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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Fragmento Teológico-Literário

Salvador Dalí

Todo o texto a seguir, mas em especial o primeiro parágrafo, deve ser lido como se lê um programa.

Tenho que tentar dizer o que é necessário de um modo acessível e o mais universal possível. Mas sem perder a dignidade da ideia, que é o que ocorre hoje nos meios de comunicação: a perda da dignidade da EXPRESSÃO. A expressão sacrificada em nome da ampliação de seu alcance.

/Exemplo/
Passando ontem pela Vulgata, saíram estas duas versões, sem muito sistema. E qual, então, o propósito? O propósito é mostrar como alguém que desconhece latim pode “traduzir” do latim apenas pelo sedimento de leituras no português. O sentido específico destes movimentos de tradução é o de lançar o leitor “para dentro” de outras línguas. Neste caso, para dentro do latim, que nem mesmo sei ou domino, (mas sinto), imergindo-o por meio: 1. de uma violenta rigidez sintática; e 2. pelo som, mais do que pelo sentido das palavras. Vejamos como isto é possível:


/Liber Genesis/
/Livro Gênesis/
In principio creavit Deus caelum et terram. Terra autem erat inanis et vacua, et tenebrae super faciem abyssi, et spiritus Dei ferebatur super aquas.
Dixitque Deus: “Fiat lux”. Et facta est lux.
Et vidit Deus lucem quod esset bona et divisit Deus lucem ac tenebras.
Appellavitque Deus lucem Diem et tenebras Noctem. Factumque est vespere et mane, dies unus.

No princípio, criou Deus o céu e a terra. A terra, então, era inane e vã, e a treva sobre a face do abismo, e o espírito de Deus ferrabrava sobre águas.
Disse Deus: "Faça-se luz". E luz foi feita.
E Deus viu a bondade da luz. E dividiu a luz da treva.
Apelou Deus a luz de dia. E a treva, noite. Feitas foram véspera e manhã, dia um.

/Evangelium Secundum Ioannem/
/Evangelho Segundo João/
In principio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum. Hoc erat in principio apud Deum. Omnia per ipsum facta sunt, et sine ipso factum est nihil, quod factum est; in ipso vita erat, et vita erat lux hominum, et lux in tenebris lucet, et tenebrae eam non comprehenderunt.

Em princípio era verbo, e verbo era aposto a Deus, e Deus era verbo. Ele era em princípio aposto a Deus, a união por Ele foi feita, e sem Ele nada do que foi feito foi feito. Ele era vida. E vida era a luz humana. E a luz luziu nas trevas. E as trevas não a compreenderam.


/Ressalva e Paráfrase/
Tudo bem. Podem parar de rir. Já sei. Quer dizer, suponho que sei a primeira coisa que alguém vai implicar com. E naturalmente é com esse “ferrabrava”. Não existe o verbo “ferrabrar” em português. Mas o termo foi lapidado para equivaler ao som no latim “ferebatur super aquas” (“movia-se sobre a água”). O termo, de resto, repassa uma ideia de convulsão, de movimento. Algo como um ferreiro forjando seu ferro. Esforço análogo ao do Senhor ao criar o mundo. E por outro lado, o termo não esquece da infância da gente, vizinha de nossa própria criação. Ou seja, do tal gigante Ferrabrás, de quando éramos pequeno.
Feita a ressalva, podemos prosseguir.
Talvez o que mais pasme nos jovens, é que eles são todo intuição. Ora, isso por um lado é excelente: intuição é mais da metade do caminho. É aquilo que se oferece de graça ao espírito sincero e, portanto, ao jovem. E, contudo, o resto do itinerário da escrita é árduo. É feito queimando combustíveis fósseis ou orgânicos. Quer dizer, um duro danado foi dado por sucessivas gerações no passado. E é esta faina incessante, que "ferrabra" ao longo dos séculos, o que mantém a chama acesa e nos dá de comer. É dela que nos nutrimos, quando falamos no palavrão que os jovens mais detestam: forma. E é uma pena que detestem. Pois sem ela é impossível comer beleza ou digeri-la.
Forma nada mais é que o corpo e o sangue dos escritores que vieram antes de nós. É como se para escrever fosse preciso queimar algo na noite, como se queima a cera das velas, o querosene dos miasmas, o azeite das mamonas, o sebo dos círios. Esse combustível orgânico ou fóssil chama-se tradição, chama viva que passa de uma geração a outra sem apagar. E a tradição é pesada. Sobretudo a todo aquele que a desconhece ou a nega, pois para este ela se converte num fardo. Tradição, aqui, não tem a ver com algo conservador em termos políticos ou psíquicos. Bem ao contrário, trata-se da única forma de agir revolucionariamente. É reacendendo certos valores da tradição  que são implicitamente bons, mas que a convenção social em hipocrisia deformou  que se muda para melhor uma sociedade. A rigor seria escamar a tradição do que se entende erroneamente por tradição e não é. Quer dizer, sobretudo saber separá-la de certo moralismo tacanho ou catolicismo de sacristia. A revolução nada mais é, assim, que um des-deformar esses valores. Em arte, como nos explica Ortega y Gasset, o modernismo agiu desse modo. Por oposição. 
Um pintor ao apelar para a deformação do traço, quer reachar o traço, ao apelar para a cor básica e tosca, quer reachar o sentido original da cor, perdidos que foram de tanto esses traços e cores serem empregados em hipocrisia e mimetismos doentios por uma sociedade deformada. O perigo de doutrinas como o politicamente correto mora justamente aqui. Contra o que elas se insurgem é, mais das vezes, pertinente. E, no entanto, ao eliminar o problema, elimina-se junto a solução – que passa pelo filtro da tradição.
Dizer, por exemplo, que vale tudo, que não se deve apelar para uma norma culta no português ou deixar de ensiná-lo, via essa norma culta nas escolas, é algo terrível. Ainda assim, há linguistas que defendem isto. A exemplo de Bagno. Como pode ser? Porque se este ponto de vista for validado, assumido pela sociedade, em umas poucas gerações a língua não só será “esquecida”, como fragmentar-se-á em diversos dialetos e idioletos não comunicáveis entre si. O resultado seria uma confusão medonha. Uma verdadeira babel. Alguém do Acre seria incapaz de se comunicar com uma menina no Espírito Santo. Ou compreender um programa de TV produzido na Paraíba. O que, em última instância “dá liga” para que diferentes regiões, países ou temperamentos culturais – e tão importante quanto, diferentes tempos também – se comuniquem é a obra dos grandes autores do passado.
Por outro lado, a forma de manter a chama acesa é ler, entender, amar os clássicos. Porque neles está sedimentado o combustível fóssil necessário para manter acesa qualquer modalidade de escrita.

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O George Harrison da Poesia Concreta

