A
obsessão por bolinhas [polka dots, em inglês; ou seja, bolinhas como no biquíni de Ana Maria], penumbra, espelhos, sensação de espaços
infinitos, semelhando galáxias, festas no estúdio de Andy Warhol e amizade com Georgia
O'Keeffe, Donald Judd e Joseph Kornell, são aspectos de vida e trabalho de Yayoi Kusama. A octogenária artista japonesa tem retrospectiva
abrindo esta semana na Tate de Londres.
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
A little too fat
4
informes do mundo
A Mitsubishi oferece sua fábrica holandesa por um euro, se salários e encargos trabalhistas dos funcionários forem mantidos.
*
Anteontem, a morte aos 88 anos de Antoni Tàpies. Pintor e escultor abstracionista da Catalunha, Tàpies colaborou com o poeta Joan Brossa e nutriu ligações filosóficas com o Oriente. Entre seus pintores favoritos estavam Klee e Miró.
*
*
Karl Lagerfeld, o costureiro alemão, é imolado pelos britânicos por dizer que Adele é gorda. Na mesma entrevista, destacada pelos jornais ingleses, Lagerfeld diz que os homens russos são feios. Mas isso deve ser verdade, porque não despertou maiores reações.
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* *
O cotoco dado pela cantora britânica M.I.A. em show, no intervalo do Superbowl, semana passada, ainda cutuca muita gente. Os americanos sentiram-se ofendidos. Os britânicos, envergonhados. A BBC aponta que o gesto é mais antigo do que se pensa. E já foi devidamente empregado pelo filósofo grego Diógenes para desqualificar o orador Demóstenes, no sec. IV a.C.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Greves nas Polícias e a Organização do Crime
Ciro
Gomes podia ter fatiado melhor porção no bolo político não fosse
a incontinência verbal. A última observação desastrada foi sobre
o irmão haver negociado com policiais grevistas. O tom usado para referir-se aos policiais em greve foi além da civilidade que se espera de um homem público. Hoje parece claro
haver sido uma decisão acertada, a negociação. Estratégica até. Basta comparar
com a situação na Bahia. Fortaleza sai no lucro.
Medo.
Ruas vazias. Voos e espetáculos cancelados. Aulas adiadas. Comércio
fechado. Bloqueios de ruas. Tropas do exército na orla e em torno da assembleia. Balas
de borracha. Arrastões. Pessoas feridas. Saques. Tiroteios. Mortes. Incertezas no calendário. O arranhão à imagem
da cidade de Salvador à véspera de seu grande evento turístico, o
Carnaval, segue sendo imenso. Não tem remendo. Daqui para diante
pode apenas aprofundar-se. E tudo indica ainda mais drama, desgaste. A Embaixada Americana já alerta seus cidadãos a evitarem ou cancelarem viagens à Bahia.
Ressalte-se, no entanto, que este último fato, embora um dado a ser tomado no plano econômico - pois turismo é importante em qualquer lugar do mundo - oculta um tanto, na mídia, outro fato: a população mais atingida é a local. E em especial sua classe média, que é já maioria. Mas não é ouvida. Não tem presença efetiva na mídia que, quando cobre o Nordeste, prefere ir à favela. Quer dizer, gente que é em bem maior número que turistas, e praticamente não aufere de nenhum eventual benefício que os turistas trazem. A não ser certos transtornos: praias mais lotadas; custo de vida mais elevado; ruas sujas e emporcalhadas; trânsito restrito e ainda mais caótico; aumento do consumo de drogas, da violência, da degradação do meio-ambiente; etc.
Desse modo, ao invés de aferirmos mal-estares, como as atuais greves de polícia, pelo fluxo de turismo desviado (ou não) - como a mídia insiste em fazer - devemos medi-los, sobretudo, pelos reais transtornos causados às populações locais. Especialmente as do Nordeste, onde se criou uma espécie de mito um tanto idiota: a economia da região deve girar em torno do turismo. E não deve ser assim. Deve girar em torno de serviços, de indústrias, do agronegócio, e eventualmente também do turismo - diversificada e competitiva.
