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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Antes de passar para o próximo

Emily Granader, 2009


De Sermos Numerosos

a crueldade das pessoas está em serem muitas. Se todos fôssemos só um e o mesmo, não teríamos o menor problema. Nem guerras. Nem terrorismos. Nem politicamentes corretos, ditadores torpes, sectarismos degradantes. Ou minorias. Tampouco preconceitos. 
Por outro lado, também não teria a menor graça. Seríamos miseravelmente sós. Sem conversa debaixo do sol. Enquanto umas partes do corpo fenecessem, outras na flor da idade. Mas que idade? Haveria necessidade de tempo?
Arthur pensava assim. Mas também pensava:
Mas como seria a questão ambiental, se fôssemos só um? Digamos, um imenso paquiderme pensante? Devastaríamos porções inteiras de continentes só para nos alimentar? Áreas do tamanho de Andorra e do Liechtenstein combinados, a cada dia? Um Arquipélago das Malvinas mais meio Sergipe por mês? É, seria impossível desenvolver-nos com sustento. A gente como paquiderme literalmente arrasaria uma porção de planetas antes de passar para o próximo.

Mas, de um outro modo, não é exatamente o que a gente faz sendo muitos?

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Reductio ad Absurdum


Michael Anderson, Logan's Run, 1976

-Claro que existe vida fora da Terra – disse Arthur.
-Sei não. Se houvesse, tenho impressão que eles já teriam entrado em contato – ponderou o Terceiro Excluído. 
-Mas não é aí que mora a filosofia, a astúcia, a prova da inteligência deles: por que entrar em contato com um planeta cheio de problemas como o nosso? 

domingo, 27 de maio de 2012

Estamos aí, Dona Qualquer Coisa



As licitações? Isso foi muito depois. Rapaz, eu era liso. Tudo começou quando vendi os extintores do meu prédio e com parte do dinheiro ganhei uma bicicleta na rifa. É preciso ter sorte na vida. E Deus ajuda a quem cedo madruga. Precisar de qualquer coisa, estamos aí, Dona Qualquer Coisa!

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Que não sabem o que é redundância



Nos lugares certos

uma vez sentiu que ela queria pular no seu colo à primeira margem aberta. Mas não seria boa ideia. Ela que era tão distinta. Só que não podia ser assim, é claro, naqueles casos. A carne de sol e a macaxeira, não estavam nada más. O pequeno restaurante era limpo, deserto, na Zona Oeste. Parecia um sonho? Ou uma transparência naquele verão com friagens? Chegava-se e saia-se dele por táxi e com aquela sensação de nunca mais, insuperabilidade. Mas o fato de ela estar toda trincada não era nada bom para a caixinha de música. E melhor não misturar consolo com prêmio de consolação. E ainda havia amiga, inabilidades, uma longa língua. Ter de lidar com isso quando voltassem à província 

as distintas não perguntam certas coisas. Coisas com coisas. O fio da elegância não lhes dá criar vogais entre consoantes. Ou pãos, pãos, queijos, queijos. Jamais dizem perempitório. Dizem peremptório, e olham em volta apenas duas vezes para não descentrar conversa ou parecer aquelas atrizes que dizem assim “é aquela coisa do”, ou “sabe” ou “gente, eu amo”. E é de particular delícia quando descem à vulgaridade, e se conhece a mulher. Nem profissionais fazem tão bem. E quando os anos passam - ah, por quê? por quê? - por mais arredondas e matronas que se tornem, não perdem nunca essa destreza invulgar de haverem sido as mulheres bonitas nos lugares certos nos lugares certos

