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terça-feira, 1 de abril de 2008

Sozinho com a cidade: passar pelos lugares é ler história inscrita no espaço


Frank Lloyd Wright, 1906



Conversar com casas

Há uma sorte de conversa íntima que você só entretece com uma cidade. E me lembro de caminhar por Fortaleza entretecendo essa conversa horas a fio, um dia depois do outro.
Minha própria noção de Fortaleza é muito limitada. E ela se faz do Centro para leste, na direção do eixo conformado pelas principais ruas e avenidas que cortam a Aldeota Velha – como dizem, em definição perfeita, alguns office-boys.
Foi mais ou menos nesse espaço que vai da Praça do Ferreira à Rua Monsenhor Bruno – e da Antônio Sales para o mar – que mais me movi nos anos em que morei na cidade. E, aqui, sim, conheço mais ou menos de cor toda seqüência de ruas e o que há de mais interessante para ver nelas. E minha geografia se estende, com pequena expansão para os bairros do Benfica, Pici, as Praias de Iracema e do Futuro. Mas também aos novos bairros do Leste – que são, no entanto e de todo, os menos interessantes, pelo menos para mim, à exceção da Cidade dos Funcionários.
Alguém já disse que os locais, as casas, as ruas, os edifícios, as árvores, as esquinas, devolvem a atenção de um olhar. Se sentem em próprio estado de diálogo, de conversa, com o caminhante que lhes lança despretensiosamente os olhos. E é assim, exatamente, que costumo a caminhar – ou mesmo pedalar – por Fortaleza. Não só como exercício físico. Mas como exercício cívico. Tentando fisgar, em meio a prédios e casas, a história dessa cidade quase à prova de história.
Algumas velhas casas da região mais antiga da Aldeota, conheço como ninguém. Se acrescentaram um novo andar em improviso. Se retiraram do muro a graciosidade das colunatas antigas. Se revestiram de ladrilhos a fachada, como se fosse um lavabo – onde antes havia um discreto chapisco cinza. Se desfiguraram de vez a forte eloquência, de sobriedade e calma, que as linhas de uma velha fachada nos repassam. Se aterraram um canteiro onde havia grama e espirradeiras. Tudo isso posso perceber de prima. Pois essas casas parecem reclamar, gemer quando qualquer dessas contrafações é cometida contra sua bela integridade de testemunho. Seu poder de evocação, quase epifânico, é o mesmo de certas velhas canções. Ou quase o mesmo de uns poucos perfumes raros, e que nos datam o tempo com digital precisão interior.
Conheço de certas ruas, cada casa, um tanto como se elas, e não seus donos, fossem os vizinhos. E me exaspera um bocado saber que estão construindo um segundo pavimento improvisado sobre aquela marquise. Ou o que é pior, a fachada será maquilada com lambris para a instalação de um consultório, um escritório de engenharia, uma locadora de vídeos, um salão de beleza, um centro de fisicultura. Por que a necessidade desses estúpidos lambris?
Porém, ao mesmo tempo, alguns dos sítios mais impressionantes são casas demolidas. Digo melhor, parcialmente demolidas, justo na etapa em que elas ainda resguardam o assoalho e um certo vestígio de divisão, do que um dia foram paredes. Espécie de maquetes vazadas, plantas baixas ao vivo e literalmente. Espectros do que foram nos muitos anos em que habitadas por duas ou três gerações. Fortaleza não suporta mais que esse lapso.
A virtual ausência de planejamento urbano aliada à ganância e ao poder manipulador das grandes construtoras degradaram a cidade ao extremo nos últimos vinte e poucos anos. E, se nesses mesmos vinte e poucos anos, se houvesse preservado a melhor parte das belas residências da Aldeota Velha e do Bairro de Fátima teríamos simplesmente uma razão a mais de auto-estima.
Se pode até entender que muitos fatores entraram em conjunção para provocar esse desastre urbano. Mas não se pode perdoar o afã de modificar as características essenciais dos prédios e casas, deformando-os por completo, apenas em nome de ridículos caprichos pessoais ou efêmeras demonstrações novas-ricas de status. Ou mesmo de partições de herança. Deveria haver uma legislação forte e que cuidasse efetivamente disso. Mas se o fenômeno se dá a reboque de razões eminentemente econômicas, essas distorções poderiam ao menos ser atenuadas houvessse um verniz mínimo de planejamento, pois basta passar os olhos por fotos antigas para perceber que já houve mais amenidade em nosso circuito urbano.
É possível pensar, nesse ritmo, no próprio esvaziamento de funções que a casa de classe-média sofreu em Fortaleza nos últimos vinte e poucos anos. A casa não é mais um local para receber. Os encontros foram deslocados para os restaurantes e lobbies de hotéis e shoppings. Já os aniversários – especialmente os infantis – assim como os grandes eventos familiares – casamentos, bodas, batizados, etc. – foram cada vez mais transferidos de casa para os bifês. Ou se dão no salão de festas do condomínio quando casa não mais há. Bem como também, em termos de lazer, as quadras domésticas de esporte e áreas afins perderam sua importância em prol inicialmente dos clubes e raros parques e praças praticáveis; e, mais recentemente para as escolas, os centros de fisicultura e os condomínios. Além disso, as famílias de classe-média não possuíam tantos carros trinta anos atrás. E assim havia mais orçamento disponível para se gastar no zelo do imóvel. E mais espaço no imóvel para abrigar o zelo do corpo.
