terça-feira, 26 de maio de 2009

Os desertos de Simão


Luis Buñuel, Simon del Desierto, 1965



Simão no Deserto


i. Exórdio

Ontem, no começo da noite saí para encontrar uma jovem escritora. Era para ter sido a hora do recreio, porque antes, à tarde, havia uma palestra, que, de tão obtusa, preferi dar uma desculpa de última hora e não ir. A coisa ia por cearensidade, negritude e cotas. E falar contra cotas na universidade, hoje em dia—como teria feito—é ser visto como um rutilante monstro conservador. E, logo, eu precisava de um bom argumento. Algo estruturado, com citações, como manda a academia e seu sovado figurino. E não havia escrito esse argumento. Só sei me expressar bem quando escrevo. E, claro, nem sempre acerto o alvo. Porque acho muito fácil falar. Falar é gratuito. E é mais fino. É para se gastar com os amigos no botequim. Então, limei a palestra. Passei a tarde lendo, escrevendo. E vi um pouco de TV. E era preciso não ter ido àquela palestra para ser um pouco mais feliz. Porque há dias em que se quer apenas ser Simão no deserto.


ii. Invocação

Assim, esperançado em dar com um ambiente ermo—e apesar de um vergonhoso atraso—cheguei ao café ao limiar da noite. E eis que lá havia... um evento. Em outras circunstâncias teria gostado do evento. Muito. Mas não em meu dia de eremita.

Há uma saturação de eventos por onde se passa. Aonde se vai. E eles moldam a tua vida. Talvez se proliferem com o passar dos anos. E, breve, ninguém possa mais sentar num café e se demorar numa conversa menos pública com uma colega. Os eventos nos perseguem feito totós. Acontecem às mancheias. Basta sair de casa. E alguns são mais vazios que um saco sem fundo. [ Não era o caso do de ontem]. Escorrem pelo teu bolso. Batem no chão. Ou quem sabe, no meio-fio. Então, fio-me que foi tão-só uma má coincidência num dia em que você quer mesmo é estar mais longe. Longe das prosas, das pressas. Dias em que é difícil ouvir mais de uma voz. E frustra seguir, involuntariamente, no meio de tanta gente. Há dias que pedem mais sombra. Menos sol. Uma espécie de transparência vítrea. De invisibilidade. Como se gastasse ser visto, ver. E que qualquer saudação, mesmo dita com melhor retidão e calor, soa protocolar.


iii. Peroração

Em dias assim, sigo disperso, meio indolente. Os sentidos brigam. E o olho se descola do ouvido. O paladar do olfato. Cada um funciona avulso, em desmantelo: o gosto da cerveja; o grau de fosforescência no verniz do belo assoalho de tábuas corridas; o odor incisivo do capuccino amargo; a maquiagem forte no semblante, algo Goya, algo Ingres, da dona do café. Cada sensação é fruída à sua vez, avulsa, em mônada. Como se numa tela cubista. Elas não engancham. Mesmo que depois impliquem em certa recolha do pretérito imediato para o presente.

Nesses dias uma força quase espiritual te acerta: a grande necessidade de pobreza e tempos lerdos. Uma pobreza de mavé. De guardar apenas uma frase. Um raspão. Usar poucas palavras. Encontrar no máximo duas pessoas. Demasiar três. Ver, se tanto, uma árvore.

Na minha semiose de botequim, as artes mais elevadas – música, pintura, arquitetura, literatura, cinema – são tanto mais atraentes quanto mais distanciam-se da presença física de quem as faz. É quando conseguem armar um espaço que nos acolhe. Um espaço em que os sentidos se prendem, se mesclam de modo misterioso. Desconcertante. Mas não disperso. E o corpo se faz mais presente, justamente por sua ausência.

[ADENDO: a única arte em que a presença do corpo é absolutamente indispensável é o futebol. Mas sabemos de muito futebol desde muito cedo. E seria, então, necessário contrabalançar esse excesso de fisicalidade na arte. Nos filmes brasileiros há um mau excesso de corpo humano. Na arte brasileira em geral. Uma vontade de chocar pela exposição do corpo que assoma quase sempre pueril ou ingênua [mas nunca nos grandes mestres: em Alejadinho, em Athayde, em Machado, em Rosa, em Cabral, em Joaquim Pedro! Por que será?]. Na poesia, não é de entender porque tão pouca gente se ocupa com paisagem, com narração, com história, com etnografia, com geografia, com falares, etc. Ao que parece ou se é fotógrafo minimalista ou pintor barroco de cabaré cubano. Ou vanguardista tardio na linha de Beckett e dos distanciamentos metareferenciados à la Brecht. Quem, de fato, inventa? Ouve fala, vê gesto, regista movimento? Será que local virou sinônimo de abstração? E, no entanto, mesmo entre os abstratos há os que são suficientemente sãos para figurar paixões locais. Pense em Antônio Bandeira. Em Volpi].


iv. Confirmação

Muito ao contrário, há uma absurda concentração. Como quando se está num belo casarão antigo, e não se pensa em quem o construiu. Ou como construiu. Apenas se está. E bem. O local te acolhe. Há um calor de coisa antiga que se insinua quase sem se perceber. O pressentimento que muitos passos que pisaram por ali já não estão neste mundo. E é como ouvir Bach. A última coisa que se pensa é no compositor escrevendo música. A gente apenas se deixa ir. Porque há um grau de pureza tão elevada que qualquer palavra torna tudo menor. Ou abusivo. È como se algo de belo na obra se corrompesse pela presença física do autor. Será? Nem sempre penso assim. Só em meus dias de Simão no deserto.

E ontem foi um deles. De momento há palestras, encontros, colóquios, curadorias, congressos em excesso. De momento também há dias para tudo: o dia internacional do museu; o dia nacional da consciência indígena; o dia estadual da consciência vã.

Vou auto-legislar: daqui em diante, o 26 de maio será o Dia Universal do Eremita.



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