sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Te acuso por rezares por mim


John Piper, Nursery Frieze II, 1936



artigo


Uma enfermeira em Londres e uma costureira portuguesa em Salvador



Nestes inícios de 2009, num hospital de Londres, uma enfermeira quase perde o emprego por perguntar a uma paciente idosa se gostaria que rezasse por ela.

A paciente não tomou a oferta da enfermeira, Caroline Petrie, como ofensa. Mas manifestou haver ficado receosa, porque entendeu que a oferta poderia ser ofensiva ou preconceituosa em relação aos demais pacientes, nem todos cristãos, como a enfermeira. E abriu denúncia contra ela.

Caroline Petrie foi indiciada num processo disciplinar e ameaçada de demissão. Não fosse um maciço clamor popular em contrário, também estufado por parte do corpo médico, de colegas e instituições ligadas à saúde pública no Reino Unido, é possível que a enfermeira houvesse perdido o emprego. E o houvesse perdido, lembremos, por perguntar a uma paciente se poderia rezar por ela.

Aqui, se pode traçar um paradoxo.

Um dos prêmios internacionais de mais alto destaque atribuído aos militantes da causa da diversidade sexual se chama precisamente Filipa de Souza [Ou Felipa de Sousa, a grafia se altera de uma para outra fonte].

Quem foi Filipa de Souza? Uma costureira portuguesa que vivia em Salvador ao fim do sec. XVI. Ou seja, no momento em que a Inquisição chegou ao Brasil com maior força. Filipa era letrada – algo raro para uma mulher (e ainda por cima viúva) à época – e acabou tendo envolvimentos eróticos com meia-dúzia de mulheres da cidade. Uma delas, a denunciou à Inquisição. E a humilhação sofrida por Filipa não foi pequena.

Ela foi obrigada a passar vários dias a pão e água. Vestida apenas de uma túnica branca (a sambenito veste, dos criminosos), descalça e com uma vela à mão, ouviu seu veredito junto ao altar da Sé da Bahia, diante de toda sociedade da época em trajes de gala, como de praxe numa ocasião assim. Em seguida, atada ao pelourinho Filipa de Souza foi fustigada em público. Depois, escoltada por pregoeiros com matracas, obrigada a percorrer as principais ruas e ladeiras da então capital da colônia. O ouvidor a precedia com as seguintes palavras:

“Justiça que o manda fazer a Mesa da Santa Inquisição, mandando açoitar esta mulher por fazer muitas vezes o pecado da sodomia com mulheres, useira e costumeira a namorar mulheres. E que seja degredada para todo o sempre para fora desta capitania”.

Depois de seu banimento da Bahia não há mais notícias de Filipa de Souza.

Por onde começar a tratar do paradoxo de que falamos?

Primeiro pelo fato desse prêmio internacional indicar diretamente para uma instituição sempre hostilizada pelos ativistas da diversidade sexual, do laicismo e do relativismo: a Igreja Católica. E, em mérito, por quê?

Porque até hoje em dia, em contextos como o Islamismo, por exemplo, a conduta em relação ao lesbianismo – ou ao homossexualismo em geral – é muito mais rígida, severa e intolerante do que no catolicismo há quatrocentos anos atrás (quando o imaginário, os valores sociais, as crenças, a mundividência, as relações entre Igreja e Estado, os costumes eram de todo outros).

Senão, vejamos. O episódio de Filipa de Souza se deu em 1591, no auge dos rigores inquisitoriais da Contra-Reforma. Aliás, recrudescimento inquisitorial que, como se sabe hoje, foi reanudado, no sec. XVI, muito mais a pedido dos monarcas ibéricos do que por volição do Papa. E, claro, as humilhações suportadas por Filipa de Sousa quatro séculos atrás foram tremendas. Á sua vez, na mesma época, outras vinte e nove mulheres da cidade de Salvador foram acusadas de lesbianismo [“práticas nefandas”], sem que resultassem para elas nenhuma sanção mais severa.

Porém, por outro lado, até hoje em dia, em pelo menos quatro países islâmicos – Arábia Saudita, Irã, Mauritânia, Sudão e Iêmen – a pena para uma pessoa por manter relações sexuais com outra do mesmo sexo é simplesmente a morte. Ou seja ser gay nesses países, hoje, é correr permanente risco de vida.

