segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Todo Inútil Esforço - (fragmento sobre "identidades" e "preconceitos")




Todo inútil esforço de um suposto auto-conhecimento a partir da determinação de identidades tem um custo altíssimo: propor determinada imagem de reparação social como instrumento de purgação.¹ Isso implica que determinada minoria é melhor do que os demais humanos porque pertence a uma identidade que historicamente sofreu mais abusos e violências – e por isso deve ser compensada de “alguma forma”. 

Isso é perigosíssimo porque esse “alguma forma”, do modo como está a ser proposto, não pode surgir a não ser pelo desencadeamento de uma nova sucessão de “bodes expiatórios”. Da fabricação de novos Judas, que precisam ser malhados: os que na política não são de esquerda; os brancos; os que moram em países pós-industriais mas não se engajam em "causas sociais"; os que moram em países periféricos mas não são pobres nem interessantes de serem apropriados como "matéria de análise" - porque não são exóticos o suficiente; os que professam uma religião; os ricos; os heterossexuais; os não ambientalistas; os incluídos digitais; os que não militam em ONGs; os que não necessariamente leem poesia de vanguarda às seis e meia da tarde; os que não são muito ou nenhum pouco discriminados [estes supostamente contariam entre os piores: não ser discriminado hoje é praticamente crime, porque um dos condões do politicamente correto passa não só pela glamurização dos discriminados, mas também por certo aviltamento deliberado de todos que não o são]; os que se espantam quando os calangos soltam o rabo para fugir do predador; os que não gostam do design dos cílios dos lêmures; etc.

Ora, é possível (e até mais razoável), fazer justiça social sem cair na ratoeira da geração desses novos “bodes expiatórios”. Ou seja, constatar que houve crimes históricos, sim, mas sem necessariamente penalizar os vivos, se eles não  mancharam mãos no caso em crivo.

Sem bodexpiatorá-los. Ou criar cidadãos de segunda classe.²

(E é perfeitamente possível inclusive sintetizar essa perspectiva sem necessariamente passar por René Girard. Embora haja algumas boas sugestões em Girard.)³

Espanta igualmente que as pessoas não pensem a fundo determinadas questões. Essas questões chegam pela imprensa numa postura "pegar e levar": "é preciso tirar o véu das mulheres árabes, como forma de liberá-las"; "a legalização do aborto é condição sine qua non para salvaguardar a vida de mulheres pobres"; "islâmicos são toscos, atrasados, radicais e pouco propensos ao diálogo"; "o laboratório mais avançado de convivência social são sociedades multiculturalistas, como o Canadá ou países predominantemente pós-industriais", "a construção da represa de Belo Monte implica numa inarredável tragédia ambiental", "dizer que determinada zona pobre é violenta é também descriminá-la"; etc. 

Essas questões são postas sob uma disposição naturalista: o melhor "é isso". São postas de um jeito tal, que para levar: as pessoas compram o jeito tal, meio por inércia. E levam essas meias-verdades para casa como se fossem verdades e meias. E, então, as questões são assumidas como uma espécie de consenso ético. Com uma pressa ética. Quando, na verdade, não há nenhuma análise. E esquece-se: quase sempre, cada caso (concreto e histórico) é um caso: "tirar o véu" das mulheres no Irã certamente não é o mesmo que tirá-lo na Arábia Saudita, por exemplo. Ou possuir sua matriz energética toda assentada em energia atômica, e ainda ter o desplante de vir até aqui e financiar campanhas ambientalistas contra a construção de hidrelétricas (inclusive com boicotes e retaliações na OEA) é um pouco demais da conta. Para qualquer um com o mínimo de independência e critério, é impossível não perceber a carga de parcialidade e propaganda sub-reptícia no modo "default" de "debater" - ou mesmo propor - determinadas questões na mídia hoje em dia. E por quê?

Porque esse modo "default" de propor as questões nunca é obviamente neutro, apesar de apresentar-se - e mesmo fazer um esforço danado - para apresentar-se como tal. E espanta o tanto que as esquerdas, em geral - e todo esse discurso de "identidades" e "preconceitos", em particular - surgem uniformizadas de um autoritarismo sufocante, plano e bastante semelhante às práticas e violências fascistas que se estavam constituindo lentamente há um século atrás.[4] E só para germinar, mais adiante, na catástrofe da II Guerra. Mas, agora, é como se as próprias esquerdas - que um século atrás (sobretudo por meio dos anarquistas e dos independentes) combateram o totalitarismo - bancassem a redistribuição revigorada desse totalitarismo como tarefa sua. E desde dentro de suas próprias plataformas. E vendendo essas mentiras a peso de liberdade. E em embalagens bastante atraentes aos mais jovens e rebeldes.

