eleições, instalações multimídia, campeonatos, lançamentos, escândalos políticos, efemérides, carestia, assassinatos em favelas, mostras de cinema, novos impostos. Gente que se pauta por autonomia de pensamento ao transcender esses assuntos. E, mais, sem aquele travo amargo, repleto de queixumes dilacerados, de certos subliteratos que devem ser fãs mesmo é de si próprios. E tome norma e nenhum senso de humor.  Os editoriais tanto de O Povo quanto do Diário são, aliás, de um pobreza de mavé-de-si. Há muito que passam completamente batidos. Ninguém os lê. Eu certamente não. E perceber que o Vida & Arte, que já foi um dos melhores cadernos de variedades do país, anda mal das pernas faz pelo menos um lustro não é tarefa para nenhum Mandrake ou detector de verdades. 

Sem embargo, surge como estimulante alguma voz menos tutelada pelos estigmas da vez. O mapeamento musical que um Dalwton Moura empreende é um exemplo disso. Dessa recusa à preguiça. E entre outras, no caso dele, pela lembrança de nomes tais como Petrúcio Maia, Brandão, Etelvino Abreu e Tazo Costa. Ou seja, de um de nossos maiores compositores, mas que anda um tanto à sombra; do pouco conhecido letrista do Pessoal do Ceará; do talentosíssimo e irrequieto vocalista e compositor, que morreu jovem e nunca chegou a gravar; e do menino prodígio da Cidade 2000, cuja carreira terminou antes de alçar vôo.  Nomes que se encontram muito distantes de vir em releases de lançamentos. E, no entanto, pedem conversa. E tiveram a sorte, os quatro, de haver sido memorados pela criteriosa atenção de um jornalista que tem a intuição histórica da área que aborda. A eleição de prioridades é um dado elementar quando se pensa em jornalismo. Naturalmente, há pautas marcadas, inescapáveis, que se tem de fazer por dever de ofício e sede de sangue dos leitores. Ossos do ofício. Mas há também uma imensa liberdade de escolha só muito parcialmente aproveitada.  

Bem, tudo devidamente filigranado, na edição de hoje, Moura nos surge com mais bons panos para as mangas: matéria e entrevista com Tiago Araripe, compositor vinculado, no início dos 90, à galera da Lira Paulistana. Araripe, que é do Crato, teve seu vinil de 26 anos atrás, Cabelos de Sansão, recentemente passado para CD. Pautas assim dão conta de uma sede muito mais saudável que a média. E da necessidade de tocar nos assuntos antes que eles se mandem para Não-Me-Toque.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Sozinho com a cidade: passar pelos lugares é ler história inscrita no espaço