Isso, ressaltemos, não a quatrocentos anos atrás, quando Filipa de Souza experimentou suas humilhações e seu decreto de desterro. Mas, entenda, hoje em dia, no mundo em que vivemos, o da internet, o das experiências com as células tronco, o dos relativismos, o do politicamente correto, o de Bono, Kaká e Britney Spears. O da atual crise econômica. O mesmo em que, diga-se de passagem, católicos (ou cristãos em geral) estão longe de condenar à morte alguém que opta por uma conduta sexual diversa da heterossexual. Então, pode-se também indagar: por que não há prêmios com nomes de pessoas que até hoje morrem por serem gays nesses países islâmicos e, no entanto, um dos principais prêmios votados a ativistas da causa gay leva o nome precisamente de uma injustiçada pela Igreja Católica há quatrocentos anos?

E, no entanto, os católicos de hoje presenciam calados, em sua maioria – e, em alguns casos até referendando com ênfase – um prêmio que abertamente hostiliza sua religião enquanto outras religiões, que pregam uma conduta muito mais punitiva, discriminativa e contundente contra a diversidade sexual, como a islâmica, não são sequer lembradas na hora de militâncias e premiações ou simbologias do gênero. E por quê?

Mas há também outro fator a passar quase desapercebido: Filipa de Sousa era católica batizada, praticante. Não abjurou do catolicismo. Logo, era parte da Igreja. Ou seja, nesse contexto, a Igreja pune-se a si própria. Auto-flagela-se. No sentido de, como quase sempre, o mais poderoso oprimir o de menos poder, em quase qualquer instituição humana: uma empresa transnacional, a hierarquia militar, uma orquestra, a Al Qaeda, um departamento universitário, etc.

Afinal, a acusadora de Filipa era uma de suas amantes, Paula de Sequeiro [ou de Siqueira, se queira]. E, logo ao menos tão lésbica quanto Filipa. Mas, ao contrário da desventurada Filipa, Paula era esposa de uma alta autoridade da hierarquia colonial e, pare se ver livre de seu “pecado”, pagou apenas uma multa no valor de quarenta cruzados.

Então, revisemos a situação: há uma lésbica que acusa e uma lésbica que é acusada. A acusada, a vítima do infame processo inquisitorial, é transformado em heroína em nossos tempos. Mas os nossos tempos também esquecem que a acusadora também era uma lésbica.

Este fato, a seu modo, nos alerta para algo capital: não pensar, como querem alguns, que alguém é moralmente melhor por estar sujeito a sanções sociais, econômicas, comportamentais, etc. impostas de uma ou de outra forma, por uma pessoa ou grupo de pessoas mais poderosos. Por ser vítima, enfim, de alguma injustiça. Afinal, quem não sofreu injustiças em maior ou menor grau durante a vida? E, de resto, quem acusou Filipa era também lésbica. E, pior, amante dela. De onde deduz-se que ser lésbica não agrega nenhuma elevação moral diante de não ser lésbica. É apenas uma opção entre as muitas que um ser humano tem diante de si em relação a seu comportamento sexual: bissexualidade, adultério, sexo grupal, castidade, promiscuidade, bestialismo, masturbação, sado-masoquismo, pedofilia, etc. Certamente, no caso de Filipa, uma opção que, naturalmente, até hoje envolve um ato de coragem. Certo grau de ousadia.

Mas também, aqui, se esquece de pensar: optar por qualquer orientação sexual hoje – ou em qualquer época – envolve dilemas e exige coragem. Inclusive - e não menos - optar pela heterossexualidade. Afinal, o rito de passagem da adolescência para a idade adulta, que envolve entre outras coisas essa definição de sexualidade, é uma época de grande turbulência, dinâmica, agitação e dilemas morais na vida de qualquer ser humano.

De momento, no entanto, voltemos ao caso da enfermeira inglesa. Esse caso é típico no sentido de apontar uma espécie de ressentimento contra a religiosidade – em especial cristã – presente nos diascorrentes. E ressentimento que tende a crescer. E que, em crescendo, como tudo indica, nas próximas décadas, pode perfeitamente chegar aos excessos inquisitoriais instaurados em Portugal e na Espanha no entrecho da Contra-Reforma. Só que, agora, em grampo contrário, a instituição laica cerceando a liberdade de consciência religiosa.

Pois, sem embargo, atentem: ser ameaçada de perder o emprego por oferecer-se a rezar por alguém é apenas um indício dessa espécie de “inquisição velada” instituída pelas minorias e pelo laicismo radical para semear melhor – não a harmonia e a tolerância – mas o relativismo, a intolerância, o denuncismo, a desconfiança. Uma tática de ação que, em grande parte dos casos, faz lembrar a infame lei de Gérson: “é preciso tirar vantagem de tudo, certo”?

