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quarta-feira, 11 de julho de 2012

O sonho resgatando a humanidade numa cartolina cheia de d's


A. Quincy Jones e Frederick E. Emmons, X-100, The Experimental Research House, 1956

na sétima série, chorou ao perceber que a professora de Educação Artística – apodada Maria Machadão – não achara seu trabalho de casa  - uma cartolina cheia de palavras edificantes começadas em d, mais algumas fotos - exatamente a salvação da lavoura. Mas acho que falhei ao tentar consolá-la no recreio

desculpe-me. Eu não tinha voltado ao assunto esses anos todos

domingo, 8 de julho de 2012

Samu


Ivan Serpa

Passei um bom tempo fora de circulação. E tomei um táxi para voltar ao convívio humano. À altura da Washington Soares, naquele trânsito de enervar mártir, o taxista diz:
-Rapaz, ontem não é que o cara bateu no Samu.
E eu:
-Como?
-O cara acabou batendo no carro do Samu.
-O que é Samu?
Apreensivo, sem decidir se estou brincando ou sou sincero, o taxista olha para mim com um cara de quem quer desistir de me tomar por humano:
-Esse pessoal do socorro médico.
-Ah!

sábado, 7 de julho de 2012

O começo do fim das grades nas janelas e varandas




O malandro estava na esquina. Encostado num poste na esquina. Com o rosto inchado por passadas cachaças. Maquinava algo um pouco torpe, que pudesse ser adiado de última hora. Algo nada edificante. E levava baseado e meio na cachola. Ainda estava escuro. Nenhum carro na avenida.

Nisso os caminhantes passaram. Um já velho. Outro de meia-idade. O primeiro tirou para os lados do Centro. O outro foi para a banda do mar e da Aldeota. E eram só o começo. E o malandro na esquina, visto por mais olhos que os da polícia, odiou aquelas pessoas que, assim tão cedo da manhã, passam caminhando por cima de seu direito de delinquir. 

[04.07.12]

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Segunda-feira, 5 de julho de 1982: há trinta anos e um eclipse



No começo de julho de 1982, a Guerra das Malvinas havia recém-acabado. Os Estados Unidos eram governados por Ronald Reagan. Ainda havia Appartheid na África do Sul. Sambódromo ainda não havia. Jogo da Vida era a novela das sete. Blade Runner fora lançado meio mês para trás, mas ainda não chegara ao Brasil. Elis Regina morrera cinco meses antes. "Ebony and Ivory", com Paul MacCartney e Stevie Wonder; ou "Morena Tropicana", com Alceu Valença; ou "Banho de Espuma", com Rita Lee; ou "I Believe in Love", com Nikka Costa tocava no rádio. As gírias da hora eram "joia", "de repente", "tem vaga", "broto", "falou", "massa" e "só". E era impossível conversar com algum mediano sucesso sem pelo menos um desses termos na frase, embora isso hoje pareça realmente inacreditável. O inverno fora fraco. Um ano e meio depois, Jericoacoara seria descoberta, e o mundo viraria de cabeça para baixo. Eu cursava o segundo ano de Informática - que à época se chamava Processamento de Dados - na Universidade Federal. Mas então eram férias. E depois do segundo semestre, em janeiro do ano seguinte, nos atacaríamos para Camocim num Xavante sem capota. A Abertura era lenta mas graduava-se. Quando não tinha dinheiro para comprar livros, lia entre as prateleiras da Ao Livro Técnico, ali no térreo do Edifício Sul América. Em casa recebíamos a Newsweek, e eu tinha penfriends numa porção de países: Holanda, Estados Unidos, Argentina, Japão, Costa do Marfim... Houve um grande eclipse lunar no dia 6. E, no dia anterior, o minguar de um outro corpo celeste:


Eu não vivo por ti, Corinthians & o atual estágio do ludopédio tupiniquim



TT's Fortaleza 

#VaiBoca
#ForrodeSaltoemBuritiBravoMA
#processada
Corinthias
Higgs
FollowMelFronckowiak RumoAos800MilSeguidores
Tá Lucy
Amy Winehouse
Happy 4th of July
Nike

Ontem, quinze minutos após a vitória do Corinthians eram estes os TT's em Fortaleza, e com direito exclusivo sobre este notável "Corinthias", que não poucos parabenizavam com entusiasmo, circunstância e sono.
Bela vitória. E todos os méritos a quem de direito. Uma equipe disciplinada, aguerrida. E não é fácil ganhar uma Libertadores. Ainda mais com um Boca pela proa, na final. A vitória do Corinthians não deve ser depreciada. Mesmo por quem não simpatiza com o time de Parque São Jorge. 