Juan Miró, Intérieur hollandais, 1925

A Poesia Concreta e a Voltinha no Quarteirão

Augusto de Campos sempre me pareceu o mais ponderado dos concretistas. Discreto e, ao mesmo tempo, profundo. Décio foi meu professor. E um ótimo professor. E há versos seus que já trazia de cor antes de conhecê-lo e ainda trago até hoje (“Gira, girando meu carrossel” ou “Iroquês, iroquês que fizeste?”). Mas sua prosa experimental é um bocado chata. E seus poemas na fronteira da publicidade, apenas fáceis. Haroldo, o mais incensado quando vivo, lembrado até para um possível Nobel – que ele não ganharia, por mais empenho que botassem nisso – tinha aquele olhar de louco. Quer dizer, de louco que passou o dia todo lendo e não saiu de casa nem para dar uma voltinha no quarteirão. Ou limpar a vista com a passagem das meninas. Ou pelo menos deixar o pobre do au-au fazer cocô em paz.¹
Se bem que Haroldo não tinha cachorro, caçava com gato. Quer dizer, caçava referências e citações com gato. Porque nunca que ele deve ter caçado na vida, a não ser o sentido de um verbo anômalo num dialeto inuíte desses qualquer.
A falta dessa voltinha no quarteirão foi o que matou a poesia concreta. E fez com que ela, dissociada do actual e do cotidiano, vivesse e perecesse sem muita glória. Em Leminski, por exemplo, a voltinha no quarteirão está lá, e muito lá. O mesmo se pode dizer de sua geração: Chico Alvim, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Nicholas Behr, Alice Ruiz, Charles et alli.
Todo esse povo que vem sob a hashtag de Mimeógrafo Generation ou poesia marginal² deu boas voltinhas no quarteirão, num quarteirão do tamanho do mundo, ao invés de ficar só lendo e afagando gatos. Aqui a impressão que se tem dos concretistas é que o máximo que eles aprontaram foram meta-travessuras ou, digamos, meta-vexames. Ou seja, pequenos e inocentes escândalos em bienais de arte e salas de concerto.
O resultado disso foi que a minha geração leu um bocado da teoria e das traduções dos concretistas. Mas na hora de ler poesia, a poesia que pulsa, bate viva feito coração, fere e afaga, a que não tem bula nem contra-indicação, a que vai além da citação, do pastiche, dessas literatices, era muito mais divertido – e menos Aranha sem graça – ler Leminski, Torquato, Alvim, Ana Cristina, Cacaso e as letras de Chico e Caetano. (Quem pode negar?) Exatamente os que eles consideram “diluidores”, seguindo, à letra, a sovadíssima classificação de Pound.
Ainda assim, quem desconhece a teoria, as traduções e alguns (poucos) poemas que passaram pelas privilegiadas cacholas desses três senhores, merece mais compaixão que apreço. O Balanço da Bossa, de Augusto, por exemplo, é um livro bastante subestimado. Uma das melhores coisas escritas sobre nossa música popular. É quase tão bom quanto Tinhorão. E vale tanto ler um quanto o outro.
Esta semana, vi Augusto falando numa entrevista. Augusto é uma glória nacional – e não segue aqui um grama de ironia. Visivelmente incomodado por ser interrompido – por essa mania feia que os repórteres têm de cortar a fala do entrevistado quando ele está no melhor, só para confirmar que inspiram e expiram, que “participam”³ – ele falou com enorme propriedade, fluência sobre sua formação e participação no movimento.
E com a calma que faltou a Haroldo. E, às vezes, falta a Décio.
Há duas coisas excelentes no temperamento de Augusto, e que estendem-se obviamente a seu processo de criação. A primeira, é não se tomar tão a sério, embora seja o que mais se manteve fiel à perspectiva concretista – e há muita coerência e idoneidade nisto. É, portanto, o que mais deve a sério ser tomado. A segunda, é revisar épocas e períodos inscrevendo generosamente sua vida num panorama, num circuito bem mais amplo de nomes, ideias e obras.
Além disso ele diz coisas bem urdidas como:

arte longa vida breve
escravo se não escreve
escreve só não descreve
grita grifa grafa grava
uma única palavra
greve greve greve greve


Reparem que isto é bom, não por ser poesia concreta. Ou por estar posto atrás de um papel manteiga e certos tipos gráficos pretensiosos e sem serifa num belo livro chamado Viva a Vaia. Do contrário, é bom porque nos faz lembrar das redondilhas dos finados cantadores do Nordeste. E bom porque possui certo ritmo, certa bossa, certo engenho. Alguma ligação com o mundo exterior para além dos paideumas. Parece até escrito por Leminski!
A falta de sal na poesia concreta não se deve ao seu meio rarefeito. Nem sequer ao programa em si. Ou as características de anti-poesia. A impressão que se tem é a de que eles levaram tanta porrada do status quo, do pessoal de 45 - ainda mais Aranha sem graça que eles - que ficaram muito defensivistas e prescritivos. Há uma rigidez proto-militar na poesia concreta. Um hieratismo intelectual asfixiante, sem porosidade ou transitivos para a vida fora dos livros.
Quando Haroldo, já maduro, tentou algo para fora dos livros, tarde demais. E soou apenas incongruente. Mas Augusto, por uma estranha dialética – e isso foi percebido por João Cabral – ao se manter mais fiel ao programa original, ao plano-piloto, conseguiu também transpor um pouco mais o percurso de ida e volta do livro para a vida.

Por fim mas não menos sublinhável, em provocação, a ilustração é Miró, um surrealista. Mas, de repente, a exemplo de Murilo Mendes, um surrealista bastante admirado por quem os concretistas admiravam: João Cabral. De outro lado, deixamos Mondrian, que eles adorariam ter como ilustração, em postagens mais ou menos próximas por aqui. Alusivas. E, no entanto, apartado deles, como de resto Mondrian – ao menos aquele que se descobriu um amante tardio do bogie-woogie – haveria de se postar, à distância, se soubesse da poesia concreta. Provavelmente, logo intuiria o grau de insípido hieratismo ao qual ela se propôs desde seu bater o centro. De contrariedades, provocações, bons desníveis é também feita a poesia, a crítica. E não só de receitas miméticas, de algo que se viu num livro ou num quadro, de tentar copiar um procedimento apreendido num seminário de pós-graduação ou numa sequência de Antonioni. De citações inócuas, enfim. A boa poesia vem do livro, sem dúvida, mas antes vem do mundo: da infância cheia de temores, incertezas; das intensas cores e falas da cidade; dos sonhos misteriosos, não digeridos pela manhã; dos botecos e cantinas; do receio antes do vestibular; dos pátios de faculdade em meio ao ramerrão da política estudantil; das insônias e outros vícios; do deslumbramento e da paixão; das dores de cotovelo e de corno; das bebedeiras e desesperos de quando se tem vinte anos; dos alugueis atrasados; das viagens com pouco dinheiro; de sentir-se o terceiro excluído; da demissão sem justa causa; das injustiças sofridas e cometidas; do misterioso tempo arrasando formas e criando outras igualmente belas e translúcidas; de concretudes e de abstrações nem tão abstratas assim; e etc. e etc. E, não resta dúvida, até de poesia concreta. Mas não só. E bote não só nisso.

______________
¹ Em Perdizes, aliás, as calçadas ficavam desoladoramente cagadas na década de 90, porque a moda ainda não era levar também o saco e a pazinha. E, re-aliás, os mais velhos não diziam “em Perdizes”, mas “nas Perdizes”. Era, tri-aliás, como Décio e Haroldo se referiam ao bairro: "nas Perdizes". E era engraçado ver mentes tão universais e ilustradas expressarem-se de um jeito que me lembrava, de alguma forma, o de senhores de idade no interior do Ceará, com esses artigos no plural concordando com o topônimo, e reforçando uma ideia de familiaridade que se perdeu no vão do tempo. Ou na poeira de trilhas e encruzilhadas menos "literáticas" do que se supõe. E eles - ocupados demais com manifestos, bienais, teorias - talvez nem tenham se dado conta. Na verdade, ao flexionarem essas partículas para concordarem com o nome do bairro, eles pareciam Seu Chico Noronha, morador de meu avô, falando das Imburanas. Havia um elo secreto entre Seu Chico Noronha e eles, que apontavam para um Brasil arcaico e pré-industrial, tudo o que eles mais almejavam exorcizar.  Então me ocorreu o quanto o tempo é implacável, mesmo com intelectuais ou artistas de vanguarda. E o quanto o emprego flexionado dessas partículas os punha em paralelo com um arcaico modo de expressão que já não se encontra sequer na capital de um estado do Nordeste, entre os jovens, claro - para não falar de São Paulo. De outro modo, a tarefa civilizadora dos concretistas é de grande fôlego. E não se pode prescindir dela. Embora nela seja necessário, como de resto no mais, separar joio e trigo. Haroldo e Décio foram determinantes para a montagem do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC-SP, pioneiro do gênero no país. E uma importante dissidência ao modo mais sociológico – e, claro, bastante substancial também – como a literatura é ensinada até hoje na Usp. Em São Paulo, tanto faz o lado em que você esteja assistindo ou ministrando aulas, é comum se dizer: “do outro lado do Rio Pinheiros, eles diriam que...” A expressão faz referência ao fato de o Rio Pinheiros, que praticamente confina com o Campus da USP, dividir territorialmente os lados. O mais semiótico (PUC) e o mais sociológico (USP). E alguém de mais brio, ao invés de tomar sectariamente o partido, navega no rio, em barquinho de papel.

² Nosso equivalente tardio, e ligeiramente após o grupo de Piva e Willer (mas mais universais, menos restritos a São Paulo que estes), aos beats.

³ Afinal hoje em dia quem não participa de alguma coisa, quem fica apenas em silêncio observando, é visto como um baita de um desgraçado. Um impostor. Um herege. Não é assim? Em arte, todos devem “interagir”, “participar”, receber o santo ou quase isso. Senão vão dizer que você está por fora. Que é um fracassado. Um loser. Um infeliz ao terceiro contato imediato. Alguém que não se comunica.
Como se menospreza silêncio. Ou qualquer modalidade de introspecção para referendar essa sub-arte pseudo-participativa!
Mil vezes, em determinadas circunstâncias contemplar, observa, calar. E há uma forma de calar mesmo com palavras. Mesmo no interior de textos escritos. Mas isto também se está desaprendendo.