Frank Lloyd Wright, 1906



Conversar com casas

Há uma sorte de conversa íntima que você só entretece com uma cidade. E me lembro de caminhar por Fortaleza entretecendo essa conversa horas a fio, um dia depois do outro.
Minha própria noção de Fortaleza é muito limitada. E ela se faz do Centro para leste, na direção do eixo conformado pelas principais ruas e avenidas que cortam a Aldeota Velha – como dizem, em definição perfeita, alguns office-boys.
Foi mais ou menos nesse espaço que vai da Praça do Ferreira à Rua Monsenhor Bruno – e da Antônio Sales para o mar – que mais me movi nos anos em que morei na cidade. E, aqui, sim, conheço mais ou menos de cor toda seqüência de ruas e o que há de mais interessante para ver nelas. E minha geografia se estende, com pequena expansão para os bairros do Benfica, Pici, as Praias de Iracema e do Futuro. Mas também aos novos bairros do Leste – que são, no entanto e de todo, os menos interessantes, pelo menos para mim, à exceção da Cidade dos Funcionários.
Alguém já disse que os locais, as casas, as ruas, os edifícios, as árvores, as esquinas, devolvem a atenção de um olhar. Se sentem em próprio estado de diálogo, de conversa, com o caminhante que lhes lança despretensiosamente os olhos. E é assim, exatamente, que costumo a caminhar – ou mesmo pedalar – por Fortaleza. Não só como exercício físico. Mas como exercício cívico. Tentando fisgar, em meio a prédios e casas, a história dessa cidade quase à prova de história.
Algumas velhas casas da região mais antiga da Aldeota, conheço como ninguém. Se acrescentaram um novo andar em improviso. Se retiraram do muro a graciosidade das colunatas antigas. Se revestiram de ladrilhos a fachada, como se fosse um lavabo – onde antes havia um discreto chapisco cinza. Se desfiguraram de vez a forte eloquência, de sobriedade e calma, que as linhas de uma velha fachada nos repassam. Se aterraram um canteiro onde havia grama e espirradeiras. Tudo isso posso perceber de prima. Pois essas casas parecem reclamar, gemer quando qualquer dessas contrafações é cometida contra sua bela integridade de testemunho. Seu poder de evocação, quase epifânico, é o mesmo de certas velhas canções. Ou quase o mesmo de uns poucos perfumes raros, e que nos datam o tempo com digital precisão interior.
Conheço de certas ruas, cada casa, um tanto como se elas, e não seus donos, fossem os vizinhos. E me exaspera um bocado saber que estão construindo um segundo pavimento improvisado sobre aquela marquise. Ou o que é pior, a fachada será maquilada com lambris para a instalação de um consultório, um escritório de engenharia, uma locadora de vídeos, um salão de beleza, um centro de fisicultura. Por que a necessidade desses estúpidos lambris?
Porém, ao mesmo tempo, alguns dos sítios mais impressionantes são casas demolidas. Digo melhor, parcialmente demolidas, justo na etapa em que elas ainda resguardam o assoalho e um certo vestígio de divisão, do que um dia foram paredes. Espécie de maquetes vazadas, plantas baixas ao vivo e literalmente. Espectros do que foram nos muitos anos em que habitadas por duas ou três gerações. Fortaleza não suporta mais que esse lapso.
A virtual ausência de planejamento urbano aliada à ganância e ao poder manipulador das grandes construtoras degradaram a cidade ao extremo nos últimos vinte e poucos anos. E, se nesses mesmos vinte e poucos anos, se houvesse preservado a melhor parte das belas residências da Aldeota Velha e do Bairro de Fátima teríamos simplesmente uma razão a mais de auto-estima.
Se pode até entender que muitos fatores entraram em conjunção para provocar esse desastre urbano. Mas não se pode perdoar o afã de modificar as características essenciais dos prédios e casas, deformando-os por completo, apenas em nome de ridículos caprichos pessoais ou efêmeras demonstrações novas-ricas de status. Ou mesmo de partições de herança. Deveria haver uma legislação forte e que cuidasse efetivamente disso. Mas se o fenômeno se dá a reboque de razões eminentemente econômicas, essas distorções poderiam ao menos ser atenuadas houvessse um verniz mínimo de planejamento, pois basta passar os olhos por fotos antigas para perceber que já houve mais amenidade em nosso circuito urbano.
É possível pensar, nesse ritmo, no próprio esvaziamento de funções que a casa de classe-média sofreu em Fortaleza nos últimos vinte e poucos anos. A casa não é mais um local para receber. Os encontros foram deslocados para os restaurantes e lobbies de hotéis e shoppings. Já os aniversários – especialmente os infantis – assim como os grandes eventos familiares – casamentos, bodas, batizados, etc. – foram cada vez mais transferidos de casa para os bifês. Ou se dão no salão de festas do condomínio quando casa não mais há. Bem como também, em termos de lazer, as quadras domésticas de esporte e áreas afins perderam sua importância em prol inicialmente dos clubes e raros parques e praças praticáveis; e, mais recentemente para as escolas, os centros de fisicultura e os condomínios. Além disso, as famílias de classe-média não possuíam tantos carros trinta anos atrás. E assim havia mais orçamento disponível para se gastar no zelo do imóvel. E mais espaço no imóvel para abrigar o zelo do corpo.