Isto é uma coisa.

A outra é essa impressão de que taticamente o futebol brasileiro está pelos menos uns dez anos ou duas copas atrás de equipes como Alemanha, Espanha e Itália. Como a recém-concluída Eurocopa - de resto, com jogos bem agradáveis de ver - sugere. E também por ambas, Euro e Libertadores, não há um sabor de sobejo na final da Copa do Brasil, hoje à noite? Os calendareiros da CBF bem que precisam rever seus conceitos. Para não nos inflacionar de finais. E que a menos importante delas venha na mesma semana de duas pesos-pesados. E imediatamente depois delas.

Os termos essenciais da oração


veja você a sintaxe. Ela olha para você, de cima abaixo, na portaria do Clube do Predicado, e pede suas credenciais. E, então, você já está no Predicado. Mas agora está no Sujeito. Não é uma contradição dizer: “você está no predicado”, quando na verdade "você" está mesmo é no sujeito? Ah, moça, isso não tem jeito de sincronizar. E não vale botar a culpa na colonização portuguesa, porque em inglês o logro é o mesmo. Derrida deve ter contemplado isso quando lhe ocorreu o conceito de indecibilidade. Essas coisas sem jeito de ajuntar em lógica. De amarrar por lógica. Essas coisas "inamarráveis", e que a gente só entende por intuição. Mas já que você provou dos dois, veja como o Predicado é sonso. E sonso, no entanto, é predicativo do sujeito. O Predicado não é cachorro, senão um gato bigodudo e finório - embora lembre Otto von Bismarck. O Sujeito, de outro modo, parece meio bobão

esqueça os termos essenciais quando for orar. Mesmo o boboca do sujeito é meio velhaco. E você já notou, não é? A turma do terreiro é pissuída. Os sem-terra lutam e continuam. (Quer dizer, alguns continuam transferindo termos de posse com um ágio desgraçado em cima). Os latifundiários ainda mandam matar radialistas. Os pentecostais oram

os católicos apenas rezam

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A Solidão das Salas




Passava a caminho do supermercado quando viu as salas. Estavam expostas à tarde num primeiro andar. Contíguas. Ambas escancaradas e especulares. Na coincidência de estarem a ser faxinadas até tardia hora? Voltadas uma para outra. Mas cegas uma para outra. Como se um tapa-olho de pirata vogasse apenas para o lado em que ambas se tocavam.
Ela, no entanto, rebocando uma tristeza milenar, a quem volta-meia emprestava um sopro de vida personal e trainee, para não desaprender o ato da conversa, via o que havia de mais belo ou não em cada uma. E o fio da tarde escorria naquele instante sem persiana.
Até cada qual com seu cada qual ficar para trás, reduzidas a fora de campo. A um vice-versa intransitivo à moralidade. As duas salas, ela, a tarde. As duas primeiras comprimindo entre paredes milhares de dias, risos, flores, fotos. Coalhos de sangue no tapete. Terço de grossas gotas na parede. Beijos. Diferentes intensidades de luz. Um gemido, noite a meio. 
Uma sem ver a outra. Até que um inexorável cataclismo vindo do mar extinga a cidade e centenas de salas e cenas assim. Limiadas por uma parede. Cegas uma para outra. Onde as pessoas encerram seus dias.

Quanto a ela, que viu a ambas – como quando se vê um rasgo de nudez no corpo de quem se quer - prosseguiu, pedindo para a própria pervesa solidão dar um tempo. Para não fazê-la esquecer que precisa comprar sabão líquido e amaciante. Não lhe desviar até inúteis alumbramentos.

E ver se está lá na esquina.

terça-feira, 3 de julho de 2012

As receitas revisitadas: quem prova?


Ad Reinhardt

miolo de pote, caldo de galinha, muito pão e pouco vinho, abobrinha, feijão com arroz, farinha do mesmo saco, angu de caroço, zona do agrião, caranguejo em mês que não tem r, feijão de chegou mais um, bolo de enganar tolo, o que cair na rede, favas contadas

escolha sua receita de hoje. consciente. afirmativo. não como devoção a uma dessas estúpidas baladas pop, que passam o recibo de nosso capricho extremo.

e certa debilidade mental.