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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Tempos verbais e o absurdo

Paula Rego, A Concise Definition of Answers, 1996

Ano que vem, respondo

O mais-que-perfeito é um tempo verbal adorável. Sua desinência é frágil, quebradiça, como um utensílio - fechadura, tábua de carne, cadeira de palhinha - que pelo excesso de uso demarca o transcurso do tempo. E com um nome completamente doido. Ilógico. É um passado anterior ao passado. É feito aquele moedor de carne à manivela que quando éramos pequenos já sabíamos que era passado. Que estivera ali antes da gente nascer, acoplado à mesa da cozinha, e embora ainda fosse eventualmente utilizado, coisas mais práticas estavam por vir. Por estas bandas, ninguém  mais emprega o mais-que-perfeito na versão falada da língua. Só na escrita. Mas, ainda assim, no campo da pura lógica, o mais-que-perfeito empata com o futuro do pretérito, que é também outro monstro sem lógica, porque só o presente pode ter um futuro. O futuro do passado é justamente o presente. O breve presente. O presente que grita que não pode ser longo, como quer o autor das Confissões. Ainda assim, o futuro do pretérito abre-se em possibilidades. É o tempo dos utópicos, dos sonhadores, dos neuróticos e dos santos. E por isso os políticos não gostam dele. Preferem o futuro do presente. Mente-se melhor e mais seguro com o futuro do presente.
Algo mais que perfeito é literalmente um disparate em termos filosóficos. E até teológicos. Um linguista alemão iria dar tratos à bola com um nome assim. Já o futuro do pretérito é pouco empregado em Portugal, onde foi substituído pelo imperfeito. Por que será que caiu nas graças do brasileiro? Eu responderia agora. Mas tenho que sair.

Ano que vem, respondo.

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O que a conversa lamenta é grandeza perdida: Benjamin

Minor White, Two Barns and Shadow, 1955


Dos sobretons epifânicos em Benjamin

Adorno diz que, no caso de Walter Benjamin, seu pensamento configurava-se como se as boas promessas dos contos de fadas e das histórias infantis tivessem de ser resgatadas e não repelidas em nome de uma infame maturidade. É um bom modo de cristalizar uma caracterização. À sua vez, os marxistas ortodoxos do passado, não cessavam de acusar Benjamin de seduzir os jovens com uma linguagem epifânica, plena de ressonâncias poéticas, próxima da linguagem dos profetas nas Escrituras. O que eles não compreendiam, então, é que os jovens eram seduzidos, sim, mas não propriamente por conta de a linguagem assemelhar-se à das Escrituras. Pois, neste caso, estariam todos debruçados diretamente na fonte, e trariam trechos e mais trechos da Bíblia de cor. A sedução provinha mais do grau de verdade que os jovens sentiam nos ensaios do autor de “Der Erzähler”E, logo, a acusação mesma já se constituía num maravilhoso aval e incentivo. Numa sanção que apontava para o quanto a teologia judaico-cristã impregnava o pensamento de Benjamin aliando-se a outros veios, como a estética de Kant e, obviamente, o pensamento de Marx e a nascente psicanálise de Freud e Jung. Ou o quanto havia de riqueza e aberturas em sua concepção do que era conhecimento, pois  nem por um segundo ele abre mão da simultaneidade dessas perspectivas. Se as utiliza de modo alegórico, se elas se combinam para conformar uma outra visão materialista da modernidade; se  são, ao fim de tudo, emasculadas ou drenadas de suas potencialidades, e muitos outros “se's” para adiante; isto são outros quinhentos.
Mas ainda hoje – e mesmo para alguém habituado com a expressividade do autor da "Pequena História da Fotografia" – é encostar o olho em um texto seu ainda não lido e admirar suas qualidades de ensaísta. E, porque há tanta presentificação de sentimentos e sensações, é filosofia mas ao mesmo tempo confissão. E romance. Um prazer que não quer chegar só ao espírito mas igualmente ao corpo. Como no início deste “As Metafísicas da Juventude”, que, salvo engano, ainda é inédito em português. O ensaio, que é de 1914, divide-se em três tópicos: A Conversa, O Diário, O Baile. Abre com uma epígrafe de Hölderlin – que mais tarde, na sua “A Tarefa (Vexame) do Tradutor” Benjamin irá caracterizar como alguém que esteve tão próximo da perfeição ao traduzir (no caso os gregos), que experimentou uma vertiginosa aberração de linguagem e uma espécie de crise ou surto, para logo em seguida cair num mutismo absoluto. O intuito deste "As Metafísicas da Juventude", no entanto, é bem outro. É dimensionar o quanto já na juventude nos nutrimos de coisas passadas. Ou as buscamos vencê-las. Ou somos vencidos por elas. O modo, enfim, como com elas travamos o que há de verdadeiramente épico em nossos embates pessoais:


A Conversa

Porque sois vós, oh, Juventude, quem sempre me desperta
prontamente pela manhã? E onde estais, Luz?
Friedrich Hölderlin –

I.
Diurnamente, lançamos mão de desmedidas energias como quando dormimos. O que fazemos e pensamos é preenchido com o ser de nossos pais e ancestrais. Um simbolismo incompreensível nos escraviza sem cerimônia. Às vezes, ao despertar, lembramos de um sonho. Dessa forma, raros raios de intuição iluminam as ruínas de nossas energias geradas ao longo do tempo. Estávamos acostumados com o espírito [Geist] tanto quanto com a batida do coração que nos permite levantar pesos e digerir a comida.
Cada conversa trata do conhecimento do passado tanto assim como de nossa juventude, e com horror ante a visão das massas espirituais dos campos destroçados. Nunca entrevemos a surda batalha que nossos egos travam com nossos pais. Agora podemos ver o que involuntariamente destruímos e criamos. A conversa lamenta a grandeza perdida.

II
A conversa esforça-se na direção do silêncio, e o ouvinte é de fato a parte silenciosa. O falante recebe dele o significado; o silencioso é a fonte inalienável do sentido. A conversa alça palavras aos seus lábios ao modo de vasos, jarras. O falante imerge na memória de sua fortaleza por palavras e busca formas nas quais o ouvinte possa se revelar. Pois o falante fala a fim de instalar a persuasão. Ele entende o ouvinte a despeito de seu silêncio; ele percebe que está se dirigindo a alguém cujas feições são inexaurivelmente sinceras e boas, enquanto ele, o falante, blasfema contra a linguagem.
[...]


III
O silêncio é a fronteira externa da conversa. A pessoa improdutiva nunca alcança essa fronteira; ela dispõe sua conversa como monólogo. Ela sai da conversa para entrar no diário ou no café.
[...]
A grandeza é o silêncio eterno após a conversa. É ouvir o ritmo das próprias palavras no espaço vazio. 
[...]


O Baile
[...]
Mas uma palavra, dita à noite, nos convoca alguém, caminhamos juntos, não precisamos propriamente da música, mas podemos juntos deitar no escuro, mesmo que nossos olhos cintilem, como uma lâmina entre duas pessoas. Sabemos que as impiedosas realidades que foram exorcizadas ainda pairam ao redor da casa. Os poetas, com seus sorrisos amargos, os santos e os policiais, e os carros de emboscada. De tempos em tempos, a música adentra o mundo exterior e os suprime.

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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Reportagem e decência


Georges Seurat, Place de la Concorde, l'hiver, 1883

Walser

Esta semana, li alguma coisa de e sobre Robert Walser que não fosse o esplêndido ensaio de Benjamin. Fiquei tão impressionado com ambos os aspectos – o homem, o escritor, a estranha qualidade de sua modéstia, a inexorabilidade das misérias que experimentou, o humor, o talento, a perfeita inabilidade social – que escrevi a postagem “Não para escrever”, logo mais abaixo.
Ele passou seus últimos anos – décadas, em verdade – num asilo, visitado apenas por uns poucos amigos. E isso, depois de haver sido um escritor de relativo sucesso na Alemanha – Kafka e Benjamin o apreciavam – onde viveu durante algum tempo para, então, retornar à Suíça. Aguardava-lhe uma vida modesta e desimportante em cômodos de aluguel e ostracismo social. E depois o asilo.
Além de escrever, a lápis, celeremente, sem revisar nunca, ele gostava de caminhar. E foi numa caminhada, no Dia de Natal de 1956, um dia gelado, que ele aparentemente perdeu o rumo.
Quando encontraram o corpo de Walser, estava congelado. Fotografias de um senhor de idade com a mandíbula aberta, imóvel, foram feitas. E impiamente estampadas em diversos jornais europeus. De fato, tem coisas que nos fazem recordar: somos humanos. E de um jeito terrível. Ou dos perigosos limites entre a reportagem, a decência.
Numa situação dessas, quem morre congelado na frieza de sua própria descompostura não é o jornalista? Não é o jornalismo?