as que não sabem o que é redundar

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Erotomania

Malgorzata Buczek

-ou Devaneios Eróticos na Era do Virtual

vá pensando. o virtual como luva nas mãos daqueles que fantasiam. 
porque ela ou ele ouviu tal música, assinalou a leitura de tal livro, viu tal filme. 
ou seja, por causa dessa cláusula secreta, que mesmo os dois que presumidamente a compartem nunca a declararam, love is in the air. 
(is it really?)
*
é como não olhar para além do espelho diante do qual se faz caras e bocas aos dezessete. e há ainda os que vão adiante, e não cabendo em si ao descobrir que ela ouviu “r.i.p” com rita ora ou anda lendo d. h. lawrence, postam textinhos para informe do mundo: olha, gente, estão apaixonados! não é original? e são certamente correspondidos. nem que seja só no fundo de suas cacholas. ou no fundo sem fundo dos devaneios erotômanos.
lambisgoias e lambisgoios gastam tempo e energias nisso. sirigaitas e sirigaitos fazem a glória da indústria de cosméticos e da indústria esotérica e das fábricas de reflexos e dos centros de fisicultura. para não falar dos terapeutas e nutricionistas. reais e virtuais. abra uma janela chamada espelho. e a chame de 'mon amour'. não importa o navegador. Espelho era uma das poucas janelas virtuais que você podia chamar de sua antes da chegada do digital e seus brinquedinhos amorosos
muitos amores imagináveis depois (e, claro, muita punheta e siririca escorrendo, digamos, um tanto pelo ladrão - pois está na regra, arnaldo), os caras imaginam até o piercing no umbigo, o tema musical, a decoração da capela, o garbo dos padrinhos, o gosto dos salgadinhos e aquela respiração entrecortada, no suposto futuro cônjuge (ou amante de 'ersatz').
então, no estalar dos dedos enchem blogs e mais blogs de flores, versinhos & presumidas bondades, como se tivessem dezessete ou o mundo fosse nutrir-se dessa extrabundância de salgadinhos imaginários e virtudes não menos. esquecem que esses salgadinhos não se exportam à china. que essa generosidade virtual não muda a vida de ninguém em calcutá. e será que existe alguém, em si e de fato, com uma vida interessante o bastante para ser acompanhada em tempo real? todomundo é suficientemente artista para ser seu próprio personagem e ter seus dias publicados assim nas revistas como personalidades em roupas de baixo?
motivos e valores positivos, adiante de seu tempo. e todos maneiros, heróis de si. nas suas próprias postagens ao menos. e, assim, derramar-se em posts e mais posts ao modo de diário. ah, querido diário. mesmo que não tenham mais como volver a los diciesete. como se ao menos na escrita o sensabor dos dias pudesse ser convertido em algo menos acachapante. caramelizado para algo menos doentio. como se valesse tudo y más alguna cosa. en la virtualidad, muy bien, se puede carajo. a por la virtualidad.
alguns, feito certa atriz – tinha que ser atriz ou ator, faz parte - tentam tirar uma lasquinha, otários que não são e acabam por ser mais. pois a emenda termina pior que o soneto. o soneto, no caso, supostamente surrupiado. quem terá a pachorra de parar e olhar as fotos de uma sirigaita nua, quando há bilhões de sirigaitas nuas, mais ou menos jovens e muito mais curvilíneas, insinuantes, estimulantes e, melhor, até interativas ao redor do planeta? e essa moda não foi antes lançada por scarlett johansson - que convenhamos até possui, digamos assim, mais argumentos - antes de chegar nestes trópicos quase sempre por demais tristes e reincidentes? e agora, para fechar o ciclo da mimese vertiginosa só falta uma personalidade "local", "da terra" ter suas fotos íntimas afanadas... e aí o ciclo fecha seu logro: de nova york para o rio, do rio para fortaleza. é sair de johansson para a atriz carioca, e desta para quem? para uma das tigresas de joão inácio jr.?
tá certo, ninguém vive sem migalhas de fantasia. o diacho é quando não se consegue mais nadar de volta, na ressaca braba de fevereiro, e tomar pé da realidade. maré para casco nenhum botar defeito: o braço dos nadadores fraquejando o crawl. e não mais se obtém viver com uma migalha de realidade. ainda que virtual.

 será que ontem ela ouviu sixpence none the richer?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Fragmento sobre Literatura e Fotografia




Ao contrário de um ponto, não existe uma foto final. Mesmo que a foto seja composta de pequenos pontos, cada vez mais imperceptíveis. Ou por isso mesmo.
*
[Alguns dias depois, e a proposição talvez devesse ser refeita]:
Ao contrário de um ponto final em um texto, não existe um ponto final em uma foto. mesmo que a foto seja composta de pequenos pontos, cada vez mais imperceptíveis. Ou por isso mesmo. 