O excesso de carros nas ruas estreitas da cidade é, aliás, um dos fatores que contribuíram decisivamente para que Fortaleza perdesse muito do charme, algo ibérico, que ainda possuía na década de 70. Quase ninguém caminha ou anda de bicicleta por Fortaleza. Às vezes, percursos mínimos são ostensivamente perfeitos sempre de carro. E há mesmo o ridículo do número de automóveis que se aglomera diariamente, de manhã bem cedo, à Beira-Mar. E esses veículos levam aqueles que vão... caminhar. Quer dizer, para se caminhar em Fortaleza se usa... o carro.
Isso dá o que pensar. Não seria mais prudente, cívico, e muito mais ecológico passear a pé pelas imediações de casa? E isso até serviria para fortalecer laços de vizinhança e solidariedade. Já que famílias inteiras, amigos e vizinhos estariam nas ruas de manhã cedo e passando pelos espaços onde, de fato, moram. Podendo eventualmente observar e zelar pelos equipamentos públicos e até conhecer-se melhor e se organizar no sentido de apurar a qualidade de vida de seu pedaço de cidade, bem como reocupar coletivamente uma rua cuja insegurança também brota da falta de pedestres. E isso não é nenhuma utopia. E é bem fácil de atingir. Bastava que houvesse políticas públicas que incentivassem a prática de caminhadas e passeios de bicicleta em volta da vizinhança. Mas também que todos aqueles que tivessem condição ou disposição para se deslocar a seu local de trabalho de bicicleta ou a pé, o pudessem fazer, e em condições razoáveis de segurança e conforto pessoal.
Admiramos Amsterdã pelo número de ciclistas que se deslocam pela cidade, acrescendo-lhe o charme típico de uma urbe tranqüila e de alta qualidade de vida. E mal nos damos conta de que vivemos numa cidade plana. E que bastaria exclusivisar algumas vias somente para bicicletas – além de excessionar apenas aos moradores, o tráfego de veículos em baixa velocidade nessa vias – para, então, a curto prazo, atingir patamares de qualidade de vida bem mais expressivos e dignos. Inclusive por uma maior desobstução das vias de tráfego, bem como por certa desvalorização simbólica do automóvel. Fácil entender que esculpir uma cidade é uma tarefa essencialmente do olhar. Inclusive no que diz respeito à sua poluição visual.
E tudo isso é tarefa do estado, claro (até hoje me recuso a escrever estado com maiúscula). Mas, por igual, deveria passar pela boa-vontade e pela consciência e cooperação de cada cidadão de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Cada um sabendo de seus potenciais em contribuição para atingir tais metas.
Voltando às velhas casas, há mesmo uma que resume para mim esse elo entre paisagem, história e integridade. Se não me falha a memória, depois de quase cinco anos morando fora de Fortaleza, ela fica na Antônio Augusto. No próprio quarteirão que antecede a Santos Dumont, sentido sertão-praia.
Não é nada opulenta. Poderia passar despercebida para a maioria. Sequer possui um segundo andar ou um vasto jardim gramado à frente. Mas há algo nela que é realmente encantador. Essa residência, hoje ilhada em meio a clínicas, escolas infantis, salões de beleza, concentra toda um estilo de fracionar espaços que me atrai de algum modo. Algo da ruralidade das casas de chácara no bairro do Outeiro – o antigo nome de parte da Aldeota – de que nos falam autores como Herman Lima.
Há essas estreitas janelas. Geralmente ocupando, em trípitico, o espaço que poderia ser preenchido por um só, desgracioso, janelão. Estreitas janelas guarnecidas por venezianas, naturalmente. Estão à esquerda, na fração da casa que avança em bloco sobre o pequeno vão de jardim, que a precede. Há um alpendre em L, que se estende por todo flanco direito. E nele se pode entrever o móvel conforto de redes avarandadas. Há também esse jardim lateral, contíguo à ala direita do alpendre. Esguio e bastante fechado por diversas árvores, ao modo dos antigos caramanchões. Vertendo sombra e conforto para uma faina doméstica e sem fim.
Me espanta um pouco o tanto que há de história naquela casa. Não conheço seus donos. E nunca parei para tomar qualquer informação a respeito dela. Mas, a cada ocasião em que, nas minhas caminhadas, passo em frente a ela, sinto o quanto ela convoca meu olhar. Posso intuir, secretamente, seu misterioso poder de passado e dignidade. A eloquência do que ela testemunhou ao longo de tantos anos. Há uma outra casa assim, só que infinitamente mais triste, numa dobra de esquina, por trás da Escola Normal.
Sei que muito do que toco neste texto são apenas reclamos, e que mal serão ouvidos. E é um pouco inútil chorar o leite derramado. As casas e as edificações que foram postas abaixo ou desfiguradas não vão renascer de seus alicerces. Elas foram derrubadas para sempre. Ou desfiguradas sem remissão.
Mas, desde sempre, para minhas próprias palavras – em meus livros, contos, poemas, letras de música – quero criar um espaço semelhante ao delas. Quero que minhas palavras se organizem dentro dessas densas formas da história. Dentro dessas estreitas janelas, dessas móveis venezianas; desses alpendres laterais vazados para o trabalho dos dias e o brinquedo das noites; dessas redes com varandas; desses caramanchões e latadas. Em certo sentido, sempre dentro dessa perspectiva de sítio ou chácara, pendendo para rua. Algo que indica a própria motivação inicial do bairro em que, por primeiro, residi em Fortaleza. Algo que está nas fachadas e no grau de testemunho e companhia dessas velhas casas, a nos ensinar um caminho mais íntegro. Ou mesmo algo mais lúcido sobre nós próprios e nossa integridade e história enquanto povo
E, então, quem sabe, essas casas e essas palavras nos possam, de novo, nos indicar um futuro mais liberto de ganância ou lucro fácil.