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sábado, 7 de janeiro de 2012

Maria da Paz e os demonstrativos

[s/i/c]

Este, Aquela

Em determinados contextos, problema insolúvel da língua vai pelo emprego de “este” e “esse”. Difícil situar quem é, afinal, o parâmetro de distância ou proximidade. Se tal parâmetro é mais abstrato ou concreto. Se resume-se ao que está sendo escrito. Ou se reporta a algo que está fora da escrita. Se há um curto circuito entre tempos e espaços.
"Aquele" já é um pouco mais fácil.
Para casos assim, crônicos, ou mesmo para apagões momentâneos, Maria da Paz Ribeiro Dantas era providencial. Sua concepção de gramática ia a reboque de certa filosofia. Passava mais por reflexão que por fixidez. E, bem mais do que isso, era providencial e esclarecedor conversar com ela sobre Joaquim Cardozo.
Mas Maria da Paz morreu do coração no começo de setembro do ano passado, aos setenta e um anos. Talvez por não mais estar indo diariamente ao Arquivo Público, em Olinda, desde o Rosarinho. Algo que sua paraplegia – que, à exceção da infância, a fez viver em uma cadeira de rodas – nunca impediu. Maria da Paz sonhava andando de patins, uma de suas brincadeiras preferidas numa infância passada em fazendas, na Zona da Mata paraibana. Afora isso e alguns anos a mais, ela foi praticamente do Recife, onde chegou em 1963.
Era folclórica sua dificuldade com a internet. Quando sugeri que ela instalasse Skype, aí por 2005, me disse: “Olha o Murilo está vindo aí no fim de semana e vê isso pra mim”. E não adiantava insistir que baixar o Skype era mais fácil do que compreender definitivamente o emprego de 'esse' e 'este'.
Ela era de um outro tempo. De um tempo em que uma pessoa com seu cabedal de conhecimento, seu manejo da linguagem, ainda tomava como central dedicar a vida ao estudo de um poeta. E tomá-lo não como acessório para um degrau acadêmico, mas como projeto de toda uma vida. Com amorosa, paciente dedicação.
Ninguém escreveu mais lucidamente e com conhecimento de causa sobre Cardozo do que ela. Ou ainda tratou o assunto de forma assim apaixonada. Ainda hoje pode-se acessar o site que Maria da Paz montou para divulgar a obra do poeta de Signo Estrelado. E lá se encontra a poesia completa de Cardozo, à exceção do teatro (que usualmente é em verso), das crônicas, e de um ou outro item mais circunstancial.
Maria da Paz, in her own right, foi também e ocasionalmente uma poeta de algumas belas soluções, como esta de “O Capibaribe no Recife”: “Nada mais doméstico/ do que esse boi manso/ pastando a si mesmo sob a canga das pontes”. A solução está mais perto de mim ou de quem a elaborou e já não se encontra entre nós?
Com o pensamento em Maria da Paz, há um texto publicado aqui, alguns meses atrás. E é bastante provável que muito pouca gente tenha se dado conta de que era para ela.
Para que viver de notícias? Em certos casos é necessário digeri-las em silêncio. Remoê-las por algum entreato. Ainda que o sentimento, quando posto em texto, diga tão pouco. Quase nada.
Deste para aquela.


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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Uma questão de nomes?

[s/i/c]


A "Cordialidade" Brasileira e os Scholars

Há um ponto comum, que se repete à exaustão, no panorama traçado por scholars estrangeiros que de momento escrevem sobre o Brasil. E esta interseção tem a ver com certo pasmo diante da ausência de maiores antogonismos ou conflitos. Via de regra, esses scholars atribuem à abolição tardia - e, logo, à inércia do regime escravagista - essa tradição de não conflito. Mas esquecem que a abolição no Brasil se deu cerca de duas décadas após a americana. E duas décadas em história, convenhamos, não é lá grande coisa. Também esquecem que ao contrário de nossos vizinhos na América Latina, o Segundo Império conheceu, para a época, um razoável grau de democracia. Logo, fica patente que o que esses analistas desejam ardentemente é um maior número de conflitos, greves, revoltas, sangue. Certo dramatismo social a compor com alguns dinamismos econômicos aparentemente inexplicáveis - como nosso primeiro surto de industrialização ainda década de 10 do século passado, por exemplo. O certo é que há um desejo de revoluções maiúsculas, gestos palinódicos. Algo mais radical que 30. Um dramatismo que, de resto, eles encontrariam em Os Sertões, se estivessem melhor embasados. Mas a maioria deles nunca leu Os Sertões, apressados que estão em tecer uma análise do presente: a apologia do governo Lula ou explicar as razões da boa base econômica do Brasil à reboque da necessidade da China suprir-se de commodities.
Fica patente também que, para o azar deles, nunca leram Casa Grande & Senzala e Raízes do Brasil. Especialmente o primeiro. A cordialidade, nestes livros, assoma como uma nova forma de violência. Mais sutil, mais em desfaçatez. Mas nem por isso menos aguilhoante. Estas duas obras, a duas décadas de completarem cem anos, prosseguem sendo a base indispensável do pensamento sociológico sobre este país. E, de resto, livros agradabilíssimos de ler. Sobretudo o primeiro, que é uma obra-prima também do ponto de vista literário. E de uma originalidade que não concede ao cânone sociológico europeu ou norte-americano. Apesar de tomar emprestado de ambos. A própria Universidade de São Paulo por décadas ignorou Gilberto Freyre para cultivar um marxismozinho tacanho, que para variar louvava a ditadura cubana e do qual descendem entre outros Fernando Henrique Cardoso, a teoria da dependência em sua versão brasileira e alguns dentre os ideólogos do PT.
Pode-se, então, dizer que os scholars da vez se interessaram pelos Freyres e Buarques errados. Paulo Freire e Chico Buarque são recorrentemente mencionados em artigos do tipo. É chover no molhado reiterar que ambos aportam algo. Muito. Porém nem por sombras são tão importantes quanto Gilberto e Sérgio para se chegar a uma compreensão mais profunda deste país.


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Vendedores de fumaça

[s/i/c]

