quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O estado de cópia das coisas e o sempiterno ditado

[s/i/c]


O espírito da cópia, o Corinthians, um será e um até quando

Claudine Keane irá ser a sucessora de Victoria Beckham em L. Angeles.

A frase acima reluziu recente na seção de esportes de um dos maiores portais de notícias brasileiros. Ela revela o estado mental de quem a escreveu. É um estado mental de cópia. Cópia do inglês will be [literalmente irá ser]. Será que algum dia ao jornalista que a escreveu pode ocorrer a suspeita de que há uma fórmula -- ou no mínimo uma alternativa -- mais econômica e elegante e "caseira" de expressar isso?

Será?

É claro: quem está errado não é apenas o jornalista. Afinal, ele foi educado assim. Para copiar apenas. Os paulistas copiam os norte-americanos/europeus (Portugal à parte, já que nem mesmo alguns portugueses julgam de fato estar na Europa maior parte do tempo); e os do Nordeste e amazônicos copiam os paulistas. Salvo honrosíssimas exceções. É esse o estado mental de todo um país. E quando se tenta fugir disso as consequências podem não ser "frutíferas".

Há que alimentar clichês. A Folha de São Paulo tematizava o último exame da OAB. Não destacou na matéria o fato de a Universidade Federal de Sergipe haver ficado com o primeiro lugar em aprovação. Referiu-se, no entanto, ao terceiro lugar da USP. E por quê? Respondemos: por preguiça, clichê. O jornal tem alcance nacional. Gostaríamos de saber as razões pelas quais uma universidade no menor estado brasileiro, situado em sua região mais pobre, o Nordeste, foi capaz de deixar no chinelo as USP's da vida. Mas isso nunca saberemos, eles preferem falar do terceiro lugar da USP.

Outro claro fácil de dimensionar: o espaço concedido ao Corinthians em todos os noticiários esportivos de âmbito nacional. Ele é pelo menos o dobro daquele concedido a qualquer outro clube à exceção do Flamengo. Ou ainda, por baixo, quatro ou mais vezes maior que o concedido a todos os clubes do Nordeste somados e multiplicados por cinco. Afinal, o Corinthians é maior torcida do maior nicho de poder aquisitivo do país – quer dizer, o consumidor preferencial da publicidade televisiva: a capital de São Paulo e seu próspero interior. É preciso cortejá-los. Daí esse bombar na mídia tão constante e ditatorial. Que Corinthians e Flamengo são grandes marcas já se sabe. Mas antes disso parece que ainda são clubes de futebol.

E os mais desavisados sequer dimensionam o quanto nada há de democracia aqui. Ou o quanto os grandes clubes são incompetentes ao empatar com ou no perder para equipes que recebem sobras de direitos televisivos e cotas de publicidade irrisórias enquanto clubes como Corinthians e Flamengo nadam em dinheiro e negócios escusos, para poucos. (O caso do goleiro Bruno não nos dá uma pálida ideia do que seja o submundo do futebol?) Lembrem-se do Horizonte contra o Flamengo e se tem a verdadeira dimensão do que falamos. Dava vontade que o Horizonte ganhasse apenas pelo formidável desnível da disputa – que, de resto, foi bem mais equilibrada do que previa roteiro.


Aliás, no dia que essa lógica mercadológica se assentar de vez, o campeonato nacional será tão bipolar quanto o espanhol. E perderá mais da metade da graça. 

Ou desculpem: irá perder. Não é isso que esperam de nós: boas cópias para ditados?


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