Nota – Artigo originalmente publicado em O Povo. Em 2000, quando o texto foi escrito, eu estava morando em São Paulo.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

ARQUITETURA INTUITIVA DA ALDEOTA


Na década de 70, qualquer sinal de uma região mais comercial se extinguia à altura da Rua Barão de Aracati. Havia, na esquina com a Av. Heráclito Graça, um terreno baldio de um lado, com alguns eucaliptos, e do outro uma revendedora da Volkswagen - que lá está até hoje. Essa revendedora demarcava o último sinal de comércio mais amplo à leste da cidade. O que se seguia era um bairro de casas. Essas casas eram ajardinadas. E havia um grande cuidado com esses jardins. E se cuidar de jardins é um índice de bairro residencial, a Aldeota dessa época era essencialmente para morar.

Algumas árvores eram muitas populares, então. Castanholas, oitis, fícus, mangueiras, algum pau-brasil e, posteriormente, jambos e acácias emolduravam as ruas. Nos jardins, além de diversas espécies de gramíneas - algumas delas não mais em uso - era comum se topar com espirradeiras, coqueirinhos, crótons e roseiras. O destaque eram papoulas de espécimes diversas, quase sempre em renques calcados contra os muros - que ainda eram baixos e, em geral, chapiscados. Mas havia também árvores mais exóticas, como pinheiros - muito cultivados durante certo tempo e um tanto na contramão de sua aclimação.

Pela Av. Santos Dummont seguiam as casas mais aristocráticas. E também algumas das mais antigas. Elas ficavam entre a Praça do Cristo Rei e a Avenida Barão de Studart. Algumas ainda com um certo traço de rústica ruralidade. Essas possuíam um só pavimento e aqueles alpendres laterais, suspensos por vigorosas colunas arredondadas, de alvenaria. Mas também, quando mais achalezadas, os alpendres findavam em uma treliça de madeira com algum arabesco simples, e as colunas eram esguias - fossem de madeira ou metal. E transmitiam uma certa atmosfera ferroviária, vagamente européia. O certo é que pareciam mais com casas de chácara do que de cidade. E são elas que estão na própria raiz do bairro, que antigamente não passava de um ajuntamento de chácaras, quintas e sítios para o fim-de-semana. Um conceito, aliás, bastante ibérico. E como tudo que é ibérico, quase varrido do mapa na Fortaleza de hoje em dia.