(mas, que mal lhe pergunte: quem vive sem elas?)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Pregão & pesar




Quando o vendedor de cuscuz paulista passa, os cachorros da rua uivam.

Por que só a eles pasma o grau de pesar que vai no pregão?

domingo, 1 de julho de 2012

Com os bofes no boteco



Mark my words, when a society has to resort to the lavatory for its humour, the writing is on the wall. 
[Alan Bennett]

-Bateu, cara, tenho certeza. Na cabeça do zagueiro antes de entrar.
-Foi direto, macho. Onde já se viu. Cegou? 
000
No intervalo, ninguém dá nada pelos melhores momentos. E o time segue penso para a esquerda.
Mais ou menos como reclinam na direção da mais bela, e lhe entregam as palmas das mãos. Quem achou que havia mais que um brilho no olho? Mas ainda faz cedo. E é de noite que o bicho pega. E o brilho do olho dela prega no olho do gato. Segura o facho. E o farol de milha dos quereres relanceia sobre duna. 
Não há lua.
000
Enquanto fala de outras coisas, sorri. Lê contratos nas palmas das mãos. Leques escancarados por dois lados de mesa. Palmos e palmas. Linhas de vida. Pulsos tatuados. Anel menos falso, lá. Falanges. Cerco. Desvenda até entrelinhas. Confere ressalvas. Revisa alíquotas. E deplora fitinhas do Bonfim. 
Às vezes, enquanto retoca o batom, sublinha algumas cláusulas. E repassa as grifes. Se as há. Mas sábado e mesa não vão dos melhores nesse quesito. 
O áudio da transmissão, mais baixo no intervalo, funde-se agora com o paredão do carro cuspindo forrós ambiente. E mesmo a falar alto há uma clareza ineludível na voz dela - como se sussurrasse assoletrado ao ouvido. A voz, feita a compleição que a emite: espécie de engenho ovíparo, que choca os ovos da atração. E guina-se para sedução com tal naturalidade como a maioria dos répteis botam ovos. Haveria algo de verdadeiramente obsceno ali, haveria?
Sorriem de volta, perfeitamente basbaques. Estufando o peito, contraem bíceps. Soltam usuais gabolices em hálitos de chope, alho, uísque. Daquele tipo que se solta em intervalos de jogos realmente importantes. Além do jogo, falam de carros, receitas, smartphones, rugby, forró, aplicativos e dos viados. E depois de carros de novo. E de novo de futebol - Séries B e C. E de novo dos viados.
Fazem caras fatais e batem as pontas dos muitos cigarros na mesa. Depois acendem. Imitam viados. E se chamam de bicha entre si, com direito a gritinhos, trejeitos e fotos. Depois deslizam os óculos escuros para a testa. E coçam a barba mal feita. E recompõem a voz com um cenho franzido. Um pouco compungidos.
Pode-se ler na testa: os projetos incluem ser dirigente de clube. Depois, vereador. Que é quando se tem mais chance de chegar, quando não se vem de uma família que já chegou. E pensar que a vida da vida gira em torno desse chegar lá. E desse jeito. Como Tétis em torno de Saturno. Algo tem de girar em torno de algo. O alfa e o ômega. Mas agora a questão hormonal deslimita-se das carreiras, do uísque: ah, mulher.
Tudo ou nada. Vão nessa fase. Que o comutador não esqueça. 
-Esse mundo está perdido - diz a garota sentada perto da janela, na mesa do lado. Também isso é o que se espera de uma garota sem sal sentada na mesa do lado, perto da janela, quando abre a matraca. Nada de novo. Não que seja feia. É só insossa. No insosso, a previsibilidade conta em gotas diluviais.
Ela? Desliza ágil com qualquer palavra. Não carece de crase para preposicionar artigos. Sorri. Às vezes fica séria. Quase sempre quando menos se espera. Irresistível nas duas condições. A tarde gira em torno dela.
Agora, se há um parágrafo obscuro, dúbio; pede licença. E já segue no rumo do toalete, deslizando os dedos no visor do iPhone. Um polígrafo em tempos de inocentes tuitagens e fotos com amostras de lanche. 
Os olhos deles balançam juntamente. Como se houvesse amortecedores nas curvas. E as outras, arre, armam muxoxos meio involuntários. Bocas enchem. Mas só há uma para os naipes de tanto desejo. Pedaços seriam arrancados se na ponta do olhar houvesse dentes. Mas ela, seu iPhone logram chegar intactos ao lavabo.
Do outro lado, o consultor jurídico - que recebe parte dos honorários daquela forma inequívoca, em doces prestações – analisa me-ti-cu-lo-sa-men-te onde há melhor liquidez, herança, seguro, debêntures entre os bíceps do boteco:
-Ai, ai – geme, geme ela, a erguer a tampa do sanitário - o mais fofinho não tem onde cair morto. É sempre assim.
E, vivo, o líquido cai no líquido:

-Dá-me paciência, Senhor.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

"Em sociedade tudo se soube"



Olho vivo¹ quando uma mulher deixar de rir a seu lado!

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¹Quando se diz a expressão “olho vivo” não há como não lembrar de dois ícones geracionais. Um é José Rangel (que, no caso, reverberava Ibrahim Sued. Que fim terá levado José Rangel?). O outro é Faro Fino. E especialmente Faro Fino ao se dirigir a Olho Vivo num dos melhores cartoons (Snooper and Blabber) de Hannah-Barbera, devidamente filtrado por uma dublagem de sonho, que fez escola na televisão brasileira.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Mulheres Nunca



fora da área ou de hora, fixava um pouco o teto, um pouco as prateleiras mais altas, o cotovelo esquerdo a amparar a falta de lastro do banco alto, as torneadas pernas a escorrer abaixo, o vestido plissado. como fazer? as pás do ventilador a raspar pratas na penumbra. a prorrogação assomava, inevitável. a coisa toda é tão mais fácil quando não entra coração. mas quem falhar o primeiro pênalti vai ser crucificado pela torcida, quer apostar? e entra aquele travo de cajá, que amarga na boca das mulheres. daquelas, princesa, que julgávamos longe de melhores. as que a gente desprezou. e o juiz marcou fora da área.
homens ainda perdoam.

mulheres nunca.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Melodia a régua e esquadro: as sanidades de São Paulo


Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Fau-Usp), São Paulo

Quando chegou a vez, achei o Rio de uma beleza fácil e carcomida. Pois, de outro modo, o Rio ainda é o mesmo mar do Nordeste. Só que menos atraente, apesar das montanhas e certo efeito pirotécnico o tempo inteiro, não só na Passagem de Ano. A sensação de o cartão-postal não dar descanso. E a fealdade das favelas roendo os morros. A mim sempre me impressionou mais São Paulo. Sua beleza áspera e arquitetura moderna, de um classicismo ressaltado, equilibrando-se sobre pilotis. Certa visão diáfana de um futuro do passado, como num condomínio de Vilanova Artigas, em Higienópolis. Ou o quanto o Conjunto Nacional, com sua praça interior, cita - de forma  adequada, inopinada - os mercados e feiras do Nordeste. A promessa de calor na fria impessoalidade dos espaços. E se está melhor num boteco debruçado sobre a Paulista ou na balada de Vila Madalena, no inverno, que em Copacabana. O Rio é chafurdo tão gostoso quanto raso. É-se amigo de todos logo, animadamente. Mas só por umas horas. Em São Paulo há mais prazos para antes e depois. O silêncio surge um pouco mais. E nele se esconde um naco de pouso e insuspeitado passado. A chuva fina borrifando esquinas. Possibilidades de estudo. Às vezes, quebradas pelos raios das grandes tempestades de verão abatendo-se sobre os vales, onde a metrópole e a quitanda se misturam. A fascinante franja entre o que é do bairro e do país. Circular anônimo pela Pompeia. E almoçar contemplando a Igeja de São João Vianey. A distância recente no traço das pessoas. E o tanto que elas se parecem nas suas diferenças. A migração segue por todos e tudo. Na pressa de tudo. Até no fato de se ir para o mar pela serra a toda, sem tempo de ver paisagem. E a serra mergulhar no mar depois daqueles elevados fantásticos, que parecem o desdobrar da cidade no rumo do oceano. E os ipês, os manacás, as quaresmeiras em flor no meio da mata. Ou imaginar os padres da Companhia escalando aqueles despenhadeiros e grotas, no muque, cinco séculos antes. Ou a gente estar sempre a dirigir um conversível, não obstante o teto, quando se vai a Ilhabela ou Cambury. E, assim, as tais curvas da Estrada de Santos, mais presentes em São Paulo que no Rio, onde elas de fato estão.