Ressalte-se, no entanto, que este último fato, embora um dado a ser tomado no plano econômico - pois turismo é importante em qualquer lugar do mundo - oculta um tanto, na mídia, outro fato: a população mais atingida é a local. E em especial sua classe média, que é já maioria. Mas não é ouvida. Não tem presença efetiva na mídia que, quando cobre o Nordeste, prefere ir à favela. Quer dizer, gente que é em bem maior número que turistas, e praticamente não aufere de nenhum eventual benefício que os turistas trazem. A não ser certos transtornos: praias mais lotadas; custo de vida mais elevado; ruas sujas e emporcalhadas; trânsito restrito e ainda mais caótico; aumento do consumo de drogas, da violência, da degradação do meio-ambiente; etc.
Desse modo, ao invés de aferirmos mal-estares, como as atuais greves de polícia, pelo fluxo de turismo desviado (ou não) - como a mídia insiste em fazer - devemos medi-los, sobretudo, pelos reais transtornos causados às populações locais. Especialmente as do Nordeste, onde se criou uma espécie de mito um tanto idiota: a economia da região deve girar em torno do turismo. E não deve ser assim. Deve girar em torno de serviços, de indústrias, do agronegócio, e eventualmente também do turismo - diversificada e competitiva.
De outro modo, comenta-se
que a queda de braço entre o governador e os policiais tem muito a
ver com injunções internas da política baiana. É complicado. A
Bahia viveu décadas sob o tacão de Antônio Carlos Magalhães. Sua
herança funesta em termos de estruturação do poder, nos mais
diversos níveis – tribunais, câmaras, cargos de chefia - não vai
se elidir em tão pouco tempo.
Tampouco
o atual governador, Jaques Wagner (PT), parece agir com mínima lucidez ou bom-senso. O
fato de se encontrar em Cuba quando do início da greve diz muito de
sua inabilidade. Aliás, o que um governador brasileiro faz em Cuba
às vésperas do principal evento turístico de seu estado e com
policiais em pé de greve? Não dispunha de informação sobre o que
se passa em seu quintal? Não sabe que cubanos não viajam para o
exterior? O fato de alegar que havia concedido um aumento de 6,5% não é propriamente um álibi.
Ressalte-se
que no vizinho Sergipe, o salário de um policial em início de
carreira é mais de R$ 3.000,00 – o segundo mais alto do país,
depois do Distrito Federal. E quase mil reais a mais que na Bahia. Segundo os aracajuanos, vem brasileiros
até do exterior prestar concurso para a polícia local. Ora, essa concorrência, em si, já contribui para acrescer um melhor nível à polícia. E,
convenhamos, a situação de Aracaju é ainda plácida se comparada
às duas capitais mais próximas. Mas em boa medida é plácida, porque, entre outras, a polícia é bem remunerada. Como deve ser.
De
outro modo, o crime organizado segue em franca migração de São
Paulo e do Rio para o Nordeste. E é uma pena que não haja uma
vontade política para tentar esvaziar esse fluxo. Quer dizer,
uma vontade política coordenada. Que percorra o Nordeste inteiro. O
resultado disso vai-se sentir com mais força nos próximos anos. Mas
já se sente de momento. Maceió, por exemplo, com pouco mais de um
milhão na zona metropolitana, é já uma das cidades mais violentas
do planeta. Salvador não fica muito atrás.
As
greves na polícia, que estouraram em vários estados do Nordeste, um
tanto em cadeia, reivindicam equiparação salarial ao restante
do país. Mas também se dão pela precariedade de condições de
trabalho e maior risco diante de um crime organizado que não cessa
de se estruturar à margem, com grande velocidade e eficácia.
Quando a polícia entra em greve os gatos ficam mais pardos. E ao
que tudo indica, depois de Maranhão, Ceará e Bahia, serão os
policiais do Rio as pedras da vez no dominó da paralisação. A segurança pública precisa ser repensada, porque, evidente, nenhuma população pode seguir segura se quem provê segurança pode, a qualquer momento, entrar em greve. E não só isso. Pois sabemos dos mecanismos de pressão e de eventuais táticas utilizadas por grupos ligados aos sindicatos.