O excesso de carros nas ruas estreitas da cidade é, aliás, um dos fatores que contribuíram decisivamente para que Fortaleza perdesse muito do charme, algo ibérico, que ainda possuía na década de 70. Quase ninguém caminha ou anda de bicicleta por Fortaleza. Às vezes, percursos mínimos são ostensivamente perfeitos sempre de carro. E há mesmo o ridículo do número de automóveis que se aglomera diariamente, de manhã bem cedo, à Beira-Mar. E esses veículos levam aqueles que vão... caminhar. Quer dizer, para se caminhar em Fortaleza se usa... o carro.
Isso dá o que pensar. Não seria mais prudente, cívico, e muito mais ecológico passear a pé pelas imediações de casa? E isso até serviria para fortalecer laços de vizinhança e solidariedade. Já que famílias inteiras, amigos e vizinhos estariam nas ruas de manhã cedo e passando pelos espaços onde, de fato, moram. Podendo eventualmente observar e zelar pelos equipamentos públicos e até conhecer-se melhor e se organizar no sentido de apurar a qualidade de vida de seu pedaço de cidade, bem como reocupar coletivamente uma rua cuja insegurança também brota da falta de pedestres. E isso não é nenhuma utopia. E é bem fácil de atingir. Bastava que houvesse políticas públicas que incentivassem a prática de caminhadas e passeios de bicicleta em volta da vizinhança. Mas também que todos aqueles que tivessem condição ou disposição para se deslocar a seu local de trabalho de bicicleta ou a pé, o pudessem fazer, e em condições razoáveis de segurança e conforto pessoal.
Admiramos Amsterdã pelo número de ciclistas que se deslocam pela cidade, acrescendo-lhe o charme típico de uma urbe tranqüila e de alta qualidade de vida. E mal nos damos conta de que vivemos numa cidade plana. E que bastaria exclusivisar algumas vias somente para bicicletas – além de excessionar apenas aos moradores, o tráfego de veículos em baixa velocidade nessa vias – para, então, a curto prazo, atingir patamares de qualidade de vida bem mais expressivos e dignos. Inclusive por uma maior desobstução das vias de tráfego, bem como por certa desvalorização simbólica do automóvel. Fácil entender que esculpir uma cidade é uma tarefa essencialmente do olhar. Inclusive no que diz respeito à sua poluição visual.
E tudo isso é tarefa do estado, claro (até hoje me recuso a escrever estado com maiúscula). Mas, por igual, deveria passar pela boa-vontade e pela consciência e cooperação de cada cidadão de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Cada um sabendo de seus potenciais em contribuição para atingir tais metas.
Voltando às velhas casas, há mesmo uma que resume para mim esse elo entre paisagem, história e integridade. Se não me falha a memória, depois de quase cinco anos morando fora de Fortaleza, ela fica na Antônio Augusto. No próprio quarteirão que antecede a Santos Dumont, sentido sertão-praia.
Não é nada opulenta. Poderia passar despercebida para a maioria. Sequer possui um segundo andar ou um vasto jardim gramado à frente. Mas há algo nela que é realmente encantador. Essa residência, hoje ilhada em meio a clínicas, escolas infantis, salões de beleza, concentra toda um estilo de fracionar espaços que me atrai de algum modo. Algo da ruralidade das casas de chácara no bairro do Outeiro – o antigo nome de parte da Aldeota – de que nos falam autores como Herman Lima.
Há essas estreitas janelas. Geralmente ocupando, em trípitico, o espaço que poderia ser preenchido por um só, desgracioso, janelão. Estreitas janelas guarnecidas por venezianas, naturalmente. Estão à esquerda, na fração da casa que avança em bloco sobre o pequeno vão de jardim, que a precede. Há um alpendre em L, que se estende por todo flanco direito. E nele se pode entrever o móvel conforto de redes avarandadas. Há também esse jardim lateral, contíguo à ala direita do alpendre. Esguio e bastante fechado por diversas árvores, ao modo dos antigos caramanchões. Vertendo sombra e conforto para uma faina doméstica e sem fim.
Me espanta um pouco o tanto que há de história naquela casa. Não conheço seus donos. E nunca parei para tomar qualquer informação a respeito dela. Mas, a cada ocasião em que, nas minhas caminhadas, passo em frente a ela, sinto o quanto ela convoca meu olhar. Posso intuir, secretamente, seu misterioso poder de passado e dignidade. A eloquência do que ela testemunhou ao longo de tantos anos. Há uma outra casa assim, só que infinitamente mais triste, numa dobra de esquina, por trás da Escola Normal.
Sei que muito do que toco neste texto são apenas reclamos, e que mal serão ouvidos. E é um pouco inútil chorar o leite derramado. As casas e as edificações que foram postas abaixo ou desfiguradas não vão renascer de seus alicerces. Elas foram derrubadas para sempre. Ou desfiguradas sem remissão.
Mas, desde sempre, para minhas próprias palavras – em meus livros, contos, poemas, letras de música – quero criar um espaço semelhante ao delas. Quero que minhas palavras se organizem dentro dessas densas formas da história. Dentro dessas estreitas janelas, dessas móveis venezianas; desses alpendres laterais vazados para o trabalho dos dias e o brinquedo das noites; dessas redes com varandas; desses caramanchões e latadas. Em certo sentido, sempre dentro dessa perspectiva de sítio ou chácara, pendendo para rua. Algo que indica a própria motivação inicial do bairro em que, por primeiro, residi em Fortaleza. Algo que está nas fachadas e no grau de testemunho e companhia dessas velhas casas, a nos ensinar um caminho mais íntegro. Ou mesmo algo mais lúcido sobre nós próprios e nossa integridade e história enquanto povo
E, então, quem sabe, essas casas e essas palavras nos possam, de novo, nos indicar um futuro mais liberto de ganância ou lucro fácil.