Esse negócio de escolher entre São Paulo e Rio é uma espécie de dialética. E há compensações à beira-mar ou na montanha. Mas parece meio inevitável que a gente se decida por uma das premissas.
*
Recentemente, meio por acaso - se há acasos e não constelações na Tia Nete - vi um curta, de minutos poucos, sobre São Paulo, cuja elegância, simplicidade, ritmo, escolhas, chamam a atenção: 
 [o filme dura 3min52s, é precedido por um comercial de 21s, e põe em quadro uma pequena amostra da melodia de régua e esquadro que destila algumas das (raras) sanidades de Sampa]

domingo, 24 de junho de 2012

Dois sinais na perna esquerda de um n caído para a esquerda


A Promenade, o calçadão à beira-mar em Split

A Placa (ou Stradun), emDubrovnik, pérola do Adriático

Duas cidades na Dalmácia concluídas numa frase 
Oliveira, vinha, montanha, mar: o litoral mais belo da Europa

A Croácia é um N em direção ao Noroeste. A perna esquerda desse N caído segue, por sinal, roída. Ou foi mal apagada: desfaz-se em farelos. Esses farelos estão na água: são ilhas. Elas são mais de mil. Perto de uma dessas ilhas está Split, na costa da Dalmácia. Perto de outra, Dubrovnik [os croatas pronunciam proparoxitando: Dúbrovnik].

Split, que é a maior cidade da Dalmácia, vem de um colônia grega, Spalatos. Mas seu núcleo central remete a um palácio mandado erguer pelo Imperador Diocleciano, no séc. IV d.C. Hoje em dia, dentro do que foi esse palácio erguem-se cafés, lojas e até a catedral da cidade. A baía é um mimo. E a avenida peonal à beira dela, a Promenade, um projeto exemplar. Essas cidades guardam algo de uma escala urbana que desconhecemos. Quer dizer, onde há muita urbanidade dentro de pouca área e ao longo de toda ela. É uma concentração de serviços uniforme, inversa ao de nossas metrópoles imensas, caóticas, desiguais.
Split não conta com mais de 800.000 habitantes. Mas isso na conurbação. A cidade em si é muito menor. E, contudo, há museus e boa arquitetura para o lado em que se teimar ir. E para qualquer lado onde se vá, montanhas suaves metidas em entradas de banho. A colina mais alta, junto ao porto, chama-se Marjane. E há essa canção, muito popular entre os partisans iugoslavos da Segunda Guerra, que é cantada até hoje: "Marjane, Marjane".
Num enclave, 230 km mais ao sul, vem o clímax: Dubrovinik, a Pérola do Adriático. É não menos conhecida pelos antigos como Ragusa, cidade-estado satelizada por Veneza, mas que chegou a competir com a metrópole à época em que a rota das especiarias fazia a glória do Mediterrâneo.
Pela força de sua astúcia, Ragusa sobreviveu séculos entre grandes potências - como a República de Veneza, o Império Otomano ou o Império Austro-Húngaro. Seu corpo diplomático fez história. Fortunas cumularam-se nos porões. Dubrovinik recebeu um considerável contingente de judeus portugueses no sec. XVI. A sinagoga – que é ainda referida por “sinagoga” (como em Amsterdã ainda há a “esnoga”) - guarda referências dessa migração sefardí. E Dubrovnik, apesar de haver sido destruída por um terremoto no sec. XVI e atingida por bombardeios na Guerra de Independência (1992), constitui um dos mais orgânicos e admiráveis exemplos de cidade medieval murada, na Europa.
Com não mais de 50.000 habitantes, a pequena cidade – que, não obstante, é servida por um aeroporto internacional - triplica de população no verão, quando é literalmente tomada de assalto por alemães, italianos e ingleses, sedentos pelo sol, pelas praias esplêndidas - de seixos ao fundo e água cristalina.
A Placa (ou Stradun), como é conhecida a rua principal da cidadela, em Dubrovinik, não tem mais de três quarteirões. Porém constantemente palmilhados por hordas e hordas de turistas, a ponto de haverem polido as pedras calcárias que revestem o leito da rua. Toda a parte antiga é vedada à circulação de veículos. De um lado das muralhas, barcos e iates oscilam suave na calma baía. No oposto - pois a cidadela ocupa uma pequena península - as ondas quebram violentamente contra as muralhas que escalam os arrecifes. Adiante há ilhas alflorando no mar. E montanhas do lado do continente, por onde também se espalha a zona mais moderna da cidade. Alguém bem-humorado, certamente visando a combinação entre montanha, mar e outras formas rotundas, rebatizou uma das praias circunvizinhas de Copacabana.
Mas, se falta algo da alegre solaridade tropical do Rio a essas praias recortadas e crespas - como decerto sobra algo ao risco comportado do biquíni das garotas locais - a paisagem ao longo do litoral de Split e Dubrovinik, estendendo-se até a Baía de Kotor, já em Montenegro, com suas ilhas, enseadas, istmos, golfos, canais, angras, estreitos e penínsulas, sitiados por montanhas e dominados por antigas cidadelas medievais - onde sobressaem e sobrepassam-se torres e campanários (ou ainda ruínas romanas e gregas) - é de descoser a tênue linha entre sonho e vigília, quando o sol é suave; seja ao fim da tarde, seja principalmente ao amanhecer, que acerca as praias desde a silhueta das colinas.