Muito Chicago e Bruxelas por Nada

No início da década de 90, a condução da política econômica do México era apontada como modelo em todas as manchetes mundo afora. Vivia-se então a época em que o neoliberalismo era tido como a panaceia para todos os males, no rescaldo de Reagan e Thatcher.
Os Estados Unidos, com George Bush, o pai, conheciam os estertores dessa euforia neoliberal. As teorias da  Escola de Chicago, de que o mercado regularia tudo, ainda estavam na crista. E a Europa regurgitava com a perspectiva de selar de vez a União Europeia em 1993. Os blocos econômicos pareciam ser o único paradigma de competitividade num mundo globalizado. E quem estava dentro deles, estava feliz.
Àquela altura, ainda pouco se falava da China mas ninguém dos BRICS, e não poucos economistas por aqui deploravam a excessiva reserva do governo brasileiro em relação à Alca, o projeto de livre comércio proposto pelos Estados Unidos para as Américas. Segundo estes arautos neoliberais, estávamos perdendo uma oportunidade única, o trem da história, o bonde do sucesso, a chance de ouro, o caminho até o fim do arco-íris, o cavalo selado.
Hoje com a penúria da Zona do Euro a se aprofundar, ninguém mais fala em Alca. Nem os próprios Estados Unidos. E esses mesmos economistas desconversam quando alguém adentra o assunto. Teria sido um desastre haver selado numa associação de livre comércio tutelada pelos norte-americanos àquela altura.
Hoje, tudo isso se dimensiona muito bem.
Um dia, a conta pela não produtividade dos países europeus – com a patente exceção da Alemanha, da Polônia e de alguns poucos – tinha de chegar. Assim como a conta da drástica redução das taxas de crescimento demográfico e o progressivo envelhecimento da população. Itália e Espanha seguem à beira do colapso. O Reino Unido desindustrializou-se e fala até em abandonar a União. A França é séria candidata à bancarrota. O estado francês, ao contrário do alemão – onde a idade para aposentadoria foi esticada aos 68 anos – é irresponsavelmente assistencialista, e o jubilamento se dá aos 62. E enquanto os franceses se aposentam ou administram, os imigrantes árabes subpagos e morando mal suam, operam máquinas e realizam os trabalhos braçais que os franceses não acham mais digno fazer. Num escasso momento de lucidez, o próprio Sarkozy acendeu polêmica nacional ao divisar na Alemanha o modelo. A França ainda vai pagar muito caro esta conta. [E, de certa forma, o Brasil também, já que o governo Lula, na contramão da história, rebaixou a idade de aposentadoria para o serviço público].
Há só uns poucos anos atrás, ter uma vasta população era ônus. Hoje, é uma das poucas vantagens que um país como Bangladesh tem sobre a Suíça. Há, aqui, uma perspectiva de futuro em jogo. Há vinte anos, entre os países lusófonos, Portugal reluzia, aparecia no local certo, na época certa, com o bilhete premiado à mão. Ao Brasil só cabia lamentar sua australidade, incompetência e distância da próspera União Europeia, envolvido numa crise política que destituiu o primeiro presidente eleito por voto direto, a entrever o insucesso de seguidos planos econômicos de choque e uma inflação galopante: o moral era baixo.
Hoje, tudo virou do avesso. 
Nada mais volátil que elogios a fundamentos macroeconômicos. Eles mudam radicalmente num estalar de dedos. E fica essa impressão de que há pernas para o ar. Além de muita fumaça.
Será que daqui a uns quinze anos vai estar tudo ao avesso de novo?


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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Bucha de canhão para teses

[s/i/c]


O Cordel, esse artifício turístico

Durante anos o cordel foi essa bucha de canhão para teses.

O cordel estava fadado a morrer. Não há nada de errado nisso. Há um ciclo que se fecha na espiral, para lembrar de Vico. Sua fonte era a narrativa oral, densa, assentada em esquemas mnemônicos que já não há.

Da narrativa oral só restaram minúsculos cacos, cinzas ou uma forma parcial, bastante híbrida, que detem algum débil empréstimo da tradição popular mas muito mais de rádio, de TV, de internet, do previsível jargão das associações comunitárias. Gente que andou coletando essas gestas populares, já faz tempo, como Sílvio Romero, Gustavo Barroso, Leonardo Mota, Mário de Andrade ou Câmara Cascudo sabia que essa morte seria iminente. Ou a pressentia.

Há formas que se extinguem simplesmente porque desaparecem os contextos sociais em que surgiram. E, claro, tentar perpetuar as formas sem os contextos é equívoco. É bisonho. É onde o movimento armorial, por exemplo, mostra sua face menos convidativa.

Vão dizer que a literatura de cordel está viva, que passa bem, etc. O que está vivo e passa bem não são os cantadores populares iletrados ou semi-letrados, nômades ou semi-nômades, que cantavam em feiras, nos terreiros de fazendas ou acompanhando comitivas. E cujas redondilhas constituíam uma das raras opções de lazer na escuridão da noite. Estes desapareceram. E porque já não há comitivas; as feiras não passam perto do que eram até meados do séc. XX; e há eletricidade, televisão e internet no cafundó mais cafundó do Judas. O que há, de momento, é muito mais uma espetáculo para turista ver.

O fato, aliás, de se alardear a todo instante que o cordel foi matéria de estudo na Sorbonne é infame. E menos para a Sorbonne.

O que também precipitou a morte do cantador popular e a tornou ainda mais inglória foi sua folclorização pela academia. Ou indo adiante, a absorção da cultura popular por programas ou subvenções do tipo Mestres da Cultura. A não ser que sejam extremamente bem conduzidas, intervenções dessa ordem costumam ser desastrosas, verdadeiras Guerras de Canudos ou estação de caça ao imaginário popular.


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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Arte e Internet

/sic/


E penar para tornar mais venal o virtual

Em geral, a sociabilidade com gente ligada à arte gera compromisso. Em geral, espúrio. [Seria necessário esclarecer e exceptuar, aqui, mas não é o momento]. Tem havido uma cerrada burocratização de procedimentos na esfera da arte. Daí que termos como "gestor", "consultor", "curador" hajam migrado da esfera burocrática para a artística. Em geral, o mesmo se pode dizer da academia. O simples convívio com práticas artísticas (estabelecidas) ou práticas acadêmicas doma e poda criatividade.

Se isso era já moeda corrente antes do advento da internet e das novas mídias digitais, imaginem depois. Terá sido coincidência que quem melhor pensou a questão esteve à margem? Há, aqui, toda uma linhagem de inadaptáveis, começando por Simmel, passando por Huinzinga, Benjamin, Kracauer, Bazin, Flusser, Elias et alli. E quando houve mais consórcio com a academia: i) ou o pensamento inflou-se de pompa e metalinguagem, esquecendo a actualidade do mundo, como no caso dos franceses pós-estruturalistas; ii) ou a derivação de um pensamento sugerente e subtil hieratizou-se em um formalismo excessivamente sistêmico, incapaz de abrir margens para sugestão e cotidianos, como em Habermas e o "prosseguimento" dado às ideias propostas pela primeira geração dos teóricos de Frankfurt.

A melhor produção tem saído de fora do novelo do “meio artístico”, da “vida acadêmica”. Do consórcio espúrio com as ONG's (que não são mais do que velhas práticas de dominação realocadas e um tanto mais dispersas, pulverizadas. Embora os mais incautos creem que estão "mudando o mundo" por meio delas). E quando se pensa que alguns artistas vendem a alma para estar no centro dessas práticas!

É mais ou menos óbvio que a internet bagunçou por completo o coreto do “artista profissional”. Músicos e escritores, que cobravam fortunas por um cerrado e milimétrico controle de suas “obras”, de repente se ressentem de vê-las tão descaradamente ao alcance de todos. E de graça. É o que se nota no discurso de gente ressentida, inclusive aqui pelo Brasil, com a suposta "morte da obra". Não passa antes esse ressentimento pela queda de um faturamento que já foi mais, digamos, "polpudável" na linha do horizonte?

O advento da internet reaproximou o artista do público de duas formas: α) fisicamente – pois o músico teve de voltar ao palco, o escritor à palestra, etc. (por conta da avassaladora exposição não controlada da obra, a que desde antes da internet já se chamou prontamente de pirataria, e implica numa drástica redução de ganhos) e β) através de um potencializador quase infinito do que é descrito por Walter Benjamin em “Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit”. Ou seja, a obra agora conhece desdobramentos reprodutivos – novos plissados e trampolins e cachos e convênios e ganchos de reprodução, de virtualidades, de anamorfoses, suplementos, conexões, hibridismos, fissuras, descontinuidades – inimagináveis antes da década de 90. 


Logo, é fora das formas "sub-auráticas" -- que ainda existiam na imprensa, no filme, no disco de vinil -- que ora se dá a reprodução. Isto é, dá panos para as mangas pensar o que é a materialidade do MP3 por contraposição ao suporte material do disco de vinil com lados e faixas a serem sulcadas analogicamente por uma agulha de cristal, facilmente vulnerável a arranhões, com uma estampa de papel ao centro, guardado numa capa, com encartes, etc. Capa e encartes que podiam ser até assinados pelo zeloso dono. À sua vez, o MP3 perecerá muito mais rapidamente que essa agulha, que essas faixas que quando arranhadas como que recobravam uma aura, uma unicidade. Assim como as capas assinadas também estavam bastante vulneráveis a ação do tempo: arranhados, superficie preenchida por decalques, selos, etc. Podiam, dessa forma e ao contrário do MP3, reunicizar-se. Isto é, tornar-se únicas outra vez. Ou ao menos recobrar uma sub-aura, por serem ao mesmo tempo produtos da seriealidade e únicos enquanto objetos, pois eram evidentemente mais materiais que seus sucedâneos digitais. Aqui, o adjetivo virtual cai como uma luva para descrever esses novos entes da era digital. Caso do MP3, dos arquivos de texto em formatos diversos, do e-mail, do post. Com o velho jornal ainda era possível embrulhar um peixe. Com um tweeter, nem isso. Isto é, a rigor esse processo de reprodução é algo tão diverso do analógico que deveria ser renomeado: virtualizacão.