[Há um tempo interior na foto que é como que reciclável. Ou seja, o tempo na foto não tem fim ao contrário do tempo no texto].

terça-feira, 22 de maio de 2012

Nos Circuitos da Naturalidade e dos Mascotes



Torço para quatro times: um na Inglaterra, um na Alemanha e dois no Brasil. Nenhum deles está ganhando. Mas eu tenho uma cachorra. E pelo fato de ela ser de raça inglesa, ter nascido no Rio, e o ex-dono ser alemão, finjo que a bichinha torce Chelsea, Fluminense e Borussia Dortmund. Faço ela ver todos os jogos. 
Minha pupuquinha está ganhando tudo. E não deve ser pecado torcer um pouquinho pelos times de quem nos faz feliz.

É? Ah, não sei. Assim de cabeça, não sei. Mas Mamãe diz que sou competitiva.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

"Mágico, mundo, alguém-eu", novela em 3 atos: I. Magia ou O Incorrespondível Desejo


Francis Bacon

As pessoas tem um desejo enorme que um punhado de letras traduza uma complexidade, barafunda de sentimentos, sensações, condições, estados de espírito que são elas próprias. Que essas letras, coitadas, sintetizem isso tudo. Como se fosse possível uma correspondência. Ou, mais adiante, uma coincidência. 

domingo, 20 de maio de 2012

"Mágico, mundo, alguém-eu", novela em 3 atos: II. O Que Coincide Não Tem Olhos Para Fora De Si


Francis Bacon

Mas o que corresponde tem três dimensões e é, no mínimo, do reino animal: cachorro, golfinho ou saguim. E o que coincide não tem olhos para fora de si. E jamais poderia ver a coincidência mesma, ficando para sempre aprisionado nela, e de nascença. Pois coincidências e prisões cercam do mesmo jeito. Têm o mesmo termo em latim no nome científico. E nenhuma janela para fora. Só um terceiro excluído pode vê-las. 

sábado, 19 de maio de 2012

"Mágico, mundo, alguém-eu", novela em 3 atos: III. Violenta Necessidade de Espelhos


Francis Bacon

Mas então há uma necessidade tão violenta de espelhos, que letras despertam lágrimas. E não por serem parecidas com pessoas. Mas por despertarem nelas o desejo de se acharem parecidas tout court. De se acharem parecidas com paus e pedras. Marés e rios. Sextas-feiras e o alfabeto cirílico.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Pianista