Se há algo próximo do fascismo hoje em dia - com sua intolerância e franca hegemonia de discurso - é o politicamente correto, núcleo duro da última cartada inadvertidamente neo-colonial. Mais do que isso, trata-se de uma teoria gestada no mundo dito pós-industrial exatamente para tentar se ver livre da alteridade e dos influxos culturais levados para lá pelos imigrantes recentes. Justo aqueles que as elites e os teóricos pós-industriais dizem defender com mais zelo: latinos, asiáticos, índios e negros na América do Norte; caribenhos, africanos, árabes, turcos e indo-paquistaneses na Europa. 

Em verdade, esses teóricos e essa elite pós-industriais encontram-se loucos para aplacar esses imigrantes, e assimilá-los culturalmente sem o suposto ônus de uma assimilação étnica, na carne. E porque sabem que praticam injustiças frontais contra esses imigrantes. E que podem fazer isso, porque são sociedades afluentes, que no passado também agiram como acumuladoras de capital a partir da exploração de recursos de outrem. E esses outros nunca foram ressarcidos pela pilhagem. Ou pior, continuam a ser pilhados - como no particular caso dos países africanos. E por uma intrincado jogo financeiro em que europeus e norte-americanos levam a parte do leão, embora em produtos feitos a partir das matérias-primas e do suor alheios. Algo que se perpetua até hoje. Como se não bastasse, eles podem reservar em seu quintal, os trabalhos mais pesados e degradantes aos imigrantes. E pagá-los a preço de banana, embora ainda melhor que nos países de origem desses imigrantes, etc. 

Ora, em nosso caso específico: a cultura brasileira é muito mais dinâmica nesse sentido: ela absorve e integra - inclusive etnicamente - essas diferenças, coisa que durante séculos e até hoje em dia os que habitam boa parte da Europa, da América do Norte, da Oceania e do Japão receiam, hesitam, ou encontram grandes dificuldades diante dessas questões (e práticas). E, logo, tem de achar um discurso teórico que legitime essas práticas descriminatórias, de segregação e gueto. Partem para as assunções multiculturalistas.

O projeto multiculturalista canadense: o que tem gerado? Uma sociedade frágil, repleta de segregações e guetos para todos os lados. Onde todos aparentemente apenas se toleram desde que cada um em seu devido lugar. Ou seja, em seu gueto. E ficam vedadas as transposições em contrário. Quase o mesmo se dá nos Estados Unidos, com a possível exceção da Costa Oeste, onde, na Califórnia, algo mais efetivo, no sentido da mestiçagem se tem processado. Mas também cerca de metade da população californiana é de latinos que, mesmo quando brancos, são muito mais inclinados à ideia de mestiçagem que os anglo-saxões. Embora sejam justamente os anglo-saxões quem têm produzido a maior parte do discurso adotado pelas universidades brasileiras e pela orientação do governo brasileiro quanto ao modo como lidar com a questão étnica. A França recentemente emitiu um documento de Estado reconhecendo a falência do modelo multiculturalista. Os britânicos não parecem muito mais entusiasmados com a perspectiva.

Virando a página, nesse aspecto, nós somos os que devíamos gestar teorias sobre diversidade e convivência com muito mais propriedade. Porque, no fundo, questões como etnicidade e multiculturalidade têm sido historicamente muito melhor resolvidas por aqui. E há muito mais tempo. O que também não quer dizer que haja sido algo desprovido de conflito ou drama. Ou enormes distorções e violências. Algo que não comporta distorções a contornar. Ou mesmo uma grande revisão histórica.

E, no entanto, essas distorções são tão historicamente distintas das que existem em qualquer outra parte - à exceção de em alguns países latino-americanos, de realidades históricas bastante rentes às brasileiras - que é uma verdadeira insídia, além de perda de tempo e energia, transpor as (supostas) soluções ipsis-litteris para nossos contextos e latitudes. E sem escamá-las. Como o que está sendo feito no caso das cotas em universidades. Nosso sistema de salvaguardas sociais deveriam existir, é claro. Mas ser outros, mais condizentes com nossa realidade. E não esses tais - como cotas étnicas em universidades - importados de um modelo norte-americano que se compraz em fomentar a rivalidade entre brancos e negros: e por quê? se em predominância não somos nem brancos nem negros, mas uma outra coisa que eles sequer sabem o que é, ou ainda vão demorar um tempo para aprender? (Embora o que deva ser analisado, aqui, é a pressa com que o Estado brasileiro quer que muitos se declarem negros, para as estatísticas. E porque, em verdade, não o são.  Muitos deles, são mulatos, morenos, cafusos, etc. Ou seja, são mestiços. Não são totalmente negros. O que está sendo negado, no fundo, é a possibilidade do mestiço ou da mestiçagem - um de nossos trunfos. Como se a mestiçagem, um de nossos trunfos, fosse algo expressamente mau. 