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Nota - havia lido muitos tuítos ao longo da tarde deste sábado, ao mesmo tempo em que dava uma espiada no jogo da Eurocopa (Espanha 2x0 França). Aí, cansado do tanto de esforço - de resto inútil - que as pessoas fazem para soarem lapidares, epigramáticas no Twitter, veio essa necessidade de escrever um texto em que pudesse jogar o pensamento numa frase longa. Como a última do texto acima, que ocupa um parágrafo inteiro. Pois as pessoas parecem esquecer que mesmo o estilo conciso, quando jogado de qualquer jeito (ou seja, quando mal jogado), apenas aborrece. E que escritores como W. G. Sebald esticam-se por períodos que seguem por páginas e mais páginas. E é o que há de delicioso, por exemplo, quando se lê um desses cronistas do Quinhentos. As frases parecem não ter fim. E, logo, não fazer sentido. Mas, do contrário, fazem muito. Fazem todo. E o que não faz sentido é nossa incapacidade de perceber e acompanhar o sentido de uma frase longa e bem lastrada. Isso compele. E nos leva adiante. E talvez seja uma maneira de lembrar - numa feição análoga, aliás, aos planos-sequências de Bela Tarr - que a frase curta é apenas um dos veículos da elegância e da concisão. E que essa mesma concisão e essa idêntica elegância podem ser atingidas por frases que parecem não ter fim. Quer dizer, não é o tamanho da frase o que determina a concisão e a elegância. Mas o ritmo dela. Seu modo de dispor-se. Sua disposição. Sua relação com as outras frases e a totalidade do texto. Eis porque cansa ler textos jornalísticos hoje em dia. Eles estão tão vendidos à necessidade da inteligibilidade, da economia de tempo e espaço, da exatidão, à serviço da informação e da comunicação mais rasteiras e imediatas, que não há mais lugar algum para o calor de um pensamento menos entregue à venda. Mais misterioso, místico, intuitivo. Mais sinestésico. Perto do coração selvagem. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Corresponder, coincidir



Pessoas têm o desejo que um punhado de letras traduza uma complexidade, uma barafunda de sentimentos, sensações, condições e estados de espírito que são elas próprias. Que resgate, de algum modo, o que já esteve lá, escrito nas estrelas. Como fosse possível alguma correspondência. Ou uma caligrafia estelar, constelacional, que se pudesse reproduzir na ponta do lápis. Ou, mais adiante, coincidir com vida. Assim, sem mais.

Mas o que corresponde tem três dimensões e é, no mínimo, do reino animal: cachorro, golfinho, celenterado, formiga. E o que coincide não tem olhos para fora de si. Jamais poderia ver a coincidência mesma, ficando para sempre aprisionado nela, de nascença. Pois coincidências e prisões têm o mesmo termo em latim no nome científico. São primas e já se amaram. Armaram poucas e boas. Arapucas. E nenhuma janela para fora. Só um terceiro excluído pode vê-las, imigrante e solitário que é. 