Nota – Artigo originalmente publicado em O Povo. Em 2000, quando o texto foi escrito, eu estava morando em São Paulo.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

ARQUITETURA INTUITIVA DA ALDEOTA


Na década de 70, qualquer sinal de uma região mais comercial se extinguia à altura da Rua Barão de Aracati. Havia, na esquina com a Av. Heráclito Graça, um terreno baldio de um lado, com alguns eucaliptos, e do outro uma revendedora da Volkswagen - que lá está até hoje. Essa revendedora demarcava o último sinal de comércio mais amplo à leste da cidade. O que se seguia era um bairro de casas. Essas casas eram ajardinadas. E havia um grande cuidado com esses jardins. E se cuidar de jardins é um índice de bairro residencial, a Aldeota dessa época era essencialmente para morar.

Algumas árvores eram muitas populares, então. Castanholas, oitis, fícus, mangueiras, algum pau-brasil e, posteriormente, jambos e acácias emolduravam as ruas. Nos jardins, além de diversas espécies de gramíneas - algumas delas não mais em uso - era comum se topar com espirradeiras, coqueirinhos, crótons e roseiras. O destaque eram papoulas de espécimes diversas, quase sempre em renques calcados contra os muros - que ainda eram baixos e, em geral, chapiscados. Mas havia também árvores mais exóticas, como pinheiros - muito cultivados durante certo tempo e um tanto na contramão de sua aclimação.

Pela Av. Santos Dummont seguiam as casas mais aristocráticas. E também algumas das mais antigas. Elas ficavam entre a Praça do Cristo Rei e a Avenida Barão de Studart. Algumas ainda com um certo traço de rústica ruralidade. Essas possuíam um só pavimento e aqueles alpendres laterais, suspensos por vigorosas colunas arredondadas, de alvenaria. Mas também, quando mais achalezadas, os alpendres findavam em uma treliça de madeira com algum arabesco simples, e as colunas eram esguias - fossem de madeira ou metal. E transmitiam uma certa atmosfera ferroviária, vagamente européia. O certo é que pareciam mais com casas de chácara do que de cidade. E são elas que estão na própria raiz do bairro, que antigamente não passava de um ajuntamento de chácaras, quintas e sítios para o fim-de-semana. Um conceito, aliás, bastante ibérico. E como tudo que é ibérico, quase varrido do mapa na Fortaleza de hoje em dia.

Mais recentes que essas, eram as casas em estilo mediterrâneo. Geralmente assobradadas e transmitindo uma certa sensação de solidez e peso. Os jardins eram amplos, guarnecidos por sebes, e a varanda da frente se reproduzia acima e nas laterais. Essas varandas eram suportadas por colunas maciças, e que deixavam vãos de consideráveis tamanhos entre si - embora limitados por pesadas sobre-paredes. Alguns elementos europeus se faziam presentes, como os olhos-de-boi. E havia uma certa compulsão para formas rotundas. Todas elas transmitiam peso e alguma dose de calculado terror.