Logo, há uma inabilidade cega, entre nossos intelectuais, para empreender essa tarefa. E assumir essa autonomia de pensamento. (Não é sempre mais cômodo em vez de pensar, receber ideias prontas - ainda que fora do lugar?). E há também uma vigilância cerrada e atenta de governos, agências culturais e universidades estrangeiras extremamente comprometidas e empenhadas em vedar qualquer possibilidade de sugestão que surja numa contramão demasiado distinta desse modo "default" de propor as questões mesmas. O que espanta é que essa seja também a visão do governo brasileiro: algo que, ao invés de congregar e irmanar, divide e secciona. Certa tutela condescendente - mas sobretudo ressentida, agressiva, vindicativa, vigilante - sendo gestada desde lá fora, e a qual compramos, de olhos fechados: sem perceber o gato por lebre da coisa. 




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¹De resto uma noção de sacrifício que nada tem de cristã, por exemplo. (Não especificamente da religião cristã, mas de sua ética, de sua filosofia, que moldou a ideia de Ocidente). Pois a matriz cristã não é, de forma alguma, vindicativa. Quando não só se esquece do perdão como possibilidade, mas incentiva-se uma ética da vingança, da retaliação, também mina-se a possibilidade de uma suplementação social mais harmônica, menos vindicativa, a partir de uma ruptura ou de um evidente crime social historicamente perpetrado. Querer penalizar a atual população da Alemanha, que nasceu depois da Segunda Guerra, pelos crimes de Hitler e de sua geração, é um absurdo tão grande quanto imputar à atual população da América os crimes praticados contra etnias indígenas em séculos passados. Isso, evidente, não retira a reparação da injustiça histórica praticada contra ciganos, armênios, judeus ou indígenas. Muito ao contrário. Mas é patético que se meça o grau de integridade de um indivíduo pelo tanto que ele próprio ou seu grupo foi ou não discriminado. Ou pelo acúmulo de violência social que sofreu ("vítima social").ª E, no entanto, essas teorias étnicas são formuladas por europeus ou descendentes de europeus (norte-americanos, australianos), eles próprios sem qualquer mistura étnica há muito tempo. E visam defender os indígenas que eles próprios exterminaram nas suas latitudes : Europa, Estados Unidos, Oceania. Vá atrás dos celtas ou dos etruscos. Vá atrás dos hunos e vândalos. Muito mais recente que isso, pense nas línguas - como o provençal, o occitânico, o bretão, o basco, etc. que o Estado francês suprimiu até o sec. XIX, para efetivar a unificação política da França. Proibiu, arrasou com essas culturas. E no entanto, não é uma insídia que venham antropólogos franceses nos ensinar como lidar com culturas e alteridades? Ou, a ironia suprema: querem agora ensinar àqueles que, em larga medida são eles próprios descendentes de indígenas - os latino-americanos - como cuidar da questão indígena. Chegar a ser uma grande piada. Não fosse de mau gosto.

ªSer vítima demanda reparação e tratamento. E essa reparação deve ser feita e os cuidados tomados. Porém ser vítima também não faz de ninguém moralmente superior àquele que não foi vítima (e nem por isso oprimiu). 

²Isto é, uma classe após as vítimas. Pois as vítimas também são escolhidas segundo as necessidades dos países pós-industriais. Quem vale mais no papel de vítima? Nesse sentido, um branco (ainda que pobre), ou um índio - e, em certos casos até mesmo um negro, veja você - urbanos valem menos do que um índio na selva, paramentado, envergando ornamentos, cocares e pinturas, (que na maioria dos casos nada têm a ver com a cultura de onde procedem esses índios, aculturadíssimos). Na riquíssima selva. Nem antropólogos são assim bobos.

³Embora, em muitos aspectos, a visão de Girard surja, à primeira vista, bem mais coerente que o discurso do politicamente correto em geral. Especialmente quanto detecta a necessidade de vingança na sociedade pós-contemporânea, como uma sorte de atributo essencial. (Ele não diz isso, mas é possível deduzi-lo). E, logo, uma ânsia por vingança que detém características muito próximas à expiação da culpa em sociedades arcaicas. Ou seja, ao rito que sacrifica a vítima inocente para aplacar nossa sede de violência e assegurar certo consenso interno por algum tempo.ª

ªHá que ressaltar: no caso em questão, as vítimas inocentes não são as vítimas aparentes [negros, mulheres, índios, gays, pobres, judeus, etc.]. Ou seja, quem é sacrificado, é quem já compete com o europeu e o norte-americano mais ou menos de igual para igual: a classe-média urbana onde quer que seja no dito "Terceiro Mundo". Além dos imigrantes, que acabam disputando espaços de trabalho e poder no próprio território das sociedade pós-industriais.