O advento da internet, em suas duas décadas iniciais, representou algo como a reinvenção da imprensa sob o signo de um acesso absurdamente mais universal – porque precedido pelo folhetim, pelo cinema, pela TV, pela cultura pop, etc. Por um breve instante o capitalismo vacilou, penou para pôr preços em uma mercadoria que era muito mais abstrata, escorregadia: é literalmente virtual. Em outras marés, é bem mais amoldável "ao gosto do freguês", manipulável, costumizável, enviável, etc. Mas, entre tantos atributos terminados no sufixo '-ável', nenhum é lembrado com mais pesar pelos executivos da esfera do showbusiness, do entretenimento, das gravadoras, dos estúdios, das editoras, das redes de TV, da indústria cultural e de seu mercado do que: incontrolável. Este os faz acordar para um pesadelo diurno. Eles que haviam se acostumado a controlar milimetricamente as porções de direitos autorais e de cópia com frações generosas para si próprios e seus empreendimentos. E, logo, é todo o conceito de direito autoral e a legislação que o rege que precisam ser revistos. [E estão a ser em toque de caixa. Em abril de 2012, um usuário de internet em Portugal foi preso por copiar e partilhar arquivos de música sob copyright. Mas os indícios do controle que está por vir nos próximos anos ainda são incipientes. Esse controle ainda será férreo; e os conteúdos, domados e postos sob preços, devidamente desdemocratizados.]

A mediocridade, no entanto, contenta-se com essa disciplinarização da internet sob as regras da limitação de seu alcance - fenômeno em franca expansão. Em limitá-la no tempo, no espaço, o que coincide com o projeto capitalista e aos poucos segue retirando, sugando dessa universalidade inicial e absurdamente inesperada. Certos conteúdos, por exemplo, já só são encontráveis em determinadas regiões ou países. Ou para o assinante premium.  E cada vez mais direitos de imagem e copyright os regulam. A Wikipedia, uma glória dos novos tempos digitais, tem sido ameaçada constantemente. E uma área que conhece um quantum perto de inimaginável é a do direito que regula tudo isso. É dessa regulagem medíocre, contra a qual se debatem os hackers - como no passado os bandoleiros sociais (tratados por Hobsbawm e outros autores) - que emergirá uma internet consideravelmente menos universal. Ao menos em refluxo e por tendência. Monopólios como o Google já devolvem em seus motores uma busca "adaptada" ao contexto cultural, linguístico e geográfico em que se empreendeu a pesquisa, etc.

Porém a mediocridade também se encontra no centro mesmo do “meio artístico”, da “vida acadêmica”. Em seus filistinismos. Em sua (má) fé na crença de que a tutela da arte pela burocracia resulta em algo auspicioso. Em seu desejo de apôr à arte o discurso sobre ela. Ou sujeitar a arte a um sectarismo político, ao politicamente correto, ou ao relativismozinho da vez. Não poderia ser diferente. E só a extrema exceção, só o gênio – o Corelli digital, o Händel digital¹ – é capaz de safar-se de ver sua produção amortecida pelas rotinas grises dessa cadeia vazia de colóquios e simpósios resucessedendo-se mundo afora. E se a ilustração – aparte desses meio e vida – encontra-se mais diluída por toda parte, é quase nada por méritos do “meio artístico”, da “vida acadêmica”, porém pela contingência do meio internet enquanto mensagem – como assim, sem conhecê-lo propriamente sonharam Benjamin, Bazin, McLuhan ou o Gene Youngblood de Expanded Cinema (1970). Pois de alguma forma esses autores já falam de internet antes mesmo. À sua vez, a internet em seus primeiros anos foi o suplemento do segundo grau ou a graduação de centenas de milhões que sequer chegaram à universidade. Para não calar sobre a centralidade da rede aos que chegaram ou estão nela dia após dia. E da rede como imagem geral [ou alegoria - esta palavra é importante] de uma biblioteca muito mais vasta, atualizada e dinâmica que a biblioteca [analógica] de qualquer instituição de ponta pelo planeta afora. Não é pouca coisa.

Um autor como Borges gastou sua vida e trabalhos e afetos no empenho de “ser” uma biblioteca. Mas esse empenho, como o de Prometeu, gera grandes ressentimentos. E então, em sua própria ficção Borges sonhou com uma saída mágica, mística: o Aleph. Hoje em dia, é desnecessário “ser” uma biblioteca, porque a internet converteu-se no Aleph sonhado por Borges: o acesso à memória, ao conhecimento; o acesso à redefinição do próprio conceito de acervo. Acesso a uma erudição fora do corpo, arquivada megametricamente em memória artificial. A interseção que contém o universo. 

Pode-se dizer que um dos grandes méritos da internet passa pelo megamétrico (mas, ressalve-se: só em parte). E esse mérito provem de sua capacidade de ampliar desmesuradamente o que era cravado como “quadro epistemológico”. Nos primeiros anos da internet, o especialista extremo e o leigo extremo tiveram diante de si o mesmo “quadro epistemológico”. Só passado o pasmo inicial é que o conhecimento - fator de posse classista (caso em especial do conhecimento jurídico) - na internet passou a ser mais disciplinarizado e regido pela lógica capitalista. Por outro lado, possivelmente mais do que as políticas assistencialistas, foi a internet, pela democratização de conhecimentos especializados e gerais, enciclopédicos, o que possibilitou o surgimento das novas classes médias em países como Turquia, China, Índia, Bangladesh, Chile, Brasil... E isso se dá porque a intuição é o estímulo básico para se mover na internet.

E, porém, a megametria da internet, se funciona no atacado -- no sentido de ampliar formidavelmente a audiência e torná-la mais aplicada à confecção de objetos de arte, assim como esses objetos mais modeláveis e plásticos -- também admite no varejo – isto é, especialmente por parte dos produtores de arte a interferir na mídia digital – as enormes distorções e os filistinismos característicos de épocas palinódicas. É de se sublinhar não menos o quanto a figura do produtor de arte, do autor, no ambiente da rede, é antes de mais nada a de um grande consumidor. E consumidor de imagens e sons técnicos que, cada vez mais, sugam para fora do corpo os momentos decisivos da criação enquanto técnica e forma.  Quer dizer, a internet levou a um paroxismo inimaginável, só há uns poucos anos atrás, a consumização do autor, do produtor de arte. Está claro que este precisa, antes de mais nada, converter para virtual o que já foi elaborado antes ou começar no ambiente virtual o que ainda não foi feito. E, sem essas tarefas, é impossível à vastíssima maioria sobreviver de sua arte: criar apenas por representação analógica, sem virtualizar. 

A misantropia, a hesitação, o receio, a desconfiança são antídotos contra uma recepção demasiado festiva das ONG's junto com formulações acríticas, ralas ou pueris da internet e das novas mídias, e que as tomam apenas como alavancas democratizantes.²

(Aqui, misantropia deve ser tomada como método).


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¹Em outras palavras, aquele que obtêm muito êxito e vive no vero centro da esfera artística, como esses compositores viveram em séculos passados, e, ainda assim, produz uma obra que transcende essa esfera no rumo da intuição e do mistério, embora solidamente lastrada na autoridade de um conhecimento prévio. Este conhecimento, de agora em diante, redundará cada vez mais do consórcio entre os sentidos e aparatos que os potencializam à infinitude, como os smart glasses - conectados à rede e interagindo com bases de dados, serviços GPS, motores de busca, tradutores automáticos, etc. Visão e audição ampliam-se até que limite? Será possível a confecção de biônicos, como no seriado da década de 70? Tudo indica. Mas também  se fortalecerá a tendência a se criar nichos de acesso a internet de acordo com o poderio econômico. E isso progressivamente irá minar a democracia e a universalidade que experimentamos nos primeiros anos do fenômeno.

²Neste sentido, se tomarmos o universo dos supersítios, dos sítios mais acessados, é já notável a diferença entre a Wikipedia e o Youtube no que diz respeito à publicidade. Por outro lado, o conceito de jornal dá voltas na tumba sem decidir ao certo como reaflorar na rede. A vitória definitiva do virtual sobre o impresso se deu, contudo, este ano. Mais precisamente no momento em que se anunciou que a Encyclopaedia Britannica, que há 244 anos é impressa, será a partir deste ano apenas disponibilizada em ambiente digital.  


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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

"O local não é um lugar, mas..."

Ruy Vasconcelos, Contraplano de Esfinge, 2008


Localia, uma desopressão
-ou Contra a Academia do modo como ela se organiza para entender a questão do local, em especial nos cursos de Humanidades.