Nenhuma flor, nenhum cheiro. Ou, mais que isso, nenhum santo ou mocinho à vista. Nem do lado dos grevistas, muito menos contra.
NOTA POSTERIOR - Sobre a cobertura da imprensa, o que ficou claro: Maranhão e Ceará, que tiveram greves anteriores, existiram muito pouco na mídia. Mesmo que a greve dos policiais em Fortaleza coincidisse com o Ano Novo e, logo, inspirasse algum temor. Que 1,5 milhão de pessoas haja se reunido para um espetáculo no Aterro da Praia de Iracema, sem sequer um incidente grave, durante uma greve policial, foi um espetáculo, verdadeiro atestado de civismo. Nenhuma linha sobre isso nos jornais locais. E as greves do Maranhão e Ceará não existiram sequer em sites importantes como o da BBC Brasil, por exemplo. Embora uma reportagem no New York Times de hoje [10.02] as mencione retroativamente e com um erro: apontando greves, prévias à da Bahia, no Ceará, no Pará. Na verdade, foi no Maranhão, não no Pará. Desenrolar e desfecho da greve em Fortaleza, no entanto, foram bem mais ordeiros que na Bahia, o que em parte justifica o silêncio da mídia, à época (Entrada de Ano). A greve de Salvador, por seu turno, foi amplamente acompanhada pela Globo desque um evento chave para a emissora estava em jogo: o Carnaval. E vai ser o mesmo com a greve do Rio, que começou ontem [09.02] e já era crônica anunciada. O risco, aqui, é o de as gravações exibidas no JN haverem impingido não só a alguns líderes grevistas, mas a todos os policiais envolvidos, a pecha de de baderneiros e arruaceiros. Pois um jornalismo plano como o do JN tem de achar um bode expiatório. Ou jamais informar devidamente que há uma situação crônica, de risco, se arrastando por décadas. Feixe de interesses em jogo de ambas as partes: autoridades, grevistas. E, não menos, interesses da própria Globo, ansiosa por ver seu adorado Carnaval escapar incólume. A Globo é a perfeita anti-BBC do Brasil. E quem confia nela, amarrou seu cavalo com corda de capim.
Nenhuma flor, nenhum cheiro. Ou, mais que isso, nenhum santo ou mocinho à vista. Nem do lado dos grevistas, muito menos contra.
NOTA POSTERIOR - Sobre a cobertura da imprensa, o que ficou claro: Maranhão e Ceará, que tiveram greves anteriores, existiram muito pouco na mídia. Mesmo que a greve dos policiais em Fortaleza coincidisse com o Ano Novo e, logo, inspirasse algum temor. Que 1,5 milhão de pessoas haja se reunido para um espetáculo no Aterro da Praia de Iracema, sem sequer um incidente grave, durante uma greve policial, foi um espetáculo, verdadeiro atestado de civismo. Nenhuma linha sobre isso nos jornais locais. E as greves do Maranhão e Ceará não existiram sequer em sites importantes como o da BBC Brasil, por exemplo. Embora uma reportagem no New York Times de hoje [10.02] as mencione retroativamente e com um erro: apontando greves, prévias à da Bahia, no Ceará, no Pará. Na verdade, foi no Maranhão, não no Pará. Desenrolar e desfecho da greve em Fortaleza, no entanto, foram bem mais ordeiros que na Bahia, o que em parte justifica o silêncio da mídia, à época (Entrada de Ano). A greve de Salvador, por seu turno, foi amplamente acompanhada pela Globo desque um evento chave para a emissora estava em jogo: o Carnaval. E vai ser o mesmo com a greve do Rio, que começou ontem [09.02] e já era crônica anunciada. O risco, aqui, é o de as gravações exibidas no JN haverem impingido não só a alguns líderes grevistas, mas a todos os policiais envolvidos, a pecha de de baderneiros e arruaceiros. Pois um jornalismo plano como o do JN tem de achar um bode expiatório. Ou jamais informar devidamente que há uma situação crônica, de risco, se arrastando por décadas. Feixe de interesses em jogo de ambas as partes: autoridades, grevistas. E, não menos, interesses da própria Globo, ansiosa por ver seu adorado Carnaval escapar incólume. A Globo é a perfeita anti-BBC do Brasil. E quem confia nela, amarrou seu cavalo com corda de capim.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Ai de ti, se ela te pegar
Leonardo Amaral
Delícia,
delícia, assim você nos mata
Lennon
tirou o refrão de Happiness is a Warm Gun de um anúncio de armas
numa revista. Nem por isso o redator do anúncio entrou na justiça.