Excertos de uma entrevista de René Girard [à revista Cult,  nº134, 2010]:

A necessidade de expiar a violência mediante o sacrifício de uma vítima arbitrária
Acredito que nossa natureza mimética é responsável pela tendência das multidões de focalizar sua violência em um único indivíduo que se transforme, arbitrariamente, no bode expiatório de alguma comunidade. A matança unânime de uma vítima inocente, no passado, pacificava multidões perigosamente perturbadas e tornou possível sua estabilização.
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O Bode Expiatório: evacuar a violência interna mediante vítimas substitutas
Acredito que o bode expiatório tem um papel essencial na criação e na perpetuação de religiões arcaicas. As culturas arcaicas foram essencialmente a repetição de sacrifícios religiosos, evacuando a violência interna através destas vítimas substitutas. [...] Uma vez que o ciclo do sacrifício é compreendido, também perde sua eficácia enquanto salvaguarda contra a violência interna.
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UMA NOTA NOSSA
ª Esta é precisamente a forma de agir do politicamente correto em geral: a sede de achar um culpado expresso para a vítima, ainda quando não haja nenhum (porque os culpados estão mortos há gerações). E, então, esse culpado expresso é exposto para ser odiado. E, na verdade, inconscientemente, convertido em vítima sacrificial, bode expiatório: como alguém pode ser tão “retrógrado”, “reativo”, “opressor”. etc.?
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O Mecanismo de Mímese, Competição e Desejo
Criamos rivalidade na mimesis, competindo pelo mesmo objeto, desejando os desejos do nosso modelo, o outro. Esta admiração velada do prestígio do outro, do que o outro possui, é a constatação clara de ser insuficiente. Constatação esta muito angustiante e incômoda. Já o modelo, o intermediário, não é passivo dentro deste mecanismo. Pelo contrário, faz de tudo para provocar o desejo do outro sobre seu objeto. Pois, que valor tem o objeto, senão pelo desejo de outrem? Este é o ciclo infernal do desejo. E também dos conflitos.
O Cristianismo Rompendo com a (I)Lógica do “Bode Expiatório”
Devemos tentar ver todos os conflitos e guerras que temos hoje sob a ótica do mecanismo mimético. Mimesis tanto do desejo, quanto do uso da violência. No cristianismo, quebra-se o ciclo. Cristo oferece a outra face e redime seus algozes. Não busca vingança, não derrama mais sangue. É pela cruz, pelo amor, que se dá a interrupção do ciclo de violência. O cristianismo mostrou que a sociedade humana produzia vítimas únicas. A crucificação desobstruiu o caminho para o entendimento do processo da vítima expiatória.
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Nem Todo Desejo é Sexual, como na Visão de Freud a partir de um Núcleo Familiar que Já se Encontra no Passado
Muitos diriam que tanto na repressão da libido em Freud, quanto no uso do mecanismo de vítimas arbitrárias para aplacar explosões, reside uma ideia similar. Mas não concordo com Freud e com sua teoria de que tudo está relacionado ao desejo sexual. Freud justifica todo comportamento humano baseando-se nesta ideia. Ele foi o primeiro a ver a profunda influência que uma pessoa tem sobre a outra. Mas discordo de sua visão de que a influência dos pais delinearia a personalidade. A visão de Freud ficou muito restrita ao período em que viveu, no qual predominava um certo tipo de estrutura familiar.
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Kierkegaard, Vazio Existencial e o Desejo do Outro
Para mim, o desejo do impossível e o não-desejo ainda estariam de acordo com mecanismos miméticos. […] Kierkegaard constatou, em sua análise dos três estágios do ser, a presença de um homem que se escora no outro. Possuindo um vazio existencial aterrador, ele procura na observação do outro, do que o outro possui, do que o outro aparenta, uma forma de saber quem é e como sentir-se pleno. Portanto, para ser ele mesmo, este homem necessita tomar conhecimento do outro, como no mecanismo do desejo mimético, onde este desejo somente se faz possível pela intermediação do que é e deseja um outro.


[4]E foram investigadas, entre outros, por Benjamin, Adorno e Kracauer.

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