A questão do local. O modo como essa questão é crucial. Como se pode abordá-la?
É claro que o local, por um vértice e entre outros, está contido em outra questão, primeira, anterior, mais básica e que pouco tem a ver com o que o termo local sugere no senso mais comum: o assunto. E, logo ao delicado equilíbrio entre o assunto e a forma de conversá-lo. Mesmo que o assunto, em circunstâncias determinadas, possa ser visto como um mero pretexto diante do modo como - seja ele qual for, seja em que parte do mundo se dê - é abordado a partir de uma série de dispositivos e preconcepções.
Ninguém pode abster-se de dispositivos, preconcepções. E eles podem ser resumidos sob a rubrica da mundividência de quem está realizando um projeto de criação ou pesquisa - não há separação entre essas duas instâncias, no fim de tudo. O pesquisador segue em sua pesquisa com o conhecimento que acumulou ao longo de um determinado lapso de tempo. E segue acumulando "em vínculo" com o assunto. Este "em vínculo" é importante porque dele surtem as associações mais inesperadas, que são as que realmente importam, valem a pena. As que portam mais mistério. E se desdobram por exegese. As mais intuitivas. As mais anômalas, vamos dizer.
O problema, aqui, no entanto, é que o estoque de ideias formadas a partir de um local -- isto é de um lugar subjetivado pela sensibilidade do pesquisador em conjunção com as formas coletivas estabelecidas pela memória (o que chamo de "formas da história") -- pode ser muito escasso a depender do grau de projeção e ressonância que esse dito local propicia. Uma cidade que é um centro regional, como Fortaleza, emite muito pouco se comparada com um centro regional em língua inglesa num país historicamente mais ao centro do que usualmente é rotulado de Ocidente. Isso equivale dizer que centros como Atlanta, Birmingham, Melbourne, San Diego ou mesmo Jaipur, Patna ou Durban emitem bem mais ressonância cultural do que Fortaleza. Estão mais presentes em outros cantos e fóruns do planeta.
Mas tornando à questão do local, em épocas passadas esse conhecimento, versátil e aberto às associações inusitadas (uma vez que pouco tutelado pelas normas acadêmicas) era chamado de "erudição". Ele pode ser encontrado, sobretudo, nas páginas de teóricos que assumiram uma postura radicalmente antiacadêmica, no sentido de manter uma "carreira": Simmel, Huizinga, Benjamin, Flusser, et alli.
Nos diascorrentes, ao que parece, "erudição", como termo, soa pretensioso, e guarda um travo, algo, arcaico. Infelizmente. Porém é a erudição quem possibilita essa ponte, ainda não avariada, entre as ideias mais abstratas, gerais e a riqueza de possibilidades contida nos diferentes planos de camadas, discursos e significados, coerências e incoerências, estoque de beleza e graça, ou de tédio, estagnação, fealdade do quotidiano de um determinado local.
Daí que soa sempre gratuito lançar mão das teorias de Benjamin, Barthes, Bazin, Borges, Bakhtin..., se esse lançar mão não mancha a teoria original com o tisnar mais prosaico do quotidiano e das sinestesias que só um profundo mergulho na instância do local pode propiciar. Ou seja, se o pesquisador, enquanto leitor, não conversa com o lido, apenas aceita-o ipsis litteris. E é o que ocorre com a maioria dos professores e orientandos. Essa pior sorte de reverência: subserviente. A reverência não desejada pelos próprios autores. Mas isto ocorre porque professores e orientandos mal são capazes de LÊ-LOS num corpo a corpo, recorrendo, quase sempre, a especialistas e intérpretes - "interpretação", essa palavra espúria que, ora, é mágica via psicanálise e seus transbordamentos. Pode-se defender a palavra exegese mas não a palavra interpretação. Toda a psicanálise assenta-se na idéia de "interpretação" e aqui reside um de seus - não poucos - equívocos, pois como diz George Oppen:










Um analista tem tanto direito quanto qualquer outra pessoa de ser um idiota. O que admira é a aptidão do paciente para aceitar isso [o trabalho de análise], meio como se todos estivéssemos jogando uma partida de xadrez em que tão-só fosse necessário que se observassem as regras do jogo. Da mãe, você tem ciúmes; do pai – ui, rapaz – esse é um perigo; o bispo move-se enviesado. Se não for louco, é certamente o consolador de Jó: “você deve ter pecado”. Acho que é bem insano. Acho que é bem medonho. O que me parece mais medonho é que tal prática tornará impossível que maridos e esposas, pais e filhos conversem entre si sobre coisas aterradoras e sérias, porque eles não podem, obviamente, falar desse jeito. Essas coisas só podem ser levadas a sério num ‘nível profissional’.
[OPPEN, Selected Letters - tradução nossa]