A geração seguinte eram casas de feição mais americana. Talvez as primeiras riscadas pelos arquitetos que se diplomaram na escola local. As varandas quase desapareceram. Legaram espaço para uma coberta lateral onde se podia pôr o carro. Um espaço que, então, se conhecia como descansa-carro, geralmente antecipado por pérgolas. Mas a garagem era ainda avulsa. Os telhados armavam-se em águas simples e ângulos pronunciados, com destaque para os beirais largos e acolhedores. As janelas ocupavam vasta área. E não eram incomuns imensos janelões correndo sobre trilhos.

Depois dessas, e um tanto no influxo de Brasília, sobrevieram casas modernistas. Algumas belas. Outras excessivamente moldadas em concreto para serem belas. Brutalistas em excesso, num clima que reclama mais vazamento de varandas que bloqueios em cimento armado.

O comércio no meio de tantas casas, quando muito, se limitava a uma bodega na esquina. Os termos ainda eram esses: bodega e mercearia. Há uma secreta integridade nesses nomes. Eles são muito distantes de shopping ou mall. Bodega, em espanhol, quer dizer mais "adega" que qualquer outra coisa. Mercearia também não fica por menos, provém direto do latim merce = mercadoria (de onde mercadejar, mercantil, mercado etc.). Essa proximidade entre palavra, radicalidade histórica e espaços não é desprezível.

Mas havia também um tempo lento e católico naquela Aldeota. Ela era menos leiga e esse tempo se amplificava nos domingos e dias santos. A própria luz que descia sobre os gramados parecia incendiar o dia com mais lentidão. Longos domingos em que se respirava um sabá.

O dia mais morto na Aldeota - em Fortaleza, suponho - era Sexta-feira da Paixão. O mundo parava. Ainda mais que nos domingos. Não se ouvia música. Não se ouviam passos nas ruas. Não havia qualquer expansão de gestos. Hoje em dia, não se tem noção do que representava um luto fechado como o daquelas sextas-feiras. Estamos excessivamente escolados em nos prover 24 horas ao dia já faz algum tempo. E esses certos dias da rememoração pulverizaram-se na uniformidade shopping-center do dia-a-dia presente.

Não tenho nenhuma saudade daquele tempo em si, ou do bairro como se organizava então. O menor traço de recolheita. Certamente era mais tranqüilo do que hoje. Tenho, sim, saudades do que não aconteceu para melhor a partir daquele tempo e daquele espaço. Não acreditando em progresso e sendo bastante simpático a coisas que nos ensinam pela permanência, é claro que penso que a verticalização não foi uma boa saída para a Aldeota, assim como a excessiva mercantilização do bairro. E creio que o futuro poderia ter sido mais generoso com a Aldeota ou com Fortaleza em geral.

Mas depois que, no início dos 80, se desmatou uma perna de mangue e por cima se ergueu um shopping de ares monumentais, a melhor ponte para um futuro digno de Fortaleza foi desmontada. Claro que isso se reveste de uma estratégia política. Ou mesmo geopolítica, se quiserem. Mas, nesse ritmo, apenas se atolou na lama mais infecta a possibilidade de dotar de dignidade a memória da própria cidade. O Iguatemi apenas amesquinhou o Centro, a Aldeota, Fátima, e bairros mais antigos, como o Jacarecanga ou o Benfica.

Nada de tão singular. As elites brasileiras reproduziram a mesma estupidez em todas as outras capitais do país. Da Barra, no Rio, à Beira Mar Norte, em Florianópolis. É a mesma necessidade de se alienar da memória - como se de um esqueleto dentro do armário. Quando se cometem crimes, não deixar vestígios é a única possibilidade de prosseguir cometendo-os. Essa é a lógica que desfigura nossas cidades quando elas estão prestes a esboçar um sorriso.

Fortaleza não é exceção. Então, as saudades vão não para o que a Aldeota foi. Mas para o que Fortaleza não é.