O que era anúncio virou letra de canção. Ganhou outro contexto. Diz ele que achou insano que uma arma quente pudesse ser sinônimo de felicidade. E é mesmo. Mas há o caso das garotas paraibanas que reclamam a composição do
refrão de Ai, Se Eu Te Pego. É diferente. O refrão é mais de meio caminho andado. O tema converteu-se num hit internacional. De
momento, bem mais tocado que a canção de Lennon jamais foi. E a
história delas parece ter alguma procedência: sete meninas
paraibanas trancadas num quartinho, perto da Disneylândia, sonhando
com o guia da viagem que as conduziria junto com outras dezenas de meninas pelas
miamadas da vida. Não é para qualquer imaginação uma história assim. Nem para qualquer guia. E a
letra tem um bocado de feminino. De resto, tanto quanto Cecília
Meireles, Adalgisa Nery, Clarice Lispector ou Ana Cristina Cesar juntas. Ou, no mínimo, essa versão das meninas parece mais perto, digamos, de indicar como procede a condição humana quando há um punhado de reais pelo meio. Condição feminina ou masculina, tanto faz. De outro modo, é interessante notar como certos críticos que fincam o pé quanto à especificidade dos textos femininos, não reivindiquem a letra de Ai, Se Eu Te Pego para suas desconstruções analíticas. Será por preconceito? Afinal, a canção foi tão feita por mulheres quanto Dolores Duran compôs Estrada do Sol ou a Noite do Meu Bem; Lispector redigiu Laços de Família; Frida Khalo pintou suas telas; Leila Diniz disse que um cafuné na cabeça ela queria até de macaco; e Chico Buarque rascunhou Com Açúcar, com Afeto. A única diferença é que muito provavelmente a autora de Ai, Se Eu Te Pego pegou mais dinheiro com essa sua criação do que as outras cinco jamais sonharam ganhar com um só item criado.
P.S. - E pensar que na década de 70 entre as canções femininas que explodiram estavam Sonho Meu (Dona Ivone Lara) e Jura Secreta (Sueli Costa e Abel Silva). Brincadeira.
P.S. - E pensar que na década de 70 entre as canções femininas que explodiram estavam Sonho Meu (Dona Ivone Lara) e Jura Secreta (Sueli Costa e Abel Silva). Brincadeira.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Alain de Botton e o Templo dos Ateus
A Catedral
de São Judas
Parece
que os últimos filósofos decentes a versar sobre religião foram
Pascal, Espinoza, Vico e Kierkegaard. Nietzsche e Schopenhauer são divertidos de ler, mas sabem a certa ressaca
romântica, típica do séc. XIX. Ora, nem todo mundo é louco por
Wagner; e, afora isso, Søren Kierkegaard bota ambos no bolso do casaco como se
fossem lençinhos de rapé. É tão denso o dinamarquês, que o existencialismo já está lá. Mesmo que ao tempo de sua morte Nietzsche não tivesse mais que 11 anos. Simone
Weil e Wittgenstein têm considerações para lá de interessantes,
mas não muito sistemáticas. E de momento, um suíço radicado em Londres, Alain de
Botton, filósofo e apresentador de televisão, lançou um livro paradoxal: Religião para Ateus: Um guia
para Não-Crentes sobre as Utilidades da Religião. O livro de de Botton dificilmente acrescerá algo de mais belo, poético ou misterioso à
Bíblia ou ao Corão, aos Upanishads ou ao Livro Tibetano dos Mortos
do que o futebol de botão acrescenta ao seu correspondente de viva
grama. Mas de Botton - ao que parece para confirmar o estereótipo do masoquismo suiço ou ainda legitimar sua estranha dualidade profissional - vai mais adiante e propõe um templo para
ateus. Quer dizer, para ateus do bem. Ou seja, aqueles que
respeitam as religiões históricas e constituídas. E, sabe-se lá, até emitem
para elas energias positivas, sinais laicos de boa vontade ou seja lá o que isso for. Ou ao menos
não as hostilizam tão abertamente, como é moda nos países