Piano de cauda redesenhado e fabricado pela Audi

- ou Nem Toda Ternura Para Quem Inventou a Vigília

Com uma apruma-se o chapéu. Com a outra - de outra pessoa, aliás - recolhe-se a moeda caída sob o jasmineiro em flor. Simultaneamente. Para ser tocado, o piano demanda uma estranha independência entre as duas metades do cérebro; e, de uma para outra mão, um esquecer do que se faz. O piano é o instrumento mais completo. Seu universalismo pouco gera cepticismo e, assim, aproxima-se do sonho. E logo, sonhar tocando piano, como ela certa vez sonhou, é sonhar à segunda potência. 
*
E se o piano segue no sonho, é por onde ela podia ouvir e refazer não só a toada da orquestra inteira, mas também os cantores. Ou os dedos da mão esquerda assoviando no braço das guitarras. E se duvidar, até os passos do solista para os bastidores. Os aplausos. Ou o eco desses passos no assoalho do corredor, de volta, refeito no pé cravando o pedal. E espichando sons. Ou glissandos executados com mais desenvoltura do que se escorre o dedo no visor do iPhone. Tudo isso no sonho ela dominava com rematada perícia. Na certa havia anos de estudo do instrumento por trás. Mas no sonho ela ficava só com o bem-bom: tocar maravilhosamente bem.
Pelos ouvidos dela os sons penetravam como uma quente e dilatada glande nas suas fendas. E o que vinha depois. Depois da cabeça. E aquele seu sonho estava completo: tocava piano como quem conversa no salão de beleza. E expressar o que não se pode com as limitadas palavras. Exprimia algumas notas na suavidade de sedas. E grunhia como uma porquinha em desenho de Disney. Lipatti e Gould, rá, eram fichinha. Nada de excepcional. Pressionava as teclas certas no tempo certo, e o instrumento tocava-se.
Ressuscitava amigos. Amava todos, todos de direito no filme de sua vida. De direito e de torto. Alternadamente e de uma vez só. Uma suruba violenta e piedosa. Não foram poucos. Ia ter com eles. Com todos. Com um. Com os que a tinham desprezado, guardava um sopro de fôlego para, mais adiante, gastar com aqueles que a tinham refeito de novo e para a vida; mas, diacho, sem menos - como usa ser, como ousa ser - por aquela soma de acasos, erraram-se; e nenhuma pista em Facebooks, nenhuma busca nos Googles da esquina iriam remediar, repor, reparar certas coisas ditas, não ditas. Ineditismos. Fantasia. Falências. E umas poucas de arapucas virtuais.
Em sonhos, é tão bom ter tudo de volta à volta. Até o irrevoltável. Aquele dia em que subiram na caixa d'água e, bem ao amanhecer, atiraram a garrafa de chianti vazia lá de cima. 
Ou a natural plástica de quando se tem dezenove. E é reacomodar as coisas na sua primitiva forma de grandeza. Cheia de devaneios e fibras. Arranhados pelo cimento craquento da caixa d'água. Ou no aconchego do quarto de solteira. E com uma direção de arte tão precisa que é feito seguir por noites de dezenove de novo. E reencontrar aquela briba, branquinha, que ficava ali na parede, atônita, olhando para eles, através dos únicos pontos pretos do corpo, enquanto eles brincavam. Era a Antônia. 
Só que agora, Antônia ficara para trás. E ela já sabia brincar com uma agilidade a mais acumulada no corpo, feito um dínamo. Já podia lançar-se ao impromptu, como no jazz. E com certa, não se diga sabedoria, mas passagens por cascas e alhos dentro da cabeça (em si já mais próxima de uma cabeça de alho, embora não menos oca. Mas isso só por dentro ou alegoricamente). Por fora do papel celofane do sonho, claro, tudo selvageria e dezonove aninhos. Grisalho algum. E aqueles dedos tirando sons lindos como linhas da vida inscritas na mão suada de quem muito se quer.
À certa altura, ela puxava C. pelo braço, e ambos caíam no sofá refestelado e macio do sonho, cheio de penumbras e sons. Como nos anúncios. E sentia os volumes do corpo dele e de novo, atrás do jeans. Arestas e ângulos. Mas logo o jeans, junto com a camisa de manga longa e os All-Stars, estavam largados pelo chão. E uma barba malfeita arranhava de leve no rosto dela. E, ao mesmo tempo o piano incessante, a desfolhar estranhas regras de tempo e pingares de líquido na escala. E ele tinha quantos braços? Só dois? Mentira. E, de repente, que coleção de elásticos faziam sua cintura ter mais ginga que a da professora de pilates? 
Agora estava claro. E ficou claro. Ainda mais. Bem claro, Carol. Cristalino. Como numa cantata de Bach. E os contornos do bairro começaram a surgir, de novo, para além da janela. Como o dedo dela obturando fotos em branco e preto na contra-luz de um dia chuvoso. Ou o dedo dele apertando a campainha. E ela a ferver éfes nos lábios. Ou ele de novo enfiando-se, por detrás, nas algas dela. E mais poses. E fotos em que, depois, devidamente photoshopados – e nem precisava - ela assomava radiante, sentada à mesa do café, manhã seguinte. Sorriso de um lado ao outro do hemisfério. Nos sonhos coisas reluzem com brilhos de anúncio de margarina ou sedã.
Mas nada ou ninguém lhe devolvia prazer maior que tocar piano com aquela fluência de virtuose e contornos de gala. E seguir descascando tampos na laranja e tempo nas teclas. Ou comendo-as com a ponta dos dedos. Ou sentindo-se perfurar por mais de uma entrada. E aquele arrepio subindo-lhe ao olho. Ou então, os dedos devidamente esquecidos, permanentemente aquecidos. Fluidos. Como cavalos passando obstáculos. Ou pequenos ginastas de buriti saltando por cima de barras, a transcreverem-se por notas dissonadas, sem prévia adivinhação. Pois finalmente, finalmente, ela tocava piano como quem joga conversa fora no salão de beleza ou a fia no boteco. Ou ainda possui aquele descascar laranjas no piloto automático. Por que demorara tanto para chegar àquele estágio? E até onde a torpe necessidade de fingir não ia vogar mais, se isso não era bom?
E aí, sem perder compasso, desembaraçadamente, o metrônomo marcando nos camarins do cérebro, acocorava, para catar com a mão esquerda a ponta do cigarro que, antes, acomodada na borda do instrumento, caíra no chão. E, então acordava: poçinha de cuspe junto aos lábios, dedilhando teclas invisíveis sobre a colcha de índigo. E num compassar que ainda provinha do último fiapo imaginado antes do plano geral sobre o qual se aplicara o The End do sonho: o indicador a pressionar sucessivamente a dominante, em pedal e ralentamento. Lá fora uma betoneira troava, e bulldozers terraplanavam a rua.
*
Miseravelmente só e ainda um pouco tonta.