Ruas da Aldeota

perfeitas de carro
essas ruas não são

nada, a não ser o
branco do olho

mas se vistas
a pé, à sombra

espessa de oitis
o olho a seguir

na luminosa tarde
as velhas fachadas

as formas da história
uma senha de noite

cai sobre as palavras



Nota – o artigo “Arquitetura Intuitiva da Aldeota” foi inicialmente publicado em O Povo [31/12/2002] e na revista de arquitetura Vivercidades (Rio)[17/01/2003]. O poema “Ruas da Aldeota” [1999] foi publicado em revistas diversas, e também no Caderno: uma literatura sem livros [2006], editado por Eduardo Jorge Oliveira para o Núcleo de Literatura da Funcet. Em geral, há a tendência de se ler o “perfeitas” no 1º verso do poema como adjetivo. Nada contra, mas eu, pessoalmente, leio como flexão do verbo “perfazer”. “[Quando] se perfaz de carro as ruas, elas não são nada, a não ser o branco do olho, etc”. Há uma tendência – tão ancestral quanto a própria poesia – de se não dirimir ambigüidades. As literaturas contemporâneas acham o máximo isso de ambigüidades. Mas eu não sou contemporâneo. E posso ser muito mal-humorado. E, por vezes, é importante que, ao menos, o leitor esteja a par das ambigüidades – ou seja, de outras possibilidades de ler um poema.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Quatro dias de cidade

Nota de carnaval só para fortalezenses
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Carnaval. Independente de gostar, agrada pensar: milhões estão de férias. Centenas - talvez, milhares - são felizes. Diante de previsíveis microfones, repassam cosmética satisfação pelas praias do Brasil. Jornalismo? Não se pode chamar o que a imprensa faz no carnaval assim. Ninguém são pode ser previsível neste país. Aqui, previsibilidade rima com exceção. Ser feliz no carnaval: infeliz resto do ano? Ano comprimido, começado na Quaresma. Farto de si. Nasce, já pede sal-de-frutas. Fortaleza fica habitável durante folias. Hiato entre capitais do Nordeste, à reboque da colônia interiorana. Foliões seguem para veraneio de praias apinhadas. Refratários - mas a fim de novos ares - sobem a Serra de Guaramiranga prum festival de jazz, reservas antecipadas - opção que se consolidou, último lustro. Aliás, legado bom do carnaval: marchinhas; sambas-enredos, levados com pachorra, síncopes, da era pré-desfile televisivo. Coretos. Possuem força evocatica. Tingem período momino com listas gris de nostalgia. Trilha eloqüente do que ter sido poderia. Tempo lento de rios passando por vidas. Ou então, frevos carbonários. Tentativas de se criar carnaval para Fortaleza: parte impertinentes, parte fantasiosas. Havia blocos-de-sujo. Corso. Manifestações ilhadas. Inconfluentes. Nada comparável à febre metálica do frevo. À síncope convidativa das marchinhas. Cearenses são anti-coletivos. Recentes demais para ir além dos sujos, salões de clubes, cordões, batalhas de confete, lança-perfumes, papangus. Espontaneísmo entre vizinhos. Brincadeira de bairro. Qualquer necessidade de infraestrutura pública. Carnavais d'antanho, outros carnavais deixam rasa saudade no fortalezense. Saudade de si mais que do evento. Ninguém se perdeu na folia, por aqui, feito pernambucanos. Muitos saem de si. Mas não entram no carnaval. O pulso em retardo do marcatu cearense nos legou triângulo fornido sopesando quilos de tristeza n'alma. Em plena folia. Rostos repintados de preto. Senso de gravidade que, para uma criança, pode roçar horror. Quem lucra com o desfile oficial, na Av. Domingos Olympio? A cidade não rima com carnaval. Escrito. Está em romances, crônicas. A maioria fica em casa. Toma banho de chuva. Desfruta de uma Fortaleza como não se vê há anos. Tudo é carnaval? Beleza! Tudo em volta é só beleza. Cinemas sem filas. Praias quase desertas. Ônibus praticáveis. Calçadas para palmilhar em segurança. Trânsito fluindo. Dias de folia? Temos cidade! Cidadania de quatro dias ao ano. Que assim seja.