pós-industriais. Ateus “diferentes”, portanto. Da nova era. Da Era de Aquarius? E, não menos importante, ateus sobretudo diferentes dos ímpios Richard Dawkins e Christopher Hitchens, que de Botton
afunda no inferno do ateísmo ao acusá-los de serem péssimos ateus,
pois cheios de má vontade, intolerância e falta de consideração (laica) para com o próximo ateu e para com o não próximo religioso. E excomunga a ambos das hostes do
ateísmo. A espécie de catedral dos ateus - onde se pode adorar quem bem se entenda: Cristo, Buda, Iavé, Maomé, Clark Gable, Iemanjá, Freud, Sophia Loren, Ayrton Senna - já está com metade do investimento captado, segundo de Botton, que deve ter apertado lá seus botõezinhos para tirar tanta grana de ateus beneméritos em tempos de vacas um tanto anêmicas. De outro modo, de Botton descende de judeus sefardí e seu pai trabalhou para os Rothschild na Suíça. Quer dizer, de gerenciamento ele entende. E o templo começará a ser construído no final de 2013. Mesmo que a gente olhe de cá e se indague se não há outras prioridades no âmbito da União Europeia. A edificação será erguida em Londres, naturalmente. Agora, como é uma obra de vulto e ainda não tem nome, vai aqui uma sugestão:
CATEDRAL DE SÃO JUDAS ATEU
CATEDRAL DE SÃO JUDAS ATEU
*
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Venceu o toureiro
John Livery, 1885
Digna
de Borgs e McEnroes
Talvez
não haja sido o melhor jogo de tênis já disputado como querem
alguns, mas foi uma partidaça. Foi de roubar a respiração da
gente no sofá a final do Aberto da Austrália. E vazou da manhã
para a tarde – o que equivale da noite para a madrugada, na Oceania.
Quer dizer, para quem gosta de tênis: prato cheio. A torcida, numa final, é
por um jogo demorado, disputado, como o de ontem. Disputadíssimo,
aliás. Lances de improviso; longos rallies; alternativas de
ritmo; pontos que pareciam não chegar ao fim; saques a 200km; winners profundos, nas linhas; paralelas tiradas na régua; drop-shots mais que inesperados. Djokovic dominando amplamente os primeiros sets, e Nadal
os últimos, também por ampla vantagem – embora a contagem seguisse apertada.
E, quando tudo psicológica e fisicamente pendia para o lado do espanhol, não
mais que inesperadamente Djoko recobra o elã necessário to win the thing. Mas claro, tem sempre um incauto, que não saca do riscado, e sugere que se
ache uma fórmula de pôr uma prega, de abreviar a disputa no tênis.
De ganhar tempo até por aqui. Ora, camarada, há quase dois séculos que é
assim, longo, demorado. E um dos charmes das partidas de Grand Slam –
melhor de 3 sets, no masculino – é justo quando elas ganham essas proporções
épicas. E ficou nítido que, apesar de ser a sétima derrota
consecutiva para o tenista sérvio, o touro miura parece estar bem mais perto
de batê-lo outra vez. Uma final de epopeia. Quase seis horas de
jogo. É um quarto de dia jogando tênis. Ou uma jornada de trabalho. E uma polémica recai
sobre a paridade da premiação do masculino e do feminino, quando se
sabe que só nas duas últimas partidas (semi-final e final), Novak Djokovic deve ter corrido mais e despendido mais tempo, suor e
energia que Victoria Azarenka, a campeã do feminino, em todo o
torneio. E que água esses europeus do leste bebem, hein? Azarenka, à sua vez, não é exatamente uma Sharapova, no quesito glamour. Tem aquele estilo meio boyzinho, um
pouco anódino, andrógino (mas andrógino de um jeito neutro, insípido) de vestir e portar-se na
quadra. Usa calções ao invés da saia. Mas vá botar uma sainha, soltar os cabelos para as fotos
com o troféu, no dia seguinte, e surge o mulherão. E com pernas gloriosas. Vamos ver se ela se firma na liderança do feminino que, não é de hoje, aspira por tenistas consistentes nas cabeças, como já foram as Evert's, Navratilova's e Graf's da vida.
