sexta-feira, 20 de maio de 2011

Achei a frase meio Saint-Éxupery e pequeno principesca

David Fincher, The Curious Case of Benjamin Button, 2008


A Glosa


Uma vez, porque fazia calor, e a calmaria se estendia nos trópicos com um langor de podar gestos, e, como se não bastasse, não havia muito o que dizer – mais ou menos como no caso de Meursault ao sol em L’étranger – uma amiga, quando nosso affair era já sem saída, me disse:
–Ninguém merece a responsabilidade de ser o portador da felicidade de outra pessoa.
Achei a frase retórica.
Depois achei a frase meio Saint-Exupéry e pequeno principesca. E ainda não sei se há uma evolução de um para outro achamento. Mas decidi que não ia tomá-la assim tão impunemente. Até porque as amigas, as amigas mais velhas, escoladas, as tutoras que minha amiga tomava como modelos, pela vida afora, tinham, a olhos vistos, dado com os burros – e que bela tropa deles – n’água, e justo por um:
–Ninguém merece a responsabilidade de ser o portador da felicidade de outra pessoa.
Foi então que resolvi analisar a frase também pela sua nuance legal. Como se conformasse uma sorte de artigo do Código Civil. E pudesse ser expressa mais ou menos assim:
Ninguém merece a responsabilidade de ser o portador da felicidade de outra pessoa. A não ser quando se é essa outra pessoa. Então, que os outros se danem. Façam de um tudo pela gente: equilibrem-se na corda bamba para nos divertir; nos levem de passeio à Alhambra com tudo pago; morram pela gente; apaguem incêndios; nos salvem de afogamentos certos arrastando-nos à braçadas seguras até a praia; façam intervenções cirúrgicas que troquem nosso cansado coração por um de fibra sintética, mais longevo e imune a essas teias sentimentais; saltem pendurados em frágil cipó sobre fossos ardentes e gigantescas quedas d’água para nos resgatar da queda do helicóptero com ganas de Indiana Jones – que não adianta. Não é necessário retribuir. Revogam-se disposições em contrário.
Porém se a segunda pessoa, pois assim nos assumimos – no fundo os beneficiários de tanto bem-estar advindo dessa felicidade portátil – mudasse, por um pouco – por uns anos, por umas férias, por um veraneio, por uma festa de São João, pelos últimos quinze minutos de uma final de futebol, vá lá – de ideia; então se acabava achando a felicidade de um modo simples.[1] Vai saber.
Havia de incisar, contudo: mais que portador – no sentido de carregador, profissional da estiva, do tipo Sísifo, Atlas, Afrodite, Hécate; ou do tipo mensageiro: Hermes, anjo, Samuel, Isaías, carteiro, servidor ou correio eletrônico – a segunda pessoa, beneficiária dessa portabilidade, devia ir além, e ser ela mesma e também a própria responsável. Haveria então, ao que parece, um empate técnico, uma espécie de correspondência. Percebem o que quero dizer?
Agora, tudo isso ressalvado se ou o “ninguém” ou a “outra pessoa” se chame Fernando. Fernando Pessoa. Porque aí, bem, a beleza dos versos é tão rematada, que ela, já sendo responsável pela felicidade de toda a gente, em toda parte, não precisava, de fato, ser responsável por mais muita coisa.

NOTA
[1] o que não quer dizer “fácil”. Essa coisa de felicidade e amor, aliás, pode oscilar entre os pareceres de dois escritores ingleses:
“If this be not love, it is madness, and then it is pardonable.” [William Congreve]
“What is commonly called love, namely the desire of satisfying a voracious appetite with a certain quantity of delicate white human flesh.” [Henry Fielding]

* * *

Nenhum comentário:

Postar um comentário