No entanto, na maioria dos casos, digamos, os universitários brasileiros [guiados por seus tutores ou "orientadores"], mesmo alguns daqueles com certa argúcia para a associação, mesmo os dotados do talento necessário para envolver seu assunto em uma heteronomia, no fim de tudo apenas produzem algo serial. E naufragam nos mares da interpretação. Pois negligenciam as associações entre teoria e quotidiano. Especialmente aquelas mais misteriosas, menos teleológicas ou tuteladas por um sistema apriorístico.
Ora, são as livres associações heteronômicas que salpicam o assunto de intuição, mistério, passando ao largo dos emasculados esquemas teóricos explicativos, redundantes, ocos se não enganchados nas realidades locais e específicas. Mas desgraçadamente, em geral, é apenas essa redundância teórica e más paráfrases o que se encontra em monografias, dissertações, teses. O que as converte em mera informação repassada em clichê. Informação fria, sem nenhuma poesia ou verdadeiro calor humano. E em intervalos cada vez mais breves - como na moda. Algo que, se posto à lupa, não expressa a subjetividade do autor da pesquisa conveniada a uma re-flexão sobre as circunstâncias reais e concretas do quotidiano em que o próprio autor/ realizador/ pesquisador insere-se - uma vez que por desconhecimento de causa histórico, antropológico, etnográfico, linguístico, esse quotidiano é mantido, na maioria dos casos, ao largo de sua re-flexão. É este manter ao largo o local - sem tomá-lo com exotismo folclórico ou ridículos espasmos ufanistas, ou a preocupação em achar no mapa algo que referende a sede da esquerda - que azeita a engrenagem gasta, cega, fechada sobre si, da academia. O basilisco que remorde o próprio rabo.
Isso vale para qualquer assunto. Vale para qualquer expressão. Ou para usar um termo mais prezado, hoje em dia: vale para qualquer suporte - som, imagem, formas no espaço, tipos no papel, etc. Os suportes constituem, na verdade, apenas veículos de expressão mas, em vez de fundar confinamentos especialistas, deveriam, do contrário, converter-se numa importante ferramenta para a mente arejada; a que, de fato, cria.
Podemos chamar essas criações de artesanias. E constatar que vivemos num tempo em que as artesanias, que compõem um leque muito vário de expressões com seus respectivos suportes, estão mais do que nunca ao alcance da mente criativa, se ela possui um mínimo domínio dos meios capazes de estruturar uma linguagem.
Aqui, a questão é simultaneamente semiótica e tecnológica.
Nos diascorrentes, é mais fácil ser ao mesmo tempo poeta, tradutor, cineasta, músico, sonoplasta e, vamos dizer, etnógrafo. E justo pela desnecessidade de especificamente pinçar uma dessas expressões como exponencial ou determinante. Porém, do contrário, sabendo de seus limiares, conjugá-las na medida certa de seus condimentos até o ponto em que se gratine o resultado final. Embora a maioria das pessoas teime em compreender a diversidade dessas expressões ao largo de uma instância da heterodoxia, que muitos tomam, erroneamente, tão-só como um sinal de dispersão ou fragmento vazio ou mau ecletismo - uma vez que não respaldam, sancionam ou resilenciam uma teoria integralmente. E uma teoria, em geral, gestada em latitudes muito distantes.
A tutela da conformidade com a teoria embute uma instância política. Uma instância de estagnação política.
O que é necessário: deformar essas teorias - em geral europeias ou norte-americanas - com a força de uma elocução local. Poucos têm tutano para tanto. Certamente não a academia en bloc.
Pois a academia, à sua vez, pouco tem feito para suavizar o grau desse confinamento. Do contrário, porquanto ela dá uma ênfase equívoca à questão da classificação. Com se a classificação dentro de redutores esquemas teóricos fosse a porta de saída. E não apenas uma, entre muitas janelas que se têm adiante. Para espiar o mundo.
O canto de sereia da classificação passa por uma palavra: especialização. "Fulano é um especialista em cinema francês da época da Nouvelle Vague". Ou "a especialidade de Fulano é cinema expandido". Ou ainda "fulano é músico". Mas, reparem, no último caso a coisa ainda segue vaga. E para a academia é importante decretar uma instância classificatória e especializada: "músico interessado em eletroacústica". Ou esticando o ainda: "músico que trabalha com samplers e com as facilidades e potencialidades dos softwares, editores e mixers de som virtuais aplicados à classificação dos ruídos urbanos".
No último caso, reparem ainda melhor, tudo é espoliado se pensarmos em termos de criatividade.
Pois algo que pode transformar qualquer unidade doméstica de PC ou Mac, razoavelmente bem calibrada, a downlodar softwares correlatos para a confecção de uma espécie de estúdio doméstico deixa de ser uma ferramenta da heterododoxia para converter-se num pilar da especialização. E no respaldo cego ou parafrásico da teoria.
Se tomado contra a especialização, esse "estúdio doméstico" - ao alcance de todos - nada mais se propõe a ser que uma ferramente de onde (e por intermeio da qual) se pode testar, experimentar e registrar uma grande variedade de procedimentos. Podemos chamá-lo de "suplemento material do pensamento". De resto, procedimentos e meios cada vez mais efêmeros, mas nem por isso menos importantes.
É por isso que a academia vem se constituindo no nicho menos interessante de análise das novas realidades - inclusive das virtuais -, em que os dispositivos convertem os artistas não em especialistas avulsos em música ou filme ou poesia ou arquitetura, mas, através deles, em fruidores de uma realidade local e de um circuito quotidiano de experimentos e ações. Na mão oposta, os procedimentos acadêmicos convertem roboticamente esses pesquisadores em operadores de linhas de montagem, em estúpidos manufatores de redundâncias, de más paráfrases. Incapazes de cerzir, coser linguagens várias em uma só, com real eficácia e deleite de expressão. Aquela eficácia, que nada tem a ver com eficiência ou com a recepção do público, e que, paradoxalmente, é hoje muito mais disponibilizada pelas tecnologias da informação. A eficácia que tem mais a ver com o que é 'witty'.
Essas tecnologias, sem embargo, são importantes apenas por intermediarem esse processo tornando-o menos dispendioso. E, no mais, serão, em breve, tão-só sucatas em um ferro velho.
Tomemos no caso um filme. Um filme documentário.
Chegamos num ponto em que se um documentário for apenas um documentário, nos moldes mais convencionais, ele se equivoca. Porque ele deve mais propriamente flertar com uma relação radicalmente rente ao quotidiano. E, como o quotidiano nada tem de "especializado" - o procedimento do pesquisador deveria muito mais cortejar essa 'desespecialização'. E jogar a teoria na fruição do cotidiano sinestesicamente.
Quer dizer, a poesia mais ortodoxa, a impressa nos livros é apenas um tempero a mais, para montar tudo que no filme a ver tem com a palavra. Para emprestar-lhe um selo de medida - poetas são, acima de tudo, grandes especialistas em, além de livres associações, intervalos, precisas unidades de ritmo. E mesmo que essa especialização seja de suma importância, ela assoma como apenas uma modesta parte de toda a tarefa de uma mente arejada.
Adiante, num filme, tão ou mais importante que palavra são sons desarticulados: os ruídos do mundo, que também carecem ser manipulados e orquestrados seguindo uma determinada ordem, um critério, de modo que soem com uma unidade análoga à de um arranjo musical. Eles constituem uma paleta de sons - assim como existe uma paleta de cores ou uma concepção de enquadro para as imagens. E, enfim, há nessas imagens algo que depende de muitos intervenientes, porém sobretudo do conhecimento de causa - em especial histórico - dos diversos modos de organizá-la e editá-la.
Somente a conjunção desses elementos de um modo lúcido - mas também intuitivo e heterônomo - pode conformar a base de um bom documentário. E, logo, esse documentário irá sempre assomar com uma sorte de ensaio antiacadêmico [desnecessário dizer que antitelevisivo]. Pois o modo como se organiza nossa academia fere de morte essa heteronomia: i) ao exigir que haja um extremado especialismo; ii) ao decretar que se deve comprovar a tese de modo explícito - uma visão determinista da relação causa/efeito e bastante herdeira de certo esquerdismo equívoco [enquanto maniqueísta] cultivado no nefasto enquanto da ditadura, cá no Brasil; iii) ao impor que a linguagem em que se dá essa expressão seja tutelada por uma notação burocrática de citação, referência bibliográfica, aposição de epígrafe, etc estritamente normatizadas. Dessas três instâncias, no entanto, de longe, a mais daninha constitui a exigência da confirmação quase cega da tese inicial - que em geral é lida pelo graduando em trabalho de final de curso, ou pelo pós-graduando, em livros traduzidos, nos quais boa parte - e por vezes a melhor parte - da questão da linguagem resta embutida na questão da tradução. Este último fenômeno, para o qual muito poucos estão atentos implica que muito do que é lido é tão-só parcialmente, tangencialmente o pensamento do autor, que está, de fato, proposto, em todas suas reverberâncias, no seu idioma de origem.
Postas estas questões simples e preliminares podemos passar a uma segunda questão, mais sutil, que diz respeito a instância do local. Como vimos, o que sai da academia não deve ser levado a sério - na vasta maioria dos casos - porque não constitui nenhum real compromisso entre o artesão ou autor e as realidades que o cercam para além da academia. Que o cercam em quotidiano, no prosaísmo de todas suas atividades, tanto acadêmicas, como sobretudo não acadêmicas - estas, muito mais numerosas, precedentes e urgentes - que qualquer teoria preconcebida ou tese a comprovar a partir de autores que, na vasta maioria dos casos, nada têm a ver com elas, em larga porção de suas obras.
Tudo isso converge para a questão, de facto, do local num estrato mais complexo. A que decreta, enfim, a crucialidade da coisa toda: por que essa teoria gestada na academia não tem a ver com essas realidades e com esses quotidianos? Resposta: porque não há ligações, interstícios, associações entre a teoria adotada e a realidade experienciada ao longo dos dias.
A universalidade do discurso, sabemos não é de hoje, passa pela modesta atenção que se pode dispensar ao local, em sua particularidade. Uma atenção exercida de espírito e corpo inteiros. De espírito e corpo intensos. Uma modéstia e gentileza de temperamento. Ela se dá sob o modo de sinestesias, associações (convocações de elementos aparentemente distintos, disparatados, distantes, enmonadados). Estas associações podem, a princípio, assomar despretensiosas; mas, se realmente bem sacadas, são, em verdade, as únicas que participam do cortejo majestoso através do qual se pode chegar aos circuitos da universalidade.
A questão do local é tão fascinante quanto negligenciada. Em parte pela falta de memória. Pois só a memória afetiva propicia essa sutil contradança entre teoria e quotidiano. Abre uma brecha para uma forma de elocução que, ao convocar as associações misteriosas e poéticas, os flertes entre o especialismo e o prosaico, criam novas artesanias. Esse, no entanto é um movimento, uma contradança quase sempre evitada pela maioria dos pesquisadores/ artesões/ estudiosos ao tratar de uma determinada questão - seja ela qual for. Pois toda questão encontra no local uma correlação sumarenta, distinta. O selo final de que a aplicação da pesquisa resguarda com o local um vínculo secreto e, por vezes, quase indizível  ou tão-só pressentível, implicitado, em sua pluralidade de fatos, belezas, empirias, bizarrices.
Ou evidentes antimaniqueísmos. O conhecimento do local, pode, por vezes, não ser prazeroso ou solar. É porém um processo pessoal de libertação. De firmar-se no mundo com a sola dos próprios pés.


NOTA - em geral, o "orientador" dota seu "orientando" de "ferramentas de carreira"; o verdadeiro artista, no entanto, aguça a capacidade dos sentidos. A sua própria, a do seu e a de outros povos. A primeira tarefa é burocrática, funcional. A segunda, no entanto, é física (no sentido do corpo: elastecer suas potencialidades perceptivas) e espiritual (no sentido de comprazer, deleitar a mente pela engenhosidade da ideia).


Fortaleza, 01/09/10

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