Para
um texto sobre a essência do jogo de tênis em Afetivagem: Aqui.
*
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
A Europa é política interior?
Os franceses vistos pelos outros europeus
Estereótipos
e o Poderio Germânico
Entre
os europeus é mais ou menos como segue abaixo o modo o como o todo vê cada parte. Os tipos foram publicados na edição de ontem do Guardian. É uma brincadeira e o fundo de verdade que há por trás de uma brincadeira. A União
Europeia já foi uma ideia mais auspiciosa. Nos últimos tempos,
enfrenta consideráveis dificuldades. Ainda assim há o que comemorar: 70 anos sem guerras entre os países mais poderosos da Europa. Parece uma eternidade. E, sem embargo, alguém duvida
que o coração do projeto seja a Alemanha? Eles, ao contrário dos franceses, têm feito um esforço danado: a discrição é a chave. O que eles não conseguiram
através de duas guerras, estão conseguindo de modo pacífico. Ainda
esta semana Angela Merkel, em entrevista concedida a três grandes diários europeus (El País, Süddeutsche Zeitung e Gazeta Wyborcsa) indicou que a saída para uma Europa
revigorada é um parlamento europeu forte, e a transferência de
poder político do âmbito nacional para o da união continental. Como o sócio-chave da união continental e seu pilar econômico é a
Alemanha, isso equivale a dizer: “reununciem à soberania nacional
que nós alemães assumimos as rédeas das decisões políticas e
econômicas”. E é exatamente esse o projeto dos alemães que, não por
caso, nos estereótipos logo abaixo são vistos como ultra-eficientes,
disciplinados e os que tomam aos outros os melhores lugares ao sol.
Se por tomar lugar ao sol se entende uma imagem para a tomada de
decisões, a metáfora clica à perfeição. Os alemães já propuseram, inclusive, que a Grécia ceda o controle decisório sobre impostos e gastos públicos para instituições europeias. Na prática, é o fim da soberania grega. O ponto é que, além de ser a maior potência econômica da Europa, os trabalhadores alemães efetivamente trabalham mais (e produzem mais) que os trabalhadores franceses subsidiados, com jornadas ínfimas e aposentando-se cedo. E ao contrário dos ingleses, que tiveram sua base industrial dizimada pela desmedida importância dada ao setor de serviços, a Alemanha preservou estrategicamente a sua. De outro modo, chega a ser sintomática a sensação do correspondente espanhol Javier Moreno Barber, um dos entrevistadores de Merkel: "Basta atravessar as portas da Chancelaria Federal em Berlim para compreender onde reside de verdade o poder na Europa".
Os Estereóptipos de The Guardian:
Os Ingleses
Hooligans
bêbados e mal-vestidos, ou livre-mercadistas empedernidos e esnobes.
Os
Franceses
Covardes,
arrogantes, chauvinistas e erotomaníacos.
Os
Alemães
Super-eficientes,
diligentes, disciplinados e propensos a surrupiar os melhores lugares
ao sol no verão.
Os
Italianos
Sonegadores
de impostos, estilo Berlusconi, amantes latinos e filhinhos da Mama,
incapacitados para bravura.
Os
Espanhóis
Machos
e mulheres fogosos inclinados a fiestas e siestas, assim que nada é
realizado.
Os
Poloneses
Beberrões
ultra-católicos com cheiro de antisemitismo e uma extrema destreza
como encanadores.