E pior, era domingo. Birrenta, uma mosca insistia em voltar ao mesmo ponto na maçã de seu rosto. A dor de cabeça no mundo e súbita lembrança: o disk-água do bairro estava fechado. Será que ainda tinha absorventes no armário? Um cheiro de pizza, cigarro e cerveja ambiente. E maldizendo quem inventou a vigília. O cachorro, um pouco desconsolado, cheirava as pontas de seu sutiã no assoalho gasto.

E para a puta que o pariu essa necessidade cruel de se mudar a programação da TV no domingo. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Didascália, desde um tema de Fito Páez


Felix Hess


Dejarlas Partir


Ouvia vozes. A moeda e a vida de João. Chico Buarque, os óculos, a estátua de sal. O suicida e seu gato irreal. O que foi feito, o que é feito, o que não mais será.

Noite. Verão. Um sótão. Quarto de Solteira.
Aquela foto recorrente. E viver extasiada pela autonomia do detalhe. Separada dos outros por estranheza, pudor. Fisgada por e para dentro. Ilhada na toca de si. Pulverizada em arquipélagos de um mar interior. Chupada. Assungada. Aspirada como um filete de massa untado no pesto, roçando lábios no breve itinerário. Pela incapacidade de funcionar em grupo. Mais de um. Borbulha. Confusão. E ter de nomear um a um os amigos que se foram, no morgue. E ter de tomar aquelas cápsulas estranhas, que a deixavam meio grogue. E ter de tomar decisões irrelevantes a caminho de Roma, quando não se tem mais boca. E quando se tem de tomar decisões irrelevantes sob a ameaça de olhares réprobos a caminho de Roma. E ter de ver rompida de novo a membrana. E roída a roupa. A dela ficara para trás, oscilando, pendurada em algum painel de cortiça e passagem. E vão-se vinte anos. O ornamento, a pressa. Os vidrilhos estilhaçados. O relento e a curva. A chuva escassa. Os andares percorridos sem vagar. O ruído dos pneus numa derrapagem sem fim. E a noite embreando marchas só para arrebentar-se de vez ladeira abaixo.
Nenhuma vergonha. Nenhuma prece.

(Foi? Lembro dela, gentil, esguia, escorada ao balcão, conversando com C. E tudo em volta espargia indescritível luz. Uma luz de beleza e poucos anos. Pareciam entretidos. E, algo, unidos por um vínculo impreciso. Não viam muita coisa ao redor. Ou compartiam de nosso tédio-ambiente. Uma estranha membrana os recobria de gentileza e silêncio. Na conversa deles daria para ouvir dedo passando na borda da taça. Isso? Foi aí por 1990. Naquele tempo de possibilidades.)