Mais recentes que essas, eram as casas em estilo mediterrâneo. Geralmente assobradadas e transmitindo uma certa sensação de solidez e peso. Os jardins eram amplos, guarnecidos por sebes, e a varanda da frente se reproduzia acima e nas laterais. Essas varandas eram suportadas por colunas maciças, e que deixavam vãos de consideráveis tamanhos entre si - embora limitados por pesadas sobre-paredes. Alguns elementos europeus se faziam presentes, como os olhos-de-boi. E havia uma certa compulsão para formas rotundas. Todas elas transmitiam peso e alguma dose de calculado terror.

A geração seguinte eram casas de feição mais americana. Talvez as primeiras riscadas pelos arquitetos que se diplomaram na escola local. As varandas quase desapareceram. Legaram espaço para uma coberta lateral onde se podia pôr o carro. Um espaço que, então, se conhecia como descansa-carro, geralmente antecipado por pérgolas. Mas a garagem era ainda avulsa. Os telhados armavam-se em águas simples e ângulos pronunciados, com destaque para os beirais largos e acolhedores. As janelas ocupavam vasta área. E não eram incomuns imensos janelões correndo sobre trilhos.

Depois dessas, e um tanto no influxo de Brasília, sobrevieram casas modernistas. Algumas belas. Outras excessivamente moldadas em concreto para serem belas. Brutalistas em excesso, num clima que reclama mais vazamento de varandas que bloqueios em cimento armado.

O comércio no meio de tantas casas, quando muito, se limitava a uma bodega na esquina. Os termos ainda eram esses: bodega e mercearia. Há uma secreta integridade nesses nomes. Eles são muito distantes de shopping ou mall. Bodega, em espanhol, quer dizer mais "adega" que qualquer outra coisa. Mercearia também não fica por menos, provém direto do latim merce = mercadoria (de onde mercadejar, mercantil, mercado etc.). Essa proximidade entre palavra, radicalidade histórica e espaços não é desprezível.

Mas havia também um tempo lento e católico naquela Aldeota. Ela era menos leiga e esse tempo se amplificava nos domingos e dias santos. A própria luz que descia sobre os gramados parecia incendiar o dia com mais lentidão. Longos domingos em que se respirava um sabá.

O dia mais morto na Aldeota - em Fortaleza, suponho - era Sexta-feira da Paixão. O mundo parava. Ainda mais que nos domingos. Não se ouvia música. Não se ouviam passos nas ruas. Não havia qualquer expansão de gestos. Hoje em dia, não se tem noção do que representava um luto fechado como o daquelas sextas-feiras. Estamos excessivamente escolados em nos prover 24 horas ao dia já faz algum tempo. E esses certos dias da rememoração pulverizaram-se na uniformidade shopping-center do dia-a-dia presente.

Não tenho nenhuma saudade daquele tempo em si, ou do bairro como se organizava então. O menor traço de recolheita. Certamente era mais tranqüilo do que hoje. Tenho, sim, saudades do que não aconteceu para melhor a partir daquele tempo e daquele espaço. Não acreditando em progresso e sendo bastante simpático a coisas que nos ensinam pela permanência, é claro que penso que a verticalização não foi uma boa saída para a Aldeota, assim como a excessiva mercantilização do bairro. E creio que o futuro poderia ter sido mais generoso com a Aldeota ou com Fortaleza em geral.

Mas depois que, no início dos 80, se desmatou uma perna de mangue e por cima se ergueu um shopping de ares monumentais, a melhor ponte para um futuro digno de Fortaleza foi desmontada. Claro que isso se reveste de uma estratégia política. Ou mesmo geopolítica, se quiserem. Mas, nesse ritmo, apenas se atolou na lama mais infecta a possibilidade de dotar de dignidade a memória da própria cidade. O Iguatemi apenas amesquinhou o Centro, a Aldeota, Fátima, e bairros mais antigos, como o Jacarecanga ou o Benfica.

Nada de tão singular. As elites brasileiras reproduziram a mesma estupidez em todas as outras capitais do país. Da Barra, no Rio, à Beira Mar Norte, em Florianópolis. É a mesma necessidade de se alienar da memória - como se de um esqueleto dentro do armário. Quando se cometem crimes, não deixar vestígios é a única possibilidade de prosseguir cometendo-os. Essa é a lógica que desfigura nossas cidades quando elas estão prestes a esboçar um sorriso.