Fonte:
Guardian
P.S. Uma
piada diz que na melhor Europa, a comida seria francesa, a música
pop inglesa, o design italiano e a polícia alemã. E numa Europa de
pesadelo: uma comida inglesa, música pop francesa, design alemão
e polícia italiana.
*
* *
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
E Newt Gingrich comeu Sarah Palin
Sutilezas linguísticas nem sempre são sutis
Curioso para saber o que foi feito de Sarah Palin? Bem, Newt Gingrich a comeu
e absorveu seu ardil.
Esta chamada é o título de um post de Hadley Freeman, colunista do Guardian, em seu blogue, hoje.
Convenhamos,
no Brasil não pegaria nada bem dizer que Newt Gingrich comeu Sarah
Palin. Mas em inglês o verbo [to eat] não abre margem para conotações, digamos, mais ambíguas.
*
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Hugo, o Big Ben, Scorsese e Harrison
O Primo Caçula da Torre de Pisa
Ontem,
a notícia de que o Big Ben pode estar inclinando, querendo ficar
parente da Torre de Pisa, foi a mais lida por onde ela saiu. No El
País da Espanha ou na BBC Brasil. No El País – quem pode explicar
– foi mais popular que uma entrevista com Angela Merkel, em que a
líder alemã discorre sobre a crise espanhola. A força dos
símbolos. Imagine-se então quantos milhões de dólares a mais não
ganharia Scorsese, se ao invés de morar por trás de um relógio
anônimo, numa obscura estação de trens fictícia, em Paris, o seu
Hugo vivesse por trás do Big Ben. E, note, não de qualquer Big Ben,
mas de um que se vai descobrir - em paralelo à exibição de Hugo -
estar inclinando: teria sido a glória em terra. E então seria preciso apenas descobrir alguma ligação entre Méliès e Londres para factibilizar um roteiro que pudesse contabilizar ainda mais lucros, como deve ser em casos assim. Mas raios não caem
duas vezes no mesmo lugar. E, de resto, quem assistiu o documentário
de Scorsese sobre George Harrison (Living in the Material World, 2011),
pôde constatar que além de nada trazer de propriamente novo em
termos de informação, música ou iconografia, também nada acrescenta à
forma documentário. A impressão que se tem - ao contrário de seu
celebrado filme sobre Dylan (No Direction Home: Bob Dylan, 2005) - é a de
que dessa vez Scorsese parece ter entrado no projeto apenas com a grife do nome.
*
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Menos Luiza
/sic/
Luiza
Rabello circulou ontem pela Fashion Week. Quer dizer, Luiza não está mais no Canadá. Atropelando o prazo de seu intercâmbio, retornou às pressas para o mais previsível dos empenhos: gravar uma sequência do comercial do condomínio junto com o Pai. A coisa toda cercando seu instant
celebrity converteu-se num fait-divers típico da rede, nonsense, bem-humorado. Certamente com outras ressonâncias locais que desconhecemo. Até Lenine, que fazia show em João Pessoa no pico da onda, pegou carona. E para preencher a lacuna de algo que começou num vt bizarro, Luiza é linda. Ontem exibiu a forma de seus 17 anos num vestido colante para os flashes dos fotógrafos de moda. Entre outras coisas o fato a notar é o quanto se tem tornado corriqueiro jovens brasileiros de classe-média fazerem intercâmbio ou passarem temporadas em outros países. Em geral, de língua inglesa. Que certo tom pedante do pai resultasse na fama instantânea de Luiza, não deixa de desfechar para o melhor essa curiosa história de consagração popular via virtual.
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* * *
domingo, 22 de janeiro de 2012
a briga é feia e abriga
alguém
duvida que o judiciário é hoje o poder mais corrupto no brasil? A
briga é feia e abriga não pouca controvérsia. O judiciário passou anos à
sombra. Sucessivos mandatos, planos econômicos, escândalos
trazidos à tona ao sabor das conveniências dos banqueiros e dos tubarões da indústria, da soja. Passou o legislativo e executivo como vidraças da vez.
Nesse ínterim, mamava por fora, calma e perfidamente.