Fiz apenas para quebrar. E se pudesse explicar. Se eu pudesse. Fiz só para quebrar. Apenas para quebrar. Só para quebrar-me.

A mim.

___________________
Ouça, se o caso for: http://bit.ly/9GoBVJ
Há quem duvide que o castelhano é belo enquanto pura sonoridade. Pense sobre isso escutando essa canção. Pode-se suspeitar da extrema superficialidade e aleatoriedade das letras de certas canções. Ou o quanto elas foram escritas às pressas em estúdios, foras de hora, estados alterados. E essas letras devem mesmo portar esses selos. Mas isso não as torna menos belas. 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Na comunidade dos infiéis líricos


Gerhard Richter

Desde pixota, como se diz, veio o fascínio por letras sob infedelidade, traição. Verdadeira obsessão. E, assim, ouvia direto canções que fariam muito sucesso nas famílias Iscariotes, Calabar e Silvério dos Reis. De Lou Reed a Patti Smith. De Morrisey a Dylan. Porque buscava deliberadamente os triângulos e poliângulos amorosos como quem busca o pote de ouro no pé do arco-íris. Em especial, depois que levou seu primeiro pé na bunda. Mas só teoreticamente. Ou na reles aparência da prática. E, logo, no fundo, era mais virgem como Santa Teresa d'Ávila do que como Santa Maria Egipcíaca. As letras formavam um ingrediente necessário à felicidade dela tanto quanto um modo de evitar qualquer possibilidade de envolvimento. Os envolvimentos e movimentos do amor. Ou seja, daquele movimento friccional de ir e vir que caracteriza um projetor de movies. Essas letras descreviam toda uma ética. Isso foi no fimzinho da era em que os analistas, que passavam aval de comportamentos como sacerdotes, julgavam que certas sublimações fossem uma forma de benção. E prescreviam comportamentos com ainda mais cinismo que padres, por se escorarem na autoridade lógica da ciência. Isso começou a afetá-la no plano psicossomático, junto com anfetaminas. Desque o grilhão pesava tanto, que ela, no esforço de rebocá-lo, estava ficando um pouco corcunda. Alguns atribuíam a gibosidade à natação. Nada mais injusto. Esqueciam do grilhão. E era assim que seguia, manhã após manhã, para a sala de aula, rebocando o imenso grilhão. Porque podia pendurar o grilhão na altura da carteira vizinha até a aula passar, ficava mais cômodo quando ninguém a ocupava. 

E certo lirismo fusco acendia na luz da manhã.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Forje você mesmo, pra variar




Uma garotinha come geleia e no rótulo da geleia há uma garotinha comendo geleia. 
O que pode uma jovem professora, sem muito tempo para leitura fazer, além de pôr sua beleza – certo que sem gastá-la - e carisma a serviço de uma determinada teoria ou de um autor? Galvanizar o interesse de um grupo de alunos para começar a se familiarizar com os conceitos que suportam essa teoria ou foram criados por esse autor? Isso é pedra de toque. Gênese. É começo de tudo. E depois, quando ela chega em casa ainda há os seus meninos para cuidar. 
Mas também o problema das pós-graduações não é também o de indefinidamente apenas ficar nessa superfície? 
Nem sempre, Senhor Deleuze, a superfície é tudo. Ou o à flor da pele, o melhor desvio. Se por desvio despede-se do axioma para chegar ao pote ao fim do arco e da íris. 

Pós-graduações são rasas. E é você. Você quem deve abrir as picadas nas florestas do sem sentido. E ser ao mesmo tempo seu buana, capacete, malas e nativos carregadores, até chegar ao pote no fim do arco, que lhe abra as portas a todas as cores que a íris pode pressentir. Pós-graduações são rasas. E, logo é você. Você que deve forjar seus próprios abismos.

Seus próprios mise-en-abîmes.

domingo, 6 de maio de 2012

É a isso o que chamam eternidade?