Fortaleza não é exceção. Então, as saudades vão não para o que a Aldeota foi. Mas para o que Fortaleza não é.



Ruas da Aldeota

perfeitas de carro
essas ruas não são

nada, a não ser o
branco do olho

mas se vistas
a pé, à sombra

espessa de oitis
o olho a seguir

na luminosa tarde
as velhas fachadas

as formas da história
uma senha de noite

cai sobre as palavras



Nota – o artigo “Arquitetura Intuitiva da Aldeota” foi inicialmente publicado em O Povo [31/12/2002] e na revista de arquitetura Vivercidades (Rio)[17/01/2003]. O poema “Ruas da Aldeota” [1999] foi publicado em revistas diversas, e também no Caderno: uma literatura sem livros [2006], editado por Eduardo Jorge Oliveira para o Núcleo de Literatura da Funcet. Em geral, há a tendência de se ler o “perfeitas” no 1º verso do poema como adjetivo. Nada contra, mas eu, pessoalmente, leio como flexão do verbo “perfazer”. “[Quando] se perfaz de carro as ruas, elas não são nada, a não ser o branco do olho, etc”. Há uma tendência – tão ancestral quanto a própria poesia – de se não dirimir ambigüidades. As literaturas contemporâneas acham o máximo isso de ambigüidades. Mas eu não sou contemporâneo. E posso ser muito mal-humorado. E, por vezes, é importante que, ao menos, o leitor esteja a par das ambigüidades – ou seja, de outras possibilidades de ler um poema.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Quatro dias de cidade

Nota de carnaval só para fortalezenses
...
Carnaval. Independente de gostar, agrada pensar: milhões estão de férias. Centenas - talvez, milhares - são felizes. Diante de previsíveis microfones, repassam cosmética satisfação pelas praias do Brasil. Jornalismo? Não se pode chamar o que a imprensa faz no carnaval assim. Ninguém são pode ser previsível neste país. Aqui, previsibilidade rima com exceção. Ser feliz no carnaval: infeliz resto do ano? Ano comprimido, começado na Quaresma. Farto de si. Nasce, já pede sal-de-frutas. Fortaleza fica habitável durante folias. Hiato entre capitais do Nordeste, à reboque da colônia interiorana. Foliões seguem para veraneio de praias apinhadas. Refratários - mas a fim de novos ares - sobem a Serra de Guaramiranga prum festival de jazz, reservas antecipadas - opção que se consolidou, último lustro. Aliás, legado bom do carnaval: marchinhas; sambas-enredos, levados com pachorra, síncopes, da era pré-desfile televisivo. Coretos. Possuem força evocatica. Tingem período momino com listas gris de nostalgia. Trilha eloqüente do que ter sido poderia. Tempo lento de rios passando por vidas. Ou então, frevos carbonários. Tentativas de se criar carnaval para Fortaleza: parte impertinentes, parte fantasiosas. Havia blocos-de-sujo. Corso. Manifestações ilhadas. Inconfluentes. Nada comparável à febre metálica do frevo. À síncope convidativa das marchinhas. Cearenses são anti-coletivos. Recentes demais para ir além dos sujos, salões de clubes, cordões, batalhas de confete, lança-perfumes, papangus. Espontaneísmo entre vizinhos. Brincadeira de bairro. Qualquer necessidade de infraestrutura pública. Carnavais d'antanho, outros carnavais deixam rasa saudade no fortalezense. Saudade de si mais que do evento. Ninguém se perdeu na folia, por aqui, feito pernambucanos. Muitos saem de si. Mas não entram no carnaval. O pulso em retardo do marcatu cearense nos legou triângulo fornido sopesando quilos de tristeza n'alma. Em plena folia. Rostos repintados de preto. Senso de gravidade que, para uma criança, pode roçar horror. Quem lucra com o desfile oficial, na Av. Domingos Olympio? A cidade não rima com carnaval. Escrito. Está em romances, crônicas. A maioria fica em casa. Toma banho de chuva. Desfruta de uma Fortaleza como não se vê há anos. Tudo é carnaval? Beleza! Tudo em volta é só beleza. Cinemas sem filas. Praias quase desertas. Ônibus praticáveis. Calçadas para palmilhar em segurança. Trânsito fluindo. Dias de folia? Temos cidade! Cidadania de quatro dias ao ano. Que assim seja.