Não como um morcego ou uma chinchila. Mas como um paquiderme.
até
vir uma mulher de coragem. Mas isso são só começos. Agora, esperar o dinheiro do petróleo azeitar ainda mais esse engenho de desvio e subornação indica Venezuela, Nigéria. Ou algo do gênero.
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
O Mais Esperto Comunista
Susan Rothenberg, 1976
Fuga
em dó maior para imprensa e cavaquinho
Sem barganha, chantagem, investimento em reportagem investigativa, custosa, de risco. Uma pauta como pede o figurino. E, ao invés disso, jovens e talentosos jornalistas, como Daniel Piza, é que se vão. E o velhinho ali, firme. O sorriso do velhinho rende-lhe centros culturais nas Astúrias e um bocado de dividendos. Outros de esquerda, que passaram terríveis apertos não ousariam sonhar com o glamour de sua vida, entre presidentes, politicos influentes, ditadores, ministros, executivos de transnacionais e uma proverbial abundância de mulheres bonitas. Inspirado numa vida assim há certo filme em que Jean Paul Belmondo faz o papel dele: O Homem do Rio. Há
anos os necrológios perseguem Niemeyer como galgos. E farejam-no o corpo franzino por todos os poros, resfriados, internações, vesículas, boletins. Eles já estão meio pra fora das gavetas, dos arquivos feito língua de sogra. Que estão prontos há anos faltando só a causa mortis, todo mundo sabe. Mais que prontos. Já passaram um pouquinho do ponto como um abacaxi roído pelo calor de janeiro. E nada. Em 2009, grande esperança, o decano foi hospitalizado às pressas. Desse mato sai cachorro, apostaram as editorias. Certo amigo me escreveu de São Paulo solicitando um artigo para ontem. Qual o quê, alarme falso. Mais falso que certos implantes de silicone ou o amplo conhecimento náutico do comandante Francesco Schettino. Era apenas um problema de vesícula. O velhinho, por birra decerto, até casou uns cinco anos atrás. Um século e quatro anos. Oscar Ribeiro de Almeida tinha sete anos ao tempo da Primeira Guerra. Quando veio a Semana de Arte, bem podia tê-la assistido, do alto de sua adolescência. Para a imprensa, ah, como seria providencial que o último modernista, o derradeiro daquela estirpe de intelectuais monopolistas e mercuriais, que praticamente reinventaram o país, morresse nesta calmaria pré-carnavalesca. É todo o assunto que os jornais e os portais desejam: luto, revisão da biografia, imensas fotos, longos vídeos com os palácios de Brasília, a Pampulha, o Copan, o prédio do Ministério da Educação e Saúde, O edifício da Onu, a Sede do Libération; e para adiante, mundo afora, muitos croquis depois. Seria uma pauta e tanto. Pauta merca. Comprada a peso de nada. Sonho dourado dos editores da vez. Fora de dúvida e até nisso de morrer, Niemeyer é o comunista mais esperto que já existiu. Carioca, ele tem uma voz dengosa, de mineiro. E uma matreirice mais que mineira, mineral, que dá de dez na malandragem do Rio. Aos 104 anos, dizem que ainda vai trabalhar. Não é certo se chega a debruçar-se sobre a prancheta e extrair esboços como um recém-formado. Mas os amigos dizem que reserva um tempo ao fim da tarde para tomar seu malte, fumar um puro, e contemplar as meninas nas areias de Copacabana. Vai nisso uma receita?
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Uma imagem arranhada
Claes Oldenburg e Cossje van Bruggen, 1995
Desde
antes do romantismo nutre-se aquela imagem dos comandantes de navio:
bravos, cavalheiros, intrépidos lobos do mar. Eles têm um papel
decisivo na história do país. Quando pequenos, ao menos por um
minuto sonhamos ser capitães de navio. Aí vem esse tal de Francesco
Schettino e estraga tudo.
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sábado, 14 de janeiro de 2012
De comover o dnocs das redações
Richard Prince, My Way, 2004
Escandalosa Escassez
o naufrágio de um navio de cruzeiro ao largo da costa italiana salvou a vida dos portais brasileiros neste sábado. eles andavam numa seca do 15 de assuntos de comover o dnocs das redações.
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