Billy Blob

Como se acumularam desse jeito? Eu saio de casa, chuto o balde. Volto para casa, chuto outro. A vida converteu-se numa partidade de baldebol. Baldes se têm acumulado em fieiras ao longo do corredor. É apertado chutá-los a cada vez que se vai ao banheiro. E eles deixam os sonhos apertados do tanto que ocupam espaço na imaginação sem peias. A diurese e as redes de saneamento andam defasadas. Baldes preenchem planícies, planaltos, esplanadas. Um mensageiro teria que cortar seu caminho por entre eles na direção de Sua Majestade. 

E é a isso o que chamam eternidade?

sábado, 5 de maio de 2012

Deve ser


Gerhard Richter

E ter por companheira, digamos, uma Rosa Maria Murtinho com uma tonelada de maquiagem no rosto. Não é ela que já era de meia-idade aos dezoito? 

Deve ser estranho.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ninguém brinca com a vida real quando a vida é real


Alfredo Coelho

Arthur diz ao Terceiro Excluído que se sente cada vez mais atraído por fotos na internet em que mulheres transam com mulheres. E que gostaria de estar no meio delas, qualquer noite dessas:
-De alguma forma invisível, e visível. Mas não na internet, percebe? Não na internet. Na vida real. E brincar à beça.
E o Terceiro Excluído:
-Endoidou, Arthur? Na vida real, ninguém brinca à beça.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Rodas


/sic/

Tive as quatro rodas do carrinho. Não lembro delas. Vagas réstias de sol, copas de fícus, os arcos da estação. Tudo um pouco borrado e visto de um ângulo estranho. Generosos decotes. Sobrevieram as três rodas de um velocípede que parece só ter existido em velhas fotos num álbum de folhas grossas. Depois vieram as que lembro melhor: duas rodas de bicicleta, e descer, sem mãos, a ladeira da Dr. João Thomé no rumo do cais. Passei, então trinta anos rebocando toneladas de lata velha, engrenagem e estofados sobre quatro rodas. E o tanto que se dirigiu bêbado, ouviu música e namorou trêbado nesse ínterim. Melhor esquecer, junto com as amnésias alcoólicas. Difícil divisar o real. E ela me olhou com o mesmo ódio que os taxistas devotam aos que seguem em duas rodas ou dois pés, debaixo do sol e ao sopro do Terral. Mas o que de bêbado tem dono?

De momento, voltei às duas. E ainda posso, da cadeira, puxar a saia da enfermeira. 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Primeira Vez


Simon Fairless

Então, à primeira vez em que ela falou com ele ao telefone, ele quase caiu para trás. E ela disse, com todas as letras:
-Você ligou para cinco cinco três meia, cinco três quatro nove, código do Rio, por favor identifique-se ou deixe seu recado após o sinal.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Aparências nem sempre enganam



Depois da cheia ele perdeu tudo. A seguradora alegou que não cobria Tudo. Havia uma cláusula contra Tudo, caso Tudo ocorresse. Seguradoras propõem cláusulas e nutrem grande aversão às simultaneidades. E, então, ele saiu remando sem ânimo com aquela cara de quem comeu e não, típica dos que foram asperamente traídos pela mulher. E pela mulher com o melhor amigo. Como se isso de um esporte consistisse. E havia algo de uma ave um pouco gorda, assexuada e em seu semblante. Como um capão. Triste. As coisas não melhoraram no estio. A mulher prosseguiu cercas pulando. O amigo a malversar verbas no escritório, e dormir com a mulher. E ele não sabendo de nada em aparências. Quer dizer, sem café com leite, ele já não sabia mais o que fazer ou como. A não ser, de desentendido. Como manda a querida Prudência. Perdê-la, seria perder boas chances de negócio. E a ópera prosseguia. Era desentender-se em excesso para não perder a mulher. E Prudência se envolvia cada vez mais com o sócio e, por sua vez, lhe deixava amplas noites para se divertir. Era como voltar ao secundário. Até ele dizer chega? Mas para quê, se a vida não é muito mais que isso, essa fina arte de manter as aparências que nem sempre enganam? Por um outro grampo, seguro, era ele quem enganava a todos. 


E cada um acha estranhos consolos nesta vida.