Imigrantes e solitárias que são, não se deixam ver à auto-suficiência. Mas então há essa necessidade tão violenta de espelho, que letras despertam lágrimas. E não por serem parecidas com pessoas. Não há imagem para discussão. Mas por saciarem nelas o desejo de se acharem parecidas tout court. De se acharem parecidas com paus e pedras. Marés e rios. A corda si, o naipe de copas, o Pico da Bandeira. Abóbadas, funâmbulos, sextas-feiras e o alfabeto cirílico. 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Pressa ou virtude


/sic/

sigo dirigindo veloz para dentro do feriado. Devo ter algum ou muito álcool na alma, no sangue. Mais no sangue, é verdade. Não espero que pressa ou virtude me façam escapar do tribunal. E é-me indiferente se atropelo bicho ou homem. Ou se o bicho se posta à minha frente. E sou eu

a última coisa que a justiça dos homens está interessada em saber na verdade é a verdade.

sábado, 9 de junho de 2012

Der Weg zum Strand


Olhou para o anúncio antes de embarcar, e lembrou de seu tempo de garoto. E de quê? Então, de uma estudante alemã desiludida. Seus belos olhos gris e guache. Ela havia vindo passar uns dias com o namorado, que estava já passando dias a mais por aqui. E não foi difícil perceber que o namorado estava achando a estadia por aqui um paraíso maior do que devia. 
Isso a preveniu não só contra o ex-namorado, mas contra o Brasil em geral. E pior - isso não se faz - contra a língua portuguesa tal como falada na América:
-Soa tão primitiva uma língua que não tem a segunda pessoa na conjugação do verbo - filosofava sobre o desaparecimento do tu. (Mas a verdade é que todos nós filosofamos, de um jeito ou de outro, quando nosso tu desaparece. De preferência, nos bares, em arengas que conseguem ser ainda mais cômicas que discussões sobre futebol).
Ou então:
-E como se pode mais empregar uma forma no singular para a segunda do plural? - referia-se, em estrita lógica, ao hábito sem retorno que temos de dizer a gente por nós a maior parte do tempo.
Não que ela estivesse propriamente interessada no emprego de pronomes numa língua romance dos confins da Europa. Mas a gente tem que dar vazão a sentimentos fortes sob formas mais ou menos racionais.
Compadecido, ele teve que explicar à moça que o você preenche perfeitamente os requisitos do tu, como segunda pessoa. E não é propriamente um erro, mas uma acomodação cultural que levou tempo para maturar, sedimentar-se. Até ser aceita em livros, gramáticas. Mais ou menos assim como no inglês o thou também desapareceu para glória maior do you. Levou algum tempo. 
Quanto à questão do a gente, aí então era até mais simples. Bastou-lhe lembrar que os franceses fazem isso à três por quatro. No caso, empregando o mágico on pelo nous mais formal. E nem por isso se metem em menos mènages. Relaxam e são felizes.
Mas, a esse tempo, ela já enchia a boca de vocês. E pronunciava o pronome com insuspeitados harmônicos. (Achava bela solução pronominal. Assim bíblica, com ressonâncias do vós na graciosa simplicidade da mercê. De fato, mais plástico, menos marcial que o tu. O tu que ainda lembra a precipitada aspereza da segunda pessoa no alemão). E ela estava até planejando passar uns tempos a mais no Brasil:
-Sabe que você explica muito bem as coisas – ela dizia-lhe - Mas e agorra, garroto?A gente vai parra o praia?

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Prólogo a um prólogo de Béla Tarr



Pessoas agasalhadas, agrisalhadas e embrutecidas olham adiante numa fila. Fim do outono. De meia-idade e, de algum modo, vazias; pois não há muito o que fazer no campo dos sonhos ao largo do fim de uma fila assim.
Para onde todos olham como destino. 
(Ao fundo, teclados soam com mais harmonias que melodia)

A line of bundled up, grayish and brutalized people are looking ahead of themselves. End of autumn. They are middle-aged people and somehow empty, for there is not much to do in the field of dreams off  the line up they stand.
Looking ahead like destiny.
(On background keyboards sound more harmonies than melody)
Once William Carlos Williams composed a book called Pictures from Brueghel. Each poem in the book is nothing but the description of a Brueghel's picture. Similarly one could do the same to some sequences in Bela Tarr's films.

Certa vez William Carlos Williams fez um livro chamado Quadros de Brueghel. Cada poema do livro não é mais que a descrição de uma tela de Brueghel. Por analogia, pode-se fazer o mesmo com algumas sequências nos filmes de Bela Tarr.