Essa posição tática de levar vantagem em tudo – por supostamente haver sido vítima de injustiças passadas – tem sido usada e abusada como cavalo de batalha das minorias contra uma maioria que muitas vezes se entrevê perplexa, confusa no mar de relativismos instaurados pela astúcia desse argumento: "fui vítima, preciso ser recompensado - de preferência materialmente - pela sociedade". Ou quando muito reage a ele de modo emocional ou teleguiada pelo senso-comum dos meios de comunicação – que, desde que financiados pela espiral do consumo, querem instituir o laicismo a qualquer fórceps. E, assim, hoje tudo é fonte de homofobias, preconceitos, discriminações, incorreções políticas, segregações, etc. Um campo minado, em que é preciso cuidados pueris para não ferir suscetibilidades.

São, em muitos casos, argumentos que põem toda sua ênfase e esforço na empresa de culpabilizar pessoas que nada têm de culpadas. Ou seja, qual a culpa que um católico tem, hoje, dos maltratos, injustiças e humilhações praticadas contra Filipa de Souza? Não seria o equivalente a implicar que você, morador de uma grande metrópole brasileira, que nunca triscou num índio – ou mesmo chegou a ter contato com um deles – é responsável pela barbárie e pelo genocídio praticados por conquistadores espanhóis ou bandeirantes no interlúdio da colonização? Isso há trezentos, quatrocentos anos atrás?

Agora, se você se sente assim, culpado, pode tentar devolver o Brasil aos indígenas. E reemigrar de volta à Europa. O problema, aqui, é que, provavelmente, você não será muito bem aceito ou bem visto por lá, ainda que seja ambientalista, negro, homossexual, ateu, anti-Davos ou adepto do politicamente correto. E, então, imaginemos que num paroxismo de um 'mea-culpa' coletivo desses, todos os brasileiros ou latino-americanos, a seu exemplo, tomassem a decisão de reemigrar para a Europa em benefício dos índios injustiçados. O mais provável de acontecer é que a Europa voltasse emergencialmente a reativar, em velocidade recorde, e com muito mais sofisticação e indústria, a prática dos campos de concentração. Haveria, talvez, uma hecatombe de proporções nucleares. Navios seriam afundados no meio do Atlântico. Aviões derrubados por caças da Otan em pleno vôo, etc. e etc.

Certamente numa escala ainda mais devastadoramente lúgubre e ampla que nos sinistros tempos do nazismo e do fascismo, novas modalidades de extermínio humano seriam inventadas com precisão digital. Seria de arrepiar tão-só imaginar o grau de destruição humana nesses novos campos de extermínio europeus.

Questões como o relativismo precisam ser urgentemente repensadas. Não para sufocar o direito de expressão e de opção das minorias. Seus direitos, seus deveres. Sua liberdade de expressão e de escolhas. Mas justo para evitar que as minorias instaurem uma espécie de Inquisição tão ou mais cerceadora das consciências que a que se instaurou na Península Ibérica e em suas colônias americanas quatro séculos atrás.


[06.02.09]
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4 comentários:

  1. Já está rudo praticamente dito. Só comento o seguinte: parece que a perplexidade amorfa e morna em que se encontra a grande maioria das pessoas não permite que elas alcancem essa linha tão simples de raciocínio. Não sei até que ponto isso é culpa desse "chip" de consciência pesada que os ativistas organizados dos grupos de "minorias oprimidas" instalaram - e reinstalam todos os dias - via mídia e educação formal na cabeça dos homens atuais.
    Querer demitir alguém porque quis rezar por outra é algo como proibir uma das coisas mais caras ao ser humano: querer o bem do seu semelhante.

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  2. Manduquinha do Consórcio7/2/09 2:41 PM

    O que me dá arrepios é imaginar a enormidade de tempo ocioso desperdiçado em uma operação estúpida como essa (e no entanto, talvez não fosse uma má idéia suspender enfermeiras que se oferecessem para tocar violão para os pacientes).

    Quanto a Filipa, a pergunta que não quer calar:

    - onde estava Biombo em 1591?

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  3. Ruy,

    Hoje quando se fala em militância em torno de direitos de minoria, penso imediatamente nas práticas de engenharia social manejadas pelos líderes do movimento: indução de comportamento segundo “critérios de discriminação positiva”, etc. O que não deixa de ser um tribunal velado muito perigo contra o qual é preciso se levantar, e lançar um alerta, ou vai faltar oxigênio em breve.

    Abs,

    Daniel

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  4. hahahahahahaha!
    ora, biombo em 1591 estava era no mei', atrapalhando o progresso das coisas, como de uso.

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