To watch the short film in Youtube: http://bit.ly/acII15
Para assistir ao curta na integra: http://bit.ly/acII15

Começos de junho pelo mundo dos esportes & mundo em geral, sem nenhuma conclusão moral



A época é de Roland Garros, que já conhece sua 111ª edição. O torneio segue restrito a três nomes no masculino e aparentemente aberto às surpresas no feminino. Sem assunto, jornais europeus especulam sobre quem reforça os clubes para a próxima temporada. Os espanhóis e ingleses batem qualquer um na boataria. Mas os italianos são mais enfáticos, com seus admiráveis superlativos: Bravissimo! Já os leitores descem para balneários na Espanha, Itália, Croácia, Grécia e Turquia. É verão na banda de lá do mundo. 
Há um Campeonato Europeu, na Polônia e Ucrânia, que ameaça começar com muito pouco fogo na palha. Deve engrenar, próximos dias, quando estrear de fato. Enquanto isso, a presença de tantas estrelas pop ao redor de Sua Majestade, no Reino Unido, expõe ainda uma vez as delicadas relações entre espetáculo e poder.  Cantores, músicos e bandas pop cercam a Rainha como jacarés famintos em torno da gazela desprevenida. Chances assim não podem ser desperdiçadas. E isso também indica para o fato de as vedetes pop terem perdido espaço para esportistas – e, em especial, jogadores de futebol. Isso são cifras não pequenas. Se todo mundo antes queria ser cantor e jogador de futebol, não resta mais dúvidas, hoje em dia, sobre qual a mais rentável dessas carreiras. 
Por aqui, Ronaldinho Gaúcho torna-se Ronaldinho Mineiro, depois de recusar-se a ser carioca. Tudo a calar sobre Ronaldinho. A divulgação de certo vídeo pela direção do Flamengo beira a aberração. O Gaúcho foi o mais formidável e decisivo jogador que jamais pisou num gramado por cerca de dois anos e alguns semanas. Se tanto. E também um daqueles que atirou mais rápido, pela janela, a chance de ser um dos grandes do esporte. Defenestrou-a à base da mesma boa vida e molas que - dizem por aí mas não se sabe se é certo - não se deve entregar a ela. Ocorre, camarada, que a decisão foi dele. E quem pode condenar o tamanho do seu copo e da sua sede? Ainda sobre o ex-gremista, um leitor argentino pontifica, com aquela usual e enfática castelhaneidade: “a este le gusta la joda como a la mosca la mierda”.
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Ainda sobre o Aberto da França, e as facilidades que o poder traz. 
Em 1997, quando Guga venceu seu primeiro torneio, recebeu o troféu das mãos de Guillermo Vilas. Gato escaldado, o argentino cochichou algo ao ouvido de Kuerten antes de lhe repassar o caneco. Instado a revelar o conteúdo, um Guga pouco mais que adolescente, recusou enrubescido. Mas os fotógrafos em torno guardaram a inteireza da frase: “Segura a onda, garoto: vai chover mulher na tua horta”.
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Se tudo não parar de passar, aliás, por que deveríamos seguir?

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Antes de passar para o próximo

Emily Granader, 2009


De Sermos Numerosos

a crueldade das pessoas está em serem muitas. Se todos fôssemos só um e o mesmo, não teríamos o menor problema. Nem guerras. Nem terrorismos. Nem politicamentes corretos, ditadores torpes, sectarismos degradantes. Ou minorias. Tampouco preconceitos. 
Por outro lado, também não teria a menor graça. Seríamos miseravelmente sós. Sem conversa debaixo do sol. Enquanto umas partes do corpo fenecessem, outras na flor da idade. Mas que idade? Haveria necessidade de tempo?
Arthur pensava assim. Mas também pensava:
Mas como seria a questão ambiental, se fôssemos só um? Digamos, um imenso paquiderme pensante? Devastaríamos porções inteiras de continentes só para nos alimentar? Áreas do tamanho de Andorra e do Liechtenstein combinados, a cada dia? Um Arquipélago das Malvinas mais meio Sergipe por mês? É, seria impossível desenvolver-nos com sustento. A gente como paquiderme literalmente arrasaria uma porção de planetas antes de passar para o próximo.

Mas, de um outro modo, não é exatamente o que a gente